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67: Buéréré


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No ano passado falei sobre o programa equivalente a este na TVI, o Batatoon. O Batatoon surge antes do Buéréré deixar de ser o programa que era - foi cancelado na sua fórmula clássica quando ainda estava no seu auge - no fim de 1998. Mas para entender perfeitamente o Buéréré em si, vamos recuar até ao longínquo ano de 1993.

Na altura em que o Buéréré surgiu, a SIC tinha programação infantil, porém reduzida: era normalmente aos fins-de-semana, a abrir a grelha do canal. E o canal passava séries como O Livro da Selva em anime, co-produção com o fundador da Mondo TV que mais tarde veio a produzir aberrações que eram plágios da Disney (e tantas outras que não eram. Basta ver o caso de séries como Slash que deu na RTP 2 e teve bastante repercussão ou as séries baseadas em marcas da Giochi Preziosi, e quem não se lembra de deparar com vídeos de crítica negativa ao filme Tentacolino?) ou The Adventures of T-Rex. Até que a SIC teve uma ideia inesperada e trouxe uma invenção que veio mudar os programas infantis portugueses.

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O Buéréré foi uma invenção de Ediberto Lima, numa altura em que a SIC tinha capital da Globo. Uma das "ideias" de Ediberto Lima era a de trazer formatos de sucesso no Brasil para eventualmente serem "traduzidos" para a realidade portuguesa. O Muita Lôco era baseado num formato brasileiro de Serginho Groisman (algo me diz que era o Programa Livre do SBT - e não foi a única ligação que a SIC teve com o SBT em época de capital da Globo, pois já passou o Jô Soares Dez e Meia), o Big Show SIC era baseado num formato que os brasileiros chamam de "programa de auditório", um programa tido como "brega e povão" (o Big Show SIC terá a sua edição, talvez para o ano, aguardem) e, claro, o formato de programa infantil, que viria a ter mais significado quando a fase mais recordada do Buéréré chegou.

Uma coisa é certa: o Buéréré mudou completamente o género infantil na televisão portuguesa, da mesma maneira que, através de pragas, o Zig Zag fez basicamente o contrário ao ser um substituto aos guardiões da moral que são os pais que os impedem de ver certos e determinados desenhos animados e ajudou outros canais a dar o exemplo, como o Canal Panda que passou a ser um canal pré-escolar e educativo ou o Cartoon Network através das suas políticas de censura. Pois o Buéréré foi um antes e um depois: até então, todos os programas infantis que a RTP produzia, até os primeiros da TVI, recaíam sobre um formato já mais que antigo e monótono, o das crianças sentadas num formato algo pesado para as novas exigências da criançada. Porém inicialmente o Buéréré era um programa austero, mas fora da monotonia da RTP e até da TVI.

O primeiro genérico usado pelo Buéréré tinha mesmo a cara de ter sido saído da Globo, apesar de, nesta altura, estar a emitir a "série" de cães TV Colosso como o seu contentor infantil (e como já disse, mais tarde o Bambuluá teve a mesma estética). É fácil imaginar isto com qualidade PAL-N e nenhum DOG no ecrã como se fosse um programa da própria Globo, uma vez que até Hans Donner teve a sua contribuição para fazer alguns símbolos e reciclar conceitos (Jogo da Verdade = Olho no Olho).

A apresentadora das primeiras fases do Buéréré era a Ana Marques. Aos 3:45, alguns excertos do programa com ela:

Aqui o segundo genérico (incompleto) mais alguns excertos de um jogo, calculo que num estúdio improvisado, com o apoio da Toys "R" Us com a sua mascote girafa:

Regra geral dos programas infantis dos anos 90: quando não havia nada dos desdobramentos dos canais por faixa etária (o Canal Panda e o Biggs, o Disney Junior e o Disney Channel, o Nick Jr. e o Nickelodeon, e, pasmem-se, o Boomerang e o Cartoon Network) era normal ver jardins de infância a irem participar nos jogos que haviam entre as séries. Eis outro excerto, em parceria com a Lego:

Em 1994 o Buéréré passou a ser emitido de segunda a sexta, inicialmente por uma hora, a começar às 16. A SIC cresceu a sua emissão diária à medida que os anos avançavam. Ainda na fase anterior ao Dragon Ball, a SIC de segunda a sexta abria por volta do meio-dia. A aposta no Buéréré durante a semana foi claramente uma aposta ganha para fazer frente ao cada vez mais enfraquecido Brinca Brincando do Canal 1 (mais tarde Um-Dó-Li-Tá e foi espalhado pelos dois canais) ou qualquer coisa que a TVI tinha na manga.

