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Apenas Diferente


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Está prestes a chegar ao TV Universo a mais recente aposta na área da ficção: "Apenas Diferente" é da autoria de Tiago Moreira.

Com a assinatura do TVU Produções, esta história irá dar continuidade à aposta neste tipo de oferta que iniciámos no final de 2009. E, esta história, como o título indica, promete ser diferente...

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Muito gira apromo!

*uma pequena chamada de atenção, há uma gralha no segundo 00:10 com a palavra cegueira*

Nem depois de inumeras revisoes o erro passou.

Video corrigido e com melhor qualidade.

http://www.youtube.com/watch?v=aGYsU-M12e8

Tá muito gira a apresentação.

De quem é a música?

Placebo-Bright Lights

Não queira perder esta aposta da ficçao do Tv universo!

Não fique indiferente a " Apenas Diferente"!

Estreia Brevemente!

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ANTE-ESTREIA

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Bernardo é um humano apenas diferente. Simplesmente vê o seu “mundo” e nada mais. Um “mundo” criado à sua medida. Bernardo é cego desde os dezoito anos devido a um deslocamento da retina, que foi provocado por um trauma. Roubou-lhe a visão e parece que lhe levara também o coração. A sua vida é destroçada e para Bernardo deixara de ter rumo.

Bernardo tem pela frente uma luta sem fim. As discussões ditam o fim do casamento dos seus pais. Bernardo culpa-se pelo divórcio.

Com a ajuda de uma amiga, Matilde, fogem para Lisboa. É difícil a adaptação à capital. Com a sua amiga Laica, a cadelinha labrador, consegue sentir as maravilhas, os sons e os cheiros desta cidade.

Bernardo sempre tivera uma paixão pela escultura. Passa muito tempo agarrado ao barro. É através das mãos que forma com o material aquilo que “vê”. Bernardo entrega sempre uma escultura por mês à unidade de apoio a invisuais de Lisboa. Sempre gostou de ajudar os outros, apesar de nem sequer se conseguir ajudar a si próprio. Em certas situações parece viver num mundo à parte, o que levou a que muitas pessoas se afastassem dele. O isolamento de Bernardo é cada vez maior. A família para ele já não existe e os amigos são os únicos que ainda existem para ele.

Bernardo consegue viver desafogadamente a nível económico com a ajuda de Joana, sua prima. Misteriosa e extremamente bela, é licenciada em Psiquiatria. Nunca conseguiu perceber o primo, apenas o sustenta, não mostrando o mínimo carinho por este. Tem coisas mais importantes com que se preocupar…

Agora, aos vinte e quatro anos, Bernardo tem em mãos um novo problema.

Matilde tenta ser algo mais que uma amiga, mas Bernardo não nutre esse sentimento por ela. É Margarida que lhe desperta os sentidos. Mas ser invisual sempre impõe barreiras no amor, difíceis de ultrapassar. Ao fim de seis anos, a vida parecera finalmente sorrir-lhe. Mas o sorriso é depressa apagado. Joana, sua prima, morre assassinada e Matilde atira-se a toda a força a Bernardo nesta fase da sua vida. Sem dinheiro e com Matilde a sufocá-lo, Bernardo vê-se num beco sem saída…

Genérico

http://www.youtube.com/watch?v=9gZhwkJ6RCw

Se preferirem, leiam em http://www.tvuniverso.com/apenas-diferente/ante-estreia

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30 de Novembro de 2002

Castelo Branco amanhecera sob um imenso nevoeiro. O sol não se via e o dia parecia noite. O frio reinava naquele final de Novembro. A chuva e o vento eram a banda sonora daquele dia.

A ventania acordara Bernardo. Sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo, como um mau pressentimento. Era sábado, o único dia em que Bernardo podia ficar na cama até mais tarde. Mas hoje levantara-se cedo, para espanto da mãe. Laurinda Sousa estava na sala. De estatura baixa e magra, tinha quarenta e dois anos e estava desempregada; a vida só lhe tinha proporcionado desgostos. Era casada com Carlos, mas o casamento não correra bem logo de início. Casaram-se, tinham ambos vinte anos, mas depressa descobriram que a vida não correspondia às suas expectativas... A dor era imensa. As discussões tornaram-se inevitáveis. Culpavam-se um ao outro. Só quando Bernardo nasceu é que as coisas melhoraram, mas não muito… Laurinda sempre foi uma mulher com a amargura estampada no rosto.

Laurinda arranjou emprego em casa. Augusto, seu pai, vive com ela. Acamado e muito doente, a filha trata dele com grande sofrimento. Vê o pai todos os dias, sem sair da cama, como um bebé. Tem de lhe dar de comer, vesti-lo, dar-lhe banho… Mas apesar disso, Augusto, aos oitenta anos, apresenta uma lucidez incrível. Bernardo é o seu único neto. Apesar de não o ser de sangue é o de coração.

Adora-o.

Bernardo tem dezoito anos, feitos em Agosto. Entrara para a Universidade, em artes visuais. A escultura era a sua paixão. Ora com barro, ora com madeira, Bernardo passava horas e horas a criar um objecto fruto da sua imaginação. Também pintava; os quadros representavam como ninguém o que ia na sua alma.

- Tão cedo, meu filho! - Laurinda tinha estado a chorar, mas depressa limpou as lágrimas – Vai-te, então, preparar. Daqui a um bocado, preciso de sair e o teu avô não pode ficar sozinho.

- Claro mãe. Eu demoro vinte minutos - Bernardo passa a sua mão pelo ombro da mãe.

O banho fora rápido, e o pequeno-almoço depressa fora comido.

- Eu vou sair - Dizia Laurinda enquanto vestia o casaco e preparava um pouco o cabelo.

Augusto começara a gritar do seu quarto. Bernardo estava a levantar a mesa e, ao ouvi-lo, derramou o leite no chão. Vai a correr ter com o avô.

- O que é que se passa avô? – Pergunta Bernardo com o coração a palpitar. Agarra nas mãos do avô.

- Não me estou a sentir nada bem… - Augusto estava pálido.

Bernardo sai a correr para chamar a vizinha, que era médica. Alexandra tinha trinta e sete anos, mas há dez que morava ao lado dos Sousa. Era alta, bem-parecida e sempre pronta a ajudar.

- Então, Dra. Alexandra, como está o meu avô? - Indaga, Bernardo, nervoso.

- Não está nada bem. A tensão está baixa. Acho que as forças que tem são as únicas que lhe restam…

Bernardo sente uma dor no peito. Desequilibra-se, mas é amparado por Alexandra.

- Sentes-te bem? Desculpa dizer-te assim, mas pensei que já estivessem à espera… - Alexandra mostra preocupação e culpa.

- Acha que me conformo com a morte da única pessoa que é capaz de me ouvir e compreender?! – Desabafou, Bernardo, que começa a chorar.

Bernardo fora para artes contra os planos dos pais. Estes nunca quiseram que o filho fosse pintor. No entanto, Augusto apoiara-o sempre. Desde que se lembra, Bernardo estava com o nariz enfiado em tintas ou no barro. Apreciava a arte do neto.

Laurinda entra em casa carregada de sacos de compras. Ao ver a Dra. Alexandra deixa-os cair e agarra o filho.

- Ponha-se na rua, Já! - Gritou Laurinda, descontrolada.

- Mãe, por favor, ela veio ajudar-nos! - Bernardo vira-se contra a mãe.

- Ajudar é o que esta mulher nunca fez a esta família. – Laurinda estava enraivecida.

- Deixa, Bernardo. - Respondeu Alexandra, antes de sair.

Laurinda e Bernardo passaram o dia num vai e vem entre o quarto de Augusto e a sala. Eram já dez da noite quando Carlos chegou.

Bernardo nem parecia filho dele. Carlos era de estatura média, cabelo rapado e tinha um ar carrancudo. Era tudo menos carinhoso para a família.

- O jantar já devia estar na mesa! – Grita Carlos.

- Espera, por favor, já está quase! - Diz Laurinda, com medo.

