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A Fronteira


Ruben
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Gostei do que li. Senti que as sementes estão a ser lançadas para nascer uma grande reviravolta ou acontecimento. Nota-se um à vontade da tua parte, Ruben, em assuntos políticos.

Aposto que um dos gays morre e o outro, furibundo, começa uma revolução xD

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Excelente história Ruben! E espero que nunca aconteça credo 

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O texto, as personagens e a ligação estão perfeitos. Quanto à operação "A Fronteira" vai dar que falar.

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/emoticons/ATV_wacko.png"> Uma 3ª Guerra Mundial? Núcleo dos gays e sírios também muito bem escrito! Promete!

De resto, acho que está muito bem construída e deixou aquele apetite para ver o próximo episódio.

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Edited by Jtv
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Vermelho: Rússia [e aliados]
Azul: Ucrânia [e aliados]

 

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Passava pouco mais das quatro da manhã e as trompetes soavam alto a cinco quilómetros de Milerovo, uma pequena cidade russa perto da fronteira com a Ucrânia e que agora albergava quase cinco mil soldados russos, para além de mais de cem tanques e cinquenta caças militares. 
Tal como foram treinados ao longo dos últimos anos, os soldados russos, incluindo Boris e Igor, levantam-se num instante, vestem-se e reúnem-se numa espécie de praça central, onde encontram vários oficiais, destacando-se claramente o coronel Nikolay.

- Soldados, recebi há pouco mais de duas horas o plano militar que todos esperávamos nos últimos meses! Hoje, a Rússia erguer-se-á novamente e independentemente do que virá a seguir, lembrem-se, vocês são os defensores da Pátria e todo o povo russo olha para vocês neste momento difícil! É nestas alturas que a mais simples das ações pode equivaler à maior das glórias! Preparem-se soldados, a nossa altura chegou! – gritou Nikolay, com uma voz firme, quase assustadora.

Os soldados respondem-lhe com um grito de guerra e rapidamente se preparam para a tão esperada invasão. Por volta das 5:20 horas, a Rússia invade formalmente a Ucrânia não só ao longo da fronteira, mas também através da Crimeia, o mais novo dos territórios russos.
Os ucranianos, por outro lado, nem podiam acreditar. Foram acordados ao início do amanhecer pelo som de bombas que caíam misteriosamente nas grandes cidades do país. A força aérea ucraniana quase nem teve tempo para deslocar, a maioria dos caças e helicópteros foram abatidos mesmo antes de sair dos hangares. Várias ruas de Kiev, Kharkiv, Odessa, entre outras cidades ucranianas foram engolidas pelas chamas. Donetsk e Lugansk foram poupadas aos bombardeamentos. Lá, os rebeldes pró-Rússia, confinados desde do início de Março a operações ocultas promovidas pelo governo russo, assaltavam os edifícios governamentais e matavam qualquer um que se atravessasse no seu caminho. Depois de tomarem um específico edifício aguardavam para que as tropas russas chegassem à cidade. Os civis, ainda marcados pelos combates brutais da guerra na região do Donbass, estavam agora mergulhados num caos ainda maior, sem qualquer réstia de esperança para o futuro…

*

A manhã foi caótica no Kremlin. Telefonemas de líderes internacionais de um lado, jornalistas famintos de pormenores do outro. Acima de tudo, muita especulação e expectativa. Iria a NATO responder a este ataque? Qual seria a posição da França de Marine Le Pen em relação a tudo isto? E acima de tudo, estaria o mundo à beira de uma nova guerra mundial, inclusive, uma guerra nuclear?
No escritório de Putin, Angela Merkel conversava com o líder russo pelo telefone. Era a quarta pessoa ligada a um governo a fazê-lo, depois dos presidentes da China, Coreia do Norte, Bielorrússia e Síria, todos eles fortes aliados russos e que não tardaram em mostrar apoio a esta operação. Já Merkel, tal como muitos outros líderes, não percebiam a invasão russa à Ucrânia e qual era o verdadeiro objetivo por detrás da operação “A Fronteira”.

- Senhor Putin, você não entende o que está a criar aqui? – perguntou retoricamente Merkel. – Você pode estar a criar aqui um novo conflito mundial! Relembre-se que, mais do que ninguém, nós, alemães, sabemos o que é causar um conflito mundial e quais são as consequências desses mesmos conflitos.
- A nossa operação não passa apenas de uma defesa dos direitos dos cidadãos russos na Ucrânia. Se não fosse o Ocidente, sempre dedicado a confinar a Rússia no seu cantinho de onde nunca pode sair, nada disto teria acontecido. – afirmou o líder russo.
- Sabe que a economia russa pode colapsar com mais sanções. Olhe para o rublo, olhe para quanto a moeda russa perdeu por causa da queda do petróleo e de todas as nossas sanções. Esta é uma guerra que, caso se torne global, irá fazer colapsar todo o seu regime e toda a economia russa! Eu acho que você não quer voltar aos tempos da queda da União Soviética e fazer passar o seu povo novamente pela fome e pelo frio!
- Sabe, senhora Merkel, os russos, tal como os alemães, são pessoas que já se habituaram a sofrer. Veja o caso da Segunda Guerra Mundial! Fomos o povo que mais sofreu durante quatro anos de guerra! E aqui estamos nós, uma nação de sobreviventes, sempre pronta a lutar por um interesse comum!
- Um interesse comum? Ou será mais um interesse próprio?
- Acha mesmo que se fosse um interesse próprio, várias regiões da Ucrânia iam lutar para se integrarem na Federação Russa? Ou acha que na Crimeia as pessoas iam aprovar quase unanimemente para fazerem parte do nosso país? Vendo por esse ponto, eu duvido muito que seja apenas um interesse próprio.
- Bem, acho que de facto não há mais nada a dizer, senhor Putin. – disse a chanceler, depois de breves instantes calada. – Relembro-lhe apenas que quanto maior a ambição de um país, maior será a queda do mesmo.
- Não se preocupe, senhora Merkel. E já agora, diga isto para os seus aliados: o que acha que move toda a maquinaria de guerra? Será o congelamento de contas bancárias ou um embargo nisto ou naquilo, ou será o petróleo, necessário para alimentar aviões, tanques e navios? – disse Putin, num tom sarcástico. Merkel sabia bem o que Putin queria dizer com aquilo. A Europa ainda é bastante dependente do petróleo russo. Basta apenas um embargo total em produtos petrolíferos a toda a União Europeia e a situação poderia tornar-se muito má, seja a nível civil, seja a nível militar. – Continuação de um bom dia! Aproveite e oiça a declaração que eu irei fazer para a imprensa daqui a umas horas, aposto que você e outros líderes europeus vão ficar bastante esclarecidos quanto às intenções do povo russo na Ucrânia.

Por volta das 15 horas, hora de Moscovo, o mundo estava de olhos postos no presidente russo. O discurso em si não foi nenhuma surpresa… Putin justificou a invasão da Ucrânia com a defesa dos direitos do povo russo a viver no país e chegou mesmo a dizer que esta guerra traria mais vantagens para a Ucrânia e para o seu povo que desvantagens. Questionado sobre quais as mudanças territoriais que iria fazer caso vencesse na Ucrânia e o que iria fazer caso os Estados Unidos declarassem guerra, o presidente apenas disse: “Os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 e nada aconteceu”. O período de perguntas terminou logo aí. Minutos mais tarde, surge a informação que o presidente dos Estados Unidos convocou uma reunião de emergência da NATO, a decorrer no dia 24 de Dezembro, na cidade de Bruxelas, na Bélgica.
Por essa altura, já as principais bolsas mundiais caiam a pique, com destaque para a da Rússia, que caía 8% e a da Ucrânia, que caía 14%. As principais bolsas mundiais também evidenciavam quedas semelhantes. Na frente de combates, os soldados russos já estavam a combater em Lugansk e Donetsk não estava muito distante. Na Crimeia, os soldados ucranianos conseguiram aguentar os avanços russos, que têm como objetivo a cidade de Odesa. O governo russo espera conseguir controlar quase toda a Ucrânia e suas cidades principais no espaço de uma semana.

*

Na prisão de Lá Santé, em Paris, Ahmed e os seus pais apresentavam-se no último dia do prazo que lhes havia sido dado pelo polícia. Por um lado, acreditavam que a oposição francesa impedisse uma espécie de êxodo dos refugiados a viver em França; por outro, viviam assustados com o facto de um dia alguém os obrigar a abandonar a França rumo a outro país qualquer, ou pior, para a uma Síria desolada pela guerra.
Assim que chegaram, a sala de espera estava cheia de outros refugiados sírios também eles previamente notificados pela polícia para se apresentarem. Na verdade, o governo de Marine Le Pen notificou já cerca mil pessoas, dos mais de cinco mil refugiados sírios que a França acolheu desde 2012, para se apresentarem em várias prisões do país. O objetivo de toda esta operação é reduzir drasticamente o número de refugiados no país, que serão depois levados para outros pontos da Europa através de acordos. Tudo isto alivia a economia francesa, já que mais de 3000 refugiados recebem subsídios e outros benefícios do estado.

- O seu nome por favor… – disse um polícia, assim que Ahmed e os seus pais entraram. Na sua mão direita tinha uma lista com várias páginas, com os nomes daqueles que foram obrigados a apresentar-se na prisão de Lá Santé nos últimos três dias.
- Amir Bousaid. E este é o meu filho, Ahmed Bousaid, e a minha mulher, Haddiyah Bousaid.

O polícia procura os nomes na lista, riscando-os assim que os encontra.

- Diga-nos… – disse Amir, depois de ver o seu nome e o nome da sua mulher e filho riscados. – Qual é a razão de estarmos aqui? O que quer o governo francês de nós?
- O governo francês não quer nada de vós, é esse o motivo. Tudo isto faz parte de uma operação cujo objetivo é a vossa saída da França.

Toda a família Bousaid congelou assim que ele referiu que estavam basicamente a serem expulsos do país. O seu pai, Amir, coloca a mão esquerda no bolso das calças que trazia. O bolso continha uma navalha, de pequeno porte, que Amir pretendia usar caso alguém lhe dissesse que já não podia sair daquela prisão.

- A primeira ronda – continuou o polícia. – começa com esta pequena notificação, em que basicamente anotamos os nomes das pessoas que cá aparecem. Mas não pensem que foi uma perda de tempo, muito pelo contrário. Caso não aparecessem aqui, a polícia seria obrigada a começar a segunda ronda desta operação antecipada e em vez de terem uma semana para saírem das vossas casas, teriam apenas uma hora. Como veem, somos bastante amáveis.
- E qual é a diferença entre terem-nos encarcerados numa prisão e estarmos numa casa que nos foi dada como um gesto de gratidão do governo francês? – disse Ahmed, ainda num estado de choque, prestes a tornar-se raiva.
- A diferença é que nas vossas casas, que como tu disseste vos foram dadas às nossas custas, com os nossos impostos, vocês podem gastar livremente. Já aqui, vocês comem quando nós dissermos que devem comer, vocês dormem quando nós dissermos que devem dormir e vocês fazem aquilo que nós achamos que devem fazer. Mas claro, tudo isto é temporário, em breve a França fará acordos com países da União Europeia, ou talvez a Turquia para se sentirem mais próximos de casa. – disse o polícia com arrogância. – Aí, deixarão de ser um problema para nós.

Amir retira a navalha do seu bolso, sem que ninguém se aperceba. Num espaço de poucos segundos tem essa mesma navalha apontada para o pescoço do polícia. Os outros polícias rapidamente apontam as armas para o homem de praticamente 50 anos, mas cuja face, marcada por anos de instabilidade na Síria, o fazia parecer muito mais velho.

- Que tipo de pessoas são vocês? – disse Amir, de lágrimas nos olhos. – Que tipo de país acolhe refugiados para depois os expulsarem como cães? Acham que é engraçado brincarem com as nossas vidas? Acham que gostamos de estar longe das nossas casas, dos nossos amigos, que apenas Alá sabe se estão vivos ou mortos? Foram vocês que causaram a destruição das nossas casas!
- Por favor, baixe a faca! – disse um polícia. Todos os que estavam em redor quase nem pestanejavam.
- Eu apenas baixo a faca quando perceberem que não podem brincar com as nossas vidas desta forma! Quando invadiram o Iraque, já o Médio Oriente era uma região delicada. Depois disso, é apenas uma bomba, pronta a explodir. Foi por causa dos vossos caprichos que o Estado Islâmico, a al-Qaeda e tantas outras organizações extremistas nos foram matando e destruindo aos poucos! E vocês sempre a verem, sempre do lado de fora até aos vossos interesses estarem em perigo. Se há um ano o petróleo do Curdistão não estivesse em perigo, vocês iam deixar o Estado Islâmico decapitarem-nos, violarem as nossas mulheres e as nossas filhas!

Ahmed, que não estava a ser observado por nenhum polícia, é agarrado por um outro jovem, praticamente da mesma idade e também ele um refugiado da Síria. Chamava-se Bashir Azid, que uns dias após a vitória de Frente Nacional nas eleições legislativas criou uma organização a favor dos direitos dos refugiados sírios no país, a “Irmandade Síria”. Tinha já vastos contactos um pouco por toda a França, que revelavam aquilo que Marine Le Pen fazia aos refugiados assim que chegou ao poder e também recrutavam novos refugiados prontos a defenderem-se contra aquilo que chamavam de “manápulas nazis”. No entanto, Bashir não se ficava por meras denúncias e já tem planos para futuros ataques a sedes ou algo que esteja minimamente relacionado com a Frente Nacional.

- Preciso que venhas comigo lá fora – sussurrou Bashir ao ouvido de Ahmed.
- E porque havia eu de fazer isso?
- Porque a tua vida depende disso mesmo.

Ahmed olhou Bashir nos olhos, depois olhou ao seu redor para se certificar que ninguém o via. Providências tomadas, afastou-selentamente da sala de espera e saiu do edifício.

- Diz-me então, o que queres de mim? – perguntou Ahmed.

Nesse mesmo instante, ouvem-se dois tiros vindo da prisão, seguido de gritos vindos de várias pessoas. Assim que ouviu os tiros, Ahmed corre para o edifício, mas é impedido por Bashir.

- Eu disse-te que a tua vida dependia desta decisão.
- O que tu fizeste aos meus pais?! – gritou Ahmed.
- Eu? Absolutamente nada! Apenas sei como os polícias se comportam desde que a Le Pen se apoderou do governo francês. Se eles são ameaçados, principalmente por refugiados vindos de um país qualquer, a ordem deles é para matar.

Ahmed tentava dizer algo para lhe responder, mas as lágrimas que escorriam da sua cara impedia-o de tal.

- Vem. – disse Bashir, encostando-lhe o braço esquerdo nos cotovelos de Ahmed. – Tens imenso tempo para chorares pelos teus pais no meu esconderijo.

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Vermelho: Rússia [e aliados]
Vermelho Escuro: Sob controlo russo
Azul: Ucrânia [e aliados]

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Bem, dois primeiros episódios lidos! Gostei bastante. História com muito sumo mesmo e gostei também da tua escrita. Também senti a tua contextualização no mote da história, que são assuntos políticos. Ansioso pelos próximos episódios!!

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Obrigado a todos.

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Porque é que isto só sai ao Sábado? Devia ser todos os dias. Está cada vez melhor...

Excecionalmente, na próxima semana haverá dois episódios: um à quarta e outro ao sábado.

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Obrigado a todos.

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Excecionalmente, na próxima semana haverá dois episódios: um à quarta e outro ao sábado.

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Isso é que é falar... Ansioso por esse episódio especial de Quarta!

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Vermelho: Rússia [e aliados]
Vermelho Escuro: Sob controlo russo
Azul: Ucrânia [e aliados]

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A tarde parecia ser calma para Alexei Navalny. Passou o dia todo com a mulher e filhos na sua casa, em Moscovo, atentos às notícias. Não se falava noutra coisa sem ser na invasão russa, nas reações internacionais, no discurso de Putin feito há nem uma hora e na queda das bolsas um pouco por todo o mundo com estas notícias.

- Olha papá, vêm aí polícias! – disse exaltada Zahar Navalny, o seu filho, abstraído de tudo o que se dizia na televisão.
- Ide brincar para os seus quartos! – disse Alexei para os seus filhos. – Yulia, fica com eles enquanto eles estiverem aqui.

A sua mulher acenou com a cabeça e levou os dois filhos para o quarto. Segundos depois, um dos polícias bate à porta. Alexei não tardou a abri-la.

- O que querem desta vez? – perguntou Alexei.
- Alexei Navalny, está preso por corrupção, lavagem de dinheiro e por deliberadamente prejudicar os interesses da Rússia e do seu povo. Por favor acompanhe-nos, tudo o que disser pode e será usado contra si em tribunal.

Yulia sai do quarto de rompante e tenta perceber o que se passava.

- Yulia, vai para dentro! – gritou Alexei. – Já sabes o que esperar do governo russo, não é nenhuma surpresa.
- O que fizeste desta vez? – perguntou a sua mulher, que seguia Alexei até ao carro.
- Nada. Agora vai, cuida dos nossos filhos, daqui a umas horas falo contigo. – disse Alexei antes de entrar no carro e seguir até à prisão mais próxima.

Lentamente, devido ao estado de choque em que estava, Yulia vai para o quarto onde deixou os seus dois filhos.

- Mamã, o que se passou com o papá para ele ser levado por um polícia? – perguntou Zahar.
- Não sei filho. – sussurrou-lhe, com lágrimas nos olhos. – Não sei.

Yulia tinha um pressentimento que desta vez seria diferente. Apesar de Alexei ter sido preso anteriormente, a situação parecia-lhe bem mais grave, não pelo que ele fez, já que Yulia sabia que ele não tinha feito nada, mas por causa de Putin, que parecia cada vez mais implacável na perseguição dos seus opositores políticos. A mulher de Alexei tinha razão... Não iria haver nenhum julgamento desta vez, muito menos uma estadia numa prisão de Moscovo com direito a visitas da família. O próximo destino de Alexei ficava na República de Mordovia e tinha o nome de FGU IK-14, um campo prisional no meio do nada, construído nos tempos da União Soviética e que já anteriormente albergou membros da banda “Pussy Riot”. 
Yulia, por outro lado, foi poupada… Putin não via qualquer valor político nela, nem nada que pudesse tremer o seu cargo no Kremlin.

*

A casa onde Bashir estava numa localização perfeita. Domont era uma localidade pacata, com pouco mais de 15 mil habitantes e não ficava muito longe de Paris (pouco mais de quarenta quilómetros), de onde Bashir podia recrutar novos membros prontos a travar as loucuras da Frente Nacional.
Dentro da sua casa apenas se viam largas plantas de edifícios governamentais, bem como a sede do partido que tanto odeia, localizado na capital francesa. Qualquer polícia que chegasse ali, nem que fosse para ver se estava tudo bem, pensaria logo que Bashir era um extremista islâmico, pronto para realizar um ataque com proporções ainda maiores ao ataque do jornal satírico “Charlie Hebdo”. Prendê-lo-iam logo de imediato… No entanto, este também era cauteloso. Antes de sair para visitar alguém, escondia tudo num cofre que guardava por baixo do chão do seu quarto.
Depois de uma penosa viagem de uma hora desde da prisão de La Santé até Domont, Ahmed fechou-se num quarto que lhe foi disponibilizado por Bashir. Manteve-se lá até de noite, a chorar por aquilo que parecia ter sido a morte dos seus pais. Bashir também não o incomodou, ele próprio não queria falar com ninguém quando viu os seus pais morrerem na Síria, nas primeiras manifestações contra o regime de Bashar Al-Assad. 
Pouco passavam das vinte horas quando Ahmed decidiu finalmente sair do quarto. Notava-se de longe a enormes olheiras que este tinha, depois de horas a chorar. O aspeto era também semelhante a alguém que passara horas a fio a beber e que agora mal podia estar de pé. Bashir, sentado numa cadeira de madeira, vira a sua atenção da televisão e das plantas de edifícios para ele. Sabia que precisava de respostas, já que ele próprio estava familiarizado com a situação.

- Porquê? – perguntou Ahmed. – O que é que nós lhes fizemos para tamanha violência?
- Antes de 1933, os alemães eram considerados como um povo amigável, aberto a qualquer raça e religião. Dez anos depois, as raças e religiões minoritárias estavam fechadas em campos de concentração. Parece que os franceses se esqueceram de tudo isso e estão agora a repetir a história.
- Assim, tão facilmente? Como é que é possível?
- Às vezes, tudo o que é preciso é um bom orador. Principalmente agora, em que vivemos tempos complicados na Europa. A Rússia acaba de declarar guerra à Ucrânia, na Grécia o Syriza ameaça não pagar o resto das dívidas, aqui, pronto, já sabemos o que se passa e por aí em diante. Nada que não saibas, presumo…
- Bashir, como é que sabias?
- Do quê? Daquilo da prisão?
- Sim.
- Eu cheguei à França em 2011, longe de pensar que iria ter uma vida quase tão atribulada como a que tinha na Síria. Assim que a Frente Nacional chegou ao poder, eu já sabia que não ia tardar muito até ele virem com aquelas políticas nazis. Desde que sejam apoiados pelo povo francês eles estão a lixar-se para nós e é por isso que criei uma “Irmandade Síria” para nos proteger. Tenho contactos de vários refugiados um pouco por toda a França que me vão dizendo o que se passa nas prisões. Os teus pais não serão os primeiros, muito menos os últimos, que vão ser mortos por polícias. Basta um deles vir com a desculpa de legítima defesa e os outros todos confirmarem essa teoria que eles têm luz verde para matar qualquer refugiado
- E como é que os polícias não notam em ti?
- Com o tempo eu aprendi a manter-me fora dos holofotes. É por isso que vivo aqui e me dou ao trabalho de percorrer centenas de quilómetros numa semana para ir e vir de Paris. Se estivesses apenas meio metro mais à frente, eu não poderia ter-te salvado e aí o destino dos teus pais seria partilhado pelo ti. 
- Talvez não era…
- Nunca digas isso! – interrompeu-o com veemência. – Nós chegámos da Síria, marcados por uma Guerra Civil que nunca nenhum ocidental irá compreender. Perdemos pais, mães, tios, amigos, uma parte de nós foi arrancada por causa das vontades de um tirano se manter no poder. Nem eu, nem tu, nem nenhum refugiado vindo seja de que país for merece ser expulso agora da França, depois de já termos perdido tudo na Síria! Mas podemos alterar o rumo de tudo isto, ou pelo menos fazer parte dele. Junta-te a nós, irmão! Como me treinaram a mim, a ti te irei treinar. Vais lidar com a morte de muitos outros que poderás vir a gostar, pois o caminho é longo e cheio de obstáculos, mas Alá guiar-te-á, assim como Ele guia-nos a todos nesta jornada contra os fascistas instalados na capital. Aceitas?
- Sim… – respondeu-lhe depois de ter estado calado, a pensar na sua decisão, por uns segundos.
- Ótimo! Bem-vindo, irmão. Allahu akbar. 1
Allahu akbar!
- Vês como é fácil persuadir alguém a fazer algo que antes nunca pensou fazer? – disse Bashir, rindo-se de seguida. Ahmed também se riu. Afinal ainda não tinha perdido tudo. 

1: "Deus é Grande" em árabe.

*

Ainda nem 23 horas eram e Mikhail já estava deitado na cama com a sua mulher. O dia 22 de Dezembro de 2015 ia ficar na memória do atual vice primeiro-ministro russo como provavelmente um dos dias mais cansativos da sua vida. Passou todo o dia a receber telefonemas, fazer relatórios, ouvir anúncios, já para nem falar da imprensa a vigiar as entradas e saídas do Kremlin. Mal jantou, tal era o cansaço em que estava e o pior de tudo é que sabia que o dia de amanhã, bem como o dia depois de amanhã e o dia a seguir a esse seria exatamente igual ao dia 22 de Dezembro.
A sua mulher, Alexandra, uma contabilista no banco estatal “Sberbank”, também de cabelos loiros e olhos azuis tal como o marido, aproveitou este momento a sós para falar sobre o futuro desta decisão de invadir a Ucrânia, decisão essa que Mikhail não contou nem à própria mulher até ao derradeiro dia, o dia da invasão.

- E agora? – perguntou ela, deitada na cama, a olhar para o teto.
- Agora o quê?
- Agora que estamos em guerra… Eu e as tuas filhas devemos ficar preocupadas?
- Sabes quantas vezes me perguntaram isso hoje? – riu-se.
- É normal, Mikhail. Algo inédito aconteceu hoje, algo que o todo o mundo não estava preparado para ouvir, nem mesmo nós.
- Quando invadimos a Geórgia também não houve problemas. Não vejo grande motivo para tanto alarido.
- Não poderás comparar a Geórgia e a Ucrânia. Nem mesmo a atitude dos países ocidentais! – frisou. – Vocês podem ter começado uma nova guerra mundial.
- Assim como pode não acontecer nada. Há muitas hipóteses para saber o que vai acontecer amanhã, seria como jogar na lotaria. Até nada se confirmar estamos apenas numa guerra com a Ucrânia. Se os Estados Unidos ou algum país da União Europeia declarar-nos guerra, então aí pensaremos como abordá-los.

Alexandra suspirou e um breve silêncio irrompeu-se pelo quarto nos instantes seguintes.

- Mikhail?
- Diz…
- E caso isto se estender por muito tempo? Ficaremos seguros aqui em casa?
- Não te preocupes, Alexandra. Eu usarei o meu cargo político e todos os seus benefícios sem pensar duas vezes para manter segura a minha família, nem que para isso tenha de sacrificar a minha vida.
- E os outros? Aqueles que não podem usar cargos políticos para se protegerem?
- Os outros também se irão sacrificar para protegerem aqueles que mais amam. É certo que uns se protegem de maneira mais eficiente que outros e uns têm maiores recursos para se protegerem que outros, mas é assim mesmo que o mundo funciona.
- Sim, é verdade… - disse melancolicamente Alexandra.
- Vá, não penses nisso agora. Longos dias virão, ainda mais longos que este. No entanto, tenho a certeza que iremos estar preparados para tudo quando esses longos dias chegarem. Pensa apenas que tudo vai correr bem. – disse Mikhail, beijando a sua mulher de seguida.

 

*

Depois de jantarem, Filipp e Ivan foram até à discoteca gay mais popular de Moscovo, o “Central Station”. Hoje estavam particularmente felizes, pois acreditavam que a invasão russa à Ucrânia pudesse, de certa forma, acabar com a tirania homofóbica de Vladimir Putin. Apesar de saberem que era preciso um longo caminho a percorrer para convencerem a larga maioria da população russa de que a homossexualidade não era nenhuma doença, o fim deste governo podia permitir pelo menos uma pequena abertura a este tema cada vez mais restrita.

- Vamos para casa! – gritou Filipp aos ouvidos do seu namorado.
- Porquê? O ambiente está ótimo aqui!
- Claro que está ótimo, já deves ter bebido pelo menos meia garrafa de vodka!
- Por favor, não sejas tão restritivo! A Rússia invadiu a Ucrânia, acho que isso é um motivo de celebração! – gritou Ivan, segurando depois nos braços de Filipp para dançarem.
- Nada te garante que a nossa vida vai ficar melhor com isto! Vá, anda para casa, daqui a umas horas não te levantas e depois quem te atura sou eu!
- Eu compenso-te na cama, se isso te anima! – riu-se.
- Eu não quero a tua pila, pelo menos para já! Vamos para casa, a sério! – quase que suplicou Filipp, notoriamente cansado.
- Pronto, está bem! Começo a pensar que só ficas maluco quando o Isaak aparece aqui!
- Não sejas parvo!

Quando se preparavam para ir embora, um grupo de polícias entrou pela discoteca, com armas militares na mão. O DJ presente rapidamente parou a música e o clima que antes era festivo passou a ser de ansiedade e medo.

- Por ordem do governo russo e como parte da sua mais recente operação interna e externa, todos os indivíduos aqui presentes estão presos e o estabelecimento será encerrado a partir deste instante. Por favor, acompanhem-nos ordeiramente até às carrinhas policiais estacionadas fora da discoteca. Caso alguém se arme em engraçadinho por aqui e tente escapar ou causar algum dano, aviso desde já que temos ordem para matar seja quem for.
- Mas a constituição diz que a homossexualidade é legal na Rússia! – gritou alguém no meio da multidão.
- É verdade! Ou pelo menos era! Parece que, felizmente, a situação mudou por aqui. – troçou um dos polícias.

Nem Filipp, nem Ivan, nem nenhum gay na Rússia tinha quaisquer razões para festejar. Eles podiam saber da invasão na Ucrânia, mas o que eles não sabiam é que a homossexualidade passou a ser ilegal após uma alteração na constituição, promovida por Mikhail e apoiada pelo governo russo, planeada ainda antes da invasão russa e em efeito a partir do dia 22. O destino desta discoteca foi partilhado por muitas outras pelo país e a todos os homossexuais, ainda sem sequer perceberem o que se estava a passar, só lhes restava esperarem até que um autocarro ou um comboio prisional os levasse até uma das inúmeras prisões do país, algumas em locais tão longínquos como a tão temida Sibéria.

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Pouco passavam das sete horas da manhã quando Filipp e Ivan chegaram à prisão FGU IK-14, a mesma que recebera Alexei Navalny horas antes. Eram o terceiro grupo de prisioneiros homossexuais a chegar à prisão e esperava-se que nas horas seguintes pelo menos mais dois grupos, cada um com cerca de 50 pessoas, chegassem à prisão. 
Putin fora alertado para a enorme sobrecarga que as prisões iriam ter com a chegada de vários grupos de homossexuais vindos das mais diversas discotecas e paradas do país, com os opositores políticos e com aqueles que defendiam ideias “impróprias” ao regime do presidente russo. Para os ir “eliminando” aos poucos até que a situação pudesse estar controlada, Putin ordenou que colocassem o maior número de pessoas possível dentro de uma cela para causar desconforto entre os prisioneiros. Aqueles que protestassem em demasia seriam mortos por desacato às autoridades, permitindo assim um maior alívio de recursos de uma prisão. O presidente russo também anunciou que iria disponibilizar 7500 soldados para as várias prisões do país, bem como armamento militar. E estava a resultar… Passadas mais de 24 horas desde do início da operação, cerca de 100 dos mais de 20000 recém-prisioneiros já tinham sido abatidos.
Filipp e Ivan foram sortudos, ficaram numa cela relativamente vazia. Nem um, nem outro pensariam em ter uma noite tão longa como esta. Meia hora após terem saído da discoteca, foram escolhidos aleatoriamente para irem para várias prisões do país. O objetivo era colocarem-nos o mais longe possível de casa, mediante a disponibilização e capacidade da prisão que os iam receber, para poderem ficar o mais desconectado possível das pessoas que conhecem. Assim que chegaram e viram a paisagem em seu redor houve uma sensação de alívio de ambas as partes, já que pelo menos não era a Sibéria, que certamente ia acolher uma parte dos amigos que conheciam.

- Diz-me que pelo menos nos dão algo para comer, estou a morrer de fome! – disse Ivan.
- Pensa que não tens fome, vai ser melhor para ti. – respondeu-lhe o namorado, com um tom de voz baixo, ainda chocado da noite atribulada.
- Filipp, porquê é que eu cada vez que fecho os olhos e penso nas razões de estar aqui não consigo encontrar nenhum motivo? – balbuciou, começando a chorar descontroladamente de seguida. – Eu tento, juro que tenho! Penso que estou a sonhar, chego mesmo a beliscar a minha própria pele, mas por muito mal que faço a mim mesmo eu não consigo chegar àquela justificação que me permita responder por que razão eu estou numa prisão, no meio sabe-se lá de onde, longe dos meus pais, dos meus amigos, de tudo o que eu conheço! Durante a minha vida nunca me questionei se eu tinha algum problema, mas agora pergunto-me o que terei feito mal na minha vida para merecer isto?!

Filipp, também ele a chorar, abraçou fortemente o namorado, como forma de o consolar.

- Estás a ver? É isto que as pessoas do Kremlin querem que tu penses! Eles querem que tu penses que não tens valor, mas tu tens valor! – disse Filipp, que deixa de abraçar o namorado para colocar-lhe ambas as mãos nos respetivos lados da face do namorado. – És a melhor pessoa que eu conheci em toda a minha vida e nunca irei permitir que ninguém tire a personalidade que há dentro de ti apenas por causa da tua orientação, entendes?
- Eu não entendo, simplesmente não entendo…
- Ninguém entende, a partir agora temos de viver cada dia de uma só vez. Quiçá esta loucura pare daqui a uns dias, ou uns meses, ou até mesmo uns anos… A nós cabe-nos apenas esperar.

*

Todo o mundo estava de olhos postos na cimeira extraordinária da NATO em Bruxelas, que irá reunir todos os seus membros. 
À medida que as horas iam passando, os russos avançavam cada vez mais na Ucrânia. No dia 23, as cidades de Donetsk e Lugansk estavam quase totalmente em controlo do exército russo. Para piorar ainda a situação, as linhas de defesa da Crimeia colapsaram e os russos tinham agora o caminho praticamente desimpedido para tomar Odesa, a última grande cidade costeira ucraniana ainda em controlo total do governo. À medida que os principais membros da NATO se sentavam em Bruxelas, os poucos soldados que combatiam em Mariupol e Berdiansk estavam prestes a render-se e mais acima, no nordeste ucraniano, para além de já controlar a toda a província da Kharkiv e Sumy, o exército russo estava a menos de 10 quilómetros da cidade de Chernihiv, a cerca de 150 quilómetros da capital ucraniana. Seria uma questão de dias até a Rússia controlar todo o território para lá do rio Dnieper e toda linha costeira ucraniana.

- A nossa situação é crítica! – disse Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia. – Ou uma ajuda imediata é tomada ou a Ucrânia é anexada pelos russos!
- Senhor Poroshenko, quanto tempo falta até os russos estarem perto de Kiev? – perguntou Barack Obama, calmamente.
- Provavelmente pouco mais de uma semana, se formos sortudos. Estamos a ser engolidos pela Rússia em duas grandes frentes: a sul, onde os russos tentam tomar Odesa e ao longo da fronteira com a Rússia, onde as províncias de Kharkiv, Sumy, Donetsk e Lugansk estão praticamente em controlo total do governo russo. É uma questão de horas até unirem as duas frentes e rumarem a Kiev. De realçar também que, segundo as nossas previsões, estamos em desvantagem de 1 para 5 homens.
- Como podem ver a situação é crítica. – disse o general dinamarquês Knud Bartels, presidente do Comité Militar da NATO e responsável pelas operações militares da organização. – Na minha sincera opinião, está na altura de intervirmos. Esta fantochada na Ucrânia já se prolonga há demasiado tempo.
- Precisamos primeiro de estar prontos para intervir, senhor Bartels! – disse a chanceler alemã, Angela Merkel. – Não podemos simplesmente chegar lá com um monte de rapazes e esperar que os russos recuem. Especialmente agora que eles trouxeram o equipamento militar todo.
- E o que pensa então fazer? – disse Poroshenko.
- A situação no início de 2015 não se vai repetir. Não vai haver uma vitória rápida, pelo contrário, estaríamos a criar uma nova guerra mundial! Sugiro congelarmos todas as contas bancárias de indivíduos russos a trabalhar no governo de Vladimir Putin e apertarmos o embargo ainda mais até termos a situação militar pronta para uma intervenção na Ucrânia. – afirmou a chanceler.
- Os embargos não nos levam a lado nenhum, pelo contrário! – disse Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego. – Não vou sacrificar ainda mais a economia da Grécia apenas por causa de uma organização. Se o Putin quiser a Ucrânia, problema dele!
- E assim estaria em completo desacordo com a NATO e com os valores desta organização! – disse Knud Bartels.
- Relembro-lhe, senhor Bartels, que a França era um membro bem mais valioso que nós e no entanto, assim que a Le Pen entrou no poder, o país saiu da União Europeia e da NATO num piscar de olhos. O que nos impede de fazer o mesmo?
- Por favor, esta não é a altura ideal para esse tipo de discussões! – quase que gritou o presidente ucraniano. – Relembro a urgência de uma intervenção militar no nosso país! A altura dos embargos acabou! Se o Putin vencer na Ucrânia, quem vos garante que ele não corta o acesso ao petróleo para poder conquistar mais território europeu?
- Duvido que isso aconteça, até porque a Rússia tem uma economia frágil, totalmente dependente do petróleo. – respondeu o presidente dos Estados Unidos da América.
- O Japão também a tinha e não foi isso que os conteve quando bombardearam Pearl Harbor. – apressou-se em contra-argumentar o presidente ucraniano.
- Relembro-me agora da Operação Impensável, criada por Winston Churchill. – disse o primeiro-ministro britânico. – Neste momento, é impossível atuar contra a Rússia. Seria preciso mobilizar homens e enviá-los aos poucos para Ucrânia, onde só iriam acabar mortos. Mas, e se nós atuarmos após eles terem conquistado a Ucrânia? Haverá menos equipamento, os soldados russos presentes serão apanhados desprevenidos e só aí será mais fácil coordenar uma incursão terrestre a partir da Roménia ou até mesmo da Geórgia, se ambos os países aceitarem.

 

Um pequeno silêncio irrompeu pela sala. Os vários líderes europeus olhavam para os respetivos assessores e também para outros líderes como que a pedir com os olhos uma segunda opinião sobre o assunto.

- Senhor Poroshenko, está disposto a sacrificar a sua nação por isto? – perguntou Matteo Renzi, o primeiro-ministro da Itália.
- Eu fiz um juramento para os cidadãos ucranianos, prometendo que os iria proteger de tudo. Se a decisão deste Conselho for a de intervir após esta guerra, então iremos lutar sozinhos até ao último homem, nem que esse último homem seja eu. – respondeu Poroshenko, bastante fragilizado. – Meus senhores, a minha presença aqui está terminada, tenho uma guerra para lidar.

Poroshenko sai da sala, quase em lágrimas. Sabia agora que não ia obter apoio do Ocidente quando mais precisava e que o país estava condenado. Para ele, só lhe restava agora esperar por dois cenários: um milagre ou um russo a entregar-lhe as condições de rendição.

- Quanto tempo planeia esperar, senhor Cameron? – perguntou Barack Obama.
- Pode levar dias, semanas ou até mesmo meses. A próxima jogada de Putin é incerta, o panorama político mudou imenso em 2015. – respondeu o seu homólogo britânico.
- Mas não vamos ficar à espera que a Rússia invada um de nós, pois não, senhor Cameron?! – gritou o primeiro-ministro da Lituânia, levantando-se da cadeira, um sinal claro da preocupação deste em estar tão próximo da Rússia e ser um potencial alvo. – Seria como brincar ao jogo do rato e do gato, e acredite que somos certamente o rato, não o gato!
- Começar uma Guerra Mundial nunca é fácil! – respondeu-lhe. – Os nossos homens não são de ferro para chegarem a um terreno que desconhecem e pensar que fazem tudo! Os russos estão bem preparados e prontos para repelir qualquer incursão no território ucraniano. Invadir agora é uma parvoíce, seria como começar o Dia D em 1940, por exemplo. Se isso significa a Rússia ganhar mais terreno, bem, infelizmente existirão sempre males necessários numa guerra, é inevitável fugir deles.

A reunião demorou a tarde toda… O plano do primeiro-ministro britânico foi aceite, apesar de ser notória a divisão entre aqueles que defendiam uma intervenção imediata e aqueles que apoiavam a decisão de Cameron em esperar o tempo necessário até que a Rússia pense que a poeira assentou. Numa breve votação, dos 27 países da NATO, sete países – os três países bálticos, a Polónia, a Dinamarca, os Estados Unidos e a Noruega – votaram contra a decisão de esperar mais tempo. Os restantes países acabaram por votar a favor – apesar dos representantes da Grécia e da Turquia terem dito que não iam entrar numa ação militar contra a Rússia – e foi agendada uma nova reunião para discutirem mais pormenores acerca desta operação, bem como exercícios militares conjuntos a serem realizados em Janeiro de 2016, na Polónia.

*

Putin rejubilava no Kremlin ao ouvir aquilo que Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO e também presente na reunião, disse na conferência de imprensa dada cerca de uma hora após o termo da reunião. Não iria haver invasão para já, apenas mais sanções económicas e congelamento de contas bancárias.
A reação russa contrastava claramente com a reação do Ocidente. Na Ucrânia, os soldados leais a Kiev começaram a desertar, pois sabiam agora que a luta estava perdida. Já os cidadãos ucranianos, aqueles que entre Novembro de 2013 e Fevereiro de 2014, protestaram em massa e puseram termo ao mandato de Viktor Yanukovych, começavam a desesperar à medida que sabiam que a independência do país desvanecia aos poucos. Do outro lado do Atlântico, o Partido Republicano lamentou a falta de ação da NATO numa “questão importantíssima” e culpou sobretudo o presidente Barack Obama por não ter conseguido prevenir esta situação. Nas várias redes sociais, milhares de pessoas de todo o mundo lamentavam também o facto da reunião extraordinário da NATO, vista por muitos esperançosos como o ponto final à agressão russa aos seus países vizinhos, ter sido infrutífera.

- Parabéns, senhor Presidente! – disse Mikhail quando entrou no gabinete de Putin, com um enorme sorriso na cara. – Como é que consegue ser tão sortudo?

Putin riu-se.

- Não sei. Não sei mesmo se o Ocidente está vendado ou é simplesmente idiota!
- Mesmo assim, não podemos descansar totalmente, muito menos fechar os olhos.
- Sim, obviamente. – disse Putin, à medida que ia buscar dois copos de whisky para celebrar. – Assim que lidar com a Ucrânia, vou causar um pouco mais de pânico no Ocidente.
- E como pensas fazer isso?
- Vou começar por bloquear a venda de petróleo aos países da NATO. Já marquei várias reuniões com inúmeros representantes de países um pouco pela América do Sul e Ásia, portanto na altura em que o bloqueio se tornar efetivo, a nossa economia não sairá assim tão afetada quanto isso. Mas, para além disso, há duas reuniões que me dão um grande interesse.
- Deixa-me adivinhar, vais falar com a Marine Le Pen?
- Exatamente Mikhail. Com a França a tender do nosso lado, os Estados Unidos e os seus fantoches vão pensar duas vezes antes de nos atacarem, porque assim estão a combater em duas frentes. Mas não é algo que nos preocupe, principalmente agora que acabaram de dizer que não nos vão atacar para já. Ainda mais importante que a reunião com a França está a reunião com o presidente da Bielorrússia.
- Não me lembro de me teres falado na Bielorrússia na última reunião que tivemos. O que tem o país assim de tão especial?
- Agora desiludiste-me, Mikhail. Eu aposto que sabes perfeitamente o que eu quero da Bielorrússia.
- A anexação do país?
- Vês como sabes! Não te esqueças que o sangue russo também corre por lá e ainda bate bem forte. – disse Putin com um sorriso cínico, à medida que brinda a decisão do Ocidente com Mikhail. 

 

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A capital ucraniana começava o ano de 2016 ao som de tiros de artilharia vindos dos russos. Apesar da força monstruosa dos ucranianos em atrasar o avanço russo, os exércitos de Putin conseguiram conquistar tudo a leste do rio Dnieper e cortar o acesso à Ucrânia pelo mar nos últimos dias.
Os países ocidentais aconselharam Petro Poroshenko e o seu governo a mudarem-se para Lviv, a última grande cidade intocada pelos russos, não muito longe da fronteira com a Polónia, como uma “demonstração” de que a Ucrânia iria lutar até ao fim. No entanto, este recusou. Ou iria ver uma vitória milagrosa em Kiev, onde os seus soldados estão em inferioridade numérica de 5 para 1, ou iria morrer, juntamente com o seu país, em Kiev.
Do lado russo, Boris e Igor preparavam-se para mais um dia de ferozes combates. Ao longo de treze dias, o batalhão onde estes dois jovens estavam inseridos já passou por Lugansk, Donetsk, Dnipropetrovsk, Poltava e agora Kiev. A sorte estava do lado dos dois… Até agora, apenas foram feridos ligeiramente em Poltava e a resistência que encontravam não era muita em relação a outros batalhões como o da Crimeia, que sofreu várias baixas para tomar Odesa.

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- Por favor, prestem atenção! – disse o coronel Nikolay, enquanto os soldados tomavam o pequeno-almoço num local improvisado. – À nossa frente encontramos Kiev, o bastião da Ucrânia e provavelmente a última grande cidade que teremos de conquistar até os nossos objetivos estarem concluídos. Perdemos soldados pelo caminho, mas vamos certificar-nos que o esforço deles e o nosso também não foi em vão, pois hoje começa o acordar do gigante e vamos certificar-nos que o nosso rugido tem percussões por todo o mundo!

Os soldados levantam-se das cadeiras e gritam “Rússia! Rússia! Rússia!”. Assim que se silenciam, o coronel Nikolay anuncia os planos para os próximos dias: conquistar o que falta do raion (distrito) de Desna, onde apenas uma pequena porção de soldados ucranianos permaneciam, e expulsar os restantes soldados ucranianos dos raions de Dniprovskyi e Darnytsia, onde uma considerável parte destes territórios ainda permanecia nas mãos do governo de Kiev, antes de um exército vindo do outro lado do Dnieper penetrasse pelas forças ucranianas no raion de Holosiiv, obrigando assim a que os soldados ucranianos lutassem em duas frentes.

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Para já, Boris e Igor, juntamente com uma parte do seu batalhão, ficaram encarregados de conquistar Lisovyi masyv, um bairro no distrito de Desna. O foco de atenções estava virado para a Universidade Nacional de Comércio e Economia, onde os soldados ucranianos passaram a utilizar o edifício como um forte. Normalmente a Força Aérea Russa simplesmente bombardearia a universidade, mas esta concentrava-se sobretudo nas redondezas de Kiev, onde os combates eram mais ferozes. Além disso, segundo informações recebidas, dentro do recinto estão um número elevado de armas e que, se apanhadas intactas e prontas a utilizar, seriam ótimos espólios para os russos.
Assim que receberam as ordens, uma parte do batalhão de Boris e Igor dirigem-se para lá de jipe, chegando em pouco mais de 15 minutos…

*

A universidade está rodeada por três ruas, uma mais larga que as restantes e de onde se encontra a entrada principal. Um grupo de 15 soldados, incluindo Boris e Igor, encontravam-se aí e tinham a tarefa mais difícil. Os restantes soldados agrupavam-se principalmente do lado esquerdo da universidade, onde se encontrava o parque de estacionamentos e podia abrir-se uma brecha pelo lado traseiro da universidade. Os do lado direito serviam principalmente para distrair os soldados ucranianos e obrigá-los-ia a lutar nos três lados da universidade… Assim que os do lado esquerdo e frontal limpassem o primeiro piso, os do lado direito iriam sobretudo limpar qualquer mina ou obstáculo colocado no campo de futebol e arredores, para que os tanques e snipers tivessem o caminho impedido para dispararem com maior exatidão.
Mal chegaram às imediações da universidade, o batalhão foi recebido com disparos de armas semiautomáticas, vindos de várias janelas da universidade. Um dos cinco tanques que o coronel Nikolay disponibilizou para ajudar os soldados em situações mais difíceis, rapidamente disparou para o local, criando um enorme buraco na parede frontal do edifício.

- Ok, altura de avançarmos pela porta principal! – gritou Boris, dirigindo a cara para outro soldado do seu grupo no instante a seguir. – Diz aos grupos que avançam por ambos os lados para criarem uma manobra de distração que faça com que os ucranianos tenham de mandar reforços nas alas. Assim que entrarmos, o grupo que avança pelo lado esquerdo deve entrar pela porta traseira da universidade, entendido? Agora vai, despacha-te em transmitir a informação!

O soldado rapidamente transmite a informação por ambos os lados, através do rádio que tinham. Os dois grupos laterais rapidamente começam a disparar mais intensamente, levando a um reforço dos soldados ucranianos nas alas, tal como Boris tinha previsto. Este avisa Igor e o resto do seu grupo e de imediato avançam pela porta principal da universidade.
Assim que entraram, os soldados ucranianos, apanhados de surpresa, começam a disparar aleatoriamente. No entanto, o grupo de Boris e Igor rapidamente utiliza as paredes da entrada da universidade como defesa e consegue neutralizar alguns soldados ucranianos. À medida que se recompunham, o grupo que avançava pelo lado esquerdo entra pelas portas traseiras, conseguindo também neutralizar os soldados. O grupo do lado direito também fez tudo conforme planeado e em pouco tempo, todo o exterior da universidade estava livre de obstáculos e todo o primeiro térreo da universidade estava livre de soldados ucranianos.
Os combates prosseguiam e finalmente o grupo de Boris e Igor chegou ao local onde lhes tinham indicado que estavam armazenadas as armas – uma biblioteca que ocupava grande parte do lado direito do segundo piso da universidade.

- Chegámos! – gritou Boris.
- Tens a certeza que estamos no sítio certo? – perguntou Igor, à medida que olhava para a biblioteca e não encontrava lá nenhum tipo de armas ou equipamento militar.
- Sim, supostamente estamos no local certo. – respondeu-lhe.
- Não achas que os ucranianos tenham levado as armas que aqui guardavam para nos fazer perder tempo?
- Parece-me improvável. Afinal de contas não estariam aqui tantos soldados quanto isto. – respondeu-lhe Boris, antes de se dirigir para o homem do seu grupo que comunicava com os outros grupos através do aparelho que possuíam. – Comunica com os restantes grupos para procurarem as armas, eu não vou sair daqui de mãos vazias!
- Boris, os outros grupos também não encontraram nada. – disse o homem, após ter comunicado com o grupo.
- Então por que razão estiveram mais de 50 ucranianos a defender isto? E pior, porquê é que o coronel nos mandou para aqui? – perguntou Boris.
- Ele disse que a informação que recebeu é de uma fonte segura. Não me parece que ele tenha mentido. E mesmo que tivesse o ganhava com isso? A morte dos seus próprios soldados? – respondeu Igor.
- Igor, não existem fontes seguras durante uma guerra… – disse-lhe Boris, colocando a mão esquerda no ombro do amigo.

Subitamente, um soldado que olhava para a janela grita para todos os que estavam na biblioteca.

- É uma emboscada! – gritou.
- Baixem-se! – gritou Boris de imediato.

Poucos segundos depois, o disparo de um tanque penetrava as paredes da biblioteca, deixando todos os do grupo mortos ou inconscientes, rodeados pelo fogo e pelos destroços criados pelo disparo.

*

Em Berlim, a chanceler alemã encontrava-se há quase uma hora a conversar com Barack Obama sobre a situação cada vez mais crítica na Ucrânia.
Angela Merkel não se esquece daquilo que foi dito na reunião da NATO em dezembro e sabe que é inevitável tentar parar a Rússia ou uma nova guerra mundial de se formar. A questão deixara de ser “será possível evitar uma nova guerra mundial” em Berlim, Washington, Londres ou Paris, mas sim “quando uma nova guerra mundial irá começar”. Quer os líderes políticos, quer os cidadãos sabiam disso mesmo e já se preparavam para que as bombas começassem a cair por todo o mundo…

- Há um ano atrás, Herr Obama, o continente europeu ficou todo expectante com a vitória do Syriza nas eleições gregas. – disse Merkel. – Pensavam que a Europa ia mudar, que a minha perspetiva ia mudar, que íamos ser derrotados. Tal foi o espanto do Herr Tsipras e de todos os gregos quando se aperceberam que os países europeus não iam jogar no jogo de não pagar as suas próprias dívidas. E como um animal doente, eles ainda esperneiam, dão um ar da sua graça e atacam outros para encobrir as suas próprias fraquezas. Mas no final, aqui estou eu, longe de ter rivalidades com o meu próprio partido e de ter o meu povo a olhar-me com desprezo por ter quebrado todos os sonhos que ganharam durante as eleições.
- E onde que chegar com isso? – perguntou Obama.
- Esperar é normalmente a melhor jogada de ataque um país pode ter. Imagine se agora lançássemos todo o poderio da Rússia sobre nós. Seríamos arrasados, os nossos cidadãos iriam passar frio no Inverno e isso seria um custo demasiado alto para começar uma guerra.
- Mas não podemos esperar que o Putin invada meio mundo e se fique a rir. Eu tenho o Partido Republicado a encostar-me uma faca ao pescoço para declarar guerra à Rússia.
- O Partido Republicano pensa que a Rússia é o Iraque ou o Afeganistão, não lhes dê ouvidos e foque-se naquilo que todos estamos a fazer: treinar as nossas forças armadas enquanto esperamos por o momento ideal.
- E quando é que esse momento ideal chega? A senhora Merkel não entende que quanto mais alianças a Rússia faz, quanto mais território a Rússia conquistar, mais forte ela está, mais terreno os nossos homens terão de reconquistar e mais sangue será derramado!
- Tal como o primeiro-ministro britânico disse, podemos ter de esperar dias, meses ou anos. Para libertarem o continente europeu dos nazis foram necessários seis longos anos e muitos meses de ansiedade. Mas não se preocupe, pois as informações que recebo apontam para que a Rússia talvez queira anexar também a Bielorrússia e quem sabe todas as antigas repúblicas soviéticas à exceção dos países bálticos e do Cáucaso.  
- Não entendo. Está a dar-me mais razões para os Estados Unidos entrarem em guerra que o contrário.
- Não está a entender, não, Herr Obama. Para gerir todo esse território num espaço tão curto de tempo e para gerir o impacto que é anexar um monte de países de uma vez só, será preciso uma grande quantia de dinheiro e um monte de soldados para voltar a treinar, equipar e modernizar os novos territórios russos, algo que irá levar um bom tempo. E é nessa altura, quando eles já estão demasiado seguros de si mesmos, que atacamos e os apanhamos desprevenidos.
- Já que está assim tão informada, quando é que esse cenário pode vir a acontecer?
- A Primavera vem a caminho e com ela vem o calor. Pelo menos até Março ou Abril, dependendo do panorama nessa altura, é impossível atacarmos. Nessa altura, marcaremos uma nova reunião e aí começaremos a planear um ataque através da Geórgia, dos países Bálticos e do Alasca. Até lá, tranquilize os seus cidadãos e aqueles que dentro do Senado não estão convencidos com a sua abordagem. Dê tempo ao tempo, Herr Obama, e o tempo encarregar-se-á do resto.

*

Após ter ligado durante vários para várias prisões fora de Moscovo e ter visitado todas as que se encontravam na capital russa, Yulia Navalnaya, saiu de casa logo pela manhã para ir ao Kremlin perguntar pelo seu marido. O local para procurar respostas parece improvável à primeira vista, mas Yulia sabe que só aí poderá conseguir alguma resposta sobre o paradeiro de Alexei Navalny que, desde que foi levado pelos polícias em dezembro, nunca mais voltou a dar notícias.
Por sorte, encontrou Mikhail, que estava prestes a começar mais um dia. Para Yulia, Mikhail não lhe era uma cara estranha. Para além de ser vice primeiro-ministro, Mikhail era sempre a pessoa que estava ao lado de Putin em diversas paradas militares ou conferências do partido. Se há alguém, para além de Putin, que sabe mais sobre o paradeiro do seu marido, é ele.

- Senhor… Mikhail, estou certa? – disse Yulia, totalmente vestida de preto e com um passo apressado para tentar conversar com ele na rua.
- Eu conheço-a? – perguntou com estranheza.
- Não, mas eu conheço-o a si.
- Acho que isso é perfeitamente normal, dado o cargo que tenho. Mas deixou-me curioso, diga-me o que quer…
- No dia 22 de dezembro, o meu marido, Alexei Navalny, foi preso por estar supostamente a prejudicar os interesses da Rússia e do seu povo. Desde então, já fui a todas as prisões desta cidade, já contactei outras tantas espalhadas pelo país e não consigo saber nada do meu marido. Ora, sendo ele o maior opositor do seu amigo, eu acho que há algumas peças deste enorme puzzle que faltam.
- E o que tenho eu a ver com isso?
- Não se faça de desentendido, senhor Mikhail. Eu sei perfeitamente que você tem algo a ver com isso, assim como tem algo a ver com a invasão da Ucrânia e tudo o que se tem passado nos últimos dias.
- Lamento desapontá-la, mas não tenho nenhuma informação para si sobre o seu marido.
- Claro que não… Nem eu esperava outra coisa vindo de alguém do núcleo de amigos do senhor todo-poderoso Putin.
- Acredite, não é nada disso… – disse Mikhail, claramente incomodado com o rumo desta conversa. – Agora, se me permite, tenho que ir trabalhar. Um país e uma guerra não se gerem sozinhos.
- Claro que não… Já agora, senhor Mikhail, aproveite enquanto você se sentir incólume de tudo isto. Um dia, os grandes peixes, ainda maiores que o senhor, virão atrás de si e de todos esses sentados no Kremlin. Nesse dia, irá sentir-se como eu me sinto agora, totalmente impotentes de fazer algo para ajudar que mais gostamos. Pense nisso enquanto gere este país e esta guerra que vocês criaram. Bom dia…
- Bom dia. – disse Mikhail, amargamente.

Yulia veste as suas luvas de pele, também pretas, e vai embora. Para ela, restava-lhe continuar à procura pelo seu marido nas milhares de prisões espalhadas pela Rússia, nem que para isso tivesse de contratar profissionais para descobrirem o paradeiro de Alexei Navalny, estivesse ele vivo ou morto.

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Quase a correr, um capitão, de nome Vasiliy, procura o coronel Nikolay pelo local improvisado onde se tinham instalado as tropas russas. As notícias não podiam ser piores… Não se sabia do paradeiro de todos os soldados envolvidos na tomada da Universidade Nacional de Comércio e Economia. Sabia-se, no entanto, que tinham sido alvos de uma emboscada, que as informações de que estavam escondidas uma enorme quantidade de armas dentro do edifício eram falsas e que todos os tanques que o coronel Nikolay disponibilizou foram destruídos.

- Coronel… – disse Vasiliy, interrompendo a reunião que o coronel Nikolay estava a ter com outros homens de elevada patente do exército russo.
- É bom que seja importante, capitão Vasiliy. Como pode ver estamos a planear os movimentos do exército para os próximos dias e gostaria que não fossemos interrompidos.
- Podemos falar em privado?
- Se me dão licença… – disse o coronel, após olhar com desdém para Vasiliy por o ter interrompido.

Vasiliy e Nikolay deslocam-se para o local que servia de escritório do coronel Nikolay para conversarem sobre o sucedido.

- Diga-me então, capitão Vasiliy, o que se passou de tão importante para interromper uma reunião importante como aquela?
- As informações que recebemos da universidade são falsas, coronel.
- Impossível. – respondeu com firmeza. – Os espiões que temos ao serviço asseguram-me que viram soldados ucranianos a carregar caixas inteiras de armas para a universidade, bem como munições. Se não o fizessem o edifício não tinha escapado aos bombardeamentos que temos feito aqui.
- Eles foram alvos de um embuste, coronel. Todos os tanques que disponibilizou estão destruídos e nenhum dos soldados responde às mensagens que o quartel-general lhes tem enviado.

Nikolay silencia-se por uns momentos e começa a olhar fixamente para o mapa da cidade de Kiev.

