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4: Vivir/Viver (e o Íntimo)


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O dia todo, todos os dias a dizer "oh si cariño"

Nos anos 90, a televisão por cabo era uma novidade. A elite queria ter a sua fatia do bolo da indústria, algo que começou a ser revelado quando o Hollywood passou a ter legendas em português e o Discovery narração portuguesa (inicialmente brasileira - esta foi a inspiração dos sketches da Herman Geographic). No entanto, um dos canais que contemplava o pacote da TV Cabo, o 18 (pelo menos em Lisboa) começou como um mero canal por cabo espanhol completamente diferente ao canal que iria substituir.

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O Canal Fiesta (inicialmente no canal 28 da TV Cabo) foi criado por uma subsidiária da Antena 3, a Cable Antena, que era dedicada à criação de canais de televisão por cabo originais e trouxe o Discovery Channel a Espanha. A sua programação continha basicamente o que estava ali descrito na imagem mas também chegou a emitir alguns animes da velha guarda em espanhol (La sirenita Mako, por exemplo). Poucos registos existem deste canal na internet, nem uma mísera gravação nem uma mísera grelha. No entanto, a Guia TV Cabo orgulhava-se em não publicar a grelha deste canal - ninguém sabia o porquê - sobretudo se o canal tinha as tais "noites" picantes. As sessões de trungalhunga, das quais iriam ser herdadas pelo Vivir/Viver num canal à parte, eram inicialmente emitidas nas noites de sexta e sábado (na prática já sábado e domingo). Em 1997, o canal fechou e na TV Cabo foi substituído temporariamente por outro canal do mesmo grupo, o Cine de Siempre, dedicado aos filmes espanhóis da velha guarda. Depois foi "vendido" e mudou de nome para Estilo (não sei se tinha alguma coisa a ver com o canal que havia na Via Digital que era o Estilo e chegou a passar programas da primeira geração do E!, pré-Kardashians) até depois mudar o seu nome para "Estilo - Vivir Viver".

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O Vivir Viver (já sem o prefixo "Estilo") foi fundado e presidido durante toda (ou boa parte?) a sua vida por Manuel Campo Vidal, homem que já passou por carreiras tão diversas como sub-director (e posterior apresentador) do Telejornal de Espanha, o Telediario da TVE, a imprensa em geral, tendo começado em Barcelona em 1972, uma carreira radiofónica como apresentador de um programa de informação na Cadena SER e também figura importante nalguns debates eleitorais recentes em Espanha. O canal, por enquanto, ainda herdava o canal XXX que dava depois da meia-noite, conhecido como ClimaX. O supracitado canal (leia-se "climax" e não "clima X") emitia, segundo a Herman Enciclopédia (Heróis), de quarta a sábado (na prática de quinta a domingo) a partir da meia-noite. Domingo é que não porque era dia santo (OK, já era segunda-feira) e segunda e terça (já terça e quarta) eram dias de descanso. Já depois do Vivir Viver ter sido criado, a emissão do Climax nas noites de quarta para quinta foram suprimidas e eventualmente o horário nocturno nestas noites foi cedido ao canal Íntimo.

O Vivir Viver era para ter começado as suas emissões em Fevereiro mas, infelizmente, houve uma série de atrasos e de uma forma bastante amadora, na TV Cabo, ainda estava a ser emitido o irritante spot do canal que prometia o começo das emissões para Fevereiro. Finalmente, a 1 de Abril (dia das mentiras :P) o Vivir Viver apareceu. A sua divisa era "o canal da qualidade de vida" ainda por cima se o canal não tinha qualidade nenhuma. A sua sede central ficava em Madrid e tinha escritórios em Lisboa e Barcelona. Nesta primeira fase, o canal da qualidade de vida que tinha fraca qualidade de conteúdo emitia programas sobre medicina, crianças que queriam aprender a jogar futebol, bebés e mães, moda, decoração, coisas bonitas para donas de casa, coisas familiares. Na prática um canal inofensivo. O canal chegou a contratar algumas figuras portuguesas como a Ana Brito e Cunha e a Bibá Pitta. Deixo-vos com um dos poucos excertos que sobrevivem deste pseudo-magnífico canal (se bem que "magnífico" não seja um elogio) em que a Ana Brito e Cunha apresentava, a falar espanhol, um programa sobre animais.