Bernardo não se metia no meio das discussões dos pais. Já estava habituado.

Era já perto da meia-noite. Bernardo já tinha comido uma sandes “debaixo de fogo”. A discussão ouve-se na rua, mas os vizinhos já não se mostram alarmados. Já faz parte, também, da sua rotina. Do quarto, parece que Augusto está a chamar por ele; apesar da discussão acesa entre os pais de Bernardo, ouviam-se as palavras frágeis de Augusto. Bernardo corre para o quarto deste e fecha a porta.

- Bernardo, antes de partir tenho muitas coisas para te contar. Senta-te.

Bernardo pega na cadeira e senta-se ao lado do avô.

Augusto recupera o fôlego e começa a falar.

- Sabes que eu gosto muito de ti, sempre te apoiei, quero-te como se fosses meu neto…

- Mas eu sou seu neto! - Bernardo sorria, não acreditando.

- Não, não és! - As palavras amarguradas de Augusto arrepiam Bernardo. As lágrimas percorrem-lhe a face. As palavras pronunciadas por Augusto doem-lhe no corpo e na alma.

- Mas o que é que você está para ai a dizer?! - Laurinda entra de rompante. A discussão cessara fogo quando se aperceberam que Bernardo fora ter com Augusto.

- Não quero esconder-lhe mais a verdade! Ele merece saber… - Augusto já reunia poucas forças.

- Cale-se! Não tem voto na matéria! - Laurinda está completamente descontrolada.

- Bernardo, eles não são teus pais… - Augusto não se contém.

- Velho ranhoso! Egoísta! Quer tirar-me o que tenho de mais importante na vida! - Laurinda, deixando-se cair no chão, dá-lhe murros no braço.

Bernardo cai no chão, desmaiado.

- Está a ver o que fez?! Morra com esse peso na consciência! – Laurinda tratava o pai com uma crueldade inacreditável.

Laurinda e Carlos levam Bernardo para o Hospital.

Augusto não se arrepende do que fizera. Pelo contrário: O que tinha a fazer estava feito. Já há muitos anos que queria contar a verdade ao neto, mas ou não conseguia, ou era censurado pela filha e pelo genro. Fica ali na cama com os olhos fechados, à espera que a sua alma saia do seu corpo. Quer sentir-se leve, sem preocupações... Sabe que vai ficar na memória de quem o conhecia, nem que seja pelas piores razões…

Se preferirem, leiam em http://www.tvuniverso.com/apenas-diferente/1-episodio

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Uma boa história que promete desde o primeiro episódio. Não percam, que ainda vai trazer muitas surpresas, eu sei do que estou a falar. :segredo:

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Parabéns, nfren B)

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A equipa que produziu esta história :Eu, a magg ,o ruben e todos os outros prometem uma grande história.

Um primeiro episodio que tem potencialidade de agarrar os leitores mas muitas novidades virão.

Toda a equipa espera a retribuiçao do trabalho realizado.

Não fique indiferente a " Apenas Diferente" - todas as segundas-feiras e quintas-feiras.

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1 De Dezembro de 2002

A noite fora longa para os pais de Bernardo. Mas não para ele.

O barulho das máquinas acorda-o. A enfermeira, que estava no quarto, chama o médico, pois Bernardo tenta tirar a ligadura que lhe venda os olhos.

- Bernardo, fica quieto! - Ordenou o médico, que pega nas mãos de Bernardo para o tentar sossegar, mas este não compreende a razão de não poder tirar a venda.

-Os teus pais estão aqui fora. Vou pedir-lhes que entrem…

-Não! Não os quero ver! – Bernardo tem na cabeça as palavras do avô.

-O que é que te aconteceu? – O médico sabia que o comportamento de Bernardo poderia ter alguma coisa a ver com o que lhe acontecera.

Bernardo conta ao médico a razão de não os querer ver. O médico não mostra surpresa, uma vez que este não era o primeiro caso destes com que lidava.

