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9: O Tal Canal


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Adoro a tua grelha, a tua taxa, o teu jornal, mas o que mais adoro em ti é O Tal Canal.

Ano de 1983. A televisão em Portugal estava restrita a dois canais no continente e um canal para as regiões autónomas. Quem vivia perto da fronteira apanhava o monopólio de nuestros hermanos. Cá, a RTP era vítima de dezenas de alterações com regularidade: alterações no mapa-tipo, taxa, redução do horário. O humor no ecrã lusitano estava reduzido a revistas à portuguesa e poucos produtos derivados. Um exemplo destes era o Riso e Ritmo (de 1964) que consistia pura e exclusivamente em anedotas contadas por dois homens (o riso) intercalada por canções (o ritmo). Nos anos 70, Herman José entra em cena. No Nicolau no País das Maravilhas, uma das rábulas populares era a canção do Sr. Feliz e Sr. Contente, cujo refrão mantinha-se igual. Só mudava a letra consoante as notícias da semana. O único que sobrevive fala sobre o preço dos ovos - em 2017 isto ainda é relevante?

Depois veio o Eu Show Nico, mais tarde o Sabadabadu, entre outros do género. Porém, a comédia televisiva ainda estava infectada pela revista à portuguesa. Ainda era considerada algo "monótona". Até que um belo dia, Herman José acidentalmente deita de uma assentada só duas bombas:

Pode não ter tido os efeitos malignos de Hiroshima e Nagasaki, mas a bomba Hiroshima era o estilo de humor e a de Nagasaki era a música: Herman José fez uma espécie de rap numa altura em que em Portugal havia pouco rap (no mesmo ano saiu Os Lusitansos, a história de Portugal em rap). Se há outra comparação a considerar, temos a do Feiticeiro de Oz: "I think I'm not in Sabadabadu anymore". Porque na altura em que o programa estreou, boa parte dos telespectadores ficaram consternados pelo tipo de humor que estava a ser tratado: humor sobre a televisãp. Claro, fazer rábulas sobre a televisão num programa destinado inteiramente a estes fins não foi uma novidade, pelo menos no velho continente, onde os britânicos foram os pioneiros com o Do Not Adjust Your Set, da Rediffusion. O conceito fora popularizado pela série canadiana (e posteriormente americana) SCTV, mais ou menos na mesma altura em que saiu (fim dos anos 70) a London Weekend Television faz outra série, End of Part One, que começava a satirizar uma telenovela tipo Coronation Street cujos episódios começavam com sketches de continuidade fictícios mas depois a série focou mais na sátira à continuidade. Cá em Portugal já se fez Moita Carrasco, considerada "a primeira telenovela portuguesíssima" mas as personagens tinham de falar com sotaque brasileiro, como na Rádio Cidade de outrora.

Mas um programa inteiro a satirizar a televisão, sobretudo os programas portugueses? Na altura era muito à frente, na altura era considerado ficção científica. O Tal Canal estreou a 22 de Outubro de 1983, às 20:30, a começar o horário nobre, depois do Telejornal. (Sim, miudagem, houve uma altura em que o Telejornal durava meia hora e o horário nobra começava mais cedo!)

Vamos então falar sobre como o programa surgiu: o Herman mudou várias vezes de maestro para o tema da série, sobretudo por causa do rap ser uma coisa "ritmada". Acabou por ser o Ramón Galarza para fazer o tema. Mais uma vez, tinha acabado de alterar o clima político da televisão e o Herman tinha contratado alguém progressista, qual membro das revoluções de Maio de 1968: o José Niza. O primeiro guião do Tal Canal voltou para trás censurado (supostamente algum "retrógrado" da RTP não gostou da ideia?) e deu o guião ao Herman. O sucesso do programa foi tal que a RTP decidiu encomendar treze episódios, mas o Herman quis ficar pelos doze porque o Herman já estava cansado de tanto escrever. Depois fez crónicas diárias para a TSF e cansou-se cada vez mais. Só voltou à escrita com o ICQ instalado no seu computador. Por causa disto, pediu ao Nuno Artur Silva para criar  as Produções Fictícias para que o Herman estivesse um pouco mais "confortável", e isto inclui a Herman Enciclopédia (mais detalhes brevemente).

