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Vício de ti


nfren
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Depois de uma longa ausência da ficção apresento aqui a minha nova produção. Depois de : " No outro lado da lua"; " Apenas diferente" e "Antes que seja tarde" espero que prenda os leitores. Espero que sigam e comentem esta minha nova produção.

 

Sinopse

A vida prega muitas partidas, cheia de segredos e contradições onde tudo por momentos pode desabar. Para Manuela e o seu filho Miguel tudo muda, desvendam-se os segredos mais ferozmente escondidos, as revelações mais espectadas e por vezes as situações mais desagradáveis. Parecia tudo seguir um rumo, um eixo que separava a vida real do esconderijo de cada um.Todas as famílias tem grandes segredos e para esta vai ter uma prova de fogo onde o jogo de ilusões se joga com as melhores cartas na manga.

 

Brevemente

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"-Espero não desperdiçar tempo nem dinheiro com você! De qualquer das formas espero que siga tudo há risca sem qualquer rasto. Conto com a sua discrição. – Resume as indicações anteriormente dadas respirando com maior fulgor.

-Eu faço sempre o que me pedem não se preocupe! – Refere do outro lado num tom decidido.

-Agora tenho de desligar espero ter sido explícita no que tem a fazer. Voltamos a falar para continuarmos o plano.”

Ante-estreia 17 de Setembro

Estreia 18 de Setembro

A não perder!

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Ante-estreia

 

“- Do que é que está à espera para pôr o plano em prática? – Pergunta uma voz do outro lado do telemóvel.

-Eu sei o que tenho a fazer, recebo as ordens e cumpro! Para além do mais sei que vou receber bem pelo meu serviço. Não a vou deixar ficar mal. – Responde do outro lado uma voz feminina jovial.

-Espero não desperdiçar tempo nem dinheiro com você! De qualquer das formas espero que siga tudo à risca sem qualquer rasto. Conto com a sua discrição. – Resume as indicações anteriormente dadas respirando com maior fulgor.

-Eu faço sempre o que me pedem, não se preocupe! – Refere do outro lado num tom decidido.

-Agora tenho de desligar, espero ter sido explícita no que tem a fazer. Voltamos a falar para continuarmos o plano.”

 

Não é real na verdade… Sem sombra de dúvidas a ilusão apoderou-se dos sentidos, as pontes ruíram no precipício da realidade da razão. Em mim próprio, mesmo à minha volta tudo ruiu, aquele mundo encantado entre o mundo e a solidão. A pureza e a inocência afogaram-se no rio das mágoas e nas promessas desfeitas. Perdi-me nas ondas deste meu mar revolto, flutuo nas lágrimas que se derramaram dentro de mim seguindo a maré, do rumo e do destino traçado num pretérito imperfeito.

A noite não era reveladora, entrara no seu quarto onde a luz que entrava era escassa, a escuridão fluía na habitação e eu continuava imóvel no reflexo de mim próprio. Os olhos castanhos penetrantes brilhavam na escuridão da alma, os lábios carnudos mostravam-se rosa pálidos entre as gotas de suor que escorriam pela face, salgadas e incolores, os restos do mar de ilusões de quem se pergunta se voltará a amar… Miguel levanta-se firme, levando consigo o peso do coração dorido rumo à varanda e sobe a persiana branca desgastada pelo tempo. Sente a brisa da noite de Lisboa, aquela leve brisa que lhe embate na cara e lhe arranca um leve sorriso de satisfação e serenidade. Abana a cabeça numa tentativa de desviar o cabelo dos olhos, segura as grades verdes enferrujadas com força, com a energia de quem o devia abraçar firmemente, sentir um corpo colado ao seu por satisfação da alma e não do corpo. Alguém corre apressado rompendo o silêncio, pelo escuro onde a pouca luz da rua matou a das estrelas e fez recuar a lua. Os laços da eternidade penetrados são levados pelo vento em câmara lenta, os passos de corrida deixaram de se ouvir, os sons deixaram de se cruzar e as rotas das emoções voltaram à doença dos sonhos. As estrelas deram lugar ao sol ainda meio tímido no meio das nuvens tal como Miguel no meio das almofadas e lençóis brancos, acordado pelo bater da porta do apartamento ao lado. Entreabre os olhos lacrimejados, tenta sentir o braço que percorria e lhe arrepiava as costas e lhe beijava o peito e de seguida os lábios se fundiam como da primeira vez num beijo quente, como que o alimentava a cada segundo naquele vício de amor debaixo da sombra da carência. Mas a linha final chegou talvez cedo demais. Nas linhas das estrelas tudo é certo e reside apenas a esperança de um novo amor.

Cada pedaço da lembrança, levado pelas gotas que percorrem o corpo da água insípida num duche cálido e relaxante. Miguel sai do duche, o espelho meio embaciado revela o seu corpo definido, moreno e dorido, dor física e mental. Seca o corpo, embebendo as gotas na toalha azul escura, veste-se sem tirar o olhar no espelho, no reflexo solitário que apenas tinha de sorrir, sentir a força interior pois afinal um desgosto de amor não é o fim do mundo, é apenas um mundo que teve um fim. 

Edited by nfren
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 1º Episódio

“- Do que é que está à espera para pôr o plano em prática? – Pergunta uma voz do outro lado do telemóvel.

-Eu sei o que tenho a fazer, recebo as ordens e cumpro! Para além do mais sei que vou receber bem pelo meu serviço. Não a vou deixar ficar mal. – Responde do outro lado uma voz feminina jovial.

-Espero não desperdiçar tempo nem dinheiro com você! De qualquer das formas espero que siga tudo à risca sem qualquer rasto. Conto com a sua discrição. – Resume as indicações anteriormente dadas respirando com maior fulgor.

-Eu faço sempre o que me pedem, não se preocupe! – Refere do outro lado num tom decidido.

-Agora tenho de desligar, espero ter sido explícita no que tem a fazer. Voltamos a falar para continuarmos o plano.”

 

Não é real na verdade… Sem sombra de dúvidas a ilusão apoderou-se dos sentidos, as pontes ruíram no precipício da realidade da razão. Em mim próprio, mesmo à minha volta tudo ruiu, aquele mundo encantado entre o mundo e a solidão. A pureza e a inocência afogaram-se no rio das mágoas e nas promessas desfeitas. Perdi-me nas ondas deste meu mar revolto, flutuo nas lágrimas que se derramaram dentro de mim seguindo a maré, do rumo e do destino traçado num pretérito imperfeito.

A noite não era reveladora, entrara no seu quarto onde a luz que entrava era escassa, a escuridão fluía na habitação e eu continuava imóvel no reflexo de mim próprio. Os olhos castanhos penetrantes brilhavam na escuridão da alma, os lábios carnudos mostravam-se rosa pálidos entre as gotas de suor que escorriam pela face, salgadas e incolores, os restos do mar de ilusões de quem se pergunta se voltará a amar… Miguel levanta-se firme, levando consigo o peso do coração dorido rumo à varanda e sobe a persiana branca desgastada pelo tempo. Sente a brisa da noite de Lisboa, aquela leve brisa que lhe embate na cara e lhe arranca um leve sorriso de satisfação e serenidade. Abana a cabeça numa tentativa de desviar o cabelo dos olhos, segura as grades verdes enferrujadas com força, com a energia de quem o devia abraçar firmemente, sentir um corpo colado ao seu por satisfação da alma e não do corpo. Alguém corre apressado rompendo o silêncio, pelo escuro onde a pouca luz da rua matou a das estrelas e fez recuar a lua. Os laços da eternidade penetrados são levados pelo vento em câmara lenta, os passos de corrida deixaram de se ouvir, os sons deixaram de se cruzar e as rotas das emoções voltaram à doença dos sonhos. As estrelas deram lugar ao sol ainda meio tímido no meio das nuvens tal como Miguel no meio das almofadas e lençóis brancos, acordado pelo bater da porta do apartamento ao lado. Entreabre os olhos lacrimejados, tenta sentir o braço que percorria e lhe arrepiava as costas e lhe beijava o peito e de seguida os lábios se fundiam como da primeira vez num beijo quente, como que o alimentava a cada segundo naquele vício de amor debaixo da sombra da carência. Mas a linha final chegou talvez cedo demais. Nas linhas das estrelas tudo é certo e reside apenas a esperança de um novo amor.

Cada pedaço da lembrança, levado pelas gotas que percorrem o corpo da água insípida num duche cálido e relaxante. Miguel sai do duche, o espelho meio embaciado revela o seu corpo definido, moreno e dorido, dor física e mental. Seca o corpo, embebendo as gotas na toalha azul escura, veste-se sem tirar o olhar no espelho, no reflexo solitário que apenas tinha de sorrir, sentir a força interior pois afinal um desgosto de amor não é o fim do mundo, é apenas um mundo que teve um fim.

- Chegaste tarde ontem… - Diz-lhe Manuela, sua mãe ao ouvir os passos do filho que vinham rumo a cozinha onde ela estava a preparar uma taça de cereais.

- Um pouco… - Miguel responde em tom melancólico e esperando continuação mas essa pairou no ar da sua mente. Fica a observar o pão em cima da mesa, os cerais que a mãe tinha acabado de por a sua frente mas Miguel fica-se por duas bolachas que meteu logo à boca e uma maçã que levou na mão.

-Miguel, achas que isso é pequeno-almoço? Pergunta-lhe sua mãe, segurando a faca da manteiga no ar enquanto barrava uma torrada.

Miguel não responde, apenas se ouve a porta bater segundos depois e Manuela morde os lábios, pousa a torrada já morna na bancada e observa o filho a sair do prédio.

Miguel não se apercebe que está a ser observado. Apenas segue pelo passeio de calçada que que sente o telemóvel tocar. Retira o telemóvel do bolso direito e observa o nome no ecrã: Rodrigo! Miguel nem rejeitou a chamada, apenas deixou tocar e não atendeu. Vagueou sem rumo, nos gritos da mente silenciados pelas lágrimas que se derramavam pela sua face que num ápice limpa ao ver uma senhora de vestido preto passar por si. Rodrigo fora e era, na incerteza da dúvida, uma grande paixão rasgada não antevista, um despenhar de sentimentos leves como papel que voaram e caíram ao sabor amargo do termo.

- Isto de chegar tarde e sair cedo anda a tornar-se um mau vício! – Diz Mateus ainda sonolento a vaguear pela cozinha vendo a sua mulher Manuela a levantar a mesa do pequeno-almoço.

- Com o exemplo que tem em casa querias o quê? – Diz rispidamente Manuela quase deixando cair um prato no chão.

-Isto é que é logo boa disposição logo de manhã! Uma pessoa já não se pode levantar as 9 e meia num dia de folga? – Responde-lhe já irritado, transpirado e ainda a transbordar o cheiro forte de vodka e whisky. Senta-se na cadeira mais afastada de Manuela e recolhe uma torrada já fria que ainda restava na mesa.

- Esse teu cheiro a álcool, jogo e prostitutas chega ao 6º andar! Ainda bem que o teu filho não vê o teu estado deplorável! – Dispara Manuela irritada, engolindo em seco a cara que o marido faz ao ouvir as suas palavras.

- Eu perdi o meu dinheiro todo ontem à noite… - Sussurra devagarinho Mateus olhando nos olhos da esposa.

- Podes ir fazer as tuas malas! Se perdeste o teu dinheiro é problema teu! Teu! Não quero saber mais de ti! Vai jogar até não teres nada, vai gastar nas prostitutas mais ordinárias da cidade e no álcool! – Manuela não aguentou, gritou até lhe faltar a voz, limpando os restos de migalhas da torrada, do que já tinha chegado ao fim.

  Mateus apenas se apercebeu do bater da porta, Manuela acabara de sair disparada. Este alcança o maço de cigarros do bolso da camisa desabotoada, retira um e acende-o depois de encontrar o isqueiro perdido no meio do maço ainda a metade. Respira fundo depois de expelir o fumo, quis mais que a vida ao ver a sua sombra, pestaneja e fixa o olhar e o corpo chama pelo cigarro, que agora voltou a boca alimentar um vício. Pega no telemóvel nervoso, procura um contacto na agenda no meio de contactos de trabalho, lazer e prazer. Pára na letra L de Liliana Pires.

- Sim Liliana! – Diz Mateus mal ouvindo sinal do outro lado.

- Sim é a própria Mateus… - Responde uma voz cansada do outro lado.

- Quando é que posso ir ter contigo? Já tenho saudades tuas e temos de fazer as malas… - Pergunta Mateus que se levantou, mordendo os lábios de desejo da noite que tivera anteriormente. Era infiel a Manuela há muitos anos e para Mateus era a coisa mais normal do mundo. Todos os homens tinham de ter a mulher em casa para a família e a outra para horas vagas num corpo onde chegar ao cume do prazer. Não havia discussões conjugais, sobre os filhos, a casa ou o carro. Era apenas sexo e de vez em quando algum presente mais barato.

- Quais malas?! – Diz rindo compulsivamente Liliana que se espreguiçava no meio dos lençóis azuis e na lingerie rendada preta – Tu não tens malas a fazer!

- Tenho sim vamos os dois sair desta vida… - Relembra os planos Mateus percebendo o tom lascivo de Liliana.

- Tu ficas onde estás! – Interrompe perentoriamente Liliana que se levantava devagar.

