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Saga - Uma História Por Contar...


magg
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Olá. Queria partilhar convosco esta minha história que já tem uns aninhos... desde de 2005 que ando a tentar desenvolvê-la...foi escrita inicialmente para um blog, mas depois acabou em "águas de bacalhau"...

Sou nova neste forum, por isso não sei muito bem as expectativas, mas espero que pelo menos agrade...

Aqui vai um bocadinho para despertar curiosidade (espero eu).

P.S. sugestões para logos e afins são bem vindas

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Uma história por contar

Nada é eterno. Tudo o que tem um início tem, inevitavelmente, um fim. Tudo o que é origem torna-se destino...Esta é uma história de vida. Uma história sobre pessoas que muito mudaram o corrompido mundo em que vivemos. Uma história de sentimentos. Uma história de lugares e de indivíduos que ousaram acreditar que os Homens são mais que simples Homens. Porque mais forte que a vitória, só a glória que ela encerra.

Senta-te. A história é longa. Tens muito que ouvir. Não será uma perda de tempo. Antes, depois de entenderes esta lição, poderás saber como ,melhor perceber o tempo... - Assim falou ternamente a voz, fez uma pausa e começou a mais maravilhosa jornada que jamais existiu.

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Novembro. Tarde chuvosa. Mangualde, capital de Sauzesco parecia uma cidade fantasma. Podia dizer-se que o calor tropical há muito abandonara aquele canto do mundo. Parecia que tudo se havia tomado por um vazio gélido, glacial. O Barão Alexandre de Albuquerque saía de mais uma conversa com os seus ilustres amigos. Abriu a porta de casa, ficou imóvel, sobre a pequena mesa de entrada, um recado:«chegou o dia, estou cá em casa. Quarto das empregadas…»

Saga. Hoje 1º capítulo. Aguardem...

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Capitulo I

Senta-te. A história é longa. Tens muito que ouvir. Não será uma perda de tempo. Antes, depois de entenderes esta lição, poderás saber como perceber melhor o tempo... – assim falou ternamente a voz; fez uma pausa e começou a mais maravilhosa jornada que jamais existiu.

Numa noite de tempestade…

Terra, ano 2012

Novembro. Tarde chuvosa. Uma tempestade tropical assombra a pequena cidade de Mangualde, capital de Sauzesco.

Quando chovia, os familiares da cidadezinha fechavam-se em casa. Os homens corriam para o clube e permaneciam lá durante horas. Durante esse tempo, Mangualde era uma cidade fantasma.

O clube oferecia a paz de um recanto estilo francês, acolhedor. As suas paredes de madeira de carvalho e os sofás já gastos eram os grandes testemunhos do reboliço que por lá se passava. Sentados perto do reconfortante calor da lareira, com o charuto e o copo de brandy na mão, os homens da cidade falavam de tudo.

Podia dizer-se que o calor tropical há muito abandonara aquele canto do mundo. Parecia que tudo se havia tomado por um vazio gélido, glacial.

Durante as longas partidas de bilhar lavavam-se as almas e jogavam-se opiniões como se aquele local fosse um confessionário de emoções.

O Barão Alexandre de Albuquerque, também conde de Mangualde, saía de mais uma conversa com os seus ilustres amigos. As horas tinham passado como flechas apressadas e precisava voltar para casa. Agitado, percorreu as ruas desertas, olhando para as luzes acesas dentro das casas. Havia dois meses que tinha sido decretado o recolher obrigatório. Por todo o mundo nada mais respirava após o sol se pôr na abóbada celeste. Sauzeszo não era excepção. Às primeiras listras róseas de pôr-do-sol a cidadezinha fechava-se instalada no resto de conforto que reinava em cada casa. E ao cair da noite as nuvens arrastavam do céu toda a sua luz e a lua brilhava alta como se fosse o prolongamento do bater dos seus ínfimos corações apertados. Girando a sua bengala companheira para a frente e para trás, com o seu chapéu de coco na cabeça, olhou para o farol iluminado e viu os barcos que ondulavam no mar. Por sorte, a tempestade estava para acabar, pensou.

Abriu a porta de casa, sentiu o calor, o crepitar da lareira. Pousou o chapéu no bengaleiro. Em seguida olhou para a pequena mesa de entrada e viu, sobre o lindo nepron dourado, um recado: «chegou o dia. Estou cá em casa. Quarto das empregadas…»

Alexandre, por momentos, ficou imóvel. Assaltara-o o espanto. «Chegou o dia…». A frase ressoava na cabeça. Sabia que este «hoje» chegaria. Mas não esperava que fosse tão cedo. Depois de mais de um minuto parado, o Barão reagiu freneticamente ao bilhete. Rasgou-o em mil pedaços, atirando-os em seguida para o chão. Pegou na sineta que vibrou violentamente, usava-a para chamar os empregados que o serviam obedientemente em cada regresso a casa. Esperou poucos segundos. Voltou a tocá-la. Ninguém vinha, e nenhuns passos se apercebiam nos corredores da casa escura. Ansioso, Alexandre lançou-se em corrida escadas acima. As escadas que davam ao seu quarto onde, como dono e senhor da casa, dormia acompanhado de sua esposa. No entanto, ao chegar ao último lanço de escadas, estacou. Reflectiu então sobre o porquê de ter ido na direcção contrária ao acontecimento que o pusera naquele estado de nervos. A resposta surgiu-lhe numa visão: a da mulher. Como estaria ela naquele momento? Nos últimos dias não saia do quarto. Pouco comia. O seu estado de fraqueza de manhã em manhã alterava-se para pior. E Alexandre sentia-se culpado pelo estado de saúde da sua cara-metade. Não queria, devido a um desejo quase como um mandamento da honra de distinto cavalheiro que era, perder alguém que tanto amava. Acercou-se do quarto. Abriu, devagar, a pesada porta barroca. A janela estava aberta, apesar do frio que vinha do exterior. Embora ténue, uma certa luminosidade cinzenta invadia o quarto. Olhou para a cama e não viu aí a esposa, algo raro nos últimos tempos. Assustou-se. Mas rapidamente pôde respirar de alívio. Do outro lado do quarto, no canapé vermelho distinguiu a silhueta de Maria Lúcia. Dela se acercou devagar. Estava lívida, os olhos vermelhos perdidos na escuridão do quarto.

