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46: Infinito


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Apesar do canal chegar a Portugal há doze anos, o seu percurso começou doze anos mais cedo precisamente na cidade de Buenos Aires, cidade cuja área metropolitana serve para enfiar todas as pessoas que vivem em Portugal e mais algumas. Antes de mais nada, comecemos com a sua génese em Portugal.

É verdade que a televisão portuguesa viveu de falhanços: programas que não tiveram os resultados devidos, até canais, que sofreram imenso e tiveram de acabar com a sua (normalmente) curta vida. Mas também encontramos alguns canais estranhos e invulgares de natureza, como um ovni argentino chamado de Infinito.

Há doze anos, a TV Cabo decidiu retirar o Viver da grelha por causa de fracas audiências e foram estudadas duas hipóteses de substituição: o Porto Canal e o Infinito. Eventualmente, o Porto Canal teve o seu lançamento atrasado para Setembro - era suposto ter arrancado com o São João mas houve um problema ali qualquer. A solução: enquanto que a TV Cabo estava a encontrar uma "loophole" para introduzir o dito no analógico, as frequências analógicas do Vivir Viver foram ocupadas por este canal cheio de mistérios que era o Infinito.

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E sim, este símbolo aqui metia-me medo aos oito anos de idade, supostamente por duas razões: a primeira era o próprio símbolo, que aliás não sabia exactamente o que é que representava, mas uns anos mais tarde passei a saber o que era. Era um nó de trevo, cujo significado esotérico serve como o símbolo de uma tal "vida imortal", e o Infinito não era a única organização que usava um símbolo destes. Basta ver mais alguns exemplos do género:

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Exemplo 1: símbolo da companhia de jogos de vídeo Treyarch, famosa pelos jogos do Tony Hawk nos anos 2000

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Exemplo 2: símbolo da ANPC

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Exemplo 3: símbolo do extinto canal ATV de Hong Kong, usado até 2007

A segunda era o tipo de letra, da qual eu não estava acostumado na altura. Isto ajudava com a estética do canal, o suficiente para tentar fugir dele a sete pés. A minha descoberta do mesmo foi espontânea, estava eu no site da TV Cabo quando falam do canal como "a novidade". Do que é que tratava? Se o símbolo e a estética do canal já metiam medo, espera até verem o que é que o canal emitia.

De acordo com um comunicado emitido em Junho de 2006, a TV Cabo dizia que "o Infinito é um canal de documentários de investigação, que revela os territórios menos explorados do conhecimento, apresentando uma programação variada, com temáticas associadas a factos inexplicáveis e realidades alternativas, abordadas através de uma perspectiva inovadora". Neste canal passavam documentários de investigação; o lado oculto das personagens que fizeram história, uma análise sobre as civilizações já desaparecidas que mesmo nos nossos dias não deixam de nos surpreender, entre outros destaques, como programas sobre yoga e estilos de vida alternativos. Uma oferta que ia de encontro a "um interesse cada vez maior pela temática associada aos factos inexplicáveis, esoterismo, realidades alternativas e espiritualidade". Devido a este interesse crescente, o Canal Infinito reforçou a grelha da TV Cabo num segmento para o qual não havia ainda um conteúdo específico - anos depois de ter saído do mainstream porque a onda dos Ficheiros Secretos acabou uns anos antes.

Mas para entender melhor este canal, recuemos até 1994. O canal fora sido lançado pela empresa Imagen Satelital, sediada precisamente em Buenos Aires, que começou a sua experiência no ramo em 1990, graças à eclosão das operadoras por cabo, com um canal de filmes, o Jupiter. Eventualmente, ao longo dos anos, a oferta da empresa diversificou-se e foram lançados mais alguns canais, ainda com a terminologia espacial intacta: o Space, de filmes, o Universo Series, que, como o nome indica, passava séries normais e de comédia, mas quando as séries de comédia migraram para o Jupiter o canal passou a ser de séries antigas (Uniseries), o I-Sat, que desta vez recorria ao nome da própria empresa, na mesma onda do Space, etc, etc. O Infinito cabia na temática, não é por acaso que já ouvimos a célebre expressão "para o infinito e mais além", porém o Toy Story só começou a existir em 1995 e o canal é um pouco mais velho.

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O canal nasceu na América Latina a 4 de Abril de 1994. A sua divisa era "o primeiro canal latino-americano de documentários", já que nesta fase era um canal de documentários generalista, que recorria a produtores da América Latina e a produtores externos para fornecer a sua programação. Em 1996, o grupo venezuelano Claxson de Diego Cisneros (dono do canal privado Venevisión) compra a Imagen Satelital (que em 2000 deixa de existir para passar a ser oficialmente parte da Claxson) e herdou o conteúdo, mas não o seu símbolo. Já em 1998 o canal apostou fortemente na emissão de conteúdos dedicados ao oculto e sobrenatural, que na altura estavam a começar a ganhar forma, e, graças a isto, as audiências do canal subiram e mais operadoras passaram a ter as emissões do canal. O conteúdo e a estética podem ter consternado muitos telespectadores como eu, mas apesar disto a Claxson rendeu com o sucesso do seu canal, ao aperceber-se de que havia mais e mais concorrência.

