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131: A Televisão na Holanda


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Está a chegar a Eurovisão! Hoje vamos fazer uma análise histórica e contemporânea da televisão do país que a acolhe este ano, a Holanda, e o que torna o sistema único em todo o mundo.

SISTEMA FECHADO

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Apesar de terem decorrido algumas experiências entre 1929 e 1951, quase todas com o aval da Philips, só a 2 de Outubro de 1951 é que se dá por iniciada a televisão na Holanda de uma maneira oficial. A organização escolhida para a televisão foi a mesma da rádio, sendo que era funcionado num sistema fechado, próximo dos pilares da sociedade, e dividida entre sectores religiosos e políticos. Nos primeiros anos, as omroeps eram as seguintes:

  • AVRO (Associação Geral de Radiodifusão)
  • NCRV (Associação Radiofónica Cristã Holandesa)
  • KRO (Radiodifusão Católica)
  • VARA (Associação de Trabalhadores Amadores de Rádio)
  • VPRO (Radiodifusão Liberal-Protestante)

A estas cinco somava-se uma sexta, que na rádio era a NRU (União Radiofónica Holandesa) e na televisão a NTS (Associação Televisiva Holandesa) para a criação de programas sumamente informativos e desportivos. A NRU foi criada nos anos da ocupação nazi que trouxe também a taxa da rádio. Nos primeiros anos discutia-se como é que as omroeps iriam dividir o tempo entre si. Em 1952 (a 22 de Novembro) aparece pela primeira vez o Sinterklaas (Pai Natal holandês) na televisão. Em 1954, a NTS faz a sua primeira emissão pela Eurovisão (a 6 de Junho) recorrendo a um festival em Montreux, sendo que em 1956 participa no primeiro Festival Eurovisão da Canção, na altura com duas canções para cada país e fora dos limites criados poucos anos depois. A 2 de Janeiro de 1956, era emitido pela primeira vez o NTS Journaal, o primeiro noticiário feito para televisão, que visava acabar com a dependência dos noticiários feitos para cinema no canal único. Entre 1955 e 1960 foram feitos esforços para aumentar a cobertura do sinal para todo o país. Só em 1960 é que as emissões passaram a ser diárias, ainda tudo a partir das 20:00, sendo que em 1962 passou a começar às 19:30.

ABERTURA DO SISTEMA FECHADO, MAIS CANAIS E NOVAS OMROEPS

Os anos 60 trouxeram à tona a questão da concorrência. Infelizmente, tal concorrência segundo as leis holandesas era ilegal, operando a partir do Mar do Norte. O caso mais sonante entre os holandeses era a da rádio Veronica, que tal como muitas rádios clandestinas a emitir para o Reino Unido, emitia de um barco, e mais tarde em 1964, a ilha REM (Empresa Exploradora de Anúncios) com emissões de rádio e televisão. A Radio/TV Noordzee foi a que consternou mais com o público holandês, dado que o canal permitia anúncios - na altura o sector público não suportava emitir. O canal que era da TV Noordzee foi cassado e a antiga empresa da ilha REM foi dada a uma nova omroep do sistema público vigente, a TROS (Associação de Radiodifusão Rádio-Televisiva). Em Outubro de 1964, nascia a Nederland 2, o canal existente passou a ser denominado de Nederland 1. Em 1965 foi fundada aquela que viria a ser a STER (Associação para Emissão de Anúncios), cujo primeiro intervalo televisivo foi feito a 2 de Janeiro de 1967 às 19:00. Em 1965, uma crise no sistema público desencadeou uma crise política que acabou com o gabinete de Marijnen. Uma nova Lei de Radiodifusão em 1969 pretendia abrir um sistema tido como "fechado". Tal lei mudaria definitivamente a definição das omroeps como tal e daria início a mais duas omroeps de suma importância, a EO pertencente a evangélicos e a Veronica alguns anos mais tarde. Em 1967 a Holanda passa a emitir a cores, sendo um dos primeiros países a adoptar o recém-criado sistema alemão PAL - usado pela primeira vez no Reino Unido em Julho.

A lei de 1969, motivada pela crise uns anos antes, levou à mudança de paradigmas das omroeps. Os requisitos destas novas empresas eram:

  • Devem ser abrangidas diferentes categorias de programas (portanto, por exemplo, não limitar-se a programas religiosos ou apenas música).
  • Um critério cultural um tanto definido de forma ampla: os valores culturais e religiosos que viviam entre as pessoas tinham de ser usados nas transmissões.
  • Um critério de membro: um mínimo de 100.000 membros são necessários para a transmissão e quanto mais membros, mais tempo de antena. Foi introduzido um sistema (que ainda está em uso) com as omroeps A, B e C.