-Bernardo, vais ter de ser forte, as últimas notícias provocaram em ti alterações…

-O que é que se passa? Por favor, diga-me! - Pediu Bernardo, impaciente.

-Os teus olhos têm um problema…

- Páre de falar comigo como se eu fosse um bebé! Diga de uma vez por todas o que se passa comigo! – Ordena Bernardo.

-Estás cego devido a um deslocamento da retina!

A notícia cai que nem uma bomba em Bernardo. O choque é inevitável, paralisando-o. Bernardo sente uma dor incontrolável no peito. Uma revolta e raiva que tão cedo não iriam passar.

-Não pode ser! Eu não posso ficar cego, não posso! - Grita desalmadamente Bernardo. Revoltado, começa a chorar e a partir tudo à sua volta.

O médico tenta agarrar o rapaz e grita pela enfermeira. No entanto, já não consegue agarrar Bernardo. A enfermeira dá-lhe um sedativo. Bernardo chora incontrolavelmente, mas acaba por se deixar dormir de cansaço.

Há momentos na nossa vida em que somos apanhados de surpresa. Quando menos esperamos, a nossa vida escorrega entre os nossos dedos, mas somos nós que a temos de agarrar, lutar para que ela volte, pelo menos, ao normal. Para Bernardo, esta partida da vida deitara por terra os seus sonhos. Tudo aquilo em que acreditava voou com a força do vento daquele primeiro dia de Dezembro.

Se preferir, leia no site: Clique aqui

Espero que gostem desta história! Eu gostei

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Este 2º episódio termina de uma forma muito boa. Mas, para mim, o 1º episódio foi melhor, talvez por ter cruzado várias histórias e vários acontecimentos (ou talvez pela revelação com que termina o episódio).

Ainda bem que estás a gostar da historia.

Foi um episodio curto. Houve apenas a revelaçao do problema de Bernardo.

Acredita que as revelaçoes aparecem em cada episodio.

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2 de Dezembro de 2002

Bernardo soubera há poucas horas que o avô tinha morrido e a amargura preenchera-o toda a noite como sua fiel companhia. As últimas palavras dele mudaram-lhe o rumo da vida para sempre.

Laurinda e Carlos não entraram no quarto do filho, mas não arredaram pé do hospital. A vontade de o ver e de lhe explicar tudo o que aconteceu dominava-os enquanto esperavam.

Amanhecera. O dia estava mais calmo, mas frio. A geada branqueou a paisagem. Bernardo abre a janela do quarto e sente um frio percorrer-lhe o corpo e congelar-lhe o coração. Não conseguia ver o dia. Ouvia apenas as gotas do orvalho que pingavam do telhado e o som dos carros e das ambulâncias. Tentara imaginar o dia e, pela face, desceram gélidas lágrimas que Bernardo não limpou. Preferiu senti-las frias no seu rosto. Sentiu um alívio na alma, mas não no coração. Não queria saber o que os pais lhe tinham para dizer. Ia-se embora. Não os queria ver, ou melhor, nem ouvir nem sentir. Sentia uma angústia enorme de cada vez que se lembrava deles.

O telemóvel dele toca. Teria sido posto no quarto algures, pela enfermeira. Estava a jogar à cabra cega, mas não podia tirar a venda. É guiado pelo som, conseguindo finalmente apanhá-lo, depois de tropeçar na cama.

-Sim, quem fala? - Era estranho para Bernardo atender a chamada e não poder ver quem era no visor.

- Bernardo, é a Matilde! O que é que se passou? Estou preocupada! Olha, vou agora para aí. Eu já falo contigo…

Desliga o telemóvel. Matilde era a melhor amiga de Bernardo. Fora estudar para Lisboa em Setembro, mas não fora a distancia que os separara. Matilde continuava a mesma de sempre: Um bocado distraída, mas muito boa ouvinte. Eram as qualidades que para Bernardo tornavam a melhor amiga inconfundível.

Matilde fora abalroada pela família de Bernardo que a todo o custo tentaram não a deixar entrar.

-Já que eu não posso ver o meu filho, você também não! -Laurinda estava descontrolada.