O canal era chatíssimo, mas compensava para muitos por causa das noites de quinta, sexta e sábado (sobretudo estas últimas duas, já que de quinta para sexta era mais tramado) e as audiências subiram porque a curiosidade dos espectadores perante o conteúdo deste alter-ego nocturno era muita, já que o canal emitia conteúdos pornográficos. Ainda por cima o canal emitia a partir de Espanha, o que enfurecia as leis portuguesas. Se isto acontecesse hoje em dia, a ERC iria levar com uma multa, das grossas. Ainda assim, boa parte das pessoas desta altura (fim dos anos 90 e início dos 2000) ainda se lembram do dito canal como se fosse ontem. Eu não, pois já estava a dormir. Não sabia da existência do tal Íntimo até 2004 e nem sequer sabia qual a temática, mas sabia o que era o Vivir Viver.

Pelo que sei, o canal emitia alguns filmes pornográficos de 326ª geração, pois de acordo com Nuno Markl tinha algo a ver com o facto do canal ser gratuito, e num dos filmes que apanhou, havia moscas. Outro passava-se numa central nuclear (melhor!: num armazém decorado com papéis amarelos com o símbolo da radioactividade). Teria sido este filme o tal descrito por este blogger (não tem imagens obscenas, neste caso)?

O canal era vulgarmente conhecido pelos lisboetas como Canal 18, em alusão ao seu lugar na TV Cabo. Para as gentes cá do norte (headend Porto-Braga) era o 26 e no Algarve era o 19 ou o 25. Outra coisa que o canal popularizou: algumas expressões espanholas: desde o famosíssimo "Oh sí, cariño" até ao "Si a ti te gusta, a mi me encanta" (que chegou a ser proferido a meias entre o Canuco Zumby e a Fanny naquela canção que foi um grande êxito em 2012, o Vida Loca). E quem não se lembra do "prepara el bacalao que las natas vienen a camino", na prática uma expressão com um duplo sentido. No entanto, o canal foi vítima de críticas por um tal "O Meu Pipi", cujo anonimato foi descoberto como sendo o próprio Ricardo Araújo Pereira (!). A correspondência falava mal da sua programação chatíssima diurna, onde iam falar de raças de cães ou de como ensinar a tirar nódoas de vinho de camisas brancas. O problema d'O Meu Pipi residia nomeadamente na questão das dobragens e do facto dos gemidos e das onomatopeias espanholas não coincidirem com as originais. Este canal tinha também a característica de não dar filmes nem na Páscoa nem no Natal, não sei porquê, e corriam relatos de que quando muita gente falava no Canal 18 (Íntimo) a um ponto que se tornava incómodo para as pessoas que trabalhavam no Vivir Viver. O Markl chegou a falar com uma pessoa que trabalhava com aquele canal e dizia que sempre que havia alguém a perguntar que trabalhava lá, havia sempre um risinho maroto.

Por volta de 2003, o Canal Viver foi reformulado e perdeu a sua componente espanhola. Em Dezembro de 2002, o canal foi comprado pelo polémico arquitecto Tomás Taveira que, nos anos 80, aparecia em poses pornográficas publicados no extinto semanário Semanário que oferecia cassetes com o vídeo gravado numa câmara de 40ª geração, numa altura em que o escândalo estava limitado à imprensa escrita. Foi neste ano que o canal adicionou mais programas com ADN português: + de 50, um programa que, como o nome indica, era para idosos, Viver Natural, versado sobre a saúde dita "natural", hoje em dia ainda fazem isto nalguns programas da manhã, Festa Brava, dedicado à tauromaquia e Combatentes do Ultramar, série documental onde participantes falavam sobre as suas experiências na guerra do Ultramar. Este último teve sucesso marginal, já que foi adaptado a livro. Nem tudo que é bom dura sempre, o Íntimo passou a ser codificado neste ano. Porém, o canal tinha "loopholes" na forma dos programas "Consultório Sentimental" e "Strip" (nas horas do Viver) que costumavam começar por volta das 23 horas. Por volta de Setembro de 2003, entrou em vigor uma nova Lei da Televisão que proibia as suas emissões pornográficas em aberto apesar de serem só emitidas dentro do horário em lei, ou seja, a partir da meia-noite, numa medida que foi vista por Miguel Gaspar como uma para "proteger os mais novos" de tal conteúdo. O Íntimo passou a ser pago e as audiências continuaram em queda livre.