Ainda antes, em 1967, a VPRO tinha deixado a sua veia mais protestante e seguiu só a veia liberal do nome. Um programa chamado Hoepla mostrou o primeiro nu integral da televisão holandesa, sendo a visada a actriz Phil Bloom. Políticos acreditavam que o programa (cuja faixa etária eram os adolescentes) era tido como "pornográfico". Hoepla tinha quatro emissões, sendo a terceira adiada em quase duas semanas dado que a cúpula da omroep tinha de cortar algumas partes polémicas e a quarta nunca foi ao ar devido a uma polémica envolvendo a Phil Bloom sendo fotografada pela Playboy, sendo que a televisão holandesa proibia tais promoções alheias. Uns anos antes, um outro programa da VPRO tinha uma paródia ao Pai Nosso (a televisão nossa de cada dia).

Em 1969, fruto da lei, a NRU e a NTS fundiram e foi criada a NOS. A 1 de Janeiro de 1970 a STER passa a autorizar a emissão de anúncios a cores e em 1972 introduz a mascote Loeki para os separadores.

A Holanda participa nos Jogos Sem Fronteiras através da omroep TROS e esta mesma cria o programa Te land te zee en in te lucht (Em Terra, no Mar e no Ar), um dos concursos mais duradouros da televisão holandesa, que acabou em 2008 - no ano seguinte disseram que uma nova temporada era impossível por falta de tempo - em 2010 foi gravada uma nova e foi ao ar no ano seguinte. Em 1976, Sesamstraat - uma das versões internacionais da Rua Sésamo há mais tempo no ar ininterruptamente - começa a ser emitida pela NOS, até 1984 era produzida também com a sua congénere flamenga. Em 1981 a NOS cria o seu Jornalinho, o NOS Jeugdjournaal, seguindo um padrão idêntico ao Newsround britânico (e ao posterior Caderno Diário), sendo este diário.

A televisão foi fortemente influenciada pela TROS e pela Veronica, nomeadamente no excesso de programas de entretenimento que estas duas produziam - boa parte iam para o segundo canal, que em 1988 passou a ser designado de TV2, seguindo a estrutura ATV (AVRO, TROS, Veronica). Inicialmente estas três queriam fazer um canal privado junto com uma combinação de empresas, era para ser a ATV/EPTV (Elsevier, Perscombinatie, de Telegraaf, VNU). Tais planos nunca se concretizaram - só a ATV dentro do sistema público. Na mesma altura os canais passaram a ter uma identidade mais emancipada, e isto verificou-se com a chegada do terceiro canal, Nederland 3, a 4 de Abril de 1988, absorvendo os programas das omroeps culturais e educativas. Nesta altura estava a haver uma grande mudança no panorama televisivo holandês.

CAOS PRIVADO

Até 1992, era proibido ter canais de televisão privados a funcionar dentro da Holanda. Em 1988, a Radio 10 foi fundada emitindo a partir de Itália e a emitir o seu sinal por satélite para a Holanda. Havia uma tensa discussão relativamente ao primeiro canal privado, que iria ser a TV10 do Joop Van de Ende (um dos fundadores da Endemol - o Mol vem de John de Mol), com uma data de lançamento especulada para 1 de Novembro de 1989. Parecia ter mais sucesso do que um outro canal, a RTL Véronique, que tinha capitais da Veronica nos primeiros meses. O governo recusou o pedido da TV10 e só a RTL Véronique começou a emitir, a 2 de Outubro de 1989, a partir do Luxemburgo, usando o satélite Astra para emitir para a audiência desejada, a Holanda, e sem cobertura terrestre (mais tarde a RTL 4, juntamente com mais três canais - 5, 7 e 8 - passariam a ter cobertura terrestre sem pagar mas no Luxemburgo já que a concessão é deste país). A RTL Veronique mudou de nome para RTL 4 quase um ano depois de entrar no ar, provavlmente por causa da saída da Veronica e de outros accionistas.