O Tal Canal era, sketch atrás de sketch, semana atrás de semana, um dos programas que viriam a influenciar o longo caminho para as televisões privadas. O conceito geral do programa é uma simulação de um terceiro canal, recorrendo a sátiras de programas existentes, um par de programas criados de raiz para o canal, anúncios e uma locutora de continuidade. Eis aqui um resumo do canal:

-a locutora de continuidade d'"O Tal Canal, o melhor de Portugal", uma locutora de continuidade que aparentemente era mais entusiasmada do que as locutoras que a RTP nos servia;
-o Pr. Dr. Oliveira Casca, empresário egocêntrico e analfabeta presidente do canal e apresentador do programa cultural;
 -a Informação 3, sátira do Informação 2 (será que já houve um Informação 1?), apresentado por Carlos Filinto Botelho (sátira do Carlos Pinto Coelho interpretado por Herman José). Esta personagem iria ser reaproveitada tantos anos mais tarde no Culturismo da Herman Enciclopédia;
-o Momento Infantil, programa dito "pedagógico" apresentado por Palmira Peres, que tenta acalmar o pequeno Nelito (interpretado por... Herman José);
-O Esférico Rolando Sobre a Erva, apresentado por José Esteves (leia-se "José Estebes"), a personagem mais icónica criada nesta série pois já ultrapassou a própria série (até chegou a ser aproveitado na Herman Enciclopédia mas sem sucesso), programa emitido a partir do Centro de Produção do Porto (sim, O Tal Canal também teve um) em que o supracitado José Esteves (que por si só já tinha sempre ar de ter bebido tanto vinho) falava com personalidades do meio futebolístico;
-o Tempo dos Mais Velhos, não, não passava desenhos animados sobre velhotes, era um programa que punha os idosos a ginasticar;
-o Viva a Coltura, programa cultural em que Oliveira Casca (novamente o Herman José) lia poemas (um deles era patrocinado pelo TCC - Tal Canal Comercial e ligava os versos com os anunciantes);
-o Estamos Nesta, que era um programa de música para jovens;
-Jaquina, Jaquina, Jaquina (I've just met a girl named Jaquina, uma Jaquina para ti, outra Jaquina para mim, outra punha a apanhar...). Não sei que programa é que satirizava, mas era um programa para as mulheres e falava sobre a colecção Moda Crise 84. Como o nome indica, o programa era apresentado por várias Jaquinas (uma delas interpretadas pelo Herman) e no genérico aparecia uma ilustração tipo BD feita pelo próprio Oliveira Casca;
-O Tony Silva Super All-Star Show, personagem criada ainda no Passeio dos Alegres um pare de anos antes, tinha menos ar de sketch e sim mais ar de "show within a show" (como boa parte dos sketches), o "grande criador de toda a música ró" convidava algumas personalidades musicais e tocavam no "programa" dele. O facto com que tenha menos ar de sketch porque era mais comprido que os outros;
-O Diário de Marilu, baseado num romance da autora fictícia (aparentemente inglesa) Dorothy Perkins, adaptado pelo Oliveira Casca mas inspirado em duas primas do Herman que costumavam brincar com ele (a imitar filmes, por exemplo). De acordo com a Wikipédia:
"Trata-se da história de Marilu (Herman José), uma jovem inocente que trabalha como criada na casa da senhora dona Condensa da França (Lídia Franco). Aparentemente, Marilu nutre um amor muito puro pelo senhor John Smith (Vítor de Sousa), mas as diferenças sociais impedem a concretização desse sentimento. A única a compreender Marilu é a menina Cilinha (Helena Isabel), filha de Condensa, que é apaixonada por Inácio (Manuel Cavaco), o jardineiro. Entretanto, Graciete (Natália de Sousa), a enfermeira de Condensa, é uma agente infiltrada que pretende apoderar-se do diário de Marilu para o entregar ao seu amante, Fabrícius (Herman José). O diário de Marilu contém um terrível segredo e Fabrícius não tem escrúpulos em usar da violência para atingir os seus fins…";
-O Tal Rural, um TV Rural que só apareceu num episódio;
-a Tal & Escola, sátira à Telescola (aka Ciclo Preparatório TV) cuja única aula era uma de línguas em que os alunos (que não apareciam nas aulas da Telescola) irritavam o professor, sátira àquelas aulas do francês e do "repetez" (calculo eu);
-Página Três, sátira a um tal Página Um, também apareceu num episódio;
-o Fim de Programa (Fim-de-Semana) apareceu justamente no último episódio;
-os anúncios também eram uma constante, desde os Disparates de Natal ao tira-nódoas Benson;
-haviam também alguns sketches soltos como o Música Decâmara (onde podíamos ver um homem a tocar música numa câmara televisiva à moda antiga) ou o Costas de Portugal (que mostrava as costas de vários portugueses).

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