Matilde nem lhe responde. Mas Carlos agarra-a pelos braços impedindo-a de prosseguir.

-Você não vai a lado nenhum! - Diz entre dentes Carlos, enquanto agarra a rapariga.

-Largue-me! Deixem-me em paz! Não tenho culpa que o vosso filho não vos queira ver!

Não foi preciso que Bernardo lhe contasse o que se passava para Matilde perceber a situação. Algo se tinha passado e o amigo e os pais estavam de relações cortadas. Estes não a conheciam. Matilde era uma estranha que ia entrar no quarto do filho antes dos próprios pais.

-O que é que você quer do meu filho? – Interroga Laurinda, histérica.

-Eu sou amiga dele. – Matilde hesita em responder, mas acabar por fazê-lo.

-Mais propriamente namorada, não? – Carlos agarra Matilde com mais força. Para este ela estava a mentir.

-E se fosse? Qual era o problema? – Contesta Matilde, irónica.

Laurinda dá um estalo a Matilde e o barulho alarmou Bernardo no quarto.

Os gritos de Matilde alertam os enfermeiros, que põem um ponto final na discussão.

Matilde entra no quarto pouco tempo depois. Com uma mão na cara avermelhada. Laurinda batera-lhe com toda a força.

-Grande cabra! - Diz baixinho Matilde, não querendo que Bernardo a ouvisse.

-Sim é uma grande cabra, mas se fosse só isso…

-Desculpa insultar a tua mãe mas ela deu-me um estalo sem razão! – Diz Matilde enquanto fecha a porta.

Matilde aproxima-se de Bernardo e agarra-o pelas costas. Ele está imóvel, com as mãos coladas ao vidro, mas depressa tira de lá as mãos e se vira para a amiga.

-Eu estou cego, Matilde. – Diz friamente Bernardo.

Matilde abraça de imediato o amigo, completamente chocada. Tentava dominar as lágrimas, para lhe dar palavras de conforto.

-Eu vou ter alta hoje… Preciso da tua ajuda. – Revela Bernardo à amiga.

-Claro! Ajudo-te em tudo o que precisares! – Diz Matilde, não largando o amigo.

- Quero que me leves contigo, não importa para onde, quero apenas um sítio onde não esteja com aquelas pessoas tão depressa. – Pede firmemente Bernardo.

-Bernardo, tens a certeza? – Questiona Matilde, admirada.

-Sim. – Sussurra Bernardo, apertando com força as mãos da amiga.

Matilde pegou nos objectos que Bernardo tinha no hospital. Este veste as mesmas roupas do dia em que deu entrada. Conseguem escapulir-se, aproveitando um intervalo em que Laurinda e Carlos não se encontravam no Hospital, porque tinham ido buscar o almoço ao restaurante ao lado do hospital. Bernardo vai agarrado a Matilde. Era o seu apoio e agora os seus olhos. Apenas sentia os sons e os cheiros daquele hospital. Chegam finalmente ao carro.

Já lá dentro, Matilde pergunta:

-Tens a certeza de que é isto que queres?

-Sim! Vamos embora antes que eles apareçam. – Diz apressadamente Bernardo.

O carro sai do parque a grande velocidade.

Por vezes, a nossa vida precisa de uma boa reviravolta. No caso de Bernardo, fora forçada. Tanto pela doença, como pelo próprio. Necessitava de mudar de ares. Os pais sempre o protegeram em demasia e agora ele percebia porquê. Era como se estivesse preso em casa. Os amigos e as acções que fazia eram às escondidas dos pais. Eram o seu bem precioso, mas a mentira guardada durante anos transformara o seu diamante em cinzas, de onde nada iria renascer.

Nem sempre o que queremos, o que fazemos, é o melhor para nós. Podemos errar, sofrer, partir tudo à nossa volta. Há momentos da nossa vida em que só pensamos em desaparecer. Contudo, temos de nos erguer e seguir em frente.

Por muito que doa e que custe, amanhã é um novo dia… E depois outro… E outro…

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2 De Dezembro de 2010

O som dos carros em plena hora de ponta era um original despertador para Bernardo.