Paralelamente à criação do Buéréré diário somou-se a criação de um segundo bloco infantil, o Nickelodeon, com base num contrato que o canal tinha, que consistia na emissão de séries do canal mais um concurso português, o Tudo ou Nada, adaptação do Double Dare. Ainda com base na relação, havia também a participação portuguesa no Global GUTS e a emissão de Ren e Stimpy noutros horários como depois do Jornal da Noite.

Porém, em 1995, tudo mudou. Motivado pelo efeito Dragon Ball que começava a polarizar a programação infantil, o Buéréré passou a ter nova apresentadora. Inicialmente temporária, tal como o Batatoon que, quando estreou em Dezembro de 1998, era uma expansão inicialmente natalícia daquilo que o Batatinha fazia sozinho nos meses anteriores, a nova apresentadora iria mudar o rumo do programa para sempre. Mas antes, uma noção sobre a tal polarização da programação infantil:

RTP: coisas inofensivas, geralmente de baixo custo, com acesso a catálogos de séries que contenham um alto teor educativo e pouca acção (a série Yamazaki foi alvo de polémicas na AR em 2002)
SIC: coisas cheias de acção e atitude à anos 90
TVI: menos acção e mais comédia, com aposta em séries da Hanna-Barbera

A nova apresentadora era a Ana Malhoa, na altura uma cara jovem. O Buéréré passou por uma mudança na estrutura: o Buéréré normal passou a ser o diário enquanto que aos fins-de-semana era o Super Buéréré. Direi apenas que era um Buéréré mais "turbinado". E é nesta fase que entramos na sua fase de ouro.

A época de ouro do Buéréré começou em 1995 e durou até à reconfiguração no fim de 1998. Numa altura em que Ediberto Lima conseguiu revitalizar a SIC, aproveitou o seu know-how de formatos brasileiros e importou o Xou da Xuxa para traduzir à jovem Ana Malhoa, que passou a ser a Xuxa dos portugueses.

A reciclagem entre SIC e Globo era tal que até aproveitaram o plim-plim da Globo para diversas coisas assinadas por Ediberto Lima: o genérico deste programa, do Big Show SIC, e, em 2003, no separador da sua produtora, a Ediberto Lima Produções.

O Super Buéréré (o Buéréré turbinado) era o Show da Malhoa, e servia de antecâmara ao Batatoon da concorrência. A sua imitação bastante fiel à estética de programas infantis do Brasil da altura continha um estúdio que era também usado para actuações musicais, da própria Ana Malhoa ou de outros artistas, que tocavam músicas infantis e outras não tão infantis. Por exemplo, chegaram a actuar artistas de metal no Batatoon e no Infantaria (TVI e RTP 1 respectivamente) na viragem do milénio.

"Aha! Se passavam musicas destas em programas destes então está explicado o porque do gosto de grande parte da minha geração em musica pesada (quer ouçam regularmente ou não ha sempre aquela banda mais metal ou mais hardcore que o pessoal surpreendentemente ate gosta). Era isso e passarem desenhos animados de jeito outra vez, os desenhos animados pseudo-pacifistas que passam agora metem me nojo (digo isto pq tenho uma irma de 10 anos)"

Ao lado de Ana Malhoa estavam:

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o Boiréré e a Vacareré (ou Boi Ré-Ré, e Vaca Ré-Ré mas o que importa é que o "Ré-Ré" dos nomes deles lia-se tal qual o "réré" do nome do programa);

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o Croko;

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o Sapo Filipe;

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a Melzinho;

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e as coreógrafas Anetes e Mini-Anetes, em honra à deusa suprema Ana Malhoa.

