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Helena_Camila.jpg

Eu acompanhei a maior parte dos episódios da última reprise de 'Laços de Família' na Globo Portugal, e ai pude constatar com mais clareza aquilo que já sabia, ou tinha uma remota ideia, a respeito da mesma: é sem dúvida uma das novelas mais bonitas e emblemáticas de sempre da Globo.

Independentemente de terem havido algumas falhas, como a narrativa um tanto ou quanto lenta em algumas fases da novela (a barriga fez-se notar mais depois do casamento da Camila e do Edu) e o comportamento abusivo de personagens como o Pedro (que é talvez o protagonista masculino mais machista e insuportável de que há registo em novelas), a excelência dos diálogos, a forma sublime com que o núcleo principal foi construído, a mestria com que algumas tramas paralelas foram desenvolvidas e o brilhantismo com que os conflitos familiares foram narrados pelo autor acabam por ser ingredientes fortes o suficiente para camuflar todos os erros que possam ter existido.  

A reta final desta novela é sem dúvida uma das mais emocionantes de sempre, sendo que a mim particularmente conseguia deixar-me completamente de rastos no final de cada episódio. A evolução da Camila na história, mesmo não tendo sido tão bem executada e aprofundada quanto a da Eduarda de 'Por Amor' (não esquecer que ambas tiveram percursos completamente distintos nas suas respectivas tramas), foi "nevertheless" um dos pontos altos desta novela. Detestei-a horrores quando ela roubou o Edu à própria mãe. Passei a odiá-la mais ainda quando me fui dando conta que a função dela na história era basicamente ser a "anti-Helena", já que mãe e filha eram totalmente o oposto uma da outra. A Helena era aquela mulher super independente, senhora do seu nariz, doce, conciliadora, sempre preocupada com o próximo e uma "mãe leoa" que defendia com unhas e dentes os interesses dos filhos, sendo que no final ainda lhe sobrava tempo para ajudar os outros a resolverem os seus próprios problemas. A Camila era precisamente o contrário! Uma miúda mimada, egoísta, emocionalmente instável, incapaz de encarar o mundo que a rodeava para além do seu próprio umbigo. Mais tarde, contudo, acabei por ser completamente arrebatada e inspirada pela maturidade e força que esta personagem foi adquirindo à medida que o tema da leucemia se começou a desenrolar. Chorei baba e ranho com muitas das cenas da Camila, desde o momento em que ela rapa o cabelo até aquela cena arrepiante em que ela corta o cabelo à Marcela (esta última viria mais tarde a falecer). Momentos emocionalmente poderosos que esta novela nos proporcionou e que jamais esquecerei com toda a certeza. 

E que dizer daqueles confrontos antagónicos entre a Camila e a Íris?! Eu vibrava com as cenas em que ambas se enfrentavam e ficava fascinada com o poder de argumentação que tanto uma como a outra verbalizavam sempre que entravam em conflito. O facto do terror psicológico que a Íris muitas vezes chegava a praticar contra a Camila ser muito bem dosado e sem grandes exageros é outro aspecto que merece ser destacado. A Íris é daquelas vilãs raríssimas na casa dos 20 anos que ficou seguramente para a história como uma das antagonistas mais inesquecíveis da teledramaturgia. Uma peste suína do pior que podia existir, que tinha o dom de nos conseguir irritar com aquela inconveniência que lhe era tão característica, mas confesso que em algumas ocasiões cheguei a torcer fervorosamente por ela, nomeadamente nas discussões com a Camila em que ela atirava à cara desta última o facto de ela ter roubado o namorado à mãe (quem diz a verdade não merece castigo!). Este é de resto um dos principais talentos do grande Manoel Carlos. As vilãs jovens das novelas dele, daquilo que conheço do seu repertório, são sempre super credíveis e muito bem construídas. Um verdadeiro presente para qualquer atriz dentro desta faixa etária. 

O facto das tramas paralelas basicamente "girarem" em torno da Helena é sem dúvida um dos aspectos mais curiosos desta novela, já que desta forma ela acaba por (quase) nunca perder o protagonismo. Creio que a Helena da Vera Fischer deva ser a mais unânime de todas as Helenas do Manoel Carlos. Uma protagonista "politicamente correta" em praticamente todos os aspetos, mas tão humana e maravilhosamente imperfeita ao mesmo tempo! Uma autêntica guerreira, disposta a sacrificar-se pelos seus e sempre zelosa do bem-estar daqueles que a rodeavam. Ter abdicado da sua própria felicidade duas vezes, primeiro quando terminou a relação com o Edu para deixar o caminho livre para a Camila, e mais tarde quando se afastou do Miguel para engravidar do Pedro e assim salvar a vida da filha, faz desta uma das protagonistas mais heróicas e altruístas de que há registo em ficção. Uma das melhores mães da teledramaturgia, sem dúvida.   