-Como assim?! Eu transferi o meu dinheiro para a tua conta e disse á minha mulher que o tinha perdido no jogo! – Diz Mateus indignado ao olhar para a janela da cozinha mas muito sobressaltado com o ritmo do diálogo já não entendendo se era a sério se era a brincar.

- Mateus eu fui a tua amante! Um ano a aturar-te e não tinha lucro? Eu sou prostituta Mateus! E as prostitutas pagam-se à hora e tu andavas há demasiado tempo a recorrer aos meus serviços sem me dar um cêntimo. Agora o que disseste à tua mulher não me interessa, atura-a, já eu vou viajar. Sei lá…com vinte mil euros posso ir até ao Rio de Janeiro, ou talvez Nova Iorque. Queres ajudar-me a decidir?!

Liliana ri-se às gargalhadas depois do seu golpe enquanto Mateus permanecia estático ao mesmo tempo que estas palavras iam sendo recebidas e lentamente decifradas. Não estava a acreditar como tinha sido enganado.

- Oh meu querido não fiques triste! Ah, e antes que me esqueça… Obrigada pelas férias!

Mateus começara agora a mostrar sinais de revolta mas Liliana desliga a chamada e este fica a olhar o vazio. Não podia acreditar…

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Amanhã leio o episódio nfren, e depois deixo aqui presente a minha opinião, ok?

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Claro Hugo3 aguardo a tua opinião e a de todos os leitores. 

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Está perfeito! Nota-se que tens uma escrita cuidada e trabalhada, recorrendo a um outro lado da escrita: a fluidez com que tudo avança.

Gostei muito da história, sobretudo dos diálogos que estavam excelentes, deixando ainda um pouco de suspense e drama no ar.

Temos aqui uma nova história que promete e que sobretudo é bem redigida, pelo menos o aparenta, com uma boa premissa e personagens e com certos ingredientes fundamentais, tais com o suspense ou o drama. Por tudo isto, não posso deixar de te felicitar, dando-te os parabéns pelo que escreveste e pelo que acho que vais escrever...!

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Está perfeito! Nota-se que tens uma escrita cuidada e trabalhada, recorrendo a um outro lado da escrita: a fluidez com que tudo avança.

Gostei muito da história, sobretudo dos diálogos que estavam excelentes, deixando ainda um pouco de suspense e drama no ar.

Temos aqui uma nova história que promete e que sobretudo é bem redigida, pelo menos o aparenta, com uma boa premissa e personagens e com certos ingredientes fundamentais, tais com o suspense ou o drama. Por tudo isto, não posso deixar de te felicitar, dando-te os parabéns pelo que escreveste e pelo que acho que vais escrever...!

Desde já agradeço a tua critica construtiva que me faz sentir que a minha escrita evoluiu e cativa os leitores. É muito importante para mim como escritor receber o feedback daquilo que escrevemos seja ele positivo ou negativo só assim se pode evoluir.

Nesta história juntei vários ingredientes que achei essenciais nesta minha fase enquanto escritor e só tenho a dizer que a história ainda agora começou e tem muito para dar. Todos os episódios já estão totalmente escritos e prometo muitas reviravoltas numa história que me deu muito prazer escrever, tanto na construção das personagens como na própria acção. 

Logo a noite um novo episódio como sempre as quintas!

Aguardo os vossos comentários.

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2º Episodio

 

“-Tenho de a felicitar, a primeira parte está feita!- Refere num tom alegre.

-Não necessito de felicitações da sua parte – Reponde confiante – é para avançar já com o que temos combinado?

-Vamos esperar mais uns dias. Assim que for o momento ideal para avançar eu ligo. - Responde de forma seca.

-Como queira fico à espera.”

 

Parecia gritar na embriaguez do momento, alguém que preenchia a solidão dos momentos da memória, os doces e arrepiantes toques da sua mão irrequieta, o quente e violento beijo capaz de sugar sangue e alma para se apoderar dos sonhos de quem se quer vorazmente. Quem apenas continua à espera, esperando de quem está eternamente em si em cada segundo venha e se funda em si. Venha mesmo que apenas em pensamento mas, com a luz e brilho na aura, não se quebrou aquele encanto dos sorrisos apaixonados de ambos. Um momento eterno apenas na fotografia que tinha no fundo do telemóvel. Os cheiros, o intenso fôlego do desejo e fulgor que sufocara numa rajada de lágrimas de realidade. Uma magia negra, um feitiço possivelmente quebrado quiçá encantado então, apenas podia fechar os olhos e respirar fundo alheio do resto do mundo.

Os ponteiros do relógio pareciam ter parado, Miguel esperava sentado numa esplanada sentindo a brisa que o refrescava naquele calor intenso ao som da vibração do telemóvel que apenas há alguns segundos imobilizara depois da enésima chamada de Rodrigo. Preferia não atender, dar qualquer sinal dele próprio. Mostrar a mágoa na voz, frágil e dolorosa sem ajuda. Não queria mostrar parte fraca, mas não sabia o que fazer realmente e seguia apenas o sabor do momento e a direção da brisa que começava a desvanecer ao som da música quase insonora.

- É mais um café por favor! – Pede Miguel vendo o empregado que avista o seu fintar de olhos, esboça um sorriso e volta para dentro. Achou graça ao gesto, sorri para a chávena vazia à sua frente, cheia de rabiscos e formas que só a concentração podia desvendar. Apenas se apercebe do empregado lhe trazer o seu pedido, de forma sempre muito profissional, desviando sempre o olhar para a chávena em situações de cruzamento de olhares. O empregado sorri e pergunta:

- Deseja mais alguma coisa?

- Para já não, obrigado. - Responde-lhe ainda a olhar indiretamente para ele, apenas o encara quando este se encontra a entrar no bar. Sentira um clima estranho, não tinha coragem ou porventura bravura para mostrar qualquer interesse. Era demasiado tímido nestas situações, tinha de ser impelido até mostrar a sua verdadeira essência. As suas cores, gestos e formas de quem se quer deixar conhecer e não mostrar ser algo que não é.

- Estes empregados de mesa dão cabo do coração a qualquer um! – Diz Sara aproximando-se puxando a cadeira chegando meia hora depois do encontro de emergência.

Sara e Miguel conheciam-se há muitos anos, eram daqueles adolescentes que não pertenciam ao mesmo grupo por rivalidades que os atingiu também, até que a idade amadurou e se voltaram a encontrar perto da entrada na universidade. Foi estranho e perfeito o encontro no último ano de secundário, onde a madurez e destreza que a idade já queria revelar os juntou.

- O metro atrasou-se ou foste mesmo tu? – Pergunta Miguel ao mostrar um sorriso um pouco tímido que tentou esconder com a mão que apoiava a alma pesada, sem sentido apenas imóvel no corpo perdido. Mas mesmo gasto, sentia-se na recarga da robustez tentando erguer a chama dentro de si próprio, que o sustentava cálido e vivo no repuxar dos sangue entre as veias na ansia de renascer.