- Coronel, nós temos um grupo de soldados a uma hora de distância. – insistiu Vasiliy. – Podemos perguntar-lhes se estão em condições de disponibilizar umas dezenas de soldados para aliviar ou resolver a situação.
- E arriscar aquilo que poderá ser um contra-ataque ucraniano em diversas frentes? Não, obrigado. Eles terão de lidar com a situação sozinhos, se é que ainda estão vivos.
- Mas coronel…
- Mas nada! – interrompeu-o. – Todo o mundo está de olhos postos em nós e eu não vou permitir que vários grupos sejam apanhados numa armadilha ucraniana! Seria uma vergonha para mim e para o meu país!
- Existem maneiras de os salvarmos sem comprometermos a linha da frente!
- E quem é você para me garantir que eles não estão mortos já?! – gritou o coronel. – Ou que a linha da frente não está já comprometida? O simples facto das informações que nos deram sobre aquelas armas ser falso é suficiente para mim para não mexer um único dedo no nosso plano de trabalhos.
- Então o que faço agora?
- Espere… Continue a tentar comunicar com eles, um grupo de meia centena de soldados não desaparece sem mais nem menos por inteiro. Daqui a cinco horas, caso não obtenha nenhuma novidade, mande bombardear a universidade. Agora se não se importa, tenho uma batalha para gerir. Com licença.

Nikolay sai do seu próprio escritório, deixando lá Vasiliy perplexo. Este não acreditava que o coronel não mexesse um único soldado, das várias centenas que tinha à disposição, para apenas averiguar o que se passou. Pior ainda, mesmo que não tivesse a total certeza do paradeiro do grupo de Boris e Igor, seria obrigado a cumprir ordens e a bombardear a universidade contra sua vontade.

*

Na capital americana, Hillary Clinton visita Barack Obama na Casa Branca para uma reunião urgente. A inação dos Estados Unidos para com o conflito na Ucrânia começava a irritar uma boa e cada vez maior parte do público americano a favor de uma intervenção, mesmo que isso lhes custasse uma guerra nuclear com a Rússia. Além disso, o Partido Republicano, claramente a favor da intervenção, usava o pretexto da guerra para capitalizar mais votos a menos de um ano das eleições presidenciais americanas.

- A Ucrânia está a viver as suas últimas horas. – disse Barack Obama assim que Hillary entrou na Sala Oval, num tom de pesar.
- Bem, era algo necessário para a estratégia que delineámos com a Alemanha, o Reino Unido e os outros países europeus, certo? Melhoras alturas virão.
- O problema é que não sabemos quando é a melhor altura. Pior, temos os republicanos prontos para fazer pressão sobre nós e principalmente sobre ti, que vais ser a minha sucessora no partido e esperemos também na Casa Branca. Eles vão aproveitar isso para ganharem mais votos, tenho a certeza. Mas, isto sou eu a divagar… O que te traz por aqui, Hillary?
- Eu estive a pensar durante a noite e, de facto, os argumentos da Rússia para atacar a Ucrânia são basicamente o facto de existir uma forte presença russa no país.
- Mal de ti se só agora percebeste isto… – troçou o presidente dos Estados Unidos.
- Que engraçadinho. – disse Hillary, esboçando um sorriso sarcástico. – Para além daquilo que combinaram nas últimas reuniões da NATO, eu acho que existe uma maneira dispersar ainda mais as tropas russas. Aliás, existe mesmo uma maneira de as fazer focar num só local no norte do Cáucaso. – continuou.
- A Chechénia, é claro! – disse Barack, entusiasmado com a ideia que Hillary acaba de lhe dar.
- Exato! Se fornecermos armas e outro tipo de equipamento militar mais pesado através da Geórgia, ou fornecermos dinheiro não só aos grupos separatistas da Chechénia, mas como a todas as regiões do norte do Cáucaso que querem ganhar independência da Rússia comprarem esse mesmo equipamento militar, não só estaremos a criar uma guerra na Rússia como ajudará a distrair o país de uma possível invasão da NATO.
- E assim tornar-se-ia muito mais fácil atacar o país em duas frentes. – completou. – É talvez a melhor ideia dos últimos meses. Vou ligar aos nossos homólogos britânicos e alemães para falar sobre isto, e talvez com o presidente da Geórgia caso optemos por enviar armas em vez de dinheiro. Marca-me também uma reunião com o Secretário da Defesa para discutirmos melhor sobre isto.

 

Barack Obama para de pensar por um pouco e abraça fortemente a sua amiga Hillary, rindo os dois pela ideia que colocaria a Rússia focada noutros assuntos, à medida que os países da NATO se preparavam para um novo conflito militar.

*

Numa rua discreta, localizada nos arredores de Moscovo, Yulia Navalnaya encontra-se com Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista da Federação Russa, o segundo maior partido do país. Após a conversa com Mikhail, Yulia pensou a noite toda em arranjar uma maneira de encontrar o seu marido. Continuar a subornar diretores de prisão de modo a tentar arranjar alguma resposta para descobrir o paradeiro de Alexei não só era uma perda de tempo como era também uma perda de dinheiro, por isso Yulia tentou aproximar-se aos partidos rivais do de Putin em busca de informações.
O Partido Comunista era o único partido em que Putin se mostrava bem mais relutante em acabar devido ao seu considerável número de apoiantes. No entanto, o presidente da Rússia tomou todas as providências em arranjar um motivo válido para banir o partido. Um passo em falso de Gennady e o destino do Partido Comunista iria ser igual ao de tantos outros, pois os seus telemóveis, computadores e qualquer outro tipo de aparelho eletrónico estava a ser vigiado ao pormenor pelos serviços secretos russos, a FSB. Se a FSB descobrisse que Gennady ou outro individuo do Comité Central do partido estivesse a comunicar com dissidentes políticos, o partido seria banido da Rússia e os seus líderes presos.

- Senhora Yulia, presumo que você saiba o quanto é perigoso eu estar aqui. – alertou Gennady, mal chegou ao destino encontrado.
- Não se preocupe, eu fui cuidadosa em arranjar este encontro e não lhe vou tirar muito do seu tempo. Aliás, vou já mesmo direta ao assunto…
- E que assunto é esse, tão importante que foi preciso enviar-me um telemóvel para podermos comunicar?
- Eu preciso que você me ajude a encontrar o meu marido, Alexei Navalny.

Gennady riu-se, de tão estapafúrdia que achou a proposta de Yulia.

- Repare que você me levou até aqui para conversar consigo com todos os cuidados, digno até de um agente secreto a trabalhar para o governo. No entanto, você pede-me que eu use a minha posição no partido para procurar um preso político por toda a Rússia.
- Se fizer com cuidado…
- Você não entende, senhora Yulia? – interrompeu-a. – Se o seu marido tivesse sido preso antes da invasão da Ucrânia, não seria assim tão difícil mexer uns cordelinhos. Se o Putin tentasse banir o meu partido, a popularidade dele descia ainda mais do que já estava. Mas agora tudo mudou. Os russos vêm esta guerra na Ucrânia como uma retaliação, nem querem mais saber se estamos em crise, se o rublo vai perdendo o seu valor ou se andam a banir partidos. Juntamos isso a leis como inconstitucionalidade da homossexualidade na Rússia e a popularidade dele disparou ao ponto em que mexer cordelinhos significa suicídio.
- Eu sei que você consegue fazer alguma coisa! – insistiu Yulia. – O meu marido é um opositor político do Putin, tal como você! Se continuarmos a pensar sempre nos riscos das nossas decisões, teremos de esperar até os americanos estarem a lutar em Moscovo para nos livrarmos do jugo do Putin e tanto eu como você sabemos que isso só acontecerá daqui a anos.
- Eu entendo perfeitamente a sua raiva para com o Putin e o seu governo, mas neste momento um passo em falso é tudo quanto basta para eu e outros camaradas que conheço terem o mesmo destino do seu marido, esteja ele vivo ou morto. Peço desculpa, mas não poderei fazer o que você me pede.

Gennady abandona o local, deixando Yulia cada vez mais desesperada. A mulher de Alexei não tinha grandes conhecimentos dentro do mundo da política. Sempre se preocupou mais em cuidar dos seus filhos, deixando a política para os encargos de Alexei. Os contactos que tinha, ou já se encontravam presos, ou tinham medo de falar. O Partido Comunista era a única grande chance dela, chance que agora deixara de existir. Voltava a ser ela e só ela à procura do paradeiro do seu marido.

*

Cinco horas passaram desde que Vasiliy informou o coronel Nikolay do que se tinha passado na universidade e até agora nenhum pedido de resgate foi feito pelo exército ucraniano, nem o próprio grupo onde se encontravam Boris e Igor tinha dado qualquer resposta. No entanto, o próprio coronel não mandara um único homem para verificar o estado daquele grupo, o que irritava profundamente Vasiliy.

- Coronel, já passaram cinco horas desde que o informei. – disse Vasiliy, após ter entrado no escritório improvisado de Nikolay.
- Eles ainda não deram qualquer resposta? – perguntou o coronel.
- Infelizmente não. – lamentou. – Mais uma vez, coronel, eu acho que é melhor você mandar uns homens verificar o estado daquele grupo. Se houvesse de facto um contra-ataque ucraniano, este já deveria ter ocorrido.
- Capitão Vasiliy, ao longo da minha carreira eu perdi vários amigos meus. E quando os perdia, também eu, na altura, insistia dessa forma na tentativa de me sentir bem comigo mesmo. No entanto, com o tempo aprendemos que, por vezes, não há nada a fazer e temos de os deixar para trás. A batalha continua e além disso, não tardará muito até termos a margem a este do rio totalmente libertada. Talvez nessa altura descobriremos o que lhes aconteceu.
- Mas nessa altura será tarde demais… – insistiu.
- E quem lhe garante que neste exato momento em que falamos, não será também tarde demais? Bem, neste momento tenho outra conversa em espera, desta vez com o nosso presidente. Mande bombardear a universidade, capitão Vasiliy. Se não o fizer você, farei isso eu mesmo e se eu o fizer, o seu currículo militar ficará para sempre manchado com uma desobediência de uma ordem de um superior seu. Boa tarde!

 

 

O coronel Nikolay sai do seu escritório, deixando o capitão Vasiliy sozinho. Este cumpre a ordem de bombardear a universidade, embora contrariado. Ao cair da noite, a Força Aérea começa os bombardeamentos da área em redor da universidade e da própria universidade, deixando o edifício em ruínas, juntamente com alguns edifícios localizados nas redondezas.
Independentemente de estarem ou não vivos, durante a noite, o coronel Nikolay faz uma homenagem, quase macabra, em memória de Boris, Igor e os restantes compatriotas do seu grupo.

*

Desde que se tornou amigo de Bashir, Ahmed tem aprendido ao longo das últimas semanas os objetivos da “Irmandade Síria”. Conheceu outros refugiados sírios, também salvos por Bashir, que o ajudaram a treinar com armas e a disparar com precisão. Bashir, que o acompanhava de perto, estava satisfeito com o progresso do seu amigo e disposto para a colocá-lo junto a ele naquele que seria o primeiro grande passo do seu grupo.
Seria na noite fria de 4 de janeiro de 2016 que Bashir iria anunciar através das redes sociais, da rádio e da televisão os propósitos do seu grupo. Para isso, necessitou da ajuda de hackers profissionais, capazes de aceder à rádio e televisão estatal do país. Decidiu utilizar uma máscara de Guy Fawkes, a mesma que o grupo Anonymous utiliza em vários protestos, em vez de um capuz, pois só assim conseguiria alertar a França dos perigos da Frente Nacional. Em vez de uma bandeira síria, Bashir também optou por uma bandeira francesa e falará na televisão e na rádio em francês, pois só assim pensarão que ele não é um extremista islâmico, o que iria aumentar ainda mais a popularidade do partido de Marine Le Pen e o seu objetivo de expulsar os refugiados que até então viam a França como um país de abrigo.

- Ahmed, tenho boas notícias para ti, meu irmão. – disse Bashir, que entrou apressado para dentro de sua casa. Junto com Ahmed estavam dois homens, os hackers que seriam responsáveis por desviar a emissão de rádio e televisão para Ahmed.
- O que se passou?
- Acedi aos ficheiros dos últimos mortos sírios pelo regime francês e encontrei o ficheiro do teu pai. Para meu espanto, os dois tiros que ouvimos atingiram o teu pai, o que quer dizer que a tua mãe está viva. Investiguei um pouco mais e ela continua na prisão de La Santé, juntamente com outros refugiados prontos para serem deportados para outros países.

Ahmed rejubila com a informação dada e rapidamente abraça Bashir, em lágrimas.

- Deixa-me fazer o anúncio, Bashir.
- Porquê? – perguntou com espanto.
- A minha mãe irá reconhecer a minha voz, tenho a certeza. Ela vai ouvir o meu apelo, o apelo de todos nós. – disse Ahmed. – E depois disto, o meu objetivo é atacar aquela prisão e libertar todos os refugiados que lá se encontram.
- Ahmed, estás a pensar de cabeça-quente. Um passo em falso e eles colocavam-te dezenas de balas na cabeça. Além disso, perdera aquele que poderá ser um membro valiosíssimo deste grupo é algo que eu não disposto a fazer.
- Eu irei fazê-lo com ou sem a tua ajuda, Bashir. – disse Ahmed com firmeza. – Mas isso é assunto para outro dia, dá-me o teu discurso. A minha mente diz-me que devo ser eu a lê-lo. – continuou.
- Se é essa a tua vontade… – diz Bashir, entregando-lhe o discurso.

 

Depois de alguns testes para se certificarem que tudo iria funcionar, Ahmed prepara-se para falar dos objetivos da “Irmandade Síria” para toda a França, especialmente para a sua mãe, que sabia que iria estar a ouvir pela prisão naquele momento e que iria ficar contente com o rumo que o seu filho tomara.

- Irmãos e irmãs, cidadãos da França, venho-vos hoje acordar deste pesadelo, em nome de uma irmandade que não olha a outras religiões como inimigos, mas olha sim como inimigo o partido encabeçado por Marine Le Pen. Fomos em tempos portadores da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre todos, mas atualmente vivemos sob um governo que quer acabar com os ideais que marcaram a história francesa durante séculos. Esse governo é a Frente Nacional, que desde do instante em que tomou posse tem vindo a expulsar todos os refugiados, um a um. Refugiados como eu e como aqueles que nos rodeiam, que confiaram na França e são agora obrigados a voltar ao inferno de onde vieram. E se refutarmos essas ordens, somos encarcerados em prisões ou mortos no local como se fôssemos roedores desnecessários. Por isso vos peço, acordai franceses! Acordai deste pesadelo e livrai-vos deste monstro que vos ilude mais a cada dia que passa!

A emissão é cortada no instante seguinte, mas o resultado deste discurso fez tremer o Eliseu. Era a primeira vez que um grupo não-governamental se declarava abertamente contra o atual regime francês e disposto a lutar para os verem fora da presidência francesa. E acima de tudo, era uma vitória para Bashir e Ahmed, que, embora soubessem que passariam a ser procurados pelo governo francês, conseguiram criar impacto e acima de tudo abrir os olhos àqueles demasiadamente iludidos com o atual partido no poder em França.

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Em Rueil-Malmaison, nos subúrbios da capital francesa, Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional, vocifera contra qualquer um que lhe apareça a frente. Depois de tanto ter lutado para ver o seu partido em primeiro lugar nas eleições presidenciais francesas, surgir um grupo fundado inteiramente para retirar a Frente Nacional do poder e ainda apelar para que outros o façam era algo que Jean-Marie não podia permitir.
Após se acalmar, Jean-Marie liga para a sua filha, Marine Le Pen. Depois de uns tempos conturbados entre os dois em 2015, em que Jean-Marie acabou mesmo por ser “suspenso” do partido que criou, a vitória surpreendente nas eleições antecipadas fez com Marine Le Pen se reaproximasse do pai, algo que agradou aos deputados e apoiantes da Frente Nacional. Agora, os dois discutem os vários problemas da sociedade francesa, desde a economia ao assunto preferido dos dois, a imigração e a tentativa de deportar esses mesmos imigrantes para os países de origem ou para países da União Europeia através de acordos.

- Por favor, prefiro que me digas que estou senil e que não acabei de ver aquela merda na televisão! – gritou Jean ao telefone.
- Claro, é claro que vi… – respondeu-lhe a filha.
- E não vais fazer nada? Um bando de delinquentes árabes conseguem desviar o sinal da televisão estatal e vamos fingir que nada aconteceu?!
- Não é preciso reagir dessa forma. Como disseste, eles não passam de um bando de delinquentes árabes.
- Delinquentes que podem ser perigosos!
- Perigosos em quê, pai? Nós ganhámos as eleições, a lei que propunha a expulsão quase total dos refugiados foi aprovada até por um ou outro partido da oposição, não há nada aqui que choque os franceses.
- Mas eles não sabem que estão a ser todos chamados e quem não se apresentar vai preso ou é morto! Não que eu seja contra, até porque como bem sabes por mim matava aqueles nojentos logo na hora, mas este é o nosso momento de glória! Um momento que, sabe Deus, poderá não vir mais. Um descuido é suficiente para sermos até banidos da política francesa.
- Não vale a pena exagerares, eles não passarão de um bando de delinquentes radicais. Quem sabe, até nos poderão ser úteis para angariar ainda mais apoio entre a população. – ironizou Marine.
- Não estou a ver como…
- É fácil. Eu já mandei a DGSI1 tentar localizar o sinal, bem como descobrir as pessoas que estão por detrás daquelas máscaras. Enquanto não sabemos, eu preparei um discurso que basicamente os associa a radicais islâmicos com alegações terroristas no nosso país, se calhar até faço uma pequena comparação com o “Charlie Hebdo” para ser mais tocante.
- E isso será suficiente para travá-los?
- Claro que sim. Os franceses elegeram-nos com um programa baseado nos refugiados e na sua expulsão. Não vão ser umas imagens de refugiados atolados numa prisão e um discurso revolucionário que me vão tirar daqui. – disse impiedosamente antes de desligar o telefone.

1 DGSI - Direction générale de la sécurité intérieure: agência de inteligência francesa que lida com contraespionagem, cibercrime e vigia de potenciais grupos terroristas.

*

Durante a madrugada, Yulia acorda os seus filhos mais cedo para se vestirem. A mulher de Alexei apercebeu-se que para encontrar o seu marido seria preciso quebrar algumas linhas vermelhas, linhas que iriam colocar os seus filhos em perigo. A única solução era levar os seus filhos para fora do país e, como tal, teve a ideia de levá-los para a casa de uma amiga que conhecia, de nome Elena, e que aceitou acolhê-los em Talin, na vizinha Estónia, a troco de dez mil rublos.

- Têm os passaportes com vocês? – disse Yulia, antes de sair do carro, localizado perto de um terminal no aeroporto.
- Sim! – responderam os dois ao mesmo tempo.

Já dentro do aeroporto, uma outra amiga, responsável por levar os dois filhos para a Estónia, reúne-se com os três.