Não sabia o que dizer. Queria-lhe perguntar como se sentia, mas algo na garganta lhe travava o som. Estranhamente, estava calma. Iniciou ela o diálogo. Uma estranha conversa entre marido e mulher:

- Chegou o dia…

– Leste o bilhete? Não me digas que sabes o que está a acontecer?

– Mais do que julgas. Não li bilhete nenhum. Mas sei que o teu filho está a nascer. Tudo providenciei para que nasça como um príncipe. Dei ordens a todos os criados para ajudarem no parto.

- Filho meu… que teu também será.

- Não! – Neste momento as lágrimas voltaram a correr na face de Maria Lúcia. - Não saiu de mim – disse a soluçar. - Aceito-o pois o meu amor por ti é mais forte que a vontade de revolta. Amo-te e por ti até os momentos em que te encontravas com "ela" aguentei.

- Quando tive aquela ideia, pensei que a tinhas aceite sem reservas. – Indagou Alexandre, cabisbaixo, soturno.

- Apenas pelo meu amor puro. Talvez seja castigo de Deus. Talvez o melhor fora esta ideia não se ter concretizado. Não sei se posso aceitar um filho dessa mulher como meu. Não sei se estou pronta para fingir-me mãe de um filho que não saiu de mim.

- Mais discussão não vale a pena – disse o Barão resignado. Sei que sofreste por me amares. Por isso, quero que também tenhas a certeza do seguinte: amanhã Clarisse desaparecerá desta terra. A criança receberá o nosso nome, Almeida de Albuquerque. E quero que sejas sua mãe. E que para todo o sempre assim hajas.

- Terei que mentir até à sepultura? Não sei se poderei aguentar.

- Fá-lo por mim!

– A dedicação e respeito que me mereces então a isso me mandam. Vai! Vai ver o teu filho.

A seguir a estas palavras, Maria Lúcia desatou num pranto infantil. Alexandre queria ficar com ela. Porém, o desejo de saber novas do parto ardia-lhe no peito. Abraçou então a esposa. Beijou-a na testa. Saiu. Velozmente percorreu as escadas em direcção à cave. Ao fundo do último lanço de escadas encontrou Joaquim. O criado predilecto:

- Tens notícias Joaquim? Clarisse já deu à luz?

- Ainda não meu amo. O parto está difícil...

Ao ouvir estas palavras o Barão tremeu. Teve mesmo que se encostar a um velho bengaleiro sem verniz, que servia para pendurar o casaco dos criados. Joaquim apercebeu-se e suavemente pousou-lhe a mão no ombro. Alexandre, passados breves momentos, retomou a pose altiva que tanto o caracterizava. Com voz suave mas autoritária falou ao criado:

- Joaquim confio em ti muita coisa. Embora sejamos de classes sociais diferentes, embora eu seja patrão e tu criado, o que agora te vou dizer e pedir será algo que esquece as nossas raízes. Que as ultrapassa. Estás ao corrente de tudo o que aconteceu este ano. Chegaste a levar-me de coche a casa de Clarisse nas frias noites de Fevereiro e nada divulgaste a ninguém que eu bem sei. Nunca te perguntei o que pensavas. Eu sei, e sempre soube, o que faço. Também amanhã sei o que farei. Por isso escuta o que te vou ordenar. Melhor. Não te ordeno. Peço. E é o seguinte: amanhã, depois do parto, fazes desaparecer Clarisse. Não quero saber mais dela. Quer a criança viva ou morra. Tomei uma decisão que não alterarei. E bem sabes que não altero as minhas decisões. Serei sempre, a partir de agora, fiel à minha esposa. Se esta criança sobreviver tratá-la-ei como filho que de mim e da minha mulher fosse. Quero que propagues a notícia de que minha esposa é sua mãe. Se a criança falecer, peço-te que arranjes força para tudo esquecer e também te digo…

Nesse momento um grito do quarto ao fundo do corredor percorreu a casa. Um grito de profunda angústia. De mulher que sofre para à terra um filho oferecer. O Barão e Joaquim entreolharam-se em espanto. Ao homem não é permitido conhecer as dores sofridas pelas mulheres. As suas penas para trazerem um ser humano ao mundo, talvez o que de mais encantador há. Uma criada do quarto saiu apressada. Mas ao ver ali o seu amo estacou assustada. Alexandre quase lhe berrou, nervoso:

- Fala mulher. O que está a acontecer?

Depois de breves momentos em silêncio, assustada com a presença do amo, a criada gaguejou:

- Está difícil o parto. Clarisse sofre bastante. E já lhe atacou a febre. Pobre mulher… se me permite meu amo, vou buscar mais água a ferver à cozinha – e sumiu-se apressadamente.

Entretanto os gritos aumentavam. A agonia parecia atingir o seu máximo. Outra criada saía com trapos ensanguentados do quarto. E dirigia-se também à cozinha sem reparar em Alexandre. A outra criada passou com a bacia de água a ferver. O Barão e Joaquim olharam para esse rebuliço. Estavam também horrorizados pela sinfonia de gritos que abalava o corredor escuro. Alexandre travou do braço de Joaquim. Baixou a cabeça e sussurrou: «Meu Deus, meu Deus… faz com que a criança sobreviva.»

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Obrigada a todos os que leram o inicio da minha história. Desculpem se foi um bocadinho maçador, mas está só no inicio e vai evoluindo com o tempo ^_^

O post foi um bocadinho grande mas tem que ser, porque senão tinham um ano inteiro de Saga :mocking_mini:

Quarta-feira um novo episódio! Espero que acompanhem...

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Vou acompanhar de certeza!

Gostei da tua forma de escrever pois transmitiu-me vários sentimentos.

Parece que cada palavra é uma só e nela há vários tópicos para descobrir.

Continua, só ficas a ganhar!

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«Meu Deus, meu Deus… faz com que a criança sobreviva.»

Estas preces pareceram surtir efeito. Os gritos diminuíram, a cozinheira passou apressada com os panos brancos lavados e entrou, a correr, no quarto. Passado um momento saia de novo. Vinha a sorrir. Sorriso de quem cumpriu a sua missão. Alexandre e Joaquim aproximaram-se. O Barão falou-lhe então.

– Fala mulher! Que motivo há para essa tua alegria?

– É um menino senhor Barão. – Disse mexendo os panos alegremente.

Alexandre não se conseguiu controlar e pediu para ver o filho. Ali, com o filho nos braços tudo lhe parecia diferente. Era o seu filho que segurava. A sua descendência, o seu orgulho. Aquele ser que o manteria vivo, perpetuado por toda a eternidade, muito para além da morte.

A criança era de tez clara. O pouco cabelo loiro cobria-lhe a cabecinha oval. Dormia sereno nos olhos do pai que lhe expiava as feições perfeitas.

- É um verdadeiro príncipe. Pensou alto Joaquim.

O pequeno tremeu brevemente, quase que a marcar presença, agitando para o ar os dedos finos e longos. Alexandre vibrou de susto, como se fosse quebrar o filho.

- E está de saúde? – Perguntou, ansioso.

- Parece-nos que nasceu são. – É pesado o menino.

Ao ouvir estas novas o Barão não conseguiu conter uma lágrima furtiva.

Mas rapidamente a limpou. Deu ordens aos criados para que cuidassem da criança como um príncipe. Depois mandou Joaquim segui-lo até ao andar de cima.

Estavam no salão onde se reunia em festas da alta-roda da cidade. Pediu a Joaquim que lhe arranjasse um conhaque.

Depois do criado lhe trazer a bebida o Barão convidou-o a sentar-se num sofá próximo dele.

- Joaquim. Meu criado. Meu amigo. Não te esqueças do que te pedi há pouco. Cumpre isso com cuidado, não vá ninguém saber do segredo.

Passa esta mensagem aos criados e diz-lhes para se calarem para o resto da vida. Não te esqueças Joaquim. Ele não é uma criança qualquer, é Miguel Meireles de Almeida e Albuquerque. Meu filho e de tua senhora também. Descendente dos melhores, tal como estipulado. Entendeste Joaquim?

O criado durante uns momentos não respondeu tentando adaptar-se intimamente a essa realidade.

- Percebi. - Acabava por responder convictamente Joaquim, olhando fixamente o Barão.

Levantou-se, beijou a mão do amo e saiu da sala tendo como destino a cave.

Era tarde quando Alexandre se recompôs daquele salto que estremeceu a sua vida. O nascimento do filho pelo qual esperara tanto tempo. O concretizar do seu sonho. Sempre se vira como um homem poderoso e influente, capaz de todas as façanhas. Diziam-no egoísta, arrogante talvez. Muitos o temiam, alguns aprenderam a aprecia-lo pela frontalidade e coragem com que se defrontava, poucos conheciam aquele homem cheio de força e vontade de viver. Era reconhecido, amado, temido, imponente. Homem justo, os anos passaram-lhe rectos. Não era homem de sonhos, talvez porque lutara para que desaprendesse a sonhar. Nunca sonhara com um grande amor e como quem nunca o quisera, nunca este aparecera. Se aparecesse seria o primeiro a deita-lo borda fora. Não havia espaço para o imprevisto nos seus passos cuidadosamente delineados.

Mas dentro de si um vazio enorme, sideral invadira-lhe os dias. Desejara um filho e talvez por ser este o seu único desejo, fora também o único que insistia em complicar-se. Brincara com os céus, ousando pedir nada. E eles atentos deram-lhe o nada que lhe cobria os dias de solidão. Tinha na esposa a companhia das tardes de Domingo dos homens de salão que escondem a existência debaixo do tapete, anulada atrás da porta ou num qualquer outro canto de sua casa. Passeava-se com ela, exibindo-a orgulhoso, com todos os seus dotes. E ela não era mais do que isso, um qualquer modo de controlo e perfeição. Alguém que pode modelar a seu modo, travando-lhe os gostos, asfixiando-a em si.

Mas agora que aquele filho nascera, algo em si se rompia. Não era só aquela alma controlável que tinha para modelar. Tinha agora o expoente de todo o seu desejo, o fruto do seu maior sonho. Era invulnerável. Ousara enfrentar os céus e enfrentara-os, ousara voltar a sonhar e sonhara alto, tão alto, que agora caia-lhe nos braços o preço de arriscar-se nessas façanhas. Reduziram-no na sua condição humana, acorrentaram-no ao mínimo dos seus sentidos. Mas arriscara, o preço de uma liberdade conquistada a dissabor, embora caro, nada no mundo ou ser algum poderia compensar.

