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109: Arca de Noé


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É evidente que a história da televisão portuguesa está recheada de programas que os mais novos só ouviram falar pelas seguintes razões:

  • pelos pais falarem sobre os tais em conversas;
  • por aparecerem em programas de aniversário ou quando um actor ou apresentador faz a análise da sua carreira num programa da manhã ou da tarde;
  • ora, porque sim.

Existem muitos programas sobrevalorizados que entram para esta categoria. No antigo regime, temos o Zip-Zip, da qual só sobrevive o seu último programa. Do PREC temos as primeiras novelas (Gabriela, O Casarão, O Astro, mas sobretudo Gabriela) e A Visita da Cornélia (programa cujas sessões perderam-se com o tempo), ainda no auge do monopólio temos os Jogos Sem Fronteiras (antes e depois da queda do monopólio), o Festival da Canção (da qual existem canções que se perderam com o tempo, e que eventualmente só iríamos traulitar as canções vencedoras), o Passeio dos Alegres, Roque Santeiro, etc, e já nos anos 90, temos programas da SIC como o Ponto de Encontro (e é justo conseguir o momento do reencontro), o Chuva de Estrelas ou o visado da RTP desta edição, a Arca de Noé. Que chega a ter o mesmo grau de recordação que, sei lá, o Sport Billy (quando foi emitido pela primeira e única vez dobrada), a Heidi (tragédia em japonês ocidental segundo o Sete Ponto Sete do DL), o Passeio dos Alegres ou uma ediçãozinha qualquer dos Jogos Sem Fronteiras realizada cá. E o Vitinho (e é sempre o primeiro que vem à tona dos portugueses, pois o resto fica ostracizado).

Prossigamos então com o genérico,  que para uma audiência trin/quaren/cinquentona diz muito, mas para quem nasceu depois e que teve a má fama de nunca ter apanhado uma reposição (e eu digo o porquê disto nunca ter sido reposto mais logo), não me diz nada. A letra, no entanto, é atemporal (e sobrevalorizada, até o tema do Ponto de Encontro é melhor):

Qualquer pessoa com mais de trinta anos de idade provavelmente terá vaga ideia do tema disto da mesma forma que, quem era criança no fim dos anos 70, se lembra do tema do Fungagá da Bicharada (da qual não existem gravações, uma pena, porque é que a RTP tinha práticas de preservação mais perras que a BBC?) da fonte: o programa de televisão. Pois é, este programa mete animais, mas ao contrário do Fungagá da Bicharada, este era um concurso sobre animais e não um programa sobre animais. Outra diferença: o Fungagá da Bicharada era um programa infantil (cujo tema sobreviveu e já não é sinónimo dele, mas se o programa estivesse no ar uns bons 15 a 20 anos, ainda teria ligações ao programa em si) enquanto que a Arca de Noé era um concurso FAMILIAR. FAMILIAR, em todos os sentidos da palavra. Como era o 1, 2, 3 (todas as versões).

Fora o genérico (que provavelmente foi feito numa Quantel Paintbox), não sabia da mecânica do jogo até duas referências ao programa na década passada: primeiro na Caderneta de Cromos, segundo no Agora Nós. Para tal, e para recorrer à mecânica do jogo, eu tive de recorrer à sapiência do blog Enciclopédia de Cromos para ver como funcionava.

Como referência, uma edição do espólio do LUSITANIATV, na fase em que o concurso dava no Canal 2. Esta edição fora patrocinada pela Mimosa, que na altura do vídeo em baixo (Natal de 1991) estava a realizar uma campanha de solidariedade com a Unicef para Moçambique.

Parafraseando a Enciclopédia de Cromos (pois tenho preguiça), era composto por diversas rondas de perguntas e respostas onde os concorrentes teriam de adivinhar o comportamento de um determinado animal diante de uma determinada situação, através de imagens filmadas pela televisão japonesa, mediante quatro hipóteses de resposta. (Por exemplo, foi assim que quem escreveu o artigo sobre o concurso na Enciclopédia de Cromos ficou a saber que quando uma fêmea koala quer rejeitar os avanços de um macho, ela urina sobre ele). Também existiam algumas perguntas sobre as características de uma determinada espécie. (Por exemplo, sabiam que as girafas têm tantas vértebras no pescoço como o ser humano? Têm sete como nós!)