- Esta é a Alina, uma colega do vosso pai que vos vai levar até Talin. Vocês têm de obedecer a tudo o que ela disser pelo caminho, caso contrário a mãe vai ficar muito zangada. – disse Yulia para os dois.
- Mãe… – disse Zahar, notavelmente melancólico com a ida para uma realidade que desconhecia até então. – Por que temos de ir embora? É por causa do pai estar preso?
- Filho... – suspirou ela. – Por vezes, para irmos atrás dos nossos objetivos, precisamos de deixar aqueles que mais gostamos para trás. Só assim os vamos conseguir proteger totalmente e neste momento, a única forma de vos manter protegidos é fora daqui.
- Por quanto tempo é que vamos ficar na casa da tua amiga?
- Em breve, filho, em breve…

Nos últimos momentos antes do embarque, Yulia deu um último beijo aos seus dois filhos. Caso a sua missão não seja bem-sucedida, resultando quase de certeza na morte quer de Yulia, quer de Alexei, os seus filhos deveriam manter-se a cargo de Elena e acima de tudo, relembrarem-se que os seus pais fizeram de tudo para os proteger de qualquer repercussão política vinda do governo de Putin.
Após embarcarem, e à medida que o avião levantava rumo a Talin, Yulia sentou-se e olhava pela janela, vendo os seus filhos, a quem tanta dedicação entregara, saírem-lhe de vista. Lágrimas iriam correr-lhe livremente pelo rosto ao longo de toda a gélida noite…

*

Numa base improvisada localizada por baixo do solo, não muito longe do centro de Kiev, Boris era guardado por um soldado ucraniano, de cabelo rapado que aparentava ser loiro e de olhos claros como água, cuja idade não diferia muito da do russo. As feridas de Boris eram notórias: alguns ossos partidos, incluindo algumas costelas, bem como a perna e o braço direito. Além disso, vários estilhaços de vidro – alguns pequenos, outros de tamanho considerável – penetraram-lhe o corpo após o disparo do tanque, causando uma hemorragia.
Ao contrário da maior parte dos seus colegas, que, ou morreram instantaneamente, ou mantiveram-se inconscientes durante mais tempo, Boris ainda conseguir resistir até os soldados ucranianos o cercarem completamente. Vendo que não tinha outra solução, Boris entregou as armas e rendeu-se. Segundos depois, desmaia devido à perda de sangue e é levado pelo exército ucraniano, juntamente com os poucos soldados que não estavam inconscientes ou mortos.

- Altura de acordar. – disse rudemente um soldado ucraniano, após lhe atirar com um copo de água para a cara. – O tempo escasseia… – acrescentou.
- Vai para o inferno. – respondeu-lhe um Boris combalido, deitado numa maca improvisada feita de madeira, ainda a perceber onde estava, com quem estava e o que se tinha passado durante as longas horas em que esteve inconsciente.

O soldado ucraniano dá-lhe um murro na face.

- Não é a melhor forma de começarmos…
- Onde está o resto do meu batalhão? O que é que vocês fizeram com eles?
- Onde estão os meus amigos? Onde está a família? Onde está a minha casa? O que é que vocês fizeram com eles?
- Ah! – exclamou. – Já sei o que pretendes… Tu queres informações sobre os nossos próximos movimentos.
- Para quê pedir os vossos próximos movimentos? Daqui a umas horas, ou até mesmo daqui a uns minutos, poderei ser apenas mais um fantasma.
- Todos os soldados acabam fantasmas mais tarde ou mais cedo…
- Estás a ouvir?

Boris escuta atentamente os sons de balas disparadas e explosões em redor da cidade.

- Eles estão…
- Mais perto. – interrompeu. – Sim, os russos estão mais perto. Eu não irei perguntar os movimentos do exército, não para já. Agora quero que me expliques o que queria um batalhão inteiro russo composto por dezenas de soldados numa universidade sem qualquer valor estratégico.
- Primeiro quero que me digas onde está o resto do meu grupo.
- Morto… Muitos morreram quando os nossos tanques atingiram a universidade, outros morreram enquanto nós vos cercávamos, outros morreram por resistirem e outros morreram bombardeados pelos vossos aviões.
- Pelos nossos aviões?
- Exatamente. É por isso que quero que me respondas à pergunta que te fiz. De preferência depressa, nunca se sabe quando uma bomba pode cair mesmo em cima de nós. – riu.
- O meu coronel disse-me que a universidade guardava armas e outro tipo de equipamento militar que nos pudesse ser útil.
- Nós estamos em desvantagem numérica, mas não somos parvos. Seria totalmente ridículo colocarmos armas numa universidade enquanto vocês não avançavam.
- Não vejo a razão de ser ridículo, afinal de contas…
- Por favor! – voltou a interrompe-lo, com grande veemência. – Mas tu achas que eu sou estúpido, seu monte de esterco russo?! A razão por que tu ainda estás vivo é porque perguntamos a um amigo teu quem era o líder do grupo. Antes de ele se armar em engraçadinho, ele disse-nos que eras tu, portanto nós levámos-te até aqui. E a razão pelo qual te levámos, é porque não entendemos o que vocês estavam a fazer naquele que seria o nosso ponto de encontro antes de batermos em retirada para a outra margem do rio! É por isso que ouves as armas mais perto!
- Diz-me uma razão pelo qual eu deva acreditar em ti e pensar que a universidade não tinha qualquer valor estratégico para vocês…
- Se tivesse qualquer valor estratégico não estávamos aqui, nem os vossos amigos da força aérea tinham bombardeado a universidade relativamente depois de já uma grande parte do exército localizado na outra margem do Dnipro ter batido em retirada. – suspirou. – Bem, vou perguntar mais uma vez… O que é que um grupo inteiro estava a fazer num sítio sem qualquer valor estratégico.
- Eu já te disse que o meu coronel…

O soldado ucraniano volta a dar um murro na face de Boris, interrompendo-o mais uma vez.

- Mais uma vez, o que estavam vocês a fazer naquela maldita universidade?!
- Já te disse tudo o que tinha a dizer…
- Muito bem… Esse tipo de joguinhos não me é desconhecido, já apanhei muitos como tu no ano passado em Donetsk. Mas pensa bem, russo, o meu tempo depende do vosso exército mas o teu tempo depende de mim e se o meu tempo esgotar, o teu esgota comigo. – sussurrou-lhe na cara com um sorriso irónico.

Mais interrogatórios e murros seguiram-se com o decorrer das horas, cada vez mais ferozes, conforme o avanço russo. O exército ucraniano não estava convencido que Boris foi, de facto, à universidade em busca de espólios. O próprio Boris começava a ficar confuso ao longo daquelas penosas horas, já que nem ele entendia porque tinha ido para aquela universidade, onde todos os seus colegas, incluindo o seu amigo de infância Igor, tinham morrido e onde o valor estratégico do local era, de facto, inútil. O jovem soldado russo começava a perguntar a si próprio se tinha sido enganado pelo seu superior, se lhe tinha sido dada uma missão suicida ou até mesmo se aquilo tinha sido uma execução sumária sem qualquer explicação ou causa que pudesse compreender.

*

Era cada vez mais difícil gerir as pessoas que foram presas por serem consideradas “contra o regime” russo. Mesmo com o plano de Putin de matar todos aqueles que se queixavam em execução, o número de pessoas mortas por dia era bastante inferior ao número de presos que chegavam frequentemente. As enormes capacidades logísticas que tamanha operação acarreta também se começam a sentir e, para combater isso, foram feitas algumas racionalizações em vários produtos alimentares por causa da guerra na Ucrânia, racionalizações essas que eram especialmente intensificadas nas prisões, com o objetivo de matar os reclusos à fome. Muitos dos que não morriam à fome, acabam por morrer de frio, devido às temperaturas completamente inóspitas de regiões como a Sibéria, onde dezenas de reclusos morriam a cada dia nas várias prisões do país. Muitos presos de outras prisões do país onde as temperaturas não eram tão baixas acabariam por ser transportados para regiões bem mais frias, com o único objetivo de morrer. Assim, Putin, Medvedev e até mesmo Mikhail acreditavam que até o Inverno acabar, milhares de opositores e homossexuais estariam mortos, ou de frio, ou de fome, ou de trabalhos forçados.
Seria então de esperar que fosse cada vez mais insuportável viver para os reclusos da prisão FGU IK-14. Após Filipp, Ivan e Alexei, mais, muito mais lhes seguiram até a prisão não conseguir aguentar mais pessoas e ter de recusá-las. Alexei era tratado de maneira mais leviana, uma vez que o líder russo deu ordens específicas que queria ver Alexei vivo, um pouco com o receio de que qualquer notícia da sua morte fosse desencadear alguma reação incómoda por parte do povo russo. Já Ivan e Filipp foram obrigados a vários trabalhos forçados, desde cortar lenha o dia todo com apenas uma refeição por dia, a lavar praticamente toda a prisão. Dentro da prisão onde eles se encontravam, abusos sexuais e atos de pancadaria, que aconteciam quase sempre por causa de comida, eram frequentes e os próprios guardas prisionais olhavam de lado a tais atos selvagens. Para os prisioneiros, vinha-lhes a memória do Holocausto ou dos crimes nazis durante a Grande Guerra Patriótica e tal como na altura, eles sabiam que a probabilidade de sobreviver era mínima…

- Estou cansado disto, Filipp… – disse roucamente Ivan, claramente desidratado.
- Vai tudo acabar bem, amor, acredita em mim. – disse o namorado, passando-lhe a mão pelo rosto para o confortar.
- E isso vai ser quando?! Quando lavares uma ala inteira em vez da prisão? Quando ninguém te praticamente obrigar a baixares-te para satisfazeres as necessidades de um homem qualquer? Ou será quando te derem um pouco mais de comida ou um copo a mais de água? Por favor, Filipp, eu bem queria que o meu mundo fosse cor-de-rosa, mas neste momento ele é apenas preto.
- Aqui, nós apenas fazemos aquilo que temos de fazer para sobreviver.
- Chamas a isto sobreviver? Eu chamo a isto corredor da morte. Ouviram? – gritou para toda a ala prisional. – Um corredor da morte, é o que isto é!
- Cala-te, não piores a situação!
- Calar-me para quê, Filipp? Nós vamos todos morrer! Mais vale acelerar o processo, não?! – continuou a gritar.
- Temos algum problema? – disse um guarda prisional, carregando uma arma na mão e um bastão preso na cintura.
- Boa pergunta, excelente mesmo… Faço-a tantas vezes a mim mesmo que lhe vou perguntar agora a si. Temos nós algum problema?

O guarda prisional não reage emocionalmente. Em vez disso, levanta a sua arma e dispara, um tiro certeiro na cabeça de Ivan, cujo sangue fica espalhado por vários prisioneiros e pelas paredes da cela onde se encontravam. Filipp ficou impávido, não gritou, não começou a insultar o guarda que tinha acabado de matar o seu namorado. Apenas chorou inconscientemente, fixando os seus olhos no corpo estendido e ensanguentado de Ivan, como que se um mecanismo do seu corpo o obrigasse a chorar e só apenas a chorar e que qualquer tentativa de parar as lágrimas de lhe escorrerem pela cara eram totalmente inúteis. Quando finalmente começou a reagir e a olhar em redor, as suas pernas tremeram e Filipp cai de joelhos, um sinal de que estava agora desamparado no mundo. Todos os que estavam em redor dele, dentro da cela, também não reagiam, apenas olhavam com indiferença, pois sabiam que qualquer tipo de raiva ou revolta resultaria numa morte cruel e fria. Mas não eram só eles, também Alexei, que não estava muito longe da cela onde o casal se encontrava, assistia atentamente ao desenrolar dos acontecimentos.

- Tu aí! – disse o guarda prisional para Filipp. – Quero que limpes este sangue todo assim que levarmos o corpo. Não quero o sítio onde eu trabalho infestado com sangue de uma abominação.

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Vermelho: Rússia [e aliados]
Vermelho Escuro: Sob controlo russo
Azul: Ucrânia [e aliados]

Excecionalmente, o próximo episódio d'"A Fronteira" irá ser publicado no DOMINGO, às 21h. 

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Vermelho: Rússia [e aliados]
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Nas últimas horas, os soldados ucranianos recuaram para o rio Dnieper, deixando todo o leste da cidade de Kiev em mãos russas. Ainda assim, conseguiram causar algumas frustrações, colocando várias minas e destruindo tudo o que pudesse ser valioso de modo a tentar atrasar de alguma forma os russos – uma política que já estava a ser utilizada desde da recusa ocidental em participar na guerra. As pontes estavam também carregadas de dinamite, prontas para serem detonadas caso os russos se aproximassem do rio.
Atravessar o rio Dnieper em pequenas embarcações era um risco demasiado custoso. Do outro lado, o exército ucraniano preencheu as margens do rio com artilheria antiaérea e antitanque, bem como várias linhas de defesa capazes de fazer retirar os russos. O objetivo do exército ucraniano era causar o máximo de danos possíveis no exército comandado pelo coronel Nikolay antes que o exército vindo do sul conseguisse penetrar as linhas de defesa de Kiev no raion de Holosiiv, matando por completo quaisquer esperanças de uma vitória na capital ucraniana.

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- O exército que se encontra na fronteira com a Bielorrússia conseguiu conquistar todo o norte do oblast de Kiev e está agora a 20km de conseguir atacar o raion de Obolon. A sul, as linhas de defesa ucranianas também dão sinais de terem colapsado e outro exército está a horas de entrar pelo raion de Holosiiv. – disse o coronel Nikolay. – Enquanto esperamos pelos dois exércitos, já dei ordens para conquistarmos o que ainda falta do raion de Dnipro. Uma vez conquistado, e com ajuda dos dois exércitos que se dirigem para Kiev, atacaremos os raions de Obolon e Podil, onde o rio é mais estreito e o custo de vidas será menor.
- Coronel, informações chegam-nos de que os ucranianos poderão estar a tentar recuperar o raion de Darnytsia. Para evitar surpresas inesperadas, é vital que reforcemos a área.
- Poderás reforçá-la, mas não com demasiados homens. – respondeu-lhe. – Ou atacamos com força suficiente para conquistar Obolon e Podil, ou seremos aniquilados para os ucranianos às margens do rio. Se tudo der certo, generais, conseguimos ter Kiev nos próximos dois dias. Eles estão agora barricados, esperando que a defesa deles consiga causar o maior dano possível, mas se furarmos apenas um lado, Kiev cai como um castelo de cartas.

*

Em Paris, quase todos os jornais falavam do discurso de Ahmed e das reações do governo francês ao mesmo. Ao contrário do que Marine Le Pen esperava, o discurso não foi totalmente condenado pelos media franceses. Grande parte dos editoriais dos grandes jornais franceses mostraram até mais preocupação com a condição dos refugiados dentro de algumas prisões que propriamente com o facto da emissão da televisão estatal ter sido interrompida por um grupo de, segundo Marine, “extremistas islâmicos que querem impor a sua lei e os seus costumes na França”. A reação dos franceses, como é óbvio, não agradou a Marine, muito menos ao seu pai.

- Tu precisas de fazer um novo discurso. E aquela escória precisa de ser presa e expulsa do país! – disse Jean para a sua filha.
- Eu já te disse que estou a fazer tudo o que posso! Não sou propriamente Deus para chegar à casa ou ao esconderijo deles e prendê-los!
- Mesmo assim temos de evitar ao máximo que as ideias deles se propaguem. Basta a reação dos franceses não ser tão negativa como pensarmos e a oposição conseguir canalizar isso a favor deles para sermos obrigados a parar com a expulsão dos refugiados.
- A oposição também tentou prevenir a nossa saída da NATO, do euro e da União Europeia e falharam nessas três vezes. Não será agora que irão ser bem-sucedidos…
- Esperemos que não. Especialmente agora que acho que deverias aproximar os laços que temos com a Rússia.
- Nós já somos suficientemente próximos com a Rússia.
- Não o suficiente. Não te esqueças que foram eles quem nos ajudaram a vencer ambas as eleições no ano passado. Se não fosse o dinheiro dos bancos deles, não estaríamos no Eliseu a falar disto.
- E o que queres que faça? Queres que declare guerra na Ucrânia e mande milhares de soldados para um país que já está à beira do colapso?
- Claro que não. Mas uma aliança com o Putin era o suficiente para mostrarmos a nossa… gratidão para com ele.
- Tu sabes perfeitamente que, ao fazer isso, era quase como que se estivesse a declarar guerra a todos os nossos vizinhos. E os nossos soldados não são super-heróis ao ponto de conseguirem combater a Espanha, Bélgica, Alemanha, Itália e Reino Unido ao mesmo tempo.
- Eu sei. Mas ser aliado de Putin não quer dizer que tenhas de entrar numa guerra com todos os países da NATO. Basta apenas apoiares o exército russo com alguns soldados franceses. Os Estados Unidos fazem isso a toda a hora, não seria menos ético fazermos nós o mesmo.
- Continua a ser demasiado arriscado. Imagina que esse exército russo está a combater na Polónia ou nos países bálticos. Se descobrirem que estamos minimamente envolvidos, eles declaram-nos guerra e aí não haverá nada a fazer.
- Ainda assim, pensa bem, Marine. O mundo está a mudar com esta guerra e, ficando ou não de fora dela, se não escolhermos o lado certo, este partido e a nossa própria existência não irá sobreviver. Mas lembra-te, pensa também depressa. Um segundo a mais pode ser suficiente para perdermos tudo aquilo que lutámos.

*

O grande opositor de Putin tem estado surpreendentemente calmo desde do dia em que chegou a esta prisão. Mal fala, cumpre todas as ordens que lhe são dadas e observa atentamente o desespero dos vários prisioneiros, bem como a morte de alguns deles.
Alexei nunca foi um grande apoiante dos diretos homossexuais… Era mais brando que Mikhail e o governo de Putin em geral, mas também não era a favor do casamento e muito menos da adoção por casais do mesmo sexo. No entanto, a morte de Ivan e principalmente a reação de Filipp à mesma despoletou-lhe uma reação de curiosidade. Após ter sido morto, Filipp limpou as marcas de sangue espalhadas pela parede e chão da cela, manteve-se calado e apenas cumpriu ordens. Foi obrigado a ver o enterro do seu namorado, rodeado por vários polícias da prisão e alguns prisioneiros, Alexei incluído, e não verteu qualquer lágrima para enorme espanto dos que estavam em seu redor. Ninguém era capaz de lhe dirigir a palavra e o namorado de Ivan aproveitava para se isolar completamente, até ao momento em que Alexei, aproveitando a pequena pausa dada pelos guardas, vai ter com ele.

- Devo dizer que estou impressionado. – disse Alexei. Filipp olha para ele profundamente, surpreendido pela abordagem.
- Infelizmente posso dizer o mesmo… – ripostou com uma voz semicerrada.
- Eu acho que tu sabes quem eu sou.
- Como se a nossa identidade importasse aqui…
- Importa.

Filipp agarra no braço direito de Alexei com a sua mão esquerda. O olhar profundo é substituído por um de raiva, quase como se a cor azul dos seus olhos virasse vermelha de tamanha frustração.

- Então mostra-me como!
- Como tu sabes, eu sou o maior opositor político que o Putin tem, neste momento. Ele pensou que ao tirar-me de Moscovo estava a separar-me de qualquer tentativa de poder ser libertado, no entanto esqueceu-se que eu, tal como ele, tenho apoiantes um pouco por toda a Rússia.
- E onde queres chegar com isso?
- O destino, na sua bela ironia, decidiu presentear-me com um apoiante aqui.

Filipp riu-se, para estranheza de Alexei.