Alexandre regressava ao quarto onde deixara a mulher. Lúcia jazia ali, plantada, imóvel. À espera talvez.

Alexandre sentou-se na borda da cama e esperou que fosse ela a perguntar. Conhecia a natureza inquisitiva dela, sabia que não se ia demorar no silêncio. Contudo, foi ele quem rompeu aquela conspiração calada.

- Sei que te custa falar, que em ti ainda te dói a anulação da tua pessoa por mim. Façamos, então, o seguinte, o nosso pacto de silêncio não se quebrará. Só falarei dele quando quiseres, e só o verás quando achares que o teu coração aguenta o jeito.

- Eu vou vê-lo. - Disse decidida. – Mas só quando "ela" tiver saído desta casa. Não quero ter que olhar para aquela que cumpriu a tua visão.

- Quando quiseres significa que o tempo aguardará a teu modo que te prepares. Sussurrou Alexandre, tomando a mulher num terno beijo.

Desculpem o tamanho do post...sei que é maçador. Para a semana começam a ter respostas para muitos dos pontos deixados em aberto. Estes primeiros tinham que ser mais descritivos.

Mais uma vez, obrigada a todos por lerem e seguirem a minha história. É muito importante saber que o que fazemos é reconhecido

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Eu não achei maçador.

Sabes, como a tua história é forte eu não a vejo maçadora. Há suspense e a cada linha que leio nasce uma vontade de continuar a ler.

Parabéns magg, o teu trabalho tem muita qualidade!

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Amanhã Saga!!!!

Novo rumo na história. Começa-se a adensar a trama.

Obrigada a todos os leitores.

Jorge, Catita obrigada pelas palavras de incentivo, espero não desiludir...

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Até amanhã com mais Saga...

1 Ano antes

Rússia

Sem volta

Uma pequena cidade a noroeste de São Petersburgo amanhecera triste e cinzenta naquele Inverno.

No pequeno porto de Vyborg, fronteira comercial com a Finlândia, as cabeças dos pescadores formavam minúsculos pontos entre os barcos à beira mar. Infelizmente naquele dia não se lançariam na baía. O clima estava cada vez mais rigoroso de Janeiro em Janeiro.

- Os anos passam e parece que nos querem cada vez mais gastos e estafados. Já nem temos dinheiro para combustível e o mar também não ajuda. Se custava muito a este retalho de água ingrato dar-nos peixe, um módico e singelo balde de peixe que nos alimentasse as barrigas! – Protestava Roma Orloff, velho lobo-do-mar com uma criança de 8 anos de corpo pequeno e delgado.

O menino curvava-se diante da rede de pesca fingindo concerta-la. Contudo a sua cabeça loira de cabelos esvoaçantes procurava, perdida no areal, outra direcção.

O velho homem apercebendo-se do desinteresse da sua companhia olhou para cima das escarpas inteirando-se do motivo. Sorriu voltando para os seus afazeres, a musicar sozinho.

- Não sei o que vê esta criança numa mulher como ela… – Rabujava.

No olhar de Sasha uma mulher apressada, uma criança cambaleante pela mão e uma porta de café aberta em urgência.

A mulher reconheceu de imediato a mesa e voou para ela.

- Valya, sei que dói tanto isto… – dizia a voz masculina que a esperava há já algum tempo. – Devagar o homem retirou as mãos pousadas na mesa e encaminhou-as de encontro as dela. Docemente, afagou-lhe os cabelos vermelhos em desalinho.

- Não te quero demorar. Também não tenho muito tempo. – Interrompeu-o Valentyna Durnova, afastando a cabeça e retirando bruscamente as mãos das dele, puxando-as para si. Os olhos castanhos fixados e frios, insensíveis, quase assombrados.

- Fica com a criancinha. É tua!

- Achei que já tínhamos discutido o assunto, eu não posso…sabes que parto hoje. Contra atacava ele em desespero.

- És o único a quem a posso entregar Ilya. Se nem tu a queres fica ciente que ainda hoje terei que matar com as minhas próprias mãos a tua filha… – Ripostava Valentyna, seca, corrosiva.

Aquela frase ecoava ao homem como obrigatória. Ilya nunca tinha visto num rosto tanta crueldade. Ela proferia as palavras como se deitasse para fora de si todo o peso acumulado. Levantou-se e já direita olhou para a menina que admirava extasiada os doces na vitrina do balcão. Fincou as mãos à mesa e lançou-lhe um olhar profundo. O derradeiro. Depois, dobrou a voz para o homem em tom inabalável:

- Adeus Ilya. – Espero que faças com ela melhor do que o que eu fiz.

Valentyna virava-lhe costas pela primeira vez. Já voltada abriu bruscamente a porta do café. Por ela saiu tal como entrara, Valentyna Durnova em desalinho. As mãos agora vazias de nada.

Na praia, os olhos de Sasha seguiram-na ávidos. Enquanto a figura da mulher se afastava dissolvida em perspectiva, não sabia estarem eles prestes a vê-la pela derradeira vez.

Roma precipitou-se para o café do outro lado da rua. O velho corria com as forças que tinha. Os pés afundavam-se na areia molhada. Os braços aflitos no ar chamavam estridentes.

- Lera, Lera – que se passa minha querida? – Tomou nos braços rudes uma menina de 3 anos que chorava em angústia. Prostrado na porta encontrava-se Ilya Andreev a suspirar de nervos.

- Seu idiota, que lhe fizeste? – Perguntava Roma, ainda esbaforido, acabado de chegar.