"A particularidade do Infinito é que tem os seus próprios códigos. A sua programação é uma novidade dentro da ampla e variada oferta de canais disponíveis. Dos sinais do grupo Claxson, é o que tem maior crescimento e dentro do amplo espectro generalista, é único no seu género. Portanto, a TVMAS a inclui como um titã do negócio da televisão paga"

Podem ler a entrevista (em espanhol) aqui. Falava-se numa expansão do canal para Espanha, ao de leve, mas o canal não quis emitir para lá. Optou por Portugal, onde as emissões do dito cujo arrancaram a 1 de Julho de 2006 na TV Cabo e, ao longo das semanas que seguiam, alargou a sua emissão para Cabo Verde (ZAP da CV Telecom) e Angola e Moçambique (TV Cabo da Visabeira). Inicialmente o canal não era contínuo, abria às 11 e fechava por volta das 3 da manhã, com uma emissão de 16 horas. Quando estava sem emissão, não passava nada. Nem um ecrã a dizer "voltamos às 11 da manhã". Nem uma imagem estática com o slogan do canal "abra a sua mente". Passado algum tempo o canal passou a emitir 24/24. Ao contrário da América Latina, o Infinito emitido em Portugal era exclusivo do mercado luso, que englobava também Angola, Moçambique e Cabo Verde.

A emissão do canal continha dezenas e dezenas de programas (sobretudo documentários) produzidos em países da América Latina como a Argentina ou a Colômbia, até chegou a ser emitido um programa bastante diverso: Crenças (Creencias), onde cinco homens ligados às suas religiões na Argentina (um muçulmano, um judeu, um sacerdote católico, um hinduista e um agnóstico debatiam temas bastante controversos capazes de deitar muros inteiros de preconceitos socio-culturais. Mas não só de programas latinos vivia o Infinito (estes programas eram uma boa fonte de lucro para o dito cujo, até na América Latina eles tinham um horóscopo em SMS com o nome deles). O canal abastecia-se também de programas anglófonos, legendados a amarelo (pois a Claxson não sabia como funcionavam as legendas cá). Alguns dos programas mais emblemáticos incluíam o Beyond com James Van Praagh, As Últimas 24 Horas, série do Discovery Channel canadiano (ao ser canadiano isto quer dizer que, com as leis de operação locais, o programa não é da Discovery mas sim de uma empresa local, o canal agora é da Bell Media), Yoga com David Carradine, que outrora fez a série sobre kung-fu intitulada precisamente Kung-Fu (cuja última emissão em Portugal foi na extinta SIC Gold) e a australiana Unidade de Pessoas Desaparecidas.

Creio que o forte deles não era a língua portuguesa. Apesar do canal ter um locutor a falar com sotaque português, juro que o slogan que aparecia nos separadores dizia "abra sua mente" sem o artigo definido "a". Outra coisa é esta preciosidade que saquei de um blog que mostra supostamente o nível de português do canal:
"O que é morrer? O que acontece quando isso acontece? (bela redundáncia) Existe vida além da morte? (faltou um "para") Nesse caso (neste caso), podemos transgredir a fronteira que separa vivos de mortos e estabelecer uma comunicação entre esses mundos? Qual é a verdade da reencarnação? Infinito propõe a você. (frase que não faz sentido por acabar com um "você" quando deveria ser um "si") Uma nova aproximação da morte, um mistério que desvelou o homem por séculos e que sobrevoa desde sempre nossa existência ("a" nossa existência)."

O canal gerou alguma consternação nas redes na altura: e o Viver? E as sessões de trungalhunga de baixo orçamento que davam num alter-ego que tinham? Havia necessidade de ser substituído? O canal Infinito merecia ter audiências mais baixas do que uma Canção Nova. Pior: o canal emitia em todos os pacotes (TODOS OS PACOTES!!!) da TV Cabo como se fosse um método rápido e eficaz de revelar a verdade.

Em 2007, a Claxson decidiu vender um pacote de sete canais (Infinito, Retro, I-Sat, Space, HTV, Much, Fashion TV local) à Turner Broadcasting System Latin America, que visava diversificar a sua oferta de conteúdos. Os canais erótico-pornográficos da empresa mantiveram-se nas mãos da Claxson, numa situação que permanece até aos dias de hoje.

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Em Dezembro de 2008 foi anunciada uma renovação no canal, que viria a ser oficializada a 1 de Janeiro do ano seguinte. A ZON mostrou um certo grau de teimosia em não mudar (uma vez em Janeiro de 2009 mudei acidentalmente para este canal e já tinha o novo símbolo e tudo) mas acabou por ser melhor do que o seu antecessor. Mas eventualmente o Infinito, ironicamente, teria um fim.

Em Março de 2009, a ZON anunciou a saída do canal para o dia 1 de Abril. Foi um dia feliz para eu e muitos cépticos. A TV Cabo em Angola e Moçambique e a ZAP de Cabo Verde fizeram o mesmo. Aliás, nunca soubemos exactamente quais as suas audiências, o que é certo é que as audiências do mesmo eram fracas.

Porém a história do canal não acaba aqui. Na América Latina o canal passou por uma reformulação: muitos telespectadores ficaram saturados do formato antigo e o canal passou a ser um pouco mais "generalista" e menos "alternativo", através de mais conteúdo próprio e programas baseados em "feitos reais". Ao fim de alguns anos o canal entrou em declínio: passou a ser um canal de reality shows do tipo B e o canal ganhou uma nova classe de telespectadores na região. O canal foi retirado das operadoras brasileiras em Março de 2013 por não cumprir com as leis brasileiras, porque não tinha uma emissão local. Quando a Turner anunciou a TNT Series para subsituir o Infinito, muita gente ficou confusa, alguns até começaram a sentir falta do Infinito da última fase. Haja justiça. Num resultado da mais simbólica ironia, o Infinito era finito.

Edited by ATVTQsV
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