- De que te vale um apoiante preso aqui? – perguntou-lhe.
- Ele é polícia, não um prisioneiro… E de confiança, assegurei-me disso. – respondeu Alexei.
- De que te vale um polícia que te apoia aqui, quando tens dezenas de outros prontos a matarem-te?
- Eu sei perfeitamente disso, por isso é que estou aqui para falar contigo. Para criarmos um plano…
- Não sei se devo rir, se devo levar a sério tal proposta.
- Antes do teu namorado ter tido aquele ataque de raiva que o matou, ele foi interrogado por vários polícias daqui enquanto tu estavas ocupado a limpar uma zona da prisão. – disse-lhe, fazendo uma pequena pausa de seguida para que Filipp absorvesse toda esta informação que desconhecia. – Eles andam a interrogar aqueles que consideram mais propícios a revelar informações que podem dar jeito à operação de eliminar todos os homossexuais da Rússia. Mais um nome equivale a mais uma pessoa na prisão. – continuou.
- Ainda não percebi onde queres chegar…
- Segundo o tal polícia que confio, de entre os vários nomes que ele disse, um ainda não está preso. Ou pelo menos não estava… O nome dele é, salvo erro, Isaak Markovic, e ao que parece ele está a caminho daqui.
- Finalmente vou ter um amigo. – troçou Filipp.
- Faz as contas, rapaz… A Rússia tem 144 milhões de pessoas. Quando começou a vaga “anti-gay” nas grandes cidades russas, eu fiz umas contas básicas. Basta pensares que 5% desses 144 milhões são gays e isso equivale a mais de sete milhões de pessoas. Sete milhões de pessoas vão morrer, incluindo tu e o teu amigo que vem para esta prisão.
- Como podes ter tanta certeza disso? Há uma guerra fora destes arames farpados.
- A guerra acabou. A Ucrânia, no máximo, sobrevive uma semana, duas se o tempo atrasar o avanço da artilharia pesada e dos tanques, e os países ocidentais não nos vão ajudar. Basta olhares para esta prisão e pensares que nem um milhão de homossexuais devem estar presos. No entanto, já há valas comuns na Sibéria e mais virão, a neve é ótima para encobrir cadáveres.
- Como é que sabes isso tudo a partir daqui?
- Tal como disse, o nome até aqui importa.

Após um breve período de silêncio e deliberação, Filipp pensa em tudo o que Alexei lhe disse e toma uma decisão.

- Muito bem, convenceste-me. Onde é que eu entro nesse plano?
- Para podermos causar um motim na prisão e escaparmos daqui será preciso criar uma manobra de distração. Não vai ser apenas um polícia que nos irá libertar, vai ser preciso dar a impressão que houve uma falha de segurança e, como consequência disso, houve uma fuga de prisioneiros.
- Deixa-me adivinhar, eu vou ser a tua manobra de distração.
- Não. Eu vejo futuro em ti, rapaz, por isso é que te peço que convenças os prisioneiros da tua cela a aliarem-se a ti. Fala com eles, liberta a raiva que há dentro deles e quando a altura certa chegar, os sentimentos deles falarão mais alto. No meio do caos todo, eu, tu e o teu amigo escapamos da prisão rumo a uma vila qualquer não muito longe daqui.
- Quando é que esse plano começa?
- Em breve. Aproveita este tempo para fazeres amizades com os companheiros da tua cela, caso contrário todo este esforço será em vão. – disse Alexei. – E não reveles nada ao teu amigo! – frisou.

O som dos vários apitos que os guardas prisionais possuíam ecoam pela prisão… A pequena pausa dada pelos guardas prisionais acabou e a tão odiada mensagem é dita mais uma vez num dos megafones da prisão, “Trabalha pela glória da Pátria!”. Alexei afasta-se de Filipp, confiando no jovem para sair da prisão e ele confiando no opositor de Putin para, de alguma forma, viver dignamente.

*

Em Minsk, o presidente russo, juntamente com Mikhail e Medvedev, encontra-se com Alexander Lukashenko, presidente da Bielorrússia, para colocar um termo às negociações que dizem respeito à anexação da Bielorrússia. Alexander garantiu que o seu país possuísse fortes laços diplomáticos com a Rússia e garantiu apoio total às políticas de Putin após a anexação da Crimeia e agora, durante a guerra na Ucrânia. Assim que o presidente russo lhe falou em anexação, Alexander não se mostrou muito cético sobre o assunto, não fosse ele o mais alto representante da união supranacional entre a Bielorrússia e a Rússia, criada em 1996 e que já tentara alcançar uma união monetária entre os dois países. Putin chegava a ter ainda mais razões para estar confiante acerca de uma anexação com a Bielorrússia, uma vez que Alexander, após chegar ao poder, manteve um número de políticas da era soviética e era a favor, tal como Putin, de uma nova união dos países formados após a dissolução do país comunista. O ideal para o presidente russo seria conseguir anexar a Ucrânia e a Bielorrússia antes de Janeiro, causando ainda mais pânico entre os países ocidentais, receosos do expansionismo russo.

- Devo dizer que estou bastante contente pela forma que estão a decorrer as negociações. É perfeitamente notório que partilhamos a mesma visão do mundo e da maneira como ele deve rodar. – disse Putin, enquanto percorriam um dos corredores do Palácio da Independência que ia dar à sala onde decorreriam as negociações. Atrás dos dois estavam Medvedev e Mikhail, que ouviam atentamente a conversa sem se pronunciarem sobre o assunto.
- Como sabe, eu nunca me vou opor a um tão necessário regresso ao passado. – reiterou Alexander. – E acredito que a população da Bielorrússia pensa o mesmo que nós os dois. No entanto, vou precisar de garantias. O que acontecerá após a anexação do país? O que é que os meus cidadãos irão esperar de vocês?
- No instante após a anexação, a constituição bielorrussa será substituída pela constituição russa. – disse Mikhail, colocando uma pasta com toda informação sobre a anexação russa à frente de Alexander. – Todos os documentos de identificação e passaportes bielorrussos continuarão a ser válidos em todo o território russo por cinco anos. A moeda será substituída pelo rublo russo com efeito imediato, embora o rublo bielorrusso continuará a ser válido num espaço de dois anos. Toda a dívida pertencente ao estado bielorrusso passará automaticamente para o estado russo, bem como os lucros e despesas de tudo o que pertence ao setor público. Por fim, no setor bancário, o banco central da Bielorrússia terá autonomia para tomar decisões de menor grau, sendo que nas de maior grau a palavra passará a ser do banco central russo. Poderá ver mais detalhes sobre tudo o que acabei de falar nesse documento. – continuou.
- Importante também referir que a Bielorrússia passará a ser uma província autónoma. E é aqui que irá desempenhar a sua função, Alexander. Como um grande aliado da visão que eu defendo, vai continuar a desempenhar funções como presidente da recém-formada República Autónoma Russa da Bielorrússia. O seu trabalho continua a ser exatamente o mesmo, assim como o parlamento bielorrusso irá continuar desempenhar as mesmas funções. A única diferença é que a última palavra será a minha. – disse Putin. – E, sejamos sinceros, duvido que a minha palavra seja contraditória à sua ou à do parlamento bielorusso, uma vez que irá também encarregar-se de prender todos aqueles que estão contra a nossa visão. – afirmou.
- Para já, não me parece que tenha de opor-me a algo. Os termos deste acordo parecem adequados e ao encontro do que esperava. Da minha parte têm luz verde, só falta decidir quando será o referendo.
- Referendo? – perguntou Mikhail, com espanto. – Isso irá demorar demasiado tempo.
- Você espera que eu apareça na televisão e diga aos meus cidadãos que de repente passámos a ser russos? É preciso tempo, jovem!
- Tempo que irá favorecer o Ocidente para poluir as mentes dos seus cidadãos em troca de uma vitória do “não” nas eleições. – disse Medvedev. Putin mantinha-se calado…
- É preferível ter o Ocidente a pedinchar por uma vitória do “não” do que ter um Ocidente a reclamar porque o povo bielorrusso não foi consultado. Mas não se preocupem, desde que o senhor Putin me disse que tinha intenção de unir a Bielorrússia com a Rússia, eu soube que ele planeava uma anexação. Rapidamente pedi à Comissão Central de Eleições que planeasse a realização de um referendo a nível nacional o mais rápido possível para o povo bielorrusso decidir se queria ou não unir-se com a Rússia.
- Ou seja, eles já estão a planear a realização de um referendo enquanto falamos? – perguntou Mikhail.
- Exatamente. Apenas preciso que me deem uma caneta para assinar estes papéis que têm aí e comunicar oficialmente a realização do referendo para o dia 16 de Janeiro. Dará tempo suficiente para ambos os lados prepararem uma campanha breve e evito de ouvir lamúrias daqueles que pedem mais tempo para preparar o referendo.
- Eu bem disse que ele partilhava a minha visão do mundo! – exclamou Putin, notoriamente contente com o fechar das negociações.

Medvedev passa uma caneta a Alexander para ele assinar a pasta que continha todos os detalhes da integração da Bielorrússia com a Rússia.

- Antes de assinar, senhor Putin, responda-me a esta curiosidade. O que irá acontecer à Ucrânia após a guerra? Terá o mesmo tratamento que nós?
- Não se preocupe, Alexander. Não tardará muito até à Ucrânia sucumbir e render-se. Após isso, você e o mundo inteiro irão saber os meus planos para a Ucrânia. – disse Putin.

Alexander não insiste mais e começar a rubricar as várias páginas da pasta, sob os olhares atentos de Putin, Mikhail e Medvedev. Horas mais tarde, o presidente da Bielorrússia anuncia o referendo na data previamente estipulada e imediatamente se diz a favor do “sim”. Nas sondagens que se seguiriam, o “sim” vencia claramente, nalgumas com quase 30 pontos de diferença.
Para os Estados Unidos e para a União Europeia, este referendo mostrava mais uma vez a impiedosa vontade de anexar todos os territórios que pertenciam à União Soviética. Os líderes de praticamente todos os países ocidentais condenaram o referendo, dando como principal razão o pouco espaço de tempo para se organizar uma campanha – pouco mais de uma semana – embora fosse notório que era a violenta expansão russa que realmente os preocupava. O medo era largamente visível nos cidadãos dos países bálticos, onde o receio de serem anexados pela vizinha Rússia era cada vez mais real.

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A noite caía em Kiev e os combates aproximavam-se de Verkhovna Rada, o parlamento ucraniano. Horas antes, no Palácio Mariyinsky, Petro Poroshenko finalmente aceita sair do bunker subterrâneo onde se encontrava e apanhar um pequeno avião para Lviv, juntamente com vários dos seus ministros.
Nas últimas horas, os russos finalmente conseguiram superar as linhas defensivas montadas pelos ucranianos e lançavam agora um ataque total ao que resta por conquistar em Kiev. O clima também ajudou e o fim dos grandes nevões que afetavam não só a Ucrânia como o resto da Europa, permitiram aos exércitos russos localizados no sul da Ucrânia fazer largos avanços no olbast de Odessa, a região mais fustigada pela guerra e aquela em que os russos tiveram e continuam a ter mais dificuldades em conquistar.
Crimes de guerra perpetuados por ambos os lados são regularmente divulgados pelas Nações Unidas, dos quais o trabalho forçado de cidadãos ucranianos que não puderam fugir das suas casas e que estão agora sob controlo russo e o tratamento desumano de soldados prisioneiros são o motivo de preocupação principal para a organização e estima-se que com a guerra a chegar ao fim e com a possível anexação total da Ucrânia pela Rússia, os ucranianos leais ao governo de Petro Poroshenko possam retaliar contra qualquer tipo de cidadão que apoiou de forma direta ou indireta as forças russas durante a guerra.
Boris era uma das testemunhas do tratamento desumano dos prisioneiros inimigos capturados, quer como soldado a combater pelos russos, quer agora como prisioneiro dos ucranianos. Com os combates cada vez mais perto dos últimos bastiões que o governo de Kiev ainda controla, o temperamento dos soldados ucranianos para com Boris tem piorado, assim como as formas de tortura utilizadas, que iam desde dedos partidos a tentativas de afogamento. A questão que ainda o mantinha cativo há muito que deixara de ser o motivo pelo qual um grupo inteiro foi a caminho de uma universidade com informações falsas… Os ucranianos queriam agora mais, queriam saber todos os detalhes que sabia dos próximos movimentos russos, na tentativa fútil de continuar a defender algo que já não podia ser defendido.

- As tuas informações estavam erradas! – gritou um soldado ucraniano, o mesmo que o interrogou quando Boris chegou à base improvisada, depois de ter entrado de rompante e apontar uma arma à cabeça do soldado russo. A sua farda militar estava notoriamente coberta de sangue…
- Nada que não esperasses já… – disse Boris. – Eu disse-vos que eles iam alterar os planos após o desastre na universidade. Aliás, o facto de me estarem a pedir informações de planos, quando eu estou aqui há já não sei quanto tempo mostra o quão desesperados vocês estados lá fora. Não é verdade?
- Não, não é verdade…  disse-lhe junto ao ouvido. Boris começa a rir…
- Se não fosse verdade já estaria morto. E os combates não iriam estar tão perto de onde estamos. Eu diria que eles já atravessaram o rio e os russos só iriam atravessar o rio quando tivessem apoio de um exército comandado por outra pessoa vindo do norte ou do sul de Kiev. A julgar pela tua cara, pelo vosso comportamento nas últimas horas e pelo som da artilharia, cada vez mais próximo de onde estou, eu diria que quer o exército vindo do norte, quer aquele que veio do sul já estão a combater na cidade, o que vos deixa cercados de todos os lados exceto um.
- Eu devia ter-te morto na universidade. És inútil para nós, todos os russos são… – disse o soldado ucraniano. – Mas ainda não é tarde para isso, pois não?

O soldado ucraniano puxa o percursor da arma, encostada à cabeça de Boris, e prepara-se para puxar o gatilho até ser interrompido por um superior.

- Soldado Anton, pare imediatamente! – gritou, praticamente sem fôlego. Boris, que estudara os escalões do exército ucraniano antes da invasão russa, conseguiu notar que se tratava de um major-general, o quarto escalão mais alto do exército ucraniano.
- O que me impede de fazer isto? Ele não nos serve para nada, os russos já alteraram os seus planos de batalha! – respondeu Anton.
- O presidente ordena-o que pare. – disse o major-general, mais calmamente.
- O presidente? Isso significa que…
- Sim. Há alguns minutos, por volta das 2:20 horas, o presidente ordenou um cessar-fogo nacional. A guerra acabou…
- Eu disse-lhe que quando o meu tempo acabasse, o dele acabava comigo. E eu vou cumprir o que prometi! – gritou Anton.

Antes de poder puxar o gatilho, o major-general apronta-se em tirar a sua arma pessoal e dispara antes que Anton tivesse tempo para disparar primeiro. Um tiro certeiro na cabeça à queima-roupa mata de imediato o soldado ucraniano, para alívio de Boris.

- Estás livre para ires embora. – disse o major-general ucraniano para Boris. – Ninguém te vai impedir, garanto-te. Os soldados russos não estão muito distantes daqui, uns cinco quilómetros e chegas à linha da frente.
- Obrigado. – disse Boris.
- Não me agradeças… Por mim, estavas tão morto como ele.

Boris abandona o quartel improvisado lentamente, muito devido aos ferimentos que contraiu na universidade e agora aqueles que lhe foram impostos para que ele pudesse falar. Os soldados ucranianos que estavam no local olhavam para ele de forma assustadora, encolerizados pela rendição do país, que mesmo previsível não deixava de ser um golpe demasiado forte para as mentes de muitos jovens soldados ucranianos que juraram defender o seu país de qualquer ameaça externa ou interna.
“Salvar a pele” não foi a razão que levou Petro Poroshenko a contradizer-se e sair de Kiev rumo a Lviv, mas sim para conduzir as negociações de paz através de lá, a única grande cidade ucraniana ainda relativamente intacta, ao contrário da capital Kiev, uma cidade que se tornara um monte de escombros e cadáveres de soldados de ambos os lados e de cidadãos da cidade, um cenário que fazia lembrar as cidades soviéticas e alemãs arrasadas durante a Segunda Guerra Mundial. Estimava-se que só em Kiev houvesse quase 50 mil mortos, um número que mesmo assim não superava as estimativas feitas pelos russos ou pelos ucranianos, que contavam que uma grande parte da população da cidade não pudesse escapar para outras cidades controladas pelos ucranianos.

*

Em Washington, o presidente juntamente com alguns dos seus ministros e o diretor da CIA, John Brennan, acompanhavam o discurso de cessar-fogo e posteriores conversações de paz anunciadas por Petro Poroshenko. Dado que a Ucrânia ainda controlava uma parte substancial do seu território, o presidente americano contava ter pelo menos mais uma semana para ultimar os pormenores do financiamento e armamento de grupos separatistas no norte do Cáucaso.

- Como podem ver não podemos perder mais tempo. – disse Barack Obama. – Vamos precisar de passar aquelas armas o mais depressa possível da Geórgia para a fronteira russa.
- Senhor presidente, já tenho vários agentes a trabalhar com os líderes dos separatistas russos no Daguestão e na Chechénia. Tenho também alguns agentes a trabalhar na Geórgia… Serão eles que encarregar-se-ão de atravessar as armas pela fronteira e depois passar as armas para os nossos agentes na Rússia, que por sua vez irão entregar as armas aos líderes dos movimentos armados na Chechénia e no Daguestão. – disse John Brennan.
- Há mais armas na Chechénia que no Daguestão, como foi planeado? – perguntou o ministro da defesa americano.
- Sim, estamos a seguir à linha aquilo que planeámos. – respondeu o diretor da CIA.
- E não há qualquer possibilidade destes separatistas, que por acaso até são extremistas islâmicos, de se virarem contra nós?
- Os nossos agentes falaram pessoalmente com o Magomed Suleymanov, o líder do emirato que eles querem construir. Eles fizeram questão de dizer que há primeira tentativa de desobedecerem às nossas ordens, seremos nós mesmos que, através de anonimato, iremos dizer todos os movimentos e localizações do grupo deles espalhados pelo Cáucaso russo ao Putin.
- Ainda não estou totalmente convencido disto. – disse o ministro da defesa. – Se isto não resultar, qual é o plano B, John?
- Não há plano B. Como foi planeado, isto não será uma solução de longo-prazo. Até que a Bielorrússia seja anexada pela Rússia, isso demorará pelo menos uma semana. Depois disso, o Kremlin precisa de colocar soldados russos na Ucrânia e na Bielorrússia para assegurar a ordem. Tudo isso leva tempo para que comecem a haver protestos na Chechénia e no Daguestão. Até que haja uma sensação de guerra civil na região já estamos possivelmente a meio de Fevereiro. Com o cair do Inverno, nós atacamos e aí eles deixam de ser vitais para passarem a ser meros intermediários.
- E é aí que eles podem simplesmente mudar de lado…
- Eu duvido. Se eles mudarem de lado estão condenados, o Putin nunca ia perdoar uma revolta armada que serviu como manobra de distração para invadirmos o país. Mas, mesmo que eles mudem de lado, ou são eles, ou somos nós. E neste momento eles são a nossa melhor chance de surpreender os russos. É preferível ter de confiar em extremistas islâmicos que ter os russos preparados para uma invasão que custará bem mais dinheiro e vidas humanas. Apenas precisamos de atirar, por muito escuro que seja o alvo.
- Há alguma dúvida? – perguntou Barack Obama aos presentes, de olhos postos no seu ministro da defesa, que ainda não permanecia seguro de toda a operação.
- Não. – respondem todos.
- Ótimo. Quando é que podemos avançar com o plano?
- Bem, eu estava a contar que os combates na Ucrânia fossem durar mais tempo, por isso precisamos de improvisar um pouco. Mas, provavelmente daqui a dois, três dias e as primeiras armas começarão a passar pela fronteira com a Rússia.
- Se algo correr mal, qualquer tipo de percalços, por mais insignificantes que sejam, eu quero ser avisado de imediato, John. – disse Obama.
- Com certeza, presidente.
- Vamos caçar alguns russos, então! – disse o ministro da defesa, que faz soltar risos pela sala.