- Nada, seu velho azedo. Ela deixou-a comigo e saiu sem tensões de voltar. O que quer que faça? – ripostava Ilya estafado.

- Que sejas pai… cuidei dela até as forças não me deixarem e até aquela agoirenta encontrar outro tecto onde se esconder… – O velho Orloff entrepunha-se com tanta raiva que Ilya nem ousou responder.

A menina agitava-se nos seus braços aos brados, quase rouca. – Mamuska, mamuska…

- Dá-ma! – Pela primeira vez Ilya defrontava-o. – Já o devia ter feito há muito, a Valentyna não fez mais do que devia, deixar-te a apodrecer que é o que de melhor sabes fazer aos outros…mas hoje acordei para esta realidade na minha existência. - Dá-me a minha filha.

- Vocês os dois só causaram caos e destruição no que tocam, e vão fazê-lo com ela. – Continuava Orloff em carne viva.

Como se adivinhasse as palavras do outro, Ilya serenou-o, baixando a guarda.

- Ela vai ficar bem. Levo-a comigo. Nada lhe irá acontecer, prometo-te, meu velho. – O tom na voz já não era de desafio, mas de alguém que procurava no íntimo regeneração na verdade.

Roma beijou os cabelos avermelhados da pequena e entregou-a a contragosto. Via-a afastar-se a passos largos de si. Ficou ali parado, até que dela via apenas a mancha do seu casaquinho de lã azul diluir-se ao longe. A sua cabecinha desfazendo-se distante no fundo da ruela. Os ecos dos seus gritos dissipando-se agudos nas entranhas do ancoradouro.

Orloff lançou-se para a praia, no areal onde dormia solitária a rede de pesca, apenas pegadas pequenas em direcção à estrada.

- Sasha… Esqueci-me do Sasha! – Conseguiu proferir em choque o velho pescador.

Percorria todos os recantos da praia que conhecia como a palma das suas mãos engelhadas.

Subia e descia as escadas do cais, perguntando a tremer a quem passava se tinham visto o pequeno. Batera em todas as portas de cada casa, percorrendo o itinerário até onde foi capaz de avançar.

Depois, já aturdido e confuso, o seu corpo velho demais para acompanhar o espírito vacilante, sentou-se no barquinho de pesca propriedade de há tantos e tantos anos. Todos tinham comprado barcos mais leves e modernos, capazes de fazer grandes travessias no imenso mar agitado. Mas Orloff mantivera-se fiel ao seu tão velho quanto ele.

- Quantos anos palmilhámos estas milhas, hã? E não me consegues dizer onde se enfiou aquele miúdo? - Roma passava a mão no barco como se o acariciasse, tocava em cada canto daquele pedaço de madeira azul e branco. Sentia os seus nós de encontro a sua pele áspera e seca. Encostou a face na borda do barco e suspirou, leve, desalentado.

- Sou um cobarde…primeiro deixo-a ir, e agora não sou capaz de me alçar daqui e procurá-lo. Acho que só me restas tu, o meu único e eterno amor… – Orloff gemia baixinho como se cantasse. As luzes das casas acendiam-se e nem rasto de Sasha.

Os olhos pesavam-lhe e a alma doía-lhe tanto que se esquecia dos ossos que arqueavam de cansaço. Adormeceu mesmo ali, no barco seu recanto de menino.

Sonhou que era novo, que percorria ainda forte as ruas de Vyborg como um soldado invencível. Lembrou-se dela. Da doçura com que dizia o seu nome e dos olhos que o esperavam, expectantes. Tinha-a ali de novo, tão próxima e real. Estendia-lhe a mão, procurando alcançá-la. Aos poucos a figura esbelta de mulher escorria-lhe dos dedos.

Tinha frio, abriu os olhos e ao seu lado um sorriso franzino cumprimentava-o, galhofeiro no raiar da aurora.

- Sasha…seu peste! Onde te meteste?

- Eu estive em casa dela…foi-se embora sem volta, sabes? Deixaste-me sozinho na praia e eu vi a Va/…

As palavras do pequeno foram cortadas pelo som estridente da mão de Orloff que voou para a sua face. Os olhos velhos fumegavam de raiva. Descontrolado Roma pegou a criança por um braço e arrastou-o pelas vielas até à pequena casa térrea onde vivia.

Indiferente aos finos gritos de criança gritava como se a voz saísse do mais fundo de si.

- Nunca mais, nuca mais repitas o nome dela na minha presença, entendes? Proíbo-te!

Ela matou os teus pais, matou-os percebes? – Orloff gaguejava, e crescia com uma pujança animal. Fervia por dentro e deitava para fora as palavras que o queimavam.

A dor penetrava em cada centímetro do corpo ofegante da criança, mas Sasha não falava. Em si a raiva calou-o e instalou-se rancorosa no seu coração infantil. Não falaria. Nunca mais. Por muito que o corpo lhe gritasse de indignação e o sangue lhe escorresse dos braços a tentá-lo, aquilo que os seus olhos viram valeria sempre a pena. Guardaria para sempre na memória o dia em que ainda pequeno entrara furtivo na casa de Valentyna Dornova. O que os olhos de Sasha viram, palavra alguma poderia abranger.

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Oh magg, publica já outro episódio!! Quer dizer, deixas as pessoas assim, na expectativa!!

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LOOOL, estou a brincar.

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"Muito excelente"!!

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Esta tua história tem mais ou menos quantos episódios?

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Ainda não posso dizer ao certo quantos episódios vai ter Jorge. Não quero estar aqui indefinidamente a prolongar, mas tenho noção que a "Saga" é grandinha e evolui por fases...