 - Estiveste entretido por isso não houve problema. Que cara é essa? - Pergunta Sara chamando o empregado para lhe fazer o seu pedido de sempre: uma torrada e um copo de laranja, voltando-se para o amigo sem lhe dar tempo para responder – Espera, foi o Rodrigo?!

- Sim… - Responde Miguel num tom de voz transparente e um sorriso demasiado óbvio.

- É que só podia ser problema de coração partido! Com tanto rapaz giro tu andas a sofrer por um! Por um Miguel!? – Diz Sara levando as mãos à cabeça quando se apercebe que o empregado estava ao seu lado com o seu pedido e ambos se calaram num silêncio cúmplice enquanto o copo de laranja e a torrada pousavam em cima da mesa e do empregado estar a dez passos deles.

 -O que é que se passou? – Pergunta Sara devorando a fatia de pão torrado.

- Ligou-me, disse-me que me traiu … Ontem há noite assim do nada, sem sinais ou qualquer evidencia. Achei tão estranha a voz dele… Ainda não quero acreditar. Não consigo… - Dizia Miguel quando é interrompido por Sara que arregala os olhos de admiração e tenta engolir para dizer:

- Ele ligou a dizer isso?! A minha alma está parva! – Esta fica incrédula, não apreciava muito o rapaz mas não esperava dele uma atitude destas. Fora ela que os apresentara, era amigo de uma amiga. Aquelas amizades que puxam outras amizades, amigos de amigos que passam a ser amigos mas naquela noite fria de há uns meses atrás mostrou-se especial.

- Este é o Rodrigo amigo da Liliana, aquela rapariga da nossa turma lembras-te Miguel? – Sara nunca esquecera o brilho nos olhos quando os apresentou. Rodrigo era um rapaz giro, comunicativo mas que se sentia perdido no meio do corte e costura das amigas. Os seus cabelos pretos ondulados, aqueles olhos verdes vivos vidraram nos castanhos de Miguel quando ambos se recolheram num canto e passaram a noite a falar. Quando o silêncio se apoderava, um ou outro à sua maneira quebravam o gelo e conheciam, pedacinho a pedacinho, um pouco de cada um. Tinham começado a namorar há cerca de um mês, para alegria de Sara que finalmente via Miguel radiando felicidade talvez demasiado longe da Terra. Agora aterrou de cara no chão e sabia que não o podia deixar solitário e magoado nas ruas da amargura.

- E já o viste hoje, falaste com ele? – Pergunta Sara mergulhada no copo de laranja.

- Não… já me ligou muitas vezes mas ainda não atendi.- Miguel respira fundo, olha para a mesa, para o vazio à espera de força – Não sei se lhe vou atender. Preciso de descansar, pôr as ideias no sítio. Isto não está fácil.

Miguel levanta-se, despede-se da amiga com um beijo na testa e um sincero obrigado ao ouvido. Repara num guardanapo de papel embrulhado na mesa e agarra-o sem que Sara reparasse. Apenas o desembrulha um pouco e percebe que tem algo escrito a esferográfica azul:

“ Espero que o café estivesse bom. Pedro 960910910”

Segue sem rumo com um sorriso palerma, ao ritmo da música que tocava nos seus auriculares anis ao sabor do sol que se tornara cada vez mais forte e insuportável. Quando se apercebe encontra-se perto de casa, começando a achar estranho o número de ambulâncias e carros da polícia ambos em emergência, num domingo, num bairro tão pacato. A multidão concentrava-se, algo estranho se passava e Miguel, que no seu mundo tentava não ligar e afastava-se da confusão. Mas era difícil, quanto mais se aproximava do prédio onde vivia mais confusão havia. Apenas houve uma senhora a dizer:

- Mas quem é que no perfeito juízo está no cimo de um prédio ameaçando atirar-se?

Miguel ao ouvir isto olha para cima e avista uma pessoa no cimo do seu prédio. Retira os auriculares e guarda-os no bolso esquerdo junto com o guardanapo embrulhado, funde-se entre a multidão em choque com mais uma investida do homem em se atirar para a baixo, mas ainda com medo e talvez desistindo dos seus planos. Mais uma vez e sob o olhar atento e os gritos estridentes da multidão, volta-se a avistar o homem. Miguel entre a multidão fica em choque. Fica imóvel deixando de ouvir todos os gritos das pessoas e barulhos das sirenes. Boquiaberto com o olhar fixo lá no alto, sem qualquer reação apenas retira os óculos de sol para confirmar que aquela pessoa que tentava cometer suicídio era o seu próprio pai! Queria reagir, mas o corpo não lhe respondia. Sente mais uma vez o seu telemóvel vibrar no seu bolso. E foi apenas mover a mão para o retirar quando o homem lá em cima ganha coragem sob os bramidos que adquiriram força e estridência. O choque foi rápido, Mateus embate no para-brisas de um carro ali estacionado. As pessoas gritavam e aproximava-se do carro onde já estava a equipa médica. Miguel permanecia imóvel, sem reação nenhuma longe da multidão curiosa com o sucedido. Apenas sente um corpo que o aperta choroso. Manuela apoiara-se no filho sem forças nela própria, isolados dos olhares e das presenças, num mundo à parte e à espera do resgate das suas vidas e da sua visão, da angústia e incompreensão do ato de Mateus. Apenas viam as pessoas em choque, a comentar os detalhes mais ou menos deturpados, olhando para os vizinhos falar com a polícia e médicos que levavam a maca tapada para a ambulância. Miguel apenas observa sob o aperto no braço e as lagrimas incontroláveis de Manuela que cai no chão, aos pés do filho sob o peso do acontecimento, dor e sofrimento tombado no alcatrão negro da estrada fundidos com as lágrimas que se evaporavam ao tocar o calor intenso. Apenas avistam um polícia dirigir-se à sua beira, depois das indicações de uns conhecidos do prédio que com profissionalismo indaga:

- Lamento imenso mas o Senhor Mateus Lemos não resistiu aos ferimentos.

Manuela deita-se no chão, caíra ainda mais por terra o seu pesado sofrimento, levando-a a abraçar o chão, que quente parecia dar conforto e atenção à condolência. Miguel continuava imóvel, sob as dores do corpo que ansiava movimento mas sem reação, apenas sentiu um abraço forte, que parecia sincero nos braços fortes e vigorosos de Rodrigo. Miguel não repulsara este, deixara-se levar pela força do momento, aterrara num porto de abrigo perdido numa ilha deserta de um oceano não identificado em nenhum mapa.

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3º Episódio

 

“- Já soube o que se passou? – Pergunta com divertimento.