De segunda a sexta, o Buéréré diário, que mantinha o nome Buéréré, era apresentado pela Ana Malhoa e pelo Boi Ré-Ré e Vaca Ré-Ré. Eis um excerto onde é anunciado um passatempo onde ofereciam uma toalha alusiva ao Livro da Selva da Disney (estávamos nos anos depois do Renascimento da Disney e eles estavam em alta!):

O programa gerou todo um filão de merchandising. O Buéréré e o Big Show SIC entenderam-se bem a um ponto em que chegavam a promover o Big Show SIC no Buéréré, tal como foi visto mais acima. Mas também houve uma epidemia de crossovers (mais baratos) entre os dois programas em CDs do Buéréré.

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Ana Malhoa e o macaco Hadrianno (ainda há milhões de pessoas que escrevem Adriano) num CD com os êxitos infantis da Ana Malhoa.

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A cassete A Turma Big Buéréré, com direito ao Big do Big Show SIC, um lançamento conjunto Espacial e Som Livre (a Som Livre em Portugal agora chama-se iPlay, e o nome foi adoptado uns anos depois do capital da Globo ter saído da SIC).

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E ainda um álbum alusivo ao rock;

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e o álbum Grande Pagode, aqui com o Hadrianno (que esteve nos dois programas) a acenar ao comprador do CD.

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Teve até direito a puzzle com os animais com a qual Ana Malhora apresentava, em estilo de desenho animado (era o que faltava, um desenho animado com o Boi Ré-Ré, a Vaca Ré-Ré, o Croko e a o Filipe, mas em Portugal raramente tivemos dinheiro para desenhos animados, e a RTP estava sempre a esbanjar o dinheiro todo).

O programa também continha algumas rubricas que hoje em dia estariam reduzidas no Zig Zag da RTP, que já parece artificial. Tinha os Truques de Magia com Damião e Helena (que em 1998 passou a ser disponível em brinquedo para a pequenada emular), o "Eureka, agora eu sei" e conselhos de segurança. Também havia o Correio, onde enviavam desenhos para o Buéréré.

Havia também este 0641 do Saúl em 1997. Candidato a meme do ano:

Nesta fase de ouro, Ana Malhoa diz que, numa das emissões do Buéréré onde apresentou, chegou a fazer uma audiência de 92%, algo considerado impensável, até num programa infantil, numa altura em que a televisão dos mais novos não era artificial. Estava na sua fase de ouro, quando acordou de uma fase em que a indústria estava monótona. Até que, em pleno apogeu, o programa foi cancelado, devido a um alegado desentendimento entre Ana Malhoa e Ediberto Lima, pelo menos foi o que contaram no Maluco Beleza. A última emissão do Buéréré do formato antigo foi a 28 de Dezembro de 1998. Também, por esta altura, o Buéréré voltou às tardes mas das férias de Natal e sem apresentadores tal como a grelha em baixo o indica:

No entanto, o Buéréré continuaria a ser emitido na grelha até 2002. Agora o Buéréré tinha sido despromovido a um mero contentor e tinham de passar agora o "bichinho" ao todo-poderoso Batatoon da TVI, que também passou por uma crise no seu auge (caso das agressões da qual a TVI quer esconder a sete chaves). O que fazer? Dar uma de "vamos fingir que isto existe", do Buéréré só aproveitar o genérico, meter copyright no fim e pronto, contentor feito!

Mas quando o Iô-Iô surgiu em Outubro de 2002, os directores da SIC tiveram a brilhante ideia de atirar o Buéréré para Bué-Bué Longe.

 

 

 

 

Perdão.

Para BUÉRÉRÉ longe daqui!

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Fun fact: Descobri há dias pelo canal de YouTube Portuguese Retro TV que um ano depois da Ana Malhoa ter saído do Buereré, e este se ter tornado num mero bloco de animações, em 1999, a Ediberto Lima Produções, Lda. fez locuções e dobragens para canais de cabo, como People+Arts e Canal História. Isto pode ser comprovado, quando no fim ouvimos o locutor a dizer: "Versão portuguesa: Ediberto Lima Produções" num tom sério (o que faz com que seja estranho, porque associamos imediatamente ao Buereré, Big Show SIC e Muita Lôco).

Por volta desses anos, a Dialectus também teve a sua marca-d'água no final de documentários, com: "Tradução e locução: Ideias & Letras", que ainda sobrevive nos dias de hoje, quando passa nesses canais.

Edited by OTalAntiquado
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