Pode ser que até fique só pela primeira, depende tudo da vossa aceitação

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Ora cá vai mais uma rodada de Saga... :mocking_mini:

Para quem a lê, o meu muito, muito obrigada. Espero que tenham a mente aberta para esta história

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/emoticons/ATV_wink.png"> e continuação de boas leituras...

Belize

Aliança

Alexandre de Albuquerque corria apressado pelas ruas de Belmopan como se a vida lhe fugisse em cada passo. O sol raiava naquela madrugada.

No fundo da rua, uma viela estreita onde se vislumbrava uma Igreja destroçada. Ao lado duas casinhas miúdas onde o cinzento das paredes se confundia com o do céu.

Pisava o solo verde da sua terra, a terra que o vira nascer e crescer. Era macia e suave a relva que nascia em contraste com aquele solo duro de terra batida e parda.

Corria, porque o tempo perdia-se entre a espera e a marcha. Enquanto palmilhava as ruas, vislumbravam-se rostos curiosos e olhares em dúvida. Alexandre lutava contra as horas. Em segundos chegou ofegante ao seu destino.

- O que se passa? – Inquiriu, com a voz trémula do esforço.

O Barão olhou para o rosto do homem sentado na pequena espreguiçadeira junto à janela. As mãos grandes cobriam-lhe o rosto rendido ao pânico e ao cansaço.

- Um golpe – Respondeu-lhe prontamente uma voz vazia vinda do fundo da divisão.

Zeph Willoughby parecia esperá-lo há horas. Tinha os olhos salientes, rosto apreensivo.

- Mais um golpe de estado? Mas esta gente não se cansa de revoluções? Quantas serão precisas para perceberem que o que querem é um pouco de inacção…que populaça incomodativa! – Gritava Alexandre enquanto gesticulava febrilmente.

- Não é isso meu senhor, desta vez a revolução vem de cima.

O governador da cidade deixou-se cair na cadeira que o aguardava atrás da velha secretária wengé. O rosto perdia-se por entre os papéis e os porta-retratos.

- Não sei bem se percebi… – respondeu articulando as palavras a custo.

Pesada, a sombra do conselheiro arrastava-se pelo pequeno escritório do Barão. A voz soava dura e fatal.

- Fomos conquistados! – A voz de Zeph entalou-se na garganta e mergulhou numa dor visceral, deixando-se apagar, estarrecido.

Alexandre, saído de um sono profundo, levantou-se.

- Já tinha ouvido falar da Aliança. Mas encarava-a como invenções das mentes frouxas deste mundo. Até mim nunca chegou nada de nenhum órgão de Estado…

- Não gosto do tom do céu, não gosto… – Continuava o conselheiro em alucinação repetindo-se, atirando o corpo para a frente e para trás em roda-viva.

- Cala-te homem, não te posso ouvir mais… – Alexandre deixara de soar a autoridade, parecia mais um servo assustado do medo que o tomara a falsa fé. Também ele fez um esforço e olhou o céu de um tom escuro e sombrio. Lá longe, onde o horizonte se deitava no profundo mar, um vermelho carnal, sangrento misturava-se arrojado no matiz do céu desguarnecido.

- Não! Não seremos mais subjugados. As lágrimas de sangue que esta terra derramou não ficarão perdidas nos rodeios do passado. Aqui, ninguém faz história sem a minha anuência.

Saiu do escritório num sopro perscrutado pelo conselheiro.

- Alexandre, onde vai? - Indagava Willoughby cabisbaixo, demente, de voz cega.

- Eu ainda sou o Barão Almeida de Albuquerque, Governador-geral a mando de Sua Majestade, a Rainha Isabel II! Diabos me levem se deixo abstraírem-me de tudo o que é meu, de tudo o que conquistei com o meu esforço!

E galgava em direcção à estação. Porém antes de continuar, algo o deteve.

O que os olhos do Governador viram na saída não pode ser contado. Era dor e tortura e sede e sangue…mais do que a alma humana pode conter.

Á sua volta, tudo inigualavelmente igual e, contudo, inegavelmente diferente e austero.

Diante dos seus olhos um mundo que esperava acção e força de um simples homem que caia num turbilhão.

Diante dos seus olhos delineavam-se 3 figuras de contornos ainda distantes.

Ao aproximarem-se percebeu que se tratava de dois homens e uma mulher. Vinham vacilantes, oscilando entre a inevitabilidade da noticia e a tristeza de o comunicar.

Um homem pequeno, abatido, curvado, cabelo raro e escuro olhava raso para o chão. Escondia debaixo do fato as mãos que tremiam. Ao seu lado seguia-o uma figura mirrada, sumida, de nariz adunco estatura espectral. Alexandre reconheceu-os de imediato. Eram as mais ilustres figuras do Congresso. A acompanha-los, uma mulher de tez pálida, cabelos ruivos atados em contenção entrou insegura na paz precária daquele escritório.

- Nada nos poderia avisar de tamanha façanha no mundo, nem sequer o céu tremeu com a mudança, Governador. - Lançou a voz feminina, figura nervosa, quase frágil, fechada em si mesma e no temor.

- Em Dezembro Nibiru passará pela eclítica e dará início à destruição. – O medo que sentiam os seus acompanhantes parecia desvanecer-se nela. Deixou-se tombar para a cadeira do Governador e olhava muda o escritório diminuto do Barão. Os seus olhos outonais, de um castanho severo, desconcertante, percorriam a divisão ávidos de tudo. Gravava cada detalhe em busca de um pretexto para manter o silêncio.

- Dois terços da população da Terra serão dizimados… – Continuou a figura masculina, alta, inflexível procurando apoio no olhar do outro. O nariz adunco sobressaia na face encovada de Colin Young.