-Sabe que as más notícias correm depressa – Refere trocando o telemóvel de ouvido – mas para o nosso lado foi uma ótima noticia.

- Foi melhor que a encomenda. Mas ainda não acabamos de pôr o nosso plano em prática. – Relembra-lhe deixando o lado divertido para um tom focado no objetivo.

- Não precisa de me relembrar. Estou a tratar do assunto de forma eficiente. Assim que estiver tudo concluído aviso.”

 

Mente aberta a cada segundo sem desprezar as palavras que nunca se esqueceu, tatuadas na alma, a tinta negra da despedida. Expirou a forma, o conteúdo da personagem, apenas se aprisionaram aquelas meras palavras simplesmente ardentes, onde cada beijo suspendia a respiração esperando que os lábios se fundissem uns nos outros. Uma adição, o medicamento milagroso de tantas noites solitárias, transpiradas pela sede de prazer…

Miguel mergulhava entre as lágrimas que desaguavam na t-shirt de Rodrigo que o amparava, que o segurava preso a ele com todo o carinho, com os lábios acariciando à face dele. Parecia magnético e mágico aquele momento, não o conseguia deixar sozinho. Miguel estava apático, sentia cada poro da sua face estremecido pelo bafo de Rodrigo, cada pelo que se ergue com cada toque. Mas algo desperta nele: a razão da verdade e da desilusão.

- Rodrigo vai-te embora! – Suplica Miguel erguendo-se para longe de Rodrigo. Fecha os olhos por instantes, relembrando tudo e o pesadelo que estava a viver. Apesar de querer, não podia, não conseguia estar ao pé de Rodrigo depois do que se passara.

- Miguel eu não te consigo deixar assim neste estado. Eu sei que fiz porcaria mas deixa-me ao menos estar contigo como amigo, dar-te apoio. – Explica Rodrigo tentando aproximar-se dele mas vendo-o fugir e embater contra a porta. Miguel morde os lábios da indecisão que pairava em si mesmo, na inocência do momento deixa Rodrigo se aproximar cada vez mais dele. Sente de novo o calor, um arrepio do ar que embate quente no seu pescoço, nos olhos famintos e nos lábios que imploram tocarem-se apaixonadamente. O magnetismo aproxima-os cada vez mais, numa viagem a um passado pouco ultrapassado, relembrando as noites em que caiam um nos braços do outro moldando-se ao toque das mãos, sentidos e a cada bater do coração que acelerava. Parecia que havia luz no quarto onde tudo estava fechado, apagou-se a luz inimiga da sombra que afetava Miguel e que fez para o momento tórrido.

- Rodrigo sai! Eu preciso de ficar sozinho! – Implora mais uma vez Miguel, enterrando o seu nariz no peito de Rodrigo não aguentando a pressão. – E agora estás preocupado comigo? Não me podes deixar assim? Quando me traiste pensaste me mim?- Pergunta enraivecido Miguel afastando-se de Rodrigo.

- Vais atirar-me à cara isso? Foi apenas uma noite nada demais… - Desculpa-se Rodrigo esbugalhando os olhos parecendo não dar a devida seriedade ao assunto - Eu gosto muito de ti e não te quero perder!

-Que palavras tão lindas Rodrigo! Parabéns! Ganhaste a nomeação para o Óscar da falta de vergonha na cara! – Grita Miguel já fora de si - Foi com quem?

- Não importa Miguel! Digas o que disseres não te vou dizer! Eu já esqueci isso faz o mesmo pelo que sentimos um pelo outro. – Pede Rodrigo que lhe ampara as mãos consumidas pela raiva.

Miguel fecha os olhos com força, renascem as lágrimas que lhe escorregam pela cara que num ápice Rodrigo limpa devagar e com ternura. Este devolve um beijo na cara e sai devagar saindo da escuridão da habitação.

 O traço do lápis dá forma aos olhos castanhos-escuros, cada pigmento de batom sangra nos lábios carnudos, a base assenta na pele fina e soltam-se os cabelos finos e loiros de Liliana. As leggins mergulham nas suas belas e esguias pernas, o vestido vermelho percorre cada curva até assentar no seu perigoso corpo. Ainda descalça, corre para o intercomunicador.

- Estava à tua espera! – Diz-lhe Liliana com voz sedutora enquanto visualizava as mensagens e chamadas perdidas no seu telemóvel. Esboça um sorriso malicioso ao ver uma mensagem de Gustavo. “ Gostava de me perder de novo no seu magnífico corpo”.

Liliana abre a porta ainda a sorrir e encosta-se a saída do elevador. Este abre-se e Ricardo repara logo na malícia do sorriso dela. Aproxima-se para lhe dar um beijo mas Liliana agarra-o pela gravata, com olhar matador puxa-o sob o olhar atento de uma mulher que vinha no corredor e pelo de Ricardo que não estava a perceber o que se estava a passar. Ela faz um gesto como quem chama por alguém em silêncio, puxa com mais força a gravata com uma mão enquanto a outra a coloca no pescoço o aproxima mais de si. Coloca a sua boca no pescoço de Ricardo, respira profundamente e sussurra ao ouvido dele: “Sou toda tua”. Ricardo pega nela e leva-a para o apartamento. A porta fecha-se de impulso que ecoa no corredor e sob o olhar da mulher que ficara paralisada no meio do corredor. Esta entra no elevador e mesmo depois de a porta se fechar ouvem-se gemidos prazerosos, de quem este a ser possuído por outro corpo, que o controla, provoca cada arrepio e o persegue ate atingir o cume da satisfação.

- Já chega Liliana! A mulher já foi embora… - Diz Ricardo afastando-se enquanto Liliana se ri desmesuradamente.

- Tem calma! Não estavas a gostar? – Pergunta-lhe tentando conter o riso.

- Não! – Responde perentoriamente Ricardo.

- Desculpa Ricardo, não resisti aos teus encantos! A mulher é que deve ter adorado a nossa cena. Muito real até fecharmos a porta. Eu não devia ser prostituta, devia ser atriz! – Refere Liliana tirando um cigarro do maço.

- Temos de montar uma companhia de teatro! – Brinca Ricardo sentando-se no sofá olhando para Liliana que fumava sossegada o seu cigarro.

- Eu já tenho uma companhia: prestação de serviço público. Digamos que sou a salvadora da crise: os maridos estão frustrados de longas horas no escritório e de mulheres chatas e decadentes dirigem-se ao meu estabelecimento e depois de umas horas pagas saem satisfeitos com vontade de trabalhar para me pagar para outra sessão e para darem uns míseros cêntimos as mulherezinhas deles para alimentarem os vícios e os amantes de terceira categoria – Comenta Liliana enquanto fuma o cigarro de forma sensual e em cada expiração lançando o fumo para Ricardo.