O tempo passara a voar. Já há seis anos que estava em Lisboa e que tinha mudado radicalmente de vida. Já há todo esse tempo que não tinha notícias dos pais. Foi Joana, sua prima, que lhe dera abrigo durante estes anos todos. Os laços familiares deles contrastavam com a sua relação distante. Dividiam casa, mas era como se fossem estranhos. Joana era o mistério em pessoa.

Bernardo acordara transpirado em plena noite de inverno, sufocado entre o lençol. Laica viera lambê-lo. Era a sua fiel companheira. A cadela tinha seis anos. Bernardo achou que a decisão de arranjar um cão guia era o melhor. Era com ela que sentia os sons e os cheiros da maravilhosa capital. A vida já sorria para Bernardo. A cegueira já não era motivo para sair com os amigos. Tinha feito muitos amigos, mas os que ainda perduravam eram raros. Ser amigo de um cego para alguns era motivo de vergonha. Matilde e Ricardo eram os seus fiéis companheiros. Matilde nunca o abandonara. Bernardo nunca iria esquecer que foi com a ajuda dela que saiu do inferno.

A rotina diária já se tinha implantado com normalidade na vida de Bernardo. Tomava banho, vestia-se e saia para ir comprar o pão. As pessoas tratavam-no como “coitadinho”, mas Bernardo não se mostrava muito afectado com isso. Já conhecia a dona do minimercado de sempre. A dona Judite era uma senhora de cinquenta anos que sempre o ajudara com as compras. Ainda havia pessoas em quem se podia confiar.

Enquanto caminhava sem rumo, guiado pela cadela, dá um encontrão num homem. Este vinha ao telemóvel, deixando-o cair no chão.

-Mas você não vê por onde anda? – Pergunta o homem antipaticamente, enquanto apanha o telemóvel.

-Claro que não vejo! Sou cego. Para isso é que serve a cadela, não acha? – Responde antipaticamente Bernardo.

-Pois, pois! Deve ser tão cego quanto eu! O que é que quer? Esmolas? Não tem vergonha! – Exclamava o homem, que não acreditava em Bernardo.

-Eu não quero nada seu. Eu sou realmente cego. Bernardo tira os óculos de sol. Andavam sempre com eles.

O Homem fica espantado. Afinal ele não lhe estava a mentir.

-Olhe, tome o meu cartão. Nunca se sabe se não vai precisar de mim… - O homem vai-se embora.

Bernardo mete o cartão no bolso. Nunca tinha esbarrado com uma pessoa tão antipática.

Bernardo chega a casa. Laica vem estafada. Deita-se no sofá depois de ter bebido água. Bernardo arrumava as compras. Joana era muito desorganizada. Era uma autêntica aventura todos os dias, para Bernardo, encontrar o que buscava.

A campainha toca. Bernardo chega-se à porta com laica a ladrar.

-Quem é? - Questiona Bernardo a quem quer que fosse que estivesse do outro lado da porta.

- Agente Marco Sousa, polícia judiciária. - respondem do outro lado.

-Bernardo abre de imediato a porta.

-O que é que se passa? – Pergunta Bernardo surpreso com a visita inesperada.

-É aqui que mora Joana Valpaços? – Pergunta o agente, contemplando o apartamento.

-Sim, ela é minha prima! - Contesta-lhe Bernardo.

-Era. Foi encontrada morta esta madrugada! – Revela friamente o polícia.

Bernardo estava sem palavras. A prima tinha morrido. A casa onde estava a morar era dela…

-Mas como? Ela saiu por volta das duas da manhã! – Conta Bernardo após cair em si.

-Deu conta? - Pergunta o polícia que já tinha dado conta da cegueira de Bernardo.

-Era todos os dias assim. Ontem cheguei a essa hora. Tinha vindo de uma saída com amigos quando me cruzei com ela no corredor. – Revela Bernardo, pensativo.

-Falaram-se? – Interroga-o.

-Não! – Responde de imediato.

-Então como sabia que era ela? – Desconfia o polícia.