Nesta última fase do canal, passou a ter um novo slogan (O dia todo, todos os dias). Isto era publicidade enganosa uma vez que o canal passava televendas durante a madrugada e boa parte da manhã, mas todos os dias? Emitia, sim. Lembro-me vagamente do grafismo das promos, da qual não existem registos na net mas recriei de memória (pus como exemplo ilustrativo um filme do Gana) de uma forma "infiel":

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Qual era a sua programação? Será que passavam filmes do Rockson Emmanuel? Não, não passavam filmes ganeses, a grelha por estas alturas era bem mais variada do que noutras fases do canal. Juntaram-se programas como Quem é Quem, um talk-show assinado por Renato Roydner, artista plástico luso-brasileiro, a Agenda Viver, que continha algumas informações sobre o que fazer nos tempos livres, o Show de Bola, programa sobre a Segunda Liga (isto era pré-A Bola TV, meus amigos!), o Vida.com que falava sobre a influência da internet, o Guest Star, onde davam entrevistas com pessoas que falavam sobre o seu percurso ao sucesso, o +Noite, antepassado do Guestlist da TVI (e "sucessor" do Vibrações da SIC) com pouquíssimo orçamento, etc. Havia também o FMTV em que Marcelo Reis visitava estúdios de rádios locais e passava também alguma música. Por mais estranho que pareça, este vídeo de Natal de 2005 em que a equipa do canal cantava o Aleluia (não é o do Cohen ou aquela canção israelita que criou uma cover lusa pelo António Sala, é uma canção brasileira de 1981, obscura entre nós) em chroma face a um template de sinos pré-fabricado seja um dos poucos resquícios do canal. Trabalho feito num daqueles programas de edição de vídeos (o Adobe Premiere? Se bem que em 2005 ainda não se chamava Adobe Premiere, ora) em pelo menos dez minutos.

Para não falar das interrupções da Dona Almira em cada programa...

O canal também chegou a incluir o África Astrologia apresentado pelo Professor Bambo e também foi o único canal português a fazer um contrato com um stand de automóveis, o Stand Jireh do Porto (ouvi dizer que o dono frequentava a IURD local).

Em 2006, o canal esteve mais próximo do fim. Tentou comprar um par de documentários oriundos de canais argentinos: um sobre o desaparecimento de Carlos Gardel produzido pelo Infinito e outro sobre uma facção da política francesa produzido pelo América (onde deu boa parte do Rebelde Way original). Com um canal em queda livre, a TV Cabo optou por, a finais de Junho, retirar o canal da sua grelha. O substituto foi o já supracitado Infinito que esteve na grelha até ser retirado a 1 de Abril de 2009. Porém, o canal continuou na Cabovisão até 2007 pelo menos, como se pode comprovar neste excerto em que o Paulo Paradela canta uma das suas canções num programa do canal:

E pronto, chegamos ao fim deste capítulo da tua história de subestação, capítulo que é uma resenha bastante completa sobre um canal que tem pouco material na internet. Sei que devem faltar alguns detalhes, porque na altura luso-espanhola eles tinham um programa que era o Supercompra e na minha infância havia uma cadeia de supermercados com este nome :P mas pronto, e agora lanço esta pergunta: quais são as vossas memórias deste maravilhoso canal de baixo orçamento?

Edited by ATVTQsV
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  • 1 year later...

Incrível como eu fiz uma viagem no tempo e no espaço pelas minha memórias desses anos ao ler este texto.. do que eu me lembro só faltou falar das meninas do fitness que faziam ginástica todas as manhãs, num programa que eu não me lembro o nome rs também me lembro de nos intervalos do Íntimo, dar a publicidade ao sexyhot sempre com aquele que era o numero da TV Cabo, 800 200 400..  do que a gente se lembra...

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