- Tens noção que um dia vais acordar e já não vais queres esta vida? – Pergunta retoricamente Ricardo fugindo do fumo refugiando-se na janela da varanda.

- Ricardo eu tenho um corpo atraente, um olhar matador. Tenho os homens que quero, dou tudo e tenho o que quero! E o que e que eu quero? Dinheiro! Faço com que os pacóvios pensem que se divertem enquanto eu me divirto a gozar com eles. Não imaginas o quanto e fácil levar estes gajos à loucura e a ter um orgasmo em pouco tempo. Depois disso tenho o meu dinheiro na mão. – Liliana cruza as pernas e endireita-se no sofá – dinheiro vivo com o qual pago as contas os meus vícios e ainda me chega para acumular quando me tornar velha e decadente como as mulheres deles. Mas eu não preciso que um homem me sustente, preciso de muitos até que um dia já não preciso deles! – Liliana dá o último bafo no cigarro e desfá-lo no cinzeiro.

 

Ricardo paralisa o seu olhar no dela, nos passos que ela dá ate chegar ao seu encontro, agarra-se a ele e aproxima os seus lábios dos dele nos olhares penetrantes.

- Fazes parte do lotes de homens com os quais todas as curvas do meu corpo não fazem fervilhar sequer uma gota de sangue teu. Mas o caminho que cada um escolheu e diferente. Tu és psicólogo com canudo e eu sou prostituta com canudo!

Ricardo gela, fica petrificado com as palavras de Liliana que não o deixa reaver fôlego.

- Existe uma grande diferença: Eu tenho dinheiro ganho pelo suor do meu trabalho. Tenho tudo o que quero! E tu Ricardo o que é que tu tens? – Pergunta Liliana olhando pela varanda do seu 4º andar fixada no vazio.

- Tenho dignidade! Posso não ter o que tu tens: bens materiais, mas tenho aquilo que valorizo. Sou fiel aos meus valores Liliana. – Diz Ricardo mantendo o tom apesar do azedar da conversa.

- Não é a dignidade nem os valores que pagam as dívidas, os vícios! É a verdade nua e crua infelizmente Ricardo. – Diz abanando a cabeça devagar, recolhendo o olhar do vazio para cravar no do amigo - Talvez um dia me arrependa mas não agora. Não há remordimentos, noites sem dormir por consciência pesada. Não tive uma família perfeita, não nasci em berço de ouro e tive de lutar pela vida pelo caminho mais fácil!

Ricardo fica estático, sabia que esta conversa já a tinham tido muitas vezes e sabia como acabava. Não conseguia demover nem um milímetro a personalidade fortemente cravada pela vida. Sabia que sempre tivera a vida facilitada, sempre tivera o apoio dos pais em tudo o que precisara. Mas Liliana lutou por si mesma assim que pode sair de casa e safou-se sempre apesar do caminho escolhido.

- Ricardo eu não quero voltar a ter esta conversa contigo. Não tenho paciência para a retomar nem tempo a perder. Até porque tenho um avião para apanhar dentro de duas horas. – Conta Liliana.

- Vais viajar para onde? – Pergunta Ricardo surpreso com a viagem quando raramente Liliana tirava umas “ férias”. 

- Vou para a Costa da Caparica estender a toalha e comer sandes de torresmos!- Diz rindo irónica. – Uma mulher do meu calibre e com um grande bónus de um cliente muito agradecido pelos meus serviços vai até Nova Iorque.

- Já tens as malas prontas? Posso levar-te ao aeroporto se quiseres. – Prontifica-se Ricardo.

- Malas?! Quais malas?! Compro lá tudo – Diz ela aproximando-se de Ricardo encostando-o há parede do hall de entrada. – Os vestidos mais caros, as melhores malas, a lingerie mais sexy… tudo! E já agora não preciso de boleia, isso é para meretrizes medíocres.

- Como quiseres, eu tenho de ir. – Diz Ricardo despedindo-se com um beijo na cara de Liliana quando esta lhe diz:

- És um desperdício sabias?- Diz Liliana que lhe sussurrava ao ouvido.

- Apenas me consome quem eu quero e deixo! – Diz Ricardo sorrindo alinhando mais uma vez numa brincadeira da amiga.

- Eras o único homem por quem eu largava esta vida!- Refere Liliana olhando-o fixamente.

- É pena que mamas não façam o meu género! – Diz Ricardo saindo de casa da amiga deixando-a de braços cruzados estática encostada á porta.

A porta fecha e Liliana pega no seu telemóvel, depois de o encontrar na mesa da sala:

- Quando quiser avançar é só dizer!

Edited by nfren
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4º Episodio

 

“- Já tratou de tudo? – Pergunta com ânsia por novos desenvolvimentos.

- Está em andamento, não se preocupe! – Garante do outro lado com a sua voz jovial e calma.

- Está a desiludir-me! – Refere depois de um longo suspiro – e vou explicar porquê: Tão rápida no início e agora tão lenta. Achava-a mais eficiente.

- Sabe que Roma e Pavia não se fizeram num dia. E já agora se quer mais rapidez faça você! – Diz em tom assertivo.

- Faça o que lhe pedi o mais rápido possível. Estamos a ficar sem tempo.”

 

Cedeu-se o meu lugar, renunciou-se nele e no abismo que se cavou à volta. Rasgaram-se os laços, perdeu-se o paraíso perfeito. Manuela ainda estava a recuperar do choque. Sentia uma raiva que não conseguia controlar e um sentimento de tristeza profundo que a levava às lágrimas. As últimas palavras que dissera ao marido, aquela trivialidade de sentir pesar no tom da despedida que não se previa.

- Estás pronto filho? – Pergunta Manuela ao bater à porta do quarto do filho cuja mão passou na porta e descansou na maçaneta.

- Quase… Entra mãe! – Diz Miguel apertando os sapatos. Manuela entra devagar a olhar no vazio, vidra numa fotografia que estava em cima da cama do filho de há uns anos atrás. Os três sorridentes numa praia para os lados da Figueira da Foz. Um passado fotografado, para sempre ali naquela foto sorridentes alheios do futuro na felicidade de outrora.

- Eu não vou ao funeral Miguel! – Informa Manuela ainda com o olhar fixo na fotografia. Miguel olha-a em choque, não conseguia compreender como é que a mãe podia ter uma atitude assim perante o momento.

-Antes que digas alguma coisa há coisas que precisas de saber. Senta-te! – Pede Manuela com cara de caso puxando a cadeira da secretaria enquanto Miguel se senta na cama compondo o nó da gravata.

- Ontem tive uma discussão com o teu pai e pedi-lhe que saísse de casa… - Refere-lhe ela observando mais uma vez o choque estampado na face do filho. – Ele contou-me que perdeu o dinheiro todo no jogo…

- Ele perdeu o dinheiro e depois? Mãe isso não justifica o que lhe pediste! E não vais ao funeral do teu marido?! Do meu pai?! – Miguel levanta-se com raiva, interligava a atitude da mãe com o suicídio do progenitor.

- O teu pai nunca foi fiel, ausente em matéria de ser um pai e um marido exemplar. Bem longe disso e não é agora que ele nos quis deixar que vou ser hipócrita e vou fazer a figura de viúva triste para meia dúzia de amigos da borga do teu pai. – Manuela fez demonstrar a revolta que sentia sob o olhar espantado do filho. Miguel sabia que o pai não fora um exemplo a seguir. Via-o simplesmente aos fins-de-semana sentado no sofá a beber uma ou duas cervejas enterrado no sofá a ver televisão e a reclamar cada vez que passava à frente da televisão ou Manuela o evocava para ajudar nas limpezas da casa. Não tinha muitos momentos especiais ao lado do pai, as recordações para além da rotina não existiam apenas as poses para as fotos como se fossem uma família perfeita. Miguel levanta-se, puxa a camisa e dá um beijo à mãe na fronte.

Manuela levanta-se também seguindo o rapaz até a porta de saída.

O funeral passou-se entre apertos de mãos, caras entristecidas e apoio incondicional de Rodrigo. A emoção que Miguel sentia tentava sempre esconder debaixo dos óculos escuros. Fechava os olhos tentando abstrair-se, sentia o aperto forte na sua mão pela de Rodrigo e um sorriso reconfortante de Sara que também o acompanhava.

- Miguel! – Ouviu chama-lo atrás de si. Não conseguiu ver de quem se tratava até que a pessoa se aproximou e colocou a mão no ombro de Miguel.

- A vida é mesmo assim Miguel! – Disse-lhe uma senhora chorosa que se abraça a ele. Miguel fica enternecido pelo momento entre si e a sua avó. Apenas via Elisa nos jantares de família e as poucas vezes que a ia visitar. Naquele dia, era mais um em que se encontravam e pelas piores razões. Seguiram juntos, sempre acompanhados por Rodrigo e Sara que não largavam Miguel. O funeral chegou ao fim, Sara deu um abraço forte ao amigo, um abraço reconfortante, sincero e que por muito difícil que fosse um sinal de ajuda e uma transmissão de um pouco de força e energia para um corpo tao abalado e desgostoso onde ainda escorriam as lágrimas. Rodrigo levou-o a casa e também a Elisa. Esta apercebia-se da cumplicidade entre os dois, olhava virando a cabeça a cada gesto mais cúmplice ou a cada sorriso mais aberto de Rodrigo.

- O que é que você faz na minha casa? – Pergunta Manuela ao ver a sogra a entrar com Miguel.

-Vim matar as saudades da minha rica nora! – Ironiza Elisa olhando para Miguel enquanto este tirava o casaco. – Já que não se digna a ir ao funeral do seu marido…

- Porquê?! Foi o evento do ano? Não tinha o vestido apropriado. – Escarnece Manuela cerrando os punhos. Miguel não prezava aquele instante de tensão entre as duas e resolve refugiar-se no seu quarto levando Rodrigo consigo levando-o pela mão.

- Miguel?! – Grita Manuela ao ver aquela cena – Leva esse rapaz e a velha da tua avó desta casa!

Miguel fica estático no meio do corredor olhando para Rodrigo de boca aberta largando-o de imediato naquele momento de maior pressão.

- Estás surdo Miguel? Esse rapaz não é bem-vindo a esta casa muito menos esta senhora! – Importuna mais uma vez Manuela cada vez mais fora de si já ruboriza de tanto conter a cólera.

- Porque é que o Rodrigo não é bem-vindo? – Pergunta Miguel aproximando-se da mãe não a reconhecendo naquela atitude.

- Esse rapaz andou metido com o filho da Isabel do 2º andar. Esse desgraçado destruiu-lhe a família! A senhora quase que morre de desgosto por ter um filho assim! – Conta Manuela cada vez mais descontrolada.

Miguel aproxima-se da mãe, estava a ser consumido pela fúria e preconceito da mãe. Os últimos dias tinham sido muito difíceis e não conseguia controlar os sentimentos. Fora um misto de desilusão e mágoa pela morte do pai, felicidade de ter Rodrigo ao seu lado e a alegria de voltar a ver a avó. Mas estava a ser demasiado aflitivo domar a ira da mãe e não conseguia mais esconder e anuncia:

 - Então também acho que vais morrer de desgosto!

Manuela fica em choque. Não podia acreditar nas palavras que o filho acabava de proferir. Era demasiado preconceituosa para aceitar um filho homossexual.

- Quando for o seu funeral avisa tenho lá um vestido rosa choque que é muito apropriado para levar. Enquanto isso ainda demora o meu neto vem comigo. Não permito que fique debaixo do mesmo teto que uma descontrolada preconceituosa. Nunca foste uma boa mulher, como é que serias uma boa mãe? – Expõe Elisa entristecida pelas atitudes que estava a examinar.

- O que é que você sabe de ser boa mulher?! Uma mulher cujo marido morreu em situação pouco esclarecida? E de ser boa mãe! O seu filho sempre foi um fraco que sempre me enganou com prostituas! – Expõe Manuela a berrar, o ambiente estava cada vez pior Miguel apenas se agarrava a Rodrigo em pânico com o confronto.

- Quem não tem em casa procura fora! - Contra ataca Elisa – Não queira comparar as evidências nem faltar ao respeito de pessoas que infelizmente já não tem voz para se defender.

- Coitadinhos! Depois de um marido louco que me engana com prostitutas e se deita do prédio abaixo agora tenho um filho doente! – Ataca de novo Manuela cheia de razão onde já não a havia.

-Só com gente do seu calibre! Uma coisa tenho de concordar consigo: o meu filho sempre teve um péssimo gosto para escolher mulheres! Escolhia sempre as mais rascas. – Escarnece Elisa. Miguel não continha as lagrimas de desilusão do momento, pareciam obra do diabo estes momentos negros. Não existia compreensão no seu interior para entender aquela reviravolta tão forte que o agitou e lhe revelou tão amargas surpresas. Não aguentando mais aquele ambiente de guerra, puxou Rodrigo, abriu a porta e saiu. Elisa olhou a nora de alto a baixo, abanando a cabeça num sinal de reprovação, saindo também fechando a porta devagar, marcando o silencio quebrado pelos gritos de raiva e as lágrimas corroídas de Manuela que se agarra à parede aos murros freneticamente.

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Bom trabalho nfren! Se não és o nosso escritor mais antigo, não sei. Hhehe Keep up!

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Obrigado Diana! Já escrevo para esta casa há cerca de 3 anos

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Espero que esteja toda a gente a gostar, apesar de receber poucas criticas gostava que mesmo assim acompanhem esta história até ao fim.