-Os passos dela são inconfundíveis. Quando cheguei a casa tinha uma mensagem áudio no telefone. Como sou cego, a Joana gravava no telefone uma mensagem que dizia para onde saía momentos depois. – Diz Bernardo, apontando algures.

- Já verificou se recebeu alguma mensagem perto da hora da morte dela? – Interroga o polícia enquanto se dirige ao telefone.

-Não!

O telefone piscava. O polícia carrega no botão.

1 Mensagem não lida

“-Bernardo, não vou voltar a casa. Nem amanhã, nem nunca. A minha vida tem muitos problemas e estou farta deles. Não tem resolução. Tenho apenas um favor a pedir-te. Apenas quero que trates de uma pessoa muito especial: O meu filho. Está na instituição de solidariedade de Corroios. Desculpa.”

Um estrondo enorme ouve-se, tal como um grito de dor.

Bernardo está chocado. A prima ter-se-ia realmente suicidado?

Não lhe parecia. Apesar de misteriosa, andava sempre bem-disposta. Não acreditava que esta se tivesse suicidado.

O polícia prometera a Bernardo averiguar a situação.

-Desculpe, mas não se importa de me acompanhar até Corroios? – Pede Bernardo.

-Claro que não! – Responde o agente.

Momentos depois, estavam à frente da instituição. Bernardo não sabia ao certo por quem perguntar, mas teria de procurar o filho de Joana. A assistente social conversa com Bernardo.

-Ó meu Deus! Ela morreu! E agora, o filho dela? – Pergunta, enquanto enxuga as lágrimas.

-Não se preocupe. Eu tomo conta dele! – Diz, convicto.

-Mas você é cego! Você não as bate todas, de certeza! – A assistente estava a ser desagradável.

-Isso não me impossibilita de ficar com ele! – Responde prontamente, fazendo-lhe frente.

-Claro que sim, não lhe irá proporcionar uma vida confortável…Nem deve trabalhar! – Acusa a assistente.

-Sou escultor. Apesar de ser pouco dá bem para viver. E não é por ser cego que não posso dar todo o amor e carinho que essa criança tem necessidade! – Bernardo tenta desvalorizar o facto de ser cego.

-Pois, pois. Isso é muito bonito, mas ele nunca vai ser feliz consigo. – A assistente passa o limite de Bernardo. Não queria que a situação piorasse. Acalma-se e pergunta apenas:

-Pelo menos, posso vê-lo?

-Sim. Siga-me – responde a assistente, visivelmente mais controlada.

É a muito custo que Bernardo segue a assistente social. Os passos barulhentos e largos desta atrapalhavam-no. De repente, uma criança vem ao seu encontro

-A minha mãe? - Pergunta-lhe ele.

Bernardo fica perplexo

Como é que se diz a uma criança que a sua mãe morreu? Como se lhe explica que se suicidou? Bernardo tem vontade de o levar para casa, mas a assistente nunca iria aprovar.

Bernardo está num beco sem saída visível. O dinheiro que ganhava não era muito e não iria chegar para se sustentar a ele e ao filho de Joana por muito tempo. Aliás, iria ter que sair de casa, visto que não era a sua. Não sabe o que fazer ou dizer. Apenas abraça a criança.

Depois da tempestade vem a bonança. Mas uma nova tempestade afectava Bernardo. Este aparentava ser forte, mas é muito frágil. Qualquer coisa o deita a baixo e o faz fugir para outro sítio. Mas a fuga não é forma de resolução dos problemas. Apesar de ter isso em mente, o menino mudara-lhe as ideias. Não o iria deixar. O que não percebia era o porquê de aquela criança não viver com a mãe, estando na instituição, mas recebendo diariamente a visita desta.

Uma solução brilha na cabeça de Bernardo. Mas pô-la em prática vai ser uma aventura.

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3 de Dezembro de 2010

Bernardo acorda em sobressalto. Não tinha dormido em casa. Como a casa já não lhe pertencia, mudara-se para casa de Matilde, apenas com algumas roupas. Ao fim de seis anos, uma nova tempestade ameaçava-o. Dormira na sala naquela fria noite. Laica viera lambê-lo, como era costume todas as manhãs.