Só em 1992 é que foi permitida a televisão privada em solo holandês - situação que consternou Joop Van de Ende quando se apercebeu de que a TV10 não tinha como estar a emitir. Porém inicialmente tardaram a chegar os canais inteiramente privados - em 1995 nasceram a SBS 6 e a Veronica, que tinha sido emancipada do sistema das omroeps para se tornar num canal privado. A Veronica era o terceiro canal da Holland Media Groep, depois da RTL 5 e da RTL 4.

Com a fugida da Veronica, Bart de Graaf (faleceu em 2002) cria a sua própria omroep: a BNN (Bart's News Network) em 1997. Depois da morte muda de nome para Bart's Neverending Network. Também vimos o crescimento de omroeps religiosas fora do espectro cristão, que tinham de obedecer a uma lei específica. As omroeps foram terminadas no fim de 2015 e foram integradas na NTR. Em 1995 a NOS deixa de ser responsável pela produção de conteúdos infantis (salvo o Jeugdjournaal) e educativos, dando estas tarefas à NPS. A NPS entrou em processo de fusão com a Teleac e a RVU, ambas educativas, em 2010 e a NTR foi criada.

ERA DIGITAL

A Holanda nunca esteve atrás dos avanços tecnológicos: em 1992 começava a emitir por satélite e com apoio técnico da Philips o canal TV Plus, que esteve uns bons cinco anos no ar. No fim dos anos 90 não era comum ver miras técnicas em 16:9 depois do fecho das emissões dos canais da Publieke Omroep. A Holanda estava também a testar a televisão digital em todas as suas vertentes e facetas, sendo que no início dos anos 2000 nascia aquela que viria a ser a Digitenne, hoje propriedade da KPN (a KPN já tinha dado alguns transponders para a Eutelsat nos anos 90, nomeadamente a canais como a TRT International e a Polsat). Em 1998 começaram a ser feitos esforços de digitalização dos arquivos. A SBS ganhava um segundo canal, a NET 5, que esteve no centro de uma briga sobre quem iria dominar a preferência holandesa do botão 5 de muitas televisões.

Em 1999 a Veronica estreia o Big Brother holandês, o primeiro no mundo, no entanto a RTL ficou com a marca Veronica até 2001. A Veronica foi comprada pela SBS e o nome só assumiria o total controlo em 2003 quando substituíu o canal FOX 8/V8 depois da venda dos activos da FOX Kids de Haim Saban à Disney. Pelos vistos o próprio Saban continuou por um bom tempo (depois vão entender porquê). Para contornar a falta, a Veronica antiga é substituída por um novo canal, a Yorin (tinha rádio e tudo). No verão de 2005 passou a se chamar de RTL 7. Em 2005 é criado o canal Talpa do John de Mol, o canal falhou e ao fim de dois anos mudou de nome para RTL 8, depois de estar concluída a compra.

Em 2006 os emissores analógicos são apagados, tornando a Holanda num dos primeiros países a desligar as emissões analógicas terrestres em todo o mundo, e em 2009 a NPO (antiga Publieke Omroep) passou a emitir os seus três canais em HD. Em 2014 os canais mudaram de nome de Nederland 1/2/3 para NPO 1/2/3.

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Obrigado por teres resumido a história da curiosa organização da TV holandesa, muito desconhecida por cá mas que já originou centenas de formatos de sucesso por esse mundo fora. É que não há muita informação em inglês, quanto mais em português.
Comecei a conhecê-la quando vi pela primeira vez a iniciativa 3FM Serious Request da rádio jovem do grupo, a 3FM (e que veio dar origem ao Toca a Todos na RTP) e via os logos da AVRO ou da BNN ao lado do da estação perguntando-me o que aquilo significava.
Resumindo, basicamente é como ter várias TVs e rádios diferentes dentro das próprias estações para o bem e para o mal porque cada organização vai produzindo os programas conforme os seus interesses e pontos de vista... E não deve ficar mesmo nada barato, porque pelo que sei cada uma destas organizações ainda tem uma estrutura grande com vários diretores e sub-diretores como se um verdadeiro órgão de CS próprio...

EDIT: Apenas uma correcção, descobri que as "omroeps" continuam a existir, apenas se foram fundindo a partir de 2016 como a BNN com a VARA formando a BNNVARA.
fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Dutch_public_broadcasting_system#List_of_broadcasters

Edited by canal5
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Eu iria falar sobre as omroeps e sobre os canais separadamente, ainda tenho tempo. Esqueci-me foi de referir as fusões de 2015 dado que era para tornar o serviço público mais eficiente.

Veronica é um derivado de Vrije Omroep Radio Nederland (VRON).

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