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Lost media é um termo universal. Chama-se lost media a todo e qualquer material audiovisual e escrito que se considera perdido por completo ou parcialmente perdido (o que implica que parte da obra em questão está arquivada, mas o resto desapareceu graças a um incêndio, uma falha de dados, falência ou negligência dos detentores da obra).

Ainda falarei (se tiver coragem) da série juvenil Riscos, que está num bloqueio apesar de estar inteiramente nos arquivos da RTP, mