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139: a trungalhunga


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Mais polémico do que convidar extremistas da extrema-direita a programas da manhã.

Mais polémico do que lutador de boxe apanhando o cio em pleno combate.

Mais caótico do que dizer certas e determinadas palavras em certos contextos.

Um tema que se eu metesse já no título passaria por sérios problemas que nem a desmonetização do YouTube.

Falo da trungalhunga.

Ou, como quiserem preferir, sexo e pornografia.

Sobretudo o sexo, e a maneira como aparecia nos canais portugueses desde o 25 de Abril.

A FALSA LIBERDADE

Nos tempos do pré-25 de Abril, até um mísero beijo era cortado de um filme ou uma série televisiva, assim como referências a outras religiões. Tais actos de censura pareciam que o lápis azul do audiovisual de Portugal nos anos 60 fosse uma versão católica da censura praticada em muitos países muçulmanos.

Alguns meses depois do 25 de Abril, nascia a revista Gina, da editora erótica Pirâmide, que também publicava livros de educação sexual. O que chamava mais a atenção aos jovens com menos de 18 anos era o fruto proibido do sexo, lendo às escondidas as ditosas "histórias sexy internacionais", toscamente publicadas com base em traduções vindas da Meca da trungalhunga europeia (quer na altura quer nas seguintes): a Alemanha. Quanto à televisão foi uma questão de espera.

No início dos anos 80, era frequente a televisão portuguesa passar anúncios a produtos para o corpo mostrando um seio de lado. Até uma mulher em nu frontal, mesmo com algum cuidado, como se pode comprovar neste anúncio incompleto aos soutiens Maidenform. Depois em 1983 houve o escândalo com a emissão do filme Pato com Laranja, na RTP 1, e com muitas cartas e telefonemas de desagrado pelo teor sexual do filme.

Mesmo passados nove anos desde o fim do regime fascista, ainda havia muita gente presa aos ideais do tempo da outra senhora. A RTP, pelos vistos, não "acordou para a vida" antes do fim dos anos 80. Por outro lado, algumas televisões clandestinas começam a surgir por volta de 1985, algumas duraram pouco, outras duraram muito (na ronda de um ou dois anos) e uma das características destas televisões era a programação puxadota que consistia em filmes eróticos, algo que a RTP não permitia. Escândalo idêntico ao do Pato com Laranja só em 1991, já depois da liberalização da trungalhunga, quando o Canal 2 estreia em Fevereiro de 1991 o filme japonês O Império dos Sentidos (entretanto passou a ser por alguns anos um dos filmes mais repetidos da CM TV).

SINAIS DO CÉU

A 23 de Outubro de 1988, o programa The Media Show foi dedicado a como seria a televisão no Reino Unido até ao ano 2000. Podem ver o programa aqui (vídeo 18+). Entre as ondas de especulação da história especulativa que mostraria a mudança do panorama audiovisual britânico até 2000, havia:

  • 1989: a BBC 1 estreia um desenho animado de ficção científica que levou ao aumento da violência nos recreios;
  • 1990: proibição de filmes e escândalos envolvendo mortes numa repetição de Eu, Cláudio;
  • meados dos anos 90: o novo regulador britânico mostrava as incapacidades de lidar com canais vindos do estrangeiro;
  • 1998: com a saída de Margaret Thatcher (vale lembrar que era uma história especulativa) do poder, o governo britânico legaliza canais para adultos, na sequência da desregulação da televisão;
  • a especulação acaba com crianças que vendiam descodificadores em contrabando para ver os canais para adultos.

Terminada a especulação, a apresentadora escocesa apresentou os programas que os canais adultos do futuro iriam passar, mostrando excertos de programas franceses e italianos. Os peritos até diziam que as crianças podiam gravar tais programas com facilidade.

Voltando a Portugal, por esta altura já haviam muitas mais parabólicas instaladas e até alguns canais retransmitidos clandestinamente em sinal terrestre. Entre os canais que seduziam os telespectadores, estava o canal alemão RTL. Inicialmente através da emissão de filmes eróticos de baixa qualidade, segundo Nuno Markl (claro inventor da palavra "trungalhunga"), muitos dos filmes que presenciou envolviam raparigas e palha. Outros canais pegaram a onda do erotismo mas entretanto (com o aparecimento de dezenas de canais eróticos FTA) largaram as mãos e entregaram as madrugadas a repetições de séries americanas dobradas a alemão. Em 1990, o formato Colpo Grosso chega a uma grande parte da Europa por via da sua versão alemã que também teve um forte seguimento na Alemanha, a um ponto que um artigo de retrospectiva dava pelo nome de "o seu vizinho erótico na TV". De repente, um dos principais canais privados europeus estava rendido a um formato idealizado por Silvio Berlusconi, cuja versão original deu na SIC nos primeiros dois anos de vida (e a SIC vai ter direito à sua secção). Nem a RTP estava pronta, supostamente por causa do escândalo do Império dos Sentidos.

A SIC E A SUA FIXAÇÃO SEXUAL

Quando a SIC entrou no ar, nem tudo eram novelas da Globo, séries e filmes de qualidade (ou não) e informação independente. O seu primeiro sábado ficara pautado com aquela que viria a ser uma companhia duradoura para muitos sábados, a terceira temporada de Colpo Grosso (que a SIC denominou de Água na Boca), esta temporada tinha conforme disse na crónica de 2019, uma temática europeia visando a mudança entre a CEE e a UE (graças ao Tratado de Maastricht). Antes, até se dizia que as parabólicas em Portugal representavam o lado audiovisual da entrada na CEE.

1993 foi meio que o ano da trungalhunga, a SIC estava na dianteira e a RTP tentava explorar o mercado, embora a RTP achava que sem subterfúgios não se ia a lado nenhum. Para os adultos, em específico as donas de casa, o Canal 1 passava Sexualidades, um breve programa do tipo da Hora do Sexo da Antena 3, mas que não durou muito tempo e foi alvo de críticas do sector conservador. Para as crianças, o mesmo canal passava ao fim de semana a série francesa Viva a Vida, onde uma avó explicava aos seus dois netos alguns conceitos sexuais, com duas personagens animais que aparentavam representar algumas das situações muito questionadas por crianças. Diria que a série era mais vincada no conceito do amor do que no conceito do sexo.

A SIC, nos seus primeiros meses (e anos!), passava programas da Playboy quase a fechar a emissão, de preferência em vésperas dos fins-de-semana. Em Fevereiro de 1993, a SIC foi atingida por fortes críticas por causa do anúncio de que iriam passar o polémico Eu Vos Saúdo Maria, ecoando o que acontecera numa sessão no verão de 1985. Em Março de 1993, a TV Mais noticiava sobre a versão brasileira do Água na Boca, que se chamava Cocktail de Frutas (embora o programa fosse chamado pura e simplesmente de Cocktail) e por aquela altura já tinha sido cancelado, junto com outras versões do programa como a alemã e a italiana, a italiana teve muito sucesso em países como Portugal e o Japão.

A SIC ainda passava filmes e séries com teor sexual: em 1995 passava a série italiana Valentina, outro produto financiado por Silvio Berlusconi, e anos mais tarde a série Aphrodisia do canal M6. Na passagem de ano eram comuns as emissões de filmes eróticos. Depois da renovação de 1996, a RTP compra à Carlton o programa The Good Sex Guide, dava na RTP 2. Com o passar dos tempos o conteúdo iria desaparecer, ou será que iria?

DOBRAR O CABO

O aparecimento da televisão por cabo trouxe inicialmente uns quantos canais que já tinham sido familiarizados pela audiência portuguesa, como a já supracitada RTL e a DSF que ficou célebre por passar anúncios a linhas eróticas (também havia em Portugal até finais dos anos 2000) durante a madrugada. Tal foi o furor que em vários países europeus as pessoas começaram a fixar números em alemão graças aos anúncios destas linhas.

Em Lisboa (em Porto e Braga era o 26), em 1995/1996, apareceu o Canal Fiesta, que era uma tentativa falhada de fazer um canal generalista por cabo da Antena 3. Entre os programas que emitiam estavam as fitas eróticas que a Guia TV Cabo recusava-se em publicar. Com o tempo, o canal fechou e em 1998 foi substituído pelo canal Vivir Viver (mais tarde só Viver). Este canal partilhava as suas emissões nas madrugadas dos fins-de-semana com o canal Climax, que mais tarde mudou de nome várias vezes, sendo que o mais recordado era Íntimo. Fitas pornográficas (!) dos anos 80 e 90 eram emitidas com dobragem em espanhol, fixando aos portugueses a frase "oh si cariño". O canal era visto também pelas camadas mais jovens e também tornava-se incómodo para as pessoas que trabalhavam no Vivir Viver.

Ali pelos idos de 1999, a televisão portuguesa passava uma reportagem (a TVI fez uma) sobre uma colónia de nudistas no Brasil (o Brasil nos anos 90, conforme anúncios que vi no Anúncios de Graça, estava pautado também por anúncios com teor erótico), com seios à mostra. A SIC lança a SIC Radical em 2001, e uma das suas faixas que durou sensivelmente uma década era a Red Zone. Acho que antes de ser Red Zone era Mau Maria/Gostas Pouco Gostas. Chegou a passar até conteúdos da Private mas depois com as novas medidas perdeu o conteúdo e antes disso as televisões só passavam conteúdo que dizia ser sexual mas atendendo às leis de canais não codificados de entretenimento dos Estados Unidos, tinham que censurar os seios e afins. Também as publicidades passavam por grandes controlos e não podiam dar mais ênfase a rabos, mesmo que estivessem vestidos.

Uma nova lei da televisão em 2003 condena o canal Íntimo à codificação. O canal viria a ser encerrado em 2006. Em 2005, a SIC Radical foi multada várias vezes por passar conteúdo para adultos sem os devidos sinais. Já em 2006, a TV Cabo introduz o canal XXL à grelha, porém o canal só era visto se o código PIN fosse inserido. Hoje, atendendo à natureza gráfica dos EPGs que mostram imagens, também é preciso colocar o PIN para ver a grelha dos canais premium para adultos.

Os primeiros a surgirem foram a Playboy e o SexyHot em 1998. Em 2005, o SexyHot fora substituído pelo Venus, da Argentina, e que entretanto saiu e voltou à grelha. Em 2009, a produtora nacional pornográfica Hotgold entra no mercado televisivo com o seu canal premium HOT. Neste mesmo ano o XXL saiu da grelha da ZON e queriam introduzir um canal chamado HOT Nights para continuar a já larga tradição do Canal 18, mas uma série de factores (certamente relacionais mais com a internet do que factores de regulação audiovisual) forçaram o cancelamento do projecto.

O PANORAMA HOJE

De vez em quando fala-se de temas relacionados ao sexo e sobretudo ao amor nos programas da manhã. Em tempos a Antena 3 tinha a célebre rúbrica Hora do Sexo que muitas vezes ouvia quando saía da escola no início dos anos 2010. As madrugadas perderam o conteúdo pesado, se pensarmos em canais como a SIC, cingindo-se exclusivamente às televendas e repetições de conteúdo já emitido no dia. Uma regulação tomada sei lá quando, pois não me lembro quando foi, proibiu a passagem de anúncios a linhas eróticas na SIC e na TVI. No início dos anos 2010 havia a rubrica Ponto Q em dois programas do Canal Q (A Rede, que agora está em reposição, e quando A Rede acabou a rubrica passou para A Costeleta de Adão) onde eram analisados DVDs e filmes pornográficos, embora com farta censura nas legendas (por palavras com significados idênticos) e nas imagens (por objectos com formas idênticas). Em 2012 (eu acho) a SIC passava excertos da versão internacional do programa ucraniano Naked and Funny (Pegadinhas Picantes, segundo Silvio Santos) e a nudez era censurada pelas animações do Gosto Disto. Em 2014 o extinto canal +TVI passava Copa Bonita em duas versões sendo que ao fim da noite dava a versão não censurada. Era apresentada pelo Batáguas e arrependeu-se de fazer o programa.

Hoje, só a CM TV é que passa conteúdo erótico com regularidade, embora só nas madrugadas de sábado para domingo, com filmes eróticos (e um ou outro filme de terror mais para o erótico), embora o volume diminuiu bastante comparado ao início do ano passado, acho que era mais por ser uma questão de dinheiro do que uma questão regulamentar. Cabe à sociedade dizer qual o rumo a levar para este tipo de conteúdos na televisão nacional. Eu não vou dar a palavra já que o tema do sexo continua a ser tão polémico como era quando a SIC começou as suas emissões.

Posso ter-me esquecido de algo, mas eis uma crónica sobre a história da trungalhunga na televisão nacional.

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@ATVTQsV em um passado razoavelmente distante, há uns 20 anos atrás, o programa "Fantástico" da TV Globo exibiu uma reportagem sobre o "Nutícias" do canal SIC Radical. Achei inusitado, mesmo para os flexíveis padrões do Brasil. Saberia dizer em qual praia nudista a TVI meteu-se? E sim, a Televisão do Brasil era extremamente permissiva nos anos 90, era difícil algo ser considerado "excessivo" para a época. O EPG brasileiro é liderado para todos, inclusive o jornalista Anderson Cooper ficou chocado ao saber disto (ele costuma a passar suas férias em Trancoso, sul da Bahia). 

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Salvo erro, era Colina do Sol.

há 9 horas, PierreDumont disse:

E sim, a Televisão do Brasil era extremamente permissiva nos anos 90, era difícil algo ser considerado "excessivo" para a época.

Tal como nois, e ainda por cima numa altura em que não havia classificação etária na televisão portuguesa (a SIC e a TVI tinham os seus símbolos em 2005~2006) a não ser a ínfame "bolinha vermelha"

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