Os núcleos secundários de 'Laços de Família' também não são nada maus, sendo que a trama da Capitu foi sem dúvida das mais interessantes e bem desenvolvidas da novela. Uma "menina mulher" que se viu a braços com uma gravidez antes do tempo e que se viu posteriormente envolvida num drama familiar que a obrigou a recorrer à prostituição para poder sustentar toda a sua família e, por conseguinte, proporcionar uma vida melhor ao pequeno Bruninho e também para conseguir fazer face ás despesas com a faculdade. A riqueza da Capitu enquanto personagem estava muito concentrada no facto dela não ser a típica "prostituta com a imagem hiper sexualizada e súper estereotipada" que estamos habituados a ver na maior parte das novelas. Era uma miúda querida, muito batalhadora e uma "mãezona" não só para aquele filho que ela tanto amava, mas também para os próprios pais pelos quais tanto se sacrificou! Claro que também houveram algumas atitudes um pouco incoerentes e algo irrefletidas da parte da Capitu, como ela ter perdido a dada altura da novela a oportunidade de ser feliz com o Fred para se juntar aquele "cretino" que a andava sempre a perseguir. Contudo acho que nunca consegui julgar ou censurar esta personagem, cujos motivos para agir de determinada forma acabavam sempre por ter uma justificação plausível quando contextualizados. Não posso, claro está, deixar de falar dos atritos da Capitu com a Clara, que eram tão deliciosos de acompanhar quanto os confrontos da Camila com a Íris. A relação amorosa entre a Capitu e o Fred também foi, apesar de tudo, das mais bonitas e bem conseguidas desta novela.

Da Alma é que não há muito a dizer. Uma mulher fútil, superficial, que só se preocupava com as aparências e com "aquilo que os outros iriam pensar" de um sem número de disparates e de preconceitos estapafúrdios que ela tinha enraizados dentro de si. Para vos ser franca acho que ela e o marido, outro canalha da pior espécie, estão muito bem um para o outro! "Só se estraga uma casa, já dizia o poeta". 

Em suma: 'Laços de Família' é aquele folhetim tradicional que faz muita falta nos tempos que correm. Uma das novelas das nove que mais prazer me deu acompanhar e que tão boas recordações mantenho até aos dias de hoje. <3

Editado por Maya
  • Adoro 1
  • 1 ano depois...
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Este vídeo contém pequenos excertos de algumas das cenas mais marcantes da Íris. 

Aquela inconveniência nata, o carisma que esta personagem irradiava (muito fruto da interpretação fabulosa da Deborah), a verosimilhança espantosa que o Manoel Carlos imprimiu em cada uma das suas ações, provenientes de um quadro psicológico deveras "desajustado", transformaram-na numa das vilãs jovens mais fascinantes e credíveis da história da teledramaturgia.

Quantas saudades querido Maneco... <3

Editado por Maya
  • Gosto 2
  • 11 meses depois...
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Hoje acordei com saudades de um novelão com a excelência dos diálogos, a sublimidade das interpretações e a substância dos conflitos com que o Manoel Carlos nos agraciou em 'Laços de Família' praticamente desde o princípio ao fim. 

Vera Fischer, Marieta Severo, Carolina Dieckmann, Deborah Secco, Giovanna Antonelli, Regiane Alves... todas se entregaram de corpo e alma a estas verdadeiras "dádivas" em forma de personagens com que foram presenteadas pelo autor! De tal forma marcantes ao ponto de aos dias de hoje continuarem a ser lembradas e debatidas apaixonadamente nas redes sociais :adoro:

 

  • Gosto 1
  • 11 meses depois...
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On 25/02/2024 at 15:29, Rui Melo disse:

Esta novela deve ser tao boa. Quero muito ver! Mas tenho ainda outras dos anos 2000 na fila

a primeira metade da novela é uma seca tremenda, mas pronto quem gosta do genero é otima... mas o nivel dramático que atinge com a doença da Camila não há novela nenhuma em tempo algum que tenha conseguido, é é isso que torna esta novela unica mesmo no universo do manoel carlos. Ontem ao ver as cenas da familia a tentar entender a doença da Camila ainda dá lagrimas nos olhos, porque mesmo as personagens meio odiáveis da novela como a da Marieta Severo conseguiram mantendo a personagem humanizar-se perante toda aquela bomba.

Agora contar à Camila só uma pedra se consegue aguentar com toda aquela cena... e o nivel dramático só sobe com os altos e baixos da doença. 