A Arca de Noé teve cinco temporadas num total de 187 sessões, começando ainda na altura em que o logo da RTP 2 tinha estas cores e não um 2 desenhado a giz com um traço no meio. Com a renovação do canal para TV2 mudou-se para o Canal 1. O concurso mudou de genérico algumas vezes, mantendo o tipo de letra, mas mudando as imagens. O genérico que postei em cima era o último, já no Canal 1.

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Quando o concurso dava no Canal 2, era apresentado por Fialho Gouveia. O formato tinha como concorrentes quatro figuras públicas, porém a RTP decidiu "abrir o concurso à participação pública", sendo que os "banais" iriam estar junto das celebridades escolhidas pelo apresentador.

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Neste formato, havia uma celebridade e três anónimos. O Nicolau Breyner foi escolhido para a primeira sessão. Apesar de adoptar o formato de "em concursos com celebridades doam o dinheiro em vez de aumentar o lucro das ditas", os prémios de angariação (que normalmente iam ao Jardim Zoológico de Lisboa) também eram dados aos anónimos. Fialho Gouveia também optou pela primazia do "bom português": "Como parte das perguntas são respondidas por escrito, seria muito desagradável termos concorrentes que dessem erros."

Imaginemos uma concorrente que acabaria por escrever frases tipo "as canguru são as mais altas de bolsa" ou "um ornitorincu esta limitado a Australia".

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Como já disse, a Arca de Noé passou para o Canal 1 com o nascimento da a ida à conservatória do Canal 2 como TV2. A Ana do Carmo, co-apresentadora do revival dos Jogos Sem Fronteiras, substituiu o apresentador anterior.

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Daqui para a frente, e atendendo à enorme popularidade junto da audiência infantil, passou a ser disputado em três equipas de dois, um adulto e uma criança.

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A assistente do concurso, Maria Arlene, esteve nas versões do Canal 2 e do Canal 1. Na esquerda vemos o Fialho com um boneco do Vitinho (acho que por esta altura já tinham a segunda versão a ser composta), que (se não me engano) aparecia em modo crossover na capa do CD do concurso um pouco mais tarde. Segundo a Enciclopédia de Cromos (e passo a citar): "Arlene participou no programa nas suas quatro primeiras temporadas e era frequente ouvir-se assobios na assistência sempre que ela surgia em palco com mascotes do programa que assinalavam a pontuação dos concorrentes".

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O primeiro patrocinador do concurso era a Miluvit, de onde saiu a mascote do Vitinho.

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No entanto, quando ainda dava no Canal 2 (segundo o vídeo do LUSITANIATV), passou a ser patrocinado pela Mimosa, que, friso bem, mudou em 1992 (o vídeo de cima ainda tem o antigo).

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E aí está o primeiro álbum da Arca de Noé com o Vitinho e uma foto do Carlos Alberto Moniz, SEM AUTOGRAFO. O CD era basicamente o mesmo que o do Fungagá da Bicharada mas actualizado ao programa em si.

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Já depois de terem mudado de patrocinador para a Mimosa, foi feito um segundo álbum com novos temas.

Curiosamente, o Carlos Alberto Moniz viria a ser o último apresentador do concurso, que era filmado no cinema Europa.

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Depois de um ano fora do ar, o programa ganhou novo cenário, literalmente inspirado na Arca de Noé. O programa acabou em 1995. Não sei se estas imagens são de algum programa ou se a RTP Memória chegou a repetir. Se repetiu, foi uma repetição parcial apesar da questão dos direitos.

Muito pouca gente saberá qual a verdadeira fonte do concurso e eu, com toda a minha sapiência dos formatos e de onde eles vieram, trago-vos um dado de primeira mão. Só soube que o formato era japonês quando vi o programa referido na rúbrica Agora Memórias no início de 2017. Eu, sabendo do funcionamento da televisão privada japonesa e do sistema federal, tentei procurar por "Japanese animal game show" ou qualquer coisa do género. Pelo que sei, fui ao IMDb e saiu-me um concurso holandês de seu nome Waku Waku. Estas palavras que soaram a uma espécie de grito tribal (apesar de já saber que era uma expressão japonesa) levaram-me à última parte da pesquisa, que era a seguinte: o nome do programa japonês.

Portanto, num rigoroso exclusivo da tua história de subestação, revelo-vos o nome:

わくわく動物ランド
Waku Waku Dobutsu Rando
Terra Animal Emocionante

Citando a tradução da Wikipédia japonesa:

"Exciting animal land " (emocionante animal land) é, 13 de abril de 1983 , a partir de 25 de março de 1992 para as estações afiliadas da TBS têm transmitido todas as quartas-feiras às 20 horas no programa de perguntas é. O moderador é Hiroshi Sekiguchi."

Tradução apropriada:

"わくわく動物ランド (Terra  Animal Emocionante) foi um concurso emitido nas estações afiliadas da TBS entre 13 de Abril de 1983 e 25 de Março de 1992, emitido todas às quartas-feiras às 20 horas. O apresentador era Hiroshi Sekiguchi."

A Wikipédia japonesa refere que "a venda de licença" foi feita para alguns canais do estrangeiro, sem especificar quais são. Segundo o que foi dito aquando da estreia, em 1990 a licença tinha sido vendida para cerca de setenta países, porém só sabemos de poucas versões. É bem provável que exista uma versão tailandesa ou filipina, mas as únicas versões do formato que encontrei são as seguintes:

  • Waku Waku japonês (TBS, 1983-1992)
  • Animal Crack-Ups (EUA, ABC, 1987-1990)
  • Waku Waku argentino (Azul Televisión (Canal 9), 1999-2000)
  • TV Animal (SBT, 1988-1992, 1995-1996, 2009-2010)
  • Maravillozoo chileno (Canal 13, 1995-2002)
  • Waku Waku holandês (Nederland 1 pela KRO, 1988-2001)
  • Arca de Noé (a visada)
  • Waku Waku espanhol (TVE 1, 1989-1991, 1998-2001)
  • Jimanji Kamana (mesmo canal do anterior, 2003, tido como "uma espécie de casting para o 1, 2, 3")

O programa aparece no site da TBS Contents para quem estiver interessado em comprar o formato. No entanto, parece que ninguém quer adaptar em pleno 2020, que atraso.

A versão americana foi criada por Vin Di Bona, que trazia dois anos mais tarde outro formato vindo do Japão, o dos vídeos caseiros, que daqui para a frente viria a ter repercussão internacional.

PS: um dos formatos relacionados, Happy Family Plan, chegou a ter uma adaptação bem-sucedida no Chile, El tiempo es oro. Acredito que este formato tenha tido uma fracção minúscula das da Arca de Noé.

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Citação

Parafraseando a Enciclopédia de Cromos (pois tenho preguiça), era composto por diversas rondas de perguntas e respostas onde os concorrentes teriam de adivinhar o comportamento de um determinado animal diante de uma determinada situação, através de imagens filmadas pela televisão japonesa, mediante quatro hipóteses de resposta. (Por exemplo, foi assim que quem escreveu o artigo sobre o concurso na Enciclopédia de Cromos ficou a saber que quando uma fêmea koala quer rejeitar os avanços de um macho, ela urina sobre ele). Também existiam algumas perguntas sobre as características de uma determinada espécie. (Por exemplo, sabiam que as girafas têm tantas vértebras no pescoço como o ser humano? Têm sete como nós!)

Na minha qualidade daquele aqui definido como o  "quem escreveu o artigo sobre o concurso na Enciclopédia de Cromos", o meu obrigado pela respetiva menção e paráfrase.

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