Matilde aparece na cozinha em camisa de dormir e ajoelha-se à frente de Bernardo. Faz-lhe festas no cabelo, achando que este estava a dormir. Este agarra-a e puxa-a para cima de si.

-Bom dia! – Diz bernardo com um sorriso.

-Tanta boa-disposição logo de manhã! – Matilde também estava sorridente.

- Do que é que me vale passar o dia a lamentar-me? De nada, pois não? – Diz Bernardo enquanto abraça Matilde.

- É isso mesmo! Então hoje vamos dar um passeio. Eu vou a Castelo Branco. Vou ver os meus pais e…

- Estragaste tudo! Sabes bem que não quero que os meus pais me vejam! - Exclama Bernardo, mudando de humor e tirando Matilde de cima de si.

- Ok, tu é que sabes… – Responde Matilde, querendo voltar para os seus braços.

-Eu tenho uma coisa a dizer-te… - Bernardo está com cara de caso.

-Claro. Diz. – Matilde está curiosa.

-Eu marquei uma operação. – Diz Bernardo.

-Tem calma. Vai tudo correr bem. – Sossega-o Matilde.

-Estava na lista de espera há três anos, mas finalmente fui chamado. – Anunciou Bernardo, com a incerteza estampada na face.

-Para quando é? – Pergunta Matilde.

-Dia vinte deste mês. – Revela Bernardo.

-Já? – Diz, admirada, Matilde.

- Sim, estou desejoso de voltar a ver de novo a cor do mar, os enormes prédios e contemplar finalmente com os meus próprios olhos Lisboa. Só se correr bem a operação é que talvez contacte os meus pais…

Abraçam-se com muita força.

A ideia de ir a Castelo Branco é adiada. Decidem festejar com Ricardo a operação de Bernardo. Ao invés de irem para os inúmeros bares e discotecas muito movimentados que Bernardo tentava sempre evitar, foram a um bar mais sossegado, em Sintra. Matilde e Bernardo dançaram juntos toda a noite. Os olhos de Matilde brilhavam. Beberam, dançaram, divertiram-se imenso. Era dia de festejo, mas os festejos iam continuar…

Matilde não bebera muito, mas Bernardo já não andava direito. Tinha bebido alguns copos, apesar de ainda parecer sóbrio.

Estavam à porta do apartamento. Bernardo agarra-se à amiga. Beija-lhe intensamente o pescoço. Matilde não consegue resistir-lhe. Matilde consegue finalmente abrir a porta.

Bernardo não a largava e Matilde via agora a sua oportunidade. Sempre tentou demonstrar o seu amor por Bernardo, mas a coragem falhava na “hora H”. Sempre o amou e cada vez mais essa paixão se tornava forte e irresistível. Não era obsessão, apenas um amor forte que nunca foi retribuído. Matilde sempre tivera ciúmes de todas as mulheres que se aproximavam de Bernardo. Porém, esse sentimento foi acalmando ao perceber que Bernardo nutria algo mais de que uma simples amizade que os unia. Nunca tinha estado com um homem. Bernardo sempre fora o homem da sua vida e não se via sem ele. Estavam cada vez mais juntos. Cada dia que passava, Matilde sufocava com o amor que sentia. Bernardo não tinha namorada. O caminho estava livre. Porque não?

Tudo iria ser perfeito. Bernardo iria voltar a ver. Apesar das dúvidas de Bernardo, Matilde tinha a certeza de que este ia voltar a ver. Ia voltar a ver a amiga que não via há seis anos. Apenas sentia os seus cabelos ondulados e ouvia a sua voz doce. Bernardo bebera em demasia, mas isso não o impedia de sentir o que sentia. O seu coração estava preenchido e finalmente se formava uma luz ao fundo do túnel.

Matilde puxa Bernardo, beijando-o apaixonadamente. Envolvem-se cada vez mais. Deixam-se levar pela noite dentro.

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