*

Tal como Alexei tinha dito anteriormente, novos prisioneiros chegaram à prisão FGU IK-14 de madrugada. Um deles era Isaak, que desde Dezembro vivia em constante receio de ser capturado pelas forças policiais russas, conseguia publicar regularmente no seu blog sobre as capturas em massa de homossexuais e defensores dos direitos dos homossexuais, assim como a presença de cartazes nas ruas de Moscovo, principalmente à porta das várias discotecas e bares gay que conhecia e frequentava, com frases discriminatórias que apelavam à encarceração e morte de todos os homossexuais a viver na Rússia. Após esforços dos serviços secretos russos em localizar Isaak, estes finalmente conseguem descobrir a sua morada verdadeira, aquela que o jovem tentou ocultar durante vários meses. Quando a polícia arrombou a porta do pequeno apartamento onde vivia, Isaak tinha acabado de publicar um texto, com o título “Morte ao Pecado”, a frase que mais vezes aparecia nos cartazes homofóbicos de Moscovo.
Isaak iria ficar numa cela diferente da de Filipp, que quando o seu amigo chegou não se mostrou minimamente surpreendido ou contente por tê-lo no mesmo sítio onde estava. Na verdade, Filipp estava mais preocupado em fazer amizades dentro da própria cela, para orquestrar o plano que Alexei lhe tinha falado anteriormente e que de momento não levantava quaisquer suspeitas nem dos polícias, nem dos próprios companheiros da cela, quanto ao real propósito de tantas amizades em tão pouco espaço de tempo.
Foi preciso esperar até à pausa da manhã seguinte para que Isaak pudesse conversar com o seu amigo de longa data. Alexei olhava para os dois a uma distância em que pudesse ouvir a conversa sem que os dois reparassem na sua presença, curioso para saber que informações Filipp iria contar a Isaak.

- Vejo que já és bastante popular por aqui. – disse Isaak, com um sorriso ligeiro.
- Nada disso… Com o tempo aprendemos que, ou unimo-nos, ou morremos.
- Bem, parece que nem na prisão deixamos de estar unidos.
- Parece que não. – riu.
- O Ivan foi para esta prisão?
- Foi…
- Onde está ele, então? Ainda não o vi desde que chegou aqui.

Filipp olhou profundamente para Isaak por breves instantes, voltando a focar o seu olhar na floresta que rodeava a prisão, coberta por um manto espesso de neve. O seu amigo rapidamente percebeu o que Filipp queria dizer com tal expressão.

- Como te sentes? – perguntou Isaak, após passar as mãos pelas costas do amigo.
- Não sei… – respondeu-lhe em forma de desabafo.
- Estamos condenados, não estamos? Em Moscovo todos os nossos lugares favoritos foram vandalizados. Atos de selvagens…
- Eu não acho que estejamos condenados. Só precisamos de uma oportunidade perfeita.
- Boa sorte a encontrá-la. – riu.
- Acredita, quando te mentalizares que estás neste sítio, vais estar de tal maneira desesperado que vais fazer coisas que nunca na vida pensaste fazer. E quando chegares a esse ponto, vais perceber que o pior está longe de ter vindo.

Tal como na conversa com Alexei, os dois são interrompidos pelo mesmo som que ditava o fim do pequeno descanso que tinham por dia. O opositor de Putin ficou contente com o comportamento de Filipp e confirmou que a confiança depositada no jovem não seria em vão. Restava apenas continuar a inflamar a raiva de muitos para ser canalizada no motim que tinha planeado e que ia finalmente libertá-lo para mais tarde liderar a luta contra o regime de Putin e contra aqueles que apoiam as suas políticas.

*

O sol irradiava também pelas ruas de Moscovo, em plena oposição com o frio que se fazia sentir. Naquela manhã do dia 7 de Janeiro, chegava mesmo a parecer que o calor transmitido pelo Sol era mais forte que o habitual, como se fosse um sinal divino da vitória russa na Ucrânia ou, no geral, de mais um triunfo nacionalista russo no continente europeu.
O cessar-fogo declarado por Petro Poroshenko era capa de todos os jornais da Rússia e do resto da Europa. O tom eufórico dos editoriais russos contrastava claramente com os editoriais ucranianos e europeus, que viam esta derrota com um sentimento que fazia lembrar os primeiros momentos da Segunda Guerra Mundial.
Enquanto muitos ucranianos dormiam na rua, ou naquilo que restava minimamente intacto pelas várias cidades do país, Mikhail não dormia tão bem desde do início da guerra. Depois de tantos telefonemas feitos e recebidos e de tantas reuniões, este cessar-fogo marcava o fim de semanas intensas e cheias de ameaças (vazias) por parte dos países ocidentais. Agora, o amigo de Putin estava pronto para um merecido descanso…

- Olá amor! – disse Mikhail, beijando a mulher na testa, antes de se sentar para comer o pequeno-almoço.
- Já não via esse sorriso há muito tempo! – disse ela, sorrindo.
- Adivinha-se uma ótima disposição da minha parte nos próximos dias.
- Ainda bem, já tinha saudades de te ver assim.
- Eu sei que estive distante, mas…
- Não é preciso justificares-te. – interrompeu-o. – Eu sei a razão por que estiveste distante. Todos aqui em casa sabemos. – continuou.

Mikhail sorriu.

- Eu disse-te que tudo ia correr bem… Fico feliz por teres confiado em mim e naquilo que te disse.
- Aquilo que disse eram apenas preocupações. Como disseste naquele dia, não era nada que não te tivessem perguntado antes.
- Ótimo. – disse Mikhail, beijando a mulher depois. – As miúdas estão a dormir?
- Sim, só as acordo daqui a pouco, ainda é um bocado cedo.
- Eu depois falo com elas então. Temos que planear as nossas férias.
- Férias? Vais tirar férias agora?
- Eu não descansei no Natal, preciso de férias agora. E não te preocupes, se quiseres eu falo com o teu chefe, ele de certeza que te deixa sair por uns dias.
- Não vai ser preciso. – sorriu para ele.
- Ótimo, menos trabalho para mim! – troçou.
- Que parvo! – disse ela, sorrindo.
- Bem, vou ter de ir embora…
- Tão cedo? Mal acabaste o pequeno-almoço.
- Eu sei, mas preciso de tratar de uns documentos por causa do cessar-fogo que não consegui acabar ontem. – disse, enquanto vestia o casaco. – Manda um beijo às miúdas por mim. – acrescentou.

Mikhail sai de casa. À entrada do apartamento onde vivia é cumprimentado pelo seu motorista de longa data, Leonid.

- Bom dia, senhor… – disse ele, à medida que o acompanhava Mikhail da porta do apartamento para o carro.
- Bom dia, Leonid. Para o Kremlin, por favor.
- Sim, senhor.

Mal Leonid abriu a porta do carro, ouve-se uma enorme explosão vinda do apartamento em que Mikhail vivia. O andar correspondia ao dele e assim que o confidente de Putin se apercebeu disso, todo o seu corpo congelou. Num estado de apostasia, Mikhail ajoelhou-se e olhava para o andar em chamas, pensando unicamente na mulher e duas filhas que acabara de perder. 

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Vermelho: Rússia [e aliados]
Vermelho Escuro: Ucrânia sob ocupação
Azul: Emirato do Cáucaso

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Vermelho: Rússia [e aliados]
Vermelho Escuro: Ucrânia sob ocupação
Azul: Emirato do Cáucaso

No “Cafe Maidan”, um dos restaurantes mais populares de Grozni, capital da Chechénia, uma rapariga muçulmana sunita, de nome Madina, comia descontraidamente, olhando para as ruas e edifícios em redor. Perto dela estava a sua filha, uma bebé de três meses, que dormia profundamente… O seu marido, também um muçulmano sunita, é um empresário de sucesso nas Torres de Grozny, um complexo de cinco arranha-céus que alberga hotéis e um centro de negócios, e cujos rendimentos permitem que a sua mulher e a filha tenham uma vida descontraída, num apartamento luxuoso não muito distante do centro da cidade.
A descontração com que Madina comia é subitamente interrompida por uma notícia que acaba de passar numa das televisões do restaurante. “A mulher e as filhas do vice primeiro-ministro russo, Mikhail Puchkov, foram mortas por uma explosão no apartamento onde vivam. Há suspeitas de que tenha sido um ataque terrorista orquestrado pelo Emirato do Cáucaso”, dizia o pivot. 

 

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A bandeira francesa no Eliseu foi colocada a meia haste por volta das seis horas da manhã, hora de Paris. Jean Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional e pai da atual líder francesa, morreu devido a causas naturais às 3:20 horas do dia 9 de Janeiro. A sua última aparição pública foi a congratular a Bielorrússia pelo referendo na união que “representará uma viragem de poderes igualmente comparada ao fim da Guerra Fria”. Nos últimos dias, Jean mostrava-se cada vez mais convencido que a França teria de se unir à Rússia e chegou mesmo a aconselhar a sua filha para pedir à Rússia fornecimento de equipamento militar, soldados e um plano conjunto para evitar o aniquilamento da França caso toda a NATO e a União Europeia entrasse em guerra contra a Rússia. Em troca disso, a França seria aliada da Rússia. A sua filha recusou, com medo que a opinião pública se virasse contra ela, numa altura em que a taxa de aprovação da líder da Frente Nacional era de 67%, mas a descer desde que Ahmed e Bashir fizeram aquele anúncio infame na televisão nacional e que levou os franceses a pensar duas vezes no que deviam fazer com o elevado número de refugiados no país.
Os dois refugiados sírios comemoravam o falecimento de Jean Marie como duas crianças no dia de aniversário. Sentiam que Marine tinha perdido o seu grande braço direito e que, apesar desta ter um discurso menos extremista que o seu pai, a morte de Jean Marie iria fragilizar a sua posição ou a levaria a tomar decisões que os franceses, segundo eles, nunca iriam aprovar em massa. No entanto, a saída da França da NATO, do euro e da União Europeia foram choques suficientes para decidirem que, se deviam agir e fazer algo significativo contra o governo francês, esta seria a altura ideal.

- Precisamos de ultimar o nosso plano de atacar a prisão… Agora é a altura ideal para mostrarmos ao mundo uma mensagem clara. – disse Ahmed, mexendo cuidadosamente nas várias imagens da planta da prisão onde a sua mãe está encarcerada. Apesar das reticências de Bashir, os dois finalmente chegaram a um acordo sobre atacar a prisão poucos dias após o anúncio que fizeram na televisão estatal francesa. Desde aí, e com muitas discussões durante o processo devido às divergências em alguns aspetos, os dois têm vindo a trabalhar num plano minucioso para atacar o estabelecimento prisional.
- Tu sabes que não podemos acelerar o processo. Não posso correr o risco de ficar preso! Pior, não posso correr o risco de ficarmos todos presos. Seria uma vitória estrondosa para a Frente Nacional. – disse Bashir, claramente interessado nas mais recentes notícias sobre a morte do fundador da Frente Nacional na televisão e na Internet.
- Eu sei, mas ela e o seu partido precisam de ser fragilizados e esta é a altura para o fazermos. Alguns líderes mundiais irão ao funeral, incluindo o Putin. Se mostrarmos que existe um grupo que apela à resistência não através de palavras, mas através de atos, isso vai descredibilizar a Frente Nacional não só aos olhos da Rússia mas também aos olhos de todo o mundo ocidental que está contra a Rússia!
- Ahmed, eu entendo tudo isso mas não podemos chegar a uma prisão cheia de prisioneiros, que consequentemente estará cheia de polícias, com um punhado dos nossos homens e esperar que eles libertem todos os refugiados de repente. Aqueles que escolhi para irem connosco à prisão são os nossos melhores homens e mesmo eles precisam de treino! Tu precisas de treino e até mesmo eu estou a receber treino de pessoas que são mais experientes que eu…
- E vais continuar a adiar? Hoje e nos próximos dias, a Frente Nacional vai parar. Declarações bonitas aqui, gestos simbólicos além, toda uma comitiva de pessoas que por uns dias se vão esquecer da ameaça que nós representamos. Mas passado uma semana, eles vão retomar aquilo que têm feito e isto, se correr mal, será apenas um pequeno incidente num governo que se vai mostrar ainda mais forte.
- Se correr mal agora, o governo sai na mesma mais forte. Por isso…
- Não como tu pensas. – disse Ahmed, interrompendo o amigo.
- Ai não?
- Não. Se atacarmos daqui a umas semanas, a própria Marine Le Pen vai fazer uma declaração que vai convencer tudo e todos, tal como fazia nos debates para as eleições presidenciais há uns meses. Seria basicamente o nosso fim, se não soubéssemos como lidar com a situação. No entanto, se atacarmos já, sejamos bem-sucedidos ou não, a Le Pen não se atreverá a fazer um discurso. Está demasiado fragilizada com a morte do pai ou então demasiado focada em tentar sacar algo dos bolsos do Putin. Mandará apenas um lacaio qualquer dizer um discurso que dificilmente será relembrado por qualquer francês. Ela pode até vir a fazer um discurso depois, mais forte e com mais impacto, mas nessa altura já o povo francês está preocupado com outra coisa. Portanto, se atacarmos, tem de ser agora, Bashir!
- Eu não devia dizer isto mas vamos ultimar aquilo que temos para fazer. – disse Bashir, após um momento de deliberação. – Atacamos na noite anterior à do funeral.

Um sorriso incontrolável torna-se visível no rosto de Ahmed. Este abraça fortemente o amigo e os dois preparam-se para executar os últimos detalhes do ataque, que seria no dia 11 de Janeiro, um dia antes de Jean Marie ser enterrado num funeral de estado, uma decisão repudiada por grande parte da oposição francesa…

*

Após ter saído do local onde se encontrava em cativeiro por forças ucranianas, Boris cambaleou pelas ruas de Kiev durante algumas horas. À medida que caminhava, via mães a chorarem pelos filhos, a maior parte sem um braço ou pernas, devido aos raides aéreos ou tiros de artilharia que durante dias destruíram a cidade. Subestimando as suas fraquezas, o jovem soldado russo, cheio de febre e também ele com ferimentos graves que advinham do ataque à universidade, acaba por desmaiar no meio dos escombros de uma rua em Kiev, uma cidade cuja alma lhe foi retirada em vários dias de intensa batalha. Quando acordou, por volta do meio-dia do dia 7 de Janeiro, relativamente zonzo, voltou a caminhar para o destino que lhe fora indicado pelo major-general ucraniano. Assim que chegou, encontrou uma dúzia de soldados russos, que se preparavam para sair do local.

- Quem é? – perguntou um dos soldados.
- O meu nome é Boris. Sou um soldado russo… – respondeu-lhe, apenas capaz de murmurar devido aos ferimentos. – Fomos atacados na Universidade Nacional de Comércio e Economia há uns dias e estive capturado… – continuou, até vomitar nos pés do soldado que lhe fez a pergunta.
- Belo serviço. – disse, claramente irritado. – Com quem queres falar?
- Leva-me até ao coronel Nikolay. Ele conhece-me, foi ele quem nos mandou para lá.
- Transportem-no na carrinha e levem-no até ao coronel! – disse para um grupo de soldados que assistia à conversa. – Eu já vos acompanho, deixem-me só limpar a estrumeira que este fez.

Após ter sido transportado durante alguns quilómetros pelas ruas de Kiev, Boris chega finalmente a um complexo de edifícios parcialmente destruído nos subúrbios da cidade, onde o coronel e grande parte dos seus soldados estavam instalados. Naquele momento, o coronel Nikolay tinha saído e o próprio Boris voltou a desmaiar devido aos ferimentos e à febre cada vez mais alta. Foram precisos dois dias, e depois de ser tratado intensivamente pelas enfermeiras no local, para voltar a estar reanimado.

- O capitão Nikolay está aqui? – disse para a enfermeira que olhava para ele enquanto o soldado olhava para o seu estado e para o local onde estava, numa tentativa de tentar compreender o que se passou ou o que se estava a passar.
- Sim, eu acho que ele chegou há uns minutos.

Quase de imediato, Boris levantou-se da cama, usando as poucas forças que tinha, para grande espanto da enfermeira que ainda tentou impedir que ele se levantasse. Esta ainda chamou pela ajuda de outros que pudessem travar Boris mas quando alguns enfermeiros chegaram para a ajudar, já o jovem estava a uns pequenos metros do coronel, coxeando para tentar chegar-se ao pé dele.

- Boris, estava à espera que acordasses para…  disse o coronel Nikolay, antes de Boris lhe dar um murro na face, para choque de todos os que acompanhavam o coronel.
- Porque é que não nos salvaste na altura?! Todos os meus amigos estão mortos por causa de ti! – gritou.
- Se não tivesses sido preso e torturado, eu mandar-te-ia para o tribunal marcial de imediato! – gritou. – Mas entendo o teu estado e por isso vou ser benevolente, Boris. E isto porque te conheço e sei que não és assim… Mas da próxima vez que tiveres um comportamento destes, eu mando-te executarem! Levem-no daqui e certifiquem-se que ele permanece na cama! – continuou, enfurecido.
- Eu levo-o… – disse Vasiliy, um dos que acompanhava o coronel.

Vasiliy agarra no braço direito de Boris e leva-o até ao local onde estava. Ao certificar-se que ninguém o ouvia, o capitão sussurra algo para o soldado.

- Quando melhorares, vem falar comigo. O meu nome é Vasiliy, sou capitão… Acho que sei a razão dessa raiva. E não faças mais nada estúpido como o que acabaste de fazer! – disse para Boris, que escutava seriamente as palavras do capitão.

*

Foi preciso praticamente um dia para que a polícia retirasse os corpos da casa de Mikhail e conseguisse encontrar alguma pista que evidenciasse que a explosão não tinha sido acidental. Apesar do grupo terrorista “Emirato do Cáucaso” não tenha reivindicado o ataque, a análise de algumas das provas e das imagens vindas de câmaras de videovigilância faziam com que as suspeitas recaíssem sobre o grupo.
Levados para a morgue e posteriormente autopsiados, os caixões da mulher e filhas de Mikhail estavam agora prontos para serem enterrados, três dias após a explosão. Dentro da igreja só lá estava Mikhail, sentado no chão e com as costas encostadas no banco da primeira fila, a olhar atentamente para os três caixões diante dos seus olhos. Putin, bem como a maioria dos altos representantes do governo russo estavam em Paris para assistir ao funeral de Jean Marie Le Pen, que realizar-se-ia no dia seguinte, pelo que Mikhail não esperava nenhum convidado para além de alguns familiares próximos.
Aproveitando-se do facto que a igreja não tinha mais ninguém para além de Mikhail, Yulia Navalnaya, que através de um dos contactos do marido conseguiu saber o local e a que horas seria o funeral, entrou na igreja. Mikhail não virou a cara para ver quem era, assumindo que era o padre, tal era o desinteresse óbvio que tinha no mundo exterior desde a explosão. Foi preciso surgir uma voz, que não era desconhecida, para o vice primeiro-ministro virar a cara e ver quem era.

- Os grandes peixes, ainda maiores que você, chegaram… – disse Yulia, enquanto se sentava no banco onde Mikhail tinha a cabeça encostada.

Mikhail pensou um bocado no sentido da frase e rapidamente chegou a uma conclusão.

- Sua filha da… – disse.
- Calma… – interrompeu-o. – Quem lhe disse que fui eu a matá-los? – perguntou.
- Então porque está aqui?! Diga-me, porra! – gritou.
- Eu não consigo encontrar o meu marido! Diga-me uma razão que teria para matar a sua família inteira e que ajudar-me-ia a encontrá-lo!
- Vingança?
- Não posso negar que o seu sofrimento me dá algum prazer…

Mikhail levanta-se, cheio de raiva, pronto para tentar matar Yulia. Antes que lhe pudesse fazer alguma coisa, a mulher de Alexei aponta uma arma à cabeça de Mikhail, parando o avanço deste e impedindo que a matasse.

- Eu podia matá-lo agora, senhor Mikhail. – disse ela. – É só puxar o gatilho, se quiser. – continuou.
- Aproveite, puxe-o…
- Não vou fazer isso…
- Tem a chance perfeita de matar o vice primeiro-ministro russo. Melhor, tem a chance perfeita de não deixar qualquer pista.
- Se eu quisesse matá-lo já o teria feito. Mas, não sei porquê, a minha consciência diz-me que não devo matá-lo e que ainda pode ser útil no futuro. – disse, levantando-se do banco. – Posso estar a cometer a maior estupidez da minha vida, só o futuro o dirá. – continuou, caminhando lentamente para a porta principal da igreja. Mikhail não fez nada assim que ela lhe virou costas, a sua raiva tinha-se subitamente dissipado e a sua consciência também lhe dizia que não era preciso chegar a tanto.
- FGU IK-14… – disse Mikhail, por impulso. Yulia parou de andar assim que ouviu o nome sair da boca dele.
- Vê? A minha consciência estava certa! – disse Yulia, que se manteve de costas viradas para Mikhail. – Bom dia, senhor Mikhail. – continuou.

