Acho um pouco perturbador ver tanta gente - inclusive pessoas LGBT - a reagir imediatamente com “nojento”, como se o cruising tivesse surgido porque os gays decidiram, coletivamente, que não gostavam de quartos.
Talvez valha a pena conhecer um bocadinho da nossa própria história.
Durante décadas, e em muitos sítios durante séculos, homens homossexuais não podiam viver a sua sexualidade da mesma forma que os heterossexuais. Não podiam conhecer alguém abertamente, levar um namorado a casa, frequentar espaços próprios sem medo, assumir uma relação perante a família ou simplesmente demonstrar interesse por outro homem sem correr riscos.
E quando uma sociedade empurra uma sexualidade para a clandestinidade, essa sexualidade encontra espaços clandestinos onde existir. Parques, praias, casas de banho, saunas e outros locais tornaram-se pontos de encontro precisamente porque, para muitos homens, eram dos poucos sítios onde podiam encontrar outros homens.
E não pensemos que isso pertence apenas ao passado. Ainda hoje há homens que não se podem assumir perante a família, no trabalho ou na comunidade onde vivem. Para alguns, estes espaços continuam a ser uma das poucas formas através das quais conseguem viver alguma dimensão da sua sexualidade.
Óbvio que isto não significa que tudo o que aconteça num espaço público seja automaticamente aceitável - obviamente que existem questões de consentimento e de respeito por terceiros. Mas há uma enorme diferença entre discutir essas questões e chamar simplesmente “nojenta” a uma prática sem sequer tentar perceber de onde ela vem.
Tenho de citar aqui a RAINHA Rita von Hunty, que nos informa que a forma como vivemos a sexualidade também é histórica. Aquilo que hoje olhamos de fora e julgamos como uma escolha individual muitas vezes nasceu precisamente da repressão e da impossibilidade de existir às claras.
Talvez, antes de condenarmos tão depressa, devêssemos perguntar: porque é que estes espaços tiveram de existir em primeiro lugar?