O outro homem, mais baixo e sinuoso desviou rapidamente o olhar do amigo, voltando-se para a mulher que ainda percorria sentada todos os recantos daquela diminuta divisão tropical.

- Valentyna, o dossier por favor. – Pediu gravemente à mulher cujo olhar fora obrigado a cruzar-se com o dele. O corpo de baixa estatura de César Gallardo diminuíra mais com o cansaço. Abatido abafava uma tosse nervosa com a mão.

- Vejo que não é de Belize, minha cara. O que a traz ao nosso país, esquecido nos meandros da América central? Decerto que não lhe agrada o calor… – Referiu, momentaneamente poderoso, o Barão Almeida de Albuquerque.

- Eu fui nomeada pela comissão para acompanhar o Congresso, Governador. – Retorquiu a mulher de sotaque de leste.

- Que comissão? – Eu aqui só reconheço autoridade a estes distintos membros do congresso do meu país, Belize.

- César, o que se passa? – Alexandre procurou o amigo com quem convivia há mais de 20 anos e encontrou-lhe no rosto o desespero espelhado nas horas. A figura penitente do companheiro continuava a diminuir.

- César, por favor – Pediu Colin.

César suspirou, tentando buscar forma de ajudar os companheiros.

- O planeta que nos quer no Império é Nibiru. Conhecido como o planeta de origem de um povo designado como "raça dos deuses", os Anunnaki.

- O que há a fazer? – Questionou Alexandre num completo descrédito, perplexo pela rapidez dos acontecimentos que se abatiam sobre o mundo.

- Não tema, Governador. Não estamos propriamente na era dos conquistadores. – Valentyna estendeu superior os papéis que segurara até então. Os olhos dela fumegavam, provocadores. Esta Aliança transcende-nos na sua globalidade, mas um propósito é-nos claro. Querem-nos como aliados, o que será para nós uma forma de enriquecimento da nossa cultura.

- Os Anunnaki querem uma aliança pacífica, Alexandre. – Falava César, o corpo pequeno com a inevitabilidade, acalmando o génio atento do Governador.

Ao lê-los o Barão tremeu de revolta e teve mesmo que conter a náusea que sentia ao percorrer os documentos de olhos em frenesim.

- Zeph. A minha caneta, por favor. – Alexandre não ordenava, nem pedia, do fundo da sua alma em choro suplicava silencioso ao conselheiro que o detivesse, que algo maior que aquela catástrofe se abatesse nas ruas e que o tempo parasse num pesadelo superior aquele horror. Mas nada conseguiu obter para além da caneta estendida em submissão.

Alexandre Almeida de Albuquerque, assinava de coração sangrante o pacto que matava a sua alma mas que traria, mesmo que oscilante, vida aos seus corpos humanos.

Vida por vida, morte por morte. Morria privada a alma que contrariara, duraria penitente o seu corpo que a outros mantinha a existência.

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Obrigada pelas palavras de incentivo. Acreditem que escrevi cada linha desta "Saga" com paixão.

Obrigada por lerem os capítulos extensos sem se renderem à preguiça :clapping_mini:

Espero que o episódio não vos deixe com um "nó"...Boas leituras

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Regresso

César Gallardo olhou para Colin Young. O mundo caia-lhe aos pés tão fácil, tão previsível, tão fraco. Tudo morria vergado ao peso das letras numa simples assinatura de um acordo.

O corpo baixo aumentava gradualmente. Colin esfregava contra as mãos o nariz adunco e ressoava resignação. A gabardina preta suspensa na mão vacilava. Segurou o papel e guardou-o no dossier que carregava. Em seguida fez uma vénia respeitosa ao Governador, beijou a mão da observadora do Congresso e preparou-se para sair. Atrás dele, César seguia-o como que aproveitando a chance de sair daquela pequena divisão reservada demais para cinco. Esperou na porta que Valentyna o seguisse, mas esta escusou-se.

- Podem ir, meus senhores. Façam boa viagem. O Chanceler aguarda-vos para receber o Tratado da Aliança. – Ambos obedeceram à voz da mulher e dirigiram-se ao carro que os aguardava no exterior.

Aparentemente calmo, Alexandre fez sinal a Zeph que escoltasse os companheiros à saída. A porta bateu à sua frente. Alexandre inspirou longamente, cerrando os punhos contra a secretária. Olhou para a mulher que o atormentava há longas horas. Em 45 anos de vida nunca sonhara debater-se com os resquícios das suas acções. Não era possível, pensou para si, ela não podia estar ali. Entre eles um abismo de gerações separava-os, a distância dos continentes apartava-lhes as direcções. Contudo era ela, quem estava ali, no seu escritório de rei e senhor, de volta a Belize.

Aproximou-se dela, repentino. Violentamente, empurrou-a contra a cadeira à sua frente e Valentyna tombou desamparada. O disfarce caiu.

- Como pudeste descer tanto Valentina? – O Barão olhava-a de frente, tomado por uma imensa fúria.

- Não sei a que se refere, senhor. – Valentyna olhava com espanto Alexandre que não desarmava.

- Não sejas cínica, isto foi tudo criação tua. Pensas que me esqueci de ti? O frio fez-te bem mas os teus olhos não enganam, Valentyna…Durnova. Ou pronuncio de maneira diferente?