Mikhail não disse mais nada, apenas viu Yulia abandonar lentamente a igreja. O vice primeiro-ministro russo não se sentiu arrependido por lhe ter dito o nome da prisão, pelo contrário, foi a primeira vez que realmente compreendeu o sofrimento dela, ao lhe terem sido negados os direitos de poder sequer falar com o Alexei.
Após ter abandonado a igreja, Mikhail voltou-se a sentar no chão encostado àquele banco na primeira fila, ficando ali até chegarem os primeiros familiares. Após o enterro, Mikhail dirigiu sem destino durante horas até finalmente regressar à sua improvisada casa, pessoalmente escolhida por Putin, já perto do anoitecer.

*

O espaço da pequena casa de Bashir era claramente insuficiente para tantas visitas. Todos aqueles que iam atacar a prisão, mais outros que confirmavam pela última vez as munições e o equipamento que seis homens da “Irmandade Síria”, incluindo Bashir e Ahmed, iam levar no assalto, ultimavam o plano que iam executar dentro de uma hora. Ahmed e mais quatro homens treinavam uma última vez a precisão das suas armas, todas elas equipadas com um silenciador, numa parede preenchida com uma placa de esferovite de alto impacto com um metro de espessura, apenas Bashir estudava uma última vez como iriam entrar e sair do edifício, juntamente com mais duas pessoas que nos últimos dias estudaram o edifício de uma ponta a outra e conseguiram aceder à base de dados da prisão, permitindo-lhes ver assim quantos polícias iriam esperar àquela hora e o número de prisioneiros que iriam libertar.
Os seis homens levam também um pequeno aparelho de localização para serem supervisionados por aqueles que ficavam a monitorizar cada passo deles na casa de Bashir. O líder e fundador da “Irmandade Síria” deu ordens explícitas àqueles que ficavam a monitorizar para destruírem tudo e saírem do local caso ficassem mais que meia hora dentro da prisão.
Após uma última revisão, os seis homens finalmente partem em direção à prisão de La Santé, em Paris. Depois de analisar a rotina dos fornecedores de comida da prisão, Bashir achou que a forma mais simples de entrar na prisão era disfarçando-se de empregado de uma empresa de fornecedores. Dada a cor de pele que rapidamente podia ser associada a um imigrante, este arranjou uma identidade e documentos falsos que pudessem comprovar que não era um refugiado mas sim um cidadão que nascera em França e como tal, estava excluído de toda a perseguição imposta pela Frente Nacional.

- Tudo certo. Onde está a carrinha? – perguntou para Bashir o único guarda que estava na receção naquele momento.
- Está aqui. – respondeu-lhe, apontando com o braço esquerdo para um sítio que, da posição em que o guarda se encontrava, não podia ser visto.

Dada a impossibilidade de visualizar a carrinha, o guarda levanta-se da cadeira e desloca-se para perto da porta, virando-se de costas para Bashir. Nessa altura, os piratas informáticos que estavam na casa do refugiado sírio desligam as câmaras de videovigilância de toda a prisão e mandam uma mensagem anónima para o telemóvel de Bashir. Enquanto o polícia localiza a carrinha, o sírio vê a mensagem num ápice. “Câmaras desligadas.”, podia ler-se…

- É esta a… – disse o polícia, que antes de acabar a frase, vira a cara novamente para Bashir e é neutralizado por este.

Bashir manda uma mensagem para Ahmed, que conduz os restantes quatro homens para o interior da prisão. Os seis avançaram até à entrada de um corredor de forma circular, onde se dividiram em dois: o grupo de Ahmed, que ia tentar neutralizar os guardas e libertar os refugiados na ala a sudoeste do corredor, onde se encontrava a sua mãe, e o grupo de Bashir, que ia neutralizar os guardas e libertar os refugiados da ala sudeste do corredor. Todas as alas tinham 3 andares, pelo que a precisão precisava de ser perfeita. Não tendo a capacidade para neutralizar todos os guardas da prisão, os seis iam depois embora, levando apenas a mãe de Ahmed na carrinha.

- Lembrem-se, a prisão fechou para renovação em 2014… Se não fosse a chegada deste partido de criminosos, esta prisão não teria sido reaberta apenas para refugiados. Tenham cuidado por onde andam. Allahu Akbar. – disse Bashir.
- Allahu Akbar. – repetiram todos como se fossem uma única voz.

Feita a divisão, os dois grupos prosseguiram normalmente, neutralizando os guardas um a um sem levantar quaisquer suspeitas. Para abrirem as portas barulhentas das celas, os dois grupos usavam os aparelhos que os guardas prisionais usavam para comunicar, avisando que iam transferir alguns prisioneiros por causa de um problema de canalização que afetava o primeiro andar das duas alas. Quando destrancavam uma cela, quem a abrisse esticava e abanava as duas mãos, um sinal para esperarem até ao momento ideal para escaparem.

- Precisas de alguma ajuda aí? – perguntou um dos guardas prisionais localizado no 2º andar da ala a sudoeste do corredor circular.
- Sim, agradecia.  – respondeu um dos homens do grupo de Ahmed, com a arma na mão direita.

Quando o guarda prisional chegou, este foi imediatamente neutralizado com um tiro na cabeça por um dos homens de Ahmed. No entanto, para enorme susto de ambos os grupos, um outro guarda prisional, localizado no 3º andar da ala sudoeste, pede assistência a Albert, o guarda prisional que se encontrava no 2º andar e que tinha acabado de ser abatido por um dos homens do grupo de Ahmed. Curioso por não ter ouvido a resposta de Albert à sua mensagem, o guarda prisional vai, juntamente com outra pessoa que vigiava esse 3º andar, ver o que se passava dois andares abaixo dele.

- Intrudos! – gritou o guarda prisional ao ver Albert a esvair-se em sangue no chão.

Ahmed abate imediatamente o guarda prisional, bem como o que acompanhava, mas era demasiado tarde. Os seis homens sabiam agora que tinham de escapar se quisessem sobreviver.

- Vamos! – gritou um dos homens do grupo de Ahmed, pronto para sair.
- Ainda não! Não saio daqui sem libertar a minha mãe! Ela está aqui algures! – gritou Ahmed.
- Achas que temos tempo?! Vamos embora daqui, Ahmed! – gritou outro dos homens.
- Ide vocês! Eu já lá vou ter!
- Não, temos de ir todos!
- Sendo assim, ou vamos todos, incluindo a minha mãe, ou não vai ninguém!

Ahmed continua a libertar as celas, cada vez mais impacientemente. Os dois homens do grupo dele neutralizam continuamente os guardas prisionais que vão até às duas alas, cada vez em maior número. Aproveitando o caos instalado, alguns refugiados que foram libertados pelos dois grupos tentam escapar da prisão, acabando por ser abatidos enquanto fogem.

 

- Ahmed, eu vou-me embora! – disse um dos homens, agora o único, que estava com ele.
- Vai! Não quero que mais ninguém morra hoje! – gritou Ahmed.

Após abrir mais uma cela, Ahmed finalmente encontra a sua mãe, bem mais magra e frágil desde da última vez que a viu. O filho de Hadiyyah entra na sua cela, deixa cair a arma no chão e abraça a mãe como se fossem os últimos segundos da vida dele. Após abaterem o último homem do grupo de Ahmed, os guardas prisionais dirigem-se para a cela de Hadiyyah e com a ajuda de uma arma de eletrochoque, prendem finalmente Ahmed, levando-o de imediato para longe dos braços da mãe.
Bashir, juntamente com os dois que o acompanhavam e quatro refugiados, foram os únicos que conseguiram escapar da prisão. Seguido por polícias que disparavam livremente sobre eles até à entrada principal da prisão, o líder da “Irmandade Síria” sabia que era obrigado a aceitar a prisão ou até mesmo a morte do seu melhor amigo, um peso na consciência demasiado difícil de compactuar…

*

O assunto do dia em Paris era previsivelmente o ataque falhado à prisão de La Santé. Nos cafés ou em conversas de circunstância com vizinhos, o ataque ofuscava completamente o funeral do fundador da “Frente Nacional”. As manchetes dos principais jornais franceses dividiam-se, com uns a salientar que o ataque é uma consequência da política extremista do partido no poder e com outros a salientar o “bom trabalho policial” que preveniu danos maiores, apelando mesmo para que os refugiados sejam deportados com a maior urgência.
Depois da saída da prisão, Bashir pegou na carrinha e dirigiu até casa. Ao chegar, ajudou a destruir tudo o que fosse comprometedor, trocou de veículo com aqueles que ficaram em sua casa e deu ordens para se livrarem de todos os aparelhos eletrónicos que possuíam. De seguida, rumou até Paris, passando a noite em casa de um amigo que conhecia e só voltou a sair à rua, com um gorro e um grande cachecol que pudessem ocultar ao máximo a sua face, para comprar o jornal, onde através deste pôde finalmente saber que o seu companheiro Ahmed estava vivo. Para o fundador da “Irmandade Síria”, o único objetivo que tinha em mente era agora resgatar o seu companheiro antes que fosse tarde de mais…
Entretanto, o aparato nas ruas de Paris estava longe de terminar. Até o mais ínfimo detalhe foi planeado ao pormenor para o funeral do fundador do partido de extrema-direita. A maior parte dos franceses classificava os preparativos e até mesmo a vinda de líderes de vários partidos de extrema-direita e até mesmo figuras de estado como bastante exagerada. Ainda assim, não se opuseram à maneira como o funeral foi feito, nem mesmo alguns deputados dos partidos mais à esquerda foram capazes de protestar, com medo de isso depois repercutir-se nas intenções de voto dos partidos a que pertenciam.
Após o funeral de Jean Marie, Putin aproveitou o momento em que a maioria já tinha prestado as suas condolências para falar com a filha deste, visivelmente emocionada com a morte do pai e seu mentor político.

- As minhas condolências… – disse Putin. – Um homem que defende os seus princípios ao longo da sua vida merece a minha admiração, bem como a do povo russo. – continuou.
- Obrigado pelas palavras simpáticas, senhor Putin. – disse Le Pen.
- Infelizmente, a guerra que lavra pela Europa não dá tréguas, pelo que vou ter de cometer a indelicadeza de discutirmos, de forma muito breve, a nossa situação. Com certeza que o seu pai, se estivesse no meu lugar, ia compreender a razão que me leva a pedir isto neste momento tão difícil para você.
- Eu sei o que você pretende…
- Ótimo, evito de a estar a incomodar com informações…
- A última vontade do meu pai era ver a França ao lado da Rússia. – interrompeu-o. – A principal razão para divergirmos tantas vezes durante os últimos anos deve-se unicamente ao facto de ele tomar decisões de cabeça quente. Por vezes, um líder precisa de agir com o cérebro, mesmo que isso contradiga o que seu coração o manda fazer.
- Entendo perfeitamente. – disse Putin, curioso com o que Le Pen realmente queria dizer com aquilo.
- Ele queria uma aliança militar consigo. Algo que fosse além de meras palavras de apoio pelas nossas ações. Durante anos eu pensei com o cérebro, ignorando o que o meu coração me dizia e agora, estou disposta a dar ao meu coração uma chance… Eu quero dar-lhe essa aliança, senhor Putin, mas só se me garantir que, em caso de uma guerra, você colocará soldados e equipamento militar da mais alta tecnologia que tiver em solo francês, o suficiente para evitar que o nosso colapso numa questão de semanas.
- É uma pena que o seu pai não tenha vivido o suficiente para este dia. Em menos de uma semana terá o acordo na sua mesa para ser analisado por si. Manter-nos-emos em contacto durante esse processo.

Putin estende a mão a Marine e os dois cumprimentam-se cordialmente. Na cara do líder russo podia-se observar um incontrolável sorriso satisfatório, uma vez que nem ele esperava que o processo de conseguir uma aliança com a França, causando mais uma vez pânico nos países ocidentais, fosse algo tão fácil de alcançar.

*

O tão esperado momento estava prestes a começar… Ao longo do dia, Alexei aproveitou todas as pausas para falar com Filipp, informando-o de todos os detalhes da fuga que iriam realizar durante a noite. O jovem russo conseguiu ao longo dos últimos dias conquistar as mentes de todos aqueles que estavam com ele na cela, tal como Alexei lhe tinha pedido. No entanto, para conseguir persuadir o máximo número de pessoas com as suas palavras, Filipp foi obrigado a ignorar Isaak, que, a cada pausa, olhava com bastante suspeita as conversas regulares que o seu amigo tinha com a pessoa que Putin mais receava.
Para sorte de Alexei, Gennady, o guarda prisional que lhe prometeu que o ia libertar, ficou com a supervisão da prisão no turno noturno durante uma semana. Isso significava que podia vigiar toda a prisão sem dar explicações, facilitando a fuga de Alexei, Filipp e Isaak para um sítio seguro. Filipp começou o plano logo após a mudança de turno. Gennady, agora como supervisor, estava atento ao sinal de Filipp, um simples discurso de ódio…

- Estou farto disto! – disse Filipp, levantando gradualmente o tom de voz. – Somos tratados como cães, obrigados a fazer trabalhos forçados sem nenhuma razão específica! Eu sempre fui um cidadão exemplar… Sempre paguei os meus impostos, nunca trafiquei drogas ou roubei alguma coisa. E no entanto, aqui estou eu… Apenas porque tive sexo com uns quantos rapazes em vinte anos de vida.
- Temos algum problema? – disse Gennady. Alexei, que observava da sua cela, via que o plano estava a funcionar.
- Sim, temos. Eu gostava de saber porque estou preso quando o meu único crime, de acordo com o governo russo, foi baixar as calças para uns homens de vez em quando. – disse Filipp. Toda a cela se riu naquele momento…
- Achas que és engraçado? – perguntou enquanto abria a cela. – Eu digo-te o que é ser engraçado.

Gennady entra na cela e bate-lhe na barriga com o bastão que carregava, colocando Filipp de joelhos. O guarda prisional ajoelha-se também, para olhar-lhe cara a cara e entregar-lhe as chaves discretamente.

- Isto sim é engraçado. – disse Gennady, saindo depois da cela.

Filipp levanta-se com a ajuda de alguns companheiros da sua cela. Já de pé, este mostra as chaves a toda a cela, despoletando uma enorme felicidade entre os seus companheiros.

- Vamos dar-lhes a verdadeira diversão. – disse Filipp.

Numa questão de minutos, pânico toma conta da prisão e como um baralho de cartas, as primeiras cartas a serem colocados rebelam-se contra as cartas cimeiras, fazendo colapsar toda a estrutura. Depois da cela de Filipp, a cela de Isaak e de seguida a de Alexei. Os três, aproveitando o caos instaurado, dirigem-se para o exterior da prisão, onde Gennady disse que iria estar. A chuva e o nevoeiro daquela noite dificultava a visualização do guarda prisional que os ajudou a escapar mas, após alguns minutos de procura, finalmente encontram Gennady e o carro que os irá levar para longe da prisão.

- Têm tudo aí. Identidades falsas, dinheiro e a localização de uma barraca que eu tenho onde podem passar a noite. – disse Gennady.
- Gostava de poder agradecer-te como deve ser pela ajuda… – disse Alexei.
- Acaba com esta palhaçada. O que o Putin faz… Isto precisa de parar, para o bem da Rússia.
- Vou tentar…
- Ah! Já me esquecia… Toma esta arma. – disse, retirando a arma da bolsa que coloca na cintura. – Está carregada. Têm mais uma no porta-luvas do carro, juntamente com uma caixa de munições. – continuou, entregando a arma para as mãos de Alexei.
- Obrigado.

Alexei sorri para Gennady, passando a ilusão que, por breves instantes, todos os problemas desapareceram. Num ápice, Alexei levanta a mão direita e dispara a arma, matando Gennady à queima-roupa com um tiro na cabeça…

- Porque é que o mataste?! – gritou Filipp, chocado com a decisão de Alexei.
- Bem-vindo à guerra. – respondeu-lhe.

*

Putin chegara a Moscovo um dia depois do funeral de Jean Marie, no dia 13 de Janeiro… Apesar do voo só ter chegado quase à meia-noite, o líder russo decidiu parar no Kremlin primeiro em vez de seguir diretamente para a sua residência.

- Mikhail? – disse Putin, com espanto. – Não esperava ver-te aqui a estas horas.
- Nem eu… – disse Mikhail, que preferiu esperar por ele à entrada do Grande Palácio quando soube que ele ia passar por lá.
- Como estás? Eu imagino que estejas a passar um mau bocado e admiro a tua pachorra para estares aqui.
- Infelizmente, não posso mudar o passado. Não posso sequer viver do passado, por isso mais vale viver o presente…

Os dois olharam-se cara-a-cara por um breve momento.

- Ainda bem que estás aqui… Quero-te mostrar uma coisa que acho que vai ser do teu agrado. Acompanha-me.

Putin leva Mikhail até uma sala de operações, onde já se encontrava o primeiro-ministro, o ministro da defesa e o diretor da FSB, agência sucessora da temida KGB soviética, Aleksandr Bortnikov. No maior dos vários ecrãs aparecia uma vista aérea da cidade de Grozny. Mikhail, que desconhecia o que ali faziam, demorou pouco a perceber que as imagens da capital da Chechénia vinham de um caça, pronto a disparar.

- Já vi que temos o whisky e os copos… Só falta a razão para celebrarmos, então. – disse Putin.
- O que se passou? – perguntou Mikhail.
- Os Estados Unidos, com ajuda da Geórgia, têm passado várias armas e milhões de rublos pela fronteira. O objetivo é armarem grupos terroristas na Chechénia para se rebelarem contra nós. – disse Sergey, o ministro da defesa russo.
- Foram eles que mataram a tua família, Mikhail. – disse Putin. – E eles merecem pagar bem caro por isso. – continuou.

Putin dá a ordem para o bombardeamento de todos os edifícios que albergassem membros, apoiantes ou colaboradores do “Emirato do Cáucaso”. A ordem, bastante vaga, permitia que a cidade fosse praticamente arrasada pelos bombardeamentos. Para evitar que soldados russos acabassem mortos durante a operação, o presidente russo ordenou a retirada de todos os soldados que estivessem em Grozny.
Quando as primeiras bombas caem sobre a cidade, o pânico instala-se. Cidadãos inocentes fogem da chuva de bombas russas, na tentativa vã de se salvarem. Alguns buscam refúgio nas mesquitas, como que se tratasse da ira de Deus, mas nem os edifícios mais sagrados são poupados à barbárie russa. Os edifícios que não foram pulverizados pelas bombas colapsam e como uma ratoeira, matam todos os que se encontravam no seu interior, alguns mesmo sem saber o que se estava a passar. Num piscar de olhos, uma cidade, ainda a recuperar das marcas profundas de duas guerras, é engolida pelas chamas…
Todos olham atentamente para as chamas que consumiam Grozny em Moscovo. Um a um, vão abandonando a sala, fartos de olhar para as mesmas imagens. Restava Mikhail, que olhava para as imagens com regozijo, enquanto bebia o seu copo de whisky. Assim que achou que já tinha visto tudo, Mikhail coloca o copo de whisky, ainda meio cheio, em cima da mesa, veste o casaco e abandona a sala lentamente, enquanto Madina, uma pessoa tão inocente como muitas outras, incapaz de se levantar do chão, olhava incrédula para a sua filha que tinha parado de chorar e para o seu marido que tinha parado de respirar.

MAPA:

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Vermelho: Rússia [e aliados]
Vermelho Escuro: Ucrânia sob ocupação
Azul: Emirato do Cáucaso

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