Quinta-feira estará no ar o penúltimo capitulo. 

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Nfren, confesso que não li, ainda, porque os capítulos são enormes para uma leitura online,o que requer tempo e atenção, mas tenciono fazê-lo.

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Espero pelo teu comentário JoãoM94! Confesso que os episódios são um pouco maiores mas como para não perder o fio condutor a meio do texto e como apenas é publicado um episódio por semana tal como aconteceu com as minhas anteriores histórias. 

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5º Episodio

 

“-Já está tudo pronto, pode avançar com os pedidos – Dá a boa nova num tom cansado.

- Finalmente eficiência! Fico descansada em saber que o seu trabalho está feito. – Diz-lhe disfarçando a satisfação que sentia.

-E quando recebo o meu dinheiro? – Pergunta-lhe abrindo um porta devagar.

- Assim que me for possível irá receber o seu pagamento. Espero que o seu silêncio se mantenha. – Pede de forma elegante

- O meu silêncio tal como tudo na vida tem um preço com muitos zeros à direita. – Diz sorrindo desligando a chamada logo de seguida”

 

Insensata a esperança de quem não acredita. Apenas se finge longe dos limites, depois de alvejado e fingido do perdão. Saboreou-se um doce amargo demais e ainda não se engoliu. Beija-se o silêncio, respira-se a dor e o sofrimento queimados pela luz do sol e refugiados na sombra. As cinzas inertes que se escondem em frente ao espelho da ilusão, a luz que se esconde sem razão no eterno desejo de alcançar a lua dos dias que foram passando dando lugar as noites solitárias de Miguel. Estranhava aqueles lençóis de linho, aquela almofada que não tinha o seu odor. Não conseguia pregar olho naquele mundo que não via como seu mas talvez seria a hora de começar de novo. Sentia-se queimado, torturado num sofrimento demasiado mudo e tinha-se deixado para segundo plano. Sara fizera-lhe um convite para essa noite. A sua vida parecera tomar agora um rumo, pouco ortodoxo mas sedento de vingança da traição que ainda não esquecera. Construiu uma mentira, um plano que o corroía mas que lhe aliviava a mente ao saber que no fim não se iria arrepender. Estava a fazer de tudo por si. Para tentar animar e revitalizar uma pessoa que tem vivido como um sonâmbulo. Um sonâmbulo que é acordado pelos gritos na sala mesmo ao lado do seu novo quarto.

- Mas você ainda defende o seu filho?! – Pergunta surpresa Manuela.

- Queria que a defendesse a si? Descobriu que o meu filho a enganava com prostitutas e que transferiu todo o dinheiro dele para ela. Nem para o dinheiro o Mateus confiava em si! – Diz-lhe Elisa sentada na poltrona vermelha pousando a chávena de chá que disfrutava calmante observando os passos nervosos de Manuela em torno da poltrona.

- E o filho?! Não pensou no filho? – Questiona Manuela parando de repente mas logo voltando a sua corrida contra os nervos e impaciência.

- E porque ia pensar em mim?! – Pergunta Miguel aparecendo na sala e caminhando até ao lado da sua avó.

- O teu pai transferiu o dinheiro todo para uma prostituta! – Revela Manuela ao filho.

- Eu não quero saber de dinheiro! – Diz Miguel saindo logo a seguir em tom apressado para chegar a porta.

- Ainda bem que o meu neto não saiu à mãe! – Refere Elisa depois de mais um sorvo da chávena de chá – Mas para si apenas lhe vou dizer uma coisa: Tem vinte e quarto horas para abandonar a casa do meu filho.

- A casa do seu filho? A minha casa! – Diz entreabrindo os olhos de espanto.

- O meu filho fez um testamento! E tudo o que era dele é meu e depois passará para o Miguel. – Sorri, dando a notícia a Manuela.

-Mas quando é que ele fez um testamento? Deixe-se de jogos! – Manuela estava a jogar de dois lados e estava perdida em tantas mentiras do marido.

- Quando ele andou muito doente. Sempre com dores de cabeça, sem razões aparentes. – Esclarece Elisa terminando o seu chá e levantando-se.

- Coitadinho pensava que ia morrer logo? Poupava-me anos a dividi-lo com prostitutas! – Muda de tom mais agressivo ainda a decifrar aquela situação.

- O meu filho fez os exames, fez um testamento e seguiu com a sua vida sem saber se tinha alguma coisa de grave. Apenas eu sabia que ele tinha um aneurisma! – Revela Elisa que molhava os lábios secos das palavras que doíam e do segredo que corroía o coração de uma mãe. Manuela não aguenta a raiva e sai de casa de Elisa. Não aguentava tantas escabrosas mentiras e verdades dela escondidas. Via-se agora sem nada, sentia-se uma mulher que perdeu anos a fio ao lado de um homem que agora esses longos anos lhe sabiam a amargo. Ficou sem casa, ainda estava a digerir a revolta do preconceito de um filho que para ela era “doente”.

 

- Liliana? – Chamava Ricardo perto da porta apertando o último botão do blazer vermelho.

- Nunca ouviste dizer que uma mulher para sair de casa demora mais de um século? Antes atrasada que mal-arranjada! – Refere Liliana ainda a escolher entre um vestido preto decotado ou um vermelho rendado que favorecia as suas curvas onde muitos homens já perderam o controlo e se despistaram dos seus casamentos por uma mulher inacessível e de coração fechado por uma chave que a própria engoliu.

- Pelas minhas contas já passaram três seculos Liliana! – Brinca Ricardo encostado a porta sorrindo por uns segundos retomando o controlo das emoções respondendo a mais uma SMS que faziam o tempo passar mais depressa naquela espera incansável.

- Estás muito calado para o meu gosto Ricardo! Deixa-te de secretismo com quem estás a trocar confidentes mensagens? Serão escaldantes?! – Pergunta Liliana rindo depois de ter escolhido o vestido vermelho e agora caprichando na maquilhagem e selecionando o colar e os brincos a condizer – Vem aqui ajudar-me Ricardo rápido!

- Agora já tens pressa? – Pergunta-lhe vendo-a com o colar ao pescoço olhando para o espelho fitando os olhos de Ricardo que percebe o pedido e lhe aperta o vestido – E não é nada que tu precises de saber para já! Também tenho direito aos meus segredos!

- Claro que tens mas se não quiseres contar não contes. Vamos que já estamos atrasados! – Refere Liliana correndo para a porta apanhando a pochete preta.

- Às suas ordens querida Dama! – Brinca Ricardo levando Liliana pelo braço e saindo de casa rumo a uma saída para quebrar a rotina. Não era muito corrente saírem os dois e quando saiam Liliana nunca voltava sozinha.

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