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Para Quem Eu Um Dia Amei [Esboço]

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Spoiler

 

         Ouvi bater a porta. Foi um bater explicativo, sabia quem tinha chegado. Ouviam-se outros barulhos inerentes à sua chegada, um tom negro se apoderou da casa. Procurava, procurava, enquanto eu ouvia aquele abrir e fechar de gavetas desgastante. Ouvi um vidro quebrar, seria a janela, seria a que pequena mesa de vidro amarela que sustenta a velha bíblia aberta – que por vezes parece a guardiã daquele ambiente tenebroso intemporal que assombra a casa? Lembrei-me que a minha mãe podia ter ficado no sofá a ver televisão e devia ter adormecido entretanto, resolvi descer. Espreitei antes de entrar na divisão, estava escuro, não acenderam a luz. Via algumas sombras. Um flash quase instantâneo de luz surge no meio do nada e revelou toda a forma de quem ali estava. Fiquei com a sensação de que fora visto. Era a luz do frigorífico, agora fechado ainda mais rapidamente do que fora aberto. Ficou tudo escuro de novo, não reparei em nada apesar da janela de luz fornecida pelo eletrodoméstico, estava demasiado assustado com a imagem que via. Porque raios não consegui ver nada, tenho de voltar para a cama, tenho medo de tudo. Mas tinha medo de voltar para a cama naquelas condições, não sabia onde tinha ido o vulto, não sabia o que me esperava ao subir das escadas, ou mesmo ao sair daquele espaço em que me encontrava. Reparei atentamente no que me rodeava – parece que sempre é verdade que os nossos olhos se habituam à escuridão, filtram toda a luz existente, e, por momentos, parece que é no meio do escuro que vamos conseguindo encontrar toda a verdade das coisas, tudo aquilo que elas são no seu interior quando não estão refletidas pela luz. Senti um móvel ao meu lado, era o que me separava do corredor, o móvel da fotografia de família, que devia estar por perto. Passei pelo faqueiro, pelas estatuetas e cruzes de uma religião que parece que ninguém mais segue e serve meramente de enfeite para as casas típicas, tentei distinguir as cores da toalha de mesa que estava no móvel ao lado, andava lentamente. Era ali a esquina e o caminho virava à direita. À minha frente, encontrei um espelho que está preso à parede, em cima de um balcão de madeira. É onde me revejo sempre uma última vez antes de sair – não que ligue muito a isso. Estava pingado, tinha uma mancha preta no topo e perto do centro, fora do meu reflexo, via uma manchinha branca. O que seria? Esforcei mais o olhar. Seria a Lua, refletida no espelho a partir da janela? Parecia que se movia ligeiramente, aliás, parecia outro espelho. Será o reflexo do vidro. Sigo e tento continuar a aproximar-me do interruptor. Olho levemente em redor, quase esquecido de que está alguém ali, e recordo-me de que a janela da divisão não podia, de forma alguma, estar refletida no espelho e volto a desviar a cabeça para o mesmo, intrigado. É algo atrás de mim. Olho para trás e não vejo nada. No espelho também esse reflexo parece ter desaparecido. Na janela ouve-se o vento a soprar. Viro-me de costas para o espelho e, enquanto deslizo lentamente até ao interruptor naquele labirinto noturno, vou contornado a divisão com o olhar. Começam a fazer-se formas na minha cabeça. O sofá parece normal, sem ninguém, a minha mãe deve-se ter deitado. Vejo a luz vermelha da televisão ao fundo. Continuo a desviar o olhar até ao frigorífico, do lado oposto da sala, já consigo ver os seus limites, mas não encontro nenhuma sombra estranha. Ouço um pequeno som mais perto de mim e olho de imediato. Vejo um reflexo branco no ar ao meu lado a vir na minha direção e um contorno escuro em movimento mesmo atrás de mim, corro ao interruptor e finalmente ilumino a divisão. O meu pai baixa a faca e continua a barrar, calmamente, um creme de marisco que a minha mãe fez num bocado de pão, em cima da toalha de mesa, vermelha, por sinal, ao lado do faqueiro de onde tirara a faca.

            - Porque é que acendeste a luz? Já não gasto que chegue contigo… - rosnou.

- Queria ver quem era.

- Sabias que era eu.

- Queria ver-te.

- Mentes pior que a tua mãe.

Contornei a mesa e o sofá e preparava-me para sair dali. Estava cansado, tinha treinado demais hoje, queria finalmente deitar-me, ainda que não dormisse descansado. Ele pousa o pão e interseta-me. Tentei afastar-me, mas parei, queria acreditar que ele não me ia fazer nada com a faca e não queria mostrar medo.

- Estou a brincar. Anda cá ao pai.

Absorveu-me nos braços, fortes, musculados, pena que não apanhei tanto a genética dele fisicamente, mas ainda bem que não a apanhei mentalmente. Senti a faca apertar-se-me contra o pescoço. Soltou-me.

- Já os usaste?

- Sim.

- Claro que já, homem. És assim, mas claro que já, que pergunta. Depois fala-me da Bruna…Bruna?!

- Bianca.

- Branca, sim.

Subi. 

 

Prólogo/base de algo que ando a pensar em desenvolver mais.

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