Os olhos da mulher esvaziaram por completo. Engasgou-se e olhou o chão. Era a primeira vez em tantos anos que lhe lembravam as origens. Imagens incertas invadiam-na torturando-a. Raiou-lhe na mente o cheiro de terra que trazia consigo, as ruas apertadas onde brincara às escondidas, o casarão imponente onde vivera (ainda não Dornova) e a fonte do cupido que a recebia no átrio da casa. Repeliu uma lágrima que se lançava furtiva nos seus olhos, ao mundo Valentyna não mostraria dor. Levantou-se, segura e firme. Sorria, mais por provocação, lançando um esgar de vitória.

- A verdade Alexandre é que não me conhece. Sou muito diferente daquela menininha descalça que corria pelas suas propriedades.

O barão sentou-se na espreguiçadeira e olhou pela janela, fingindo não ouvir.

- Os meus amigos já vão longe. O Zeph não tarda também está de volta. Vai-te embora, sua miserável. Parecias muito melhor quando eras aquela menina ranhosa, exilada com o teu pequeno pai. Não te mostravas tão arrogante de roupas rotas e com fome.

Acredita que se te vejo mais uma vez por estas bandas, perco a compostura, prometo-to. E sabes bem que a minha palavra não falha!

Valentyna não se deixava abater. Virou-se fitando de frente os olhos do Governador:

- Matei a fome a que me tinhas lançado tão cruamente. Não há em mim ponta de fraqueza a que possa ceder. Estas planícies viçosas onde corri não me dizem nada. O cheiro fétido de bolor desta terra cinzenta, deixa-me agoniada. - Levantou os olhos do chão encerado e sorriu desdenhosa a Alexandre. Tinha pouco mais de 25 anos, contudo as suas expressões davam-lhe ao rosto um tom carregado, quase ancião. Cerrou o rosto e dirigiu-se à porta, preparando-se para sair.

Sem que Alexandre percebesse a intenção continuou a falar, recuperando a compostura e o pronome respeitoso para com o Governador:

- Mesmo sem atingir as repercussões do seu acto, salvou-me, Alexandre. Salvou uma miserável de uma vida deplorável em que podia ter-me encerrado. Tenho boa memória e, acredite ou não, sei agradecer. Garanti-lhe uma boa posição, no topo da cadeia. Já não lhe devo mais nada!

– Calou-se e o silêncio instalou-se no escritório diminuto. O ar rareava, contrafeito no peso das palavras dos dois.

- Dei-te nova vida e mesmo assim insistes em voltar? – O Barão fitava a mulher num misto de pena e repulsa. Sem olhar para trás Valentyna levou a mão ao puxador.

- Talvez seja a vida que insista em trazer-me de volta ao que me roubou e era meu por direito, Governador. Depois, como se tivesse esquecido algo entalado nas profundezas da sua alma, proferiu vaticinadora:

- Vendeu-se, Albuquerque! A sua dignidade é algo já difícil de atingir. E, como algo em que já não pode pôr o dedo, acabará também por sarar nas entranhas do seu ser, podre, estagnada, consumindo-o. Está gasto Alexandre, a idade infiltra-o. Agora que esta ocupação se concretiza talvez perceba a dor de ver desmoronar tudo o que construiu. Até que de si e da sua obra sobrará apenas a ideia do homem recto que arriscou ser. Quando me vir sair esta porta, é bom que reze para nunca mais cruzar o seu caminho. Também eu rezei um dia para que jamais cruzasse o meu…

Saiu. A porta aberta deixava ver os seus passos certos, maquinais. O barão, impávido na confortável espreguiçadeira retirou o sorriso que lhe mascarara a face naqueles minutos. Observou-a a entrar no carro preto que a esperava. Viu o carro dar a curva na rua da pequena Igreja e sumir. Nele afastava-se também Valentina, actualmente Dornova.

Tão diferente da criança que arrancara à força da sua cama em nome da Revolução dezassete anos antes, numa madrugada quente de Abril de 1994. Levou as mãos ao rosto, tapando os olhos. No escuro via ainda o rosto inanimado de Spencer Johnson caído no solo do seu quarto. Instintivamente retirou as mãos da face esfregando-as freneticamente contra o fato.

- Estão sujas. Não consigo tirar este sangue. Nunca me vou livrar deste sangue, nunca vou fugir deste peso… – Alexandre não chorava, porque não sabia. Mas nele a alma desfazia-se em pedaços que caíam no fundo do seu ser.

O carro preto onde seguia Valentyna entrou por uma viela chegando a uma avenida larga. Uma mansão imponente guardava todo o passeio. Ao aproximar-se dos portões esverdeados vislumbrou o lindo átrio da casa com a fonte do Cupido vendado num sono profundo. Lúcia de olhos cor de jade e cabelos avermelhados ao vento colhia buganvílias. Valentyna desviou o olhar da irmã.

- Levo-a até à Base, observadora? – Perguntava o motorista parado numa ruazinha estreita perto da Igreja, apercebendo-se do súbito interesse desta.

Valentyna não respondeu, conversava em segredo consigo própria como se estivesse congelada em si, e este prosseguiu viagem. Deixou-se afundar e poisou a cabeça no banco do luxuoso carro vendo calmamente a casa afastar. Aos seus olhos de terra, irremediavelmente perdidos galgou toda a água que trancara até então.

- A vingança é a minha maior herança, eu forcei a Aliança eu consigo, eu consigo… – repetia num choro interior e profundo. Encostou a cabeça na janela e deixou-se adormecer.

Lá longe, na Base de Edin, Colin e César entregavam ao Chanceler o Tratado. A Terra mergulhou nos dias da ira.

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Obrigada Jorge. Fico mesmo muito contente que gostem. Porque tento ao máximo causar impacto e não tornar o texto maçador.

Não se justifica estar a postar duas vezes por semana...talvez mais para a frente quando a historia estiver mesmo, mesmo a avaçar

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