 

Postado
há 6 minutos, AndreRob disse:

a primeira metade da novela é uma seca tremenda, mas pronto quem gosta do genero é otima... mas o nivel dramático que atinge com a doença da Camila não há novela nenhuma em tempo algum que tenha conseguido, é é isso que torna esta novela unica mesmo no universo do manoel carlos. Ontem ao ver as cenas da familia a tentar entender a doença da Camila ainda dá lagrimas nos olhos, porque mesmo as personagens meio odiáveis da novela como a da Marieta Severo conseguiram mantendo a personagem humanizar-se perante toda aquela bomba.

Agora contar à Camila só uma pedra se consegue aguentar com toda aquela cena... e o nivel dramático só sobe com os altos e baixos da doença. 

 

Eu acredito que essa fase inicial seja lenta, mas deve valer a pena porque a novela transmite toda a aura da virada do milénio 

  • 1 mês depois...
  • 2 semanas depois...
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As várias cenas posteriores à revelação do diagnóstico da Camila são muito boas. Tudo irrepreensível e bastante emocionante, mesmo. Estou a adorar e sinto que a novela não tem praticamente momentos mortos. Pelo menos, não muitos até aqui. :)

  • 2 semanas depois...
Postado (editado)

Acabei hoje de ver esta novela e é, sem dúvida, das novelas mais intensas que vi até hoje.

A única novela que vi do autor foi Por Amor, por motivos evidentes, mas decidi ver esta dado as críticas bastante positivas no geral e não me arrependi, de todo. A novela é, sem dúvida, cheia de momentos emocionantes. Atrevo-me a dizer até mais que muitos momentos de Por Amor.

A novela aproveita muito as emoções e os silêncios, especialmente, como é típico do autor, mas aqui acho que tem outro peso. Por exemplo, a cena antológica da Camila a rapar o cabelo, embalada por aquela música, pode ser citada inúmeras vezes como uma das melhores cenas de sempre e será sempre certo. É impossível manter-se incólume e sereno a ver essa cena. E quem fala dessas fala da cena em que a Camila corta o cabelo à Marcela, a cena em que a Helena termina o namoro com o Edu, com o Miguel, qualquer cena posterior ao diagnóstico da Camila ser revelado ou a morte da Ingrid, etc. Emocionei-me mesmo muito ao longo desta novela.

Confesso que demorei a gostar mesmo de a acompanhar. Inicialmente, havia muitas personagens que não me agradavam muito e eram até chatas como a Ciça, a Íris ou a própria Camila a princípio, que, felizmente, se redimiu ao longo da novela, ainda que ache que há cenas que ela tem com a Helena onde apenas uma mãe poderia perdoar tais palavras e discussões vindas de uma filha. Ainda assim, achei uma dinâmica de Helena + Filha de Helena muito boa ao longo da novela, que se geriu muito bem para isso acontecer.

Esta Helena, também, deve ser uma das melhores Helenas do Manoel Carlos. Ou, se não é, devia. Tudo gira em torno dela ao longo da novela. Ela é o centro de muitas personagens que giram em torno dela e reforça a sua posição de protagonista incontestável. Além disso, os sacrifícios que ela faz ao longo da novela pela filha são duros, mas isso mesmo ajuda a tornar o seu arquétipo ainda melhor. É uma mulher que sacrificou muito em nome de várias pessoas, especialmente da filha, o que torna impossível não gostar dela, concordar com ela e compreendê-la em muitos momentos.

Quanto ao resto das personagens de que gostei, podia destacar a Capitu, mesmo que aquela história com o Fred tenha os seus pontos mais questionáveis, o Miguel, a Íris, que fui gostando mais ao longo do tempo. A Alma também foi uma boa personagem. Claro, com imensos preconceitos e com quem estive contra em vários momentos, mas gostei do seu final, apesar de tudo. Neste quesito, por exemplo, penso que a Branca de Por Amor foi muito pior.

Já personagens que menos gostei, tenho de citar o Pedro, porque não consegui gostar da personagem em nenhum momento da novela e irritava-me quase sempre, se não sempre. Um homem demasiado machista, não há muito mais a dizer. É odioso. Assim como personagens como o Maurinho ou o Orlando, mas estes dois sempre tiveram o final que mereceram. 

Em suma, gostaria de elogiar a banda sonora que é incrível. Tem músicas muito boas que acompanham boas cenas e que nos ajudam a ultrapassar muitas vezes a barreira entre o sofá e o que está a acontecer na televisão, sentindo tudo o que a cena pretende transmitir. Penso que isso foi muito bem feito. Foi mesmo uma boa novela, não me arrependo de a ter visto. Agora faltam-me ver as restantes do autor que está a caminhar para ser um dos meus autores favoritos. :giveheart:

Editado por Leandro S.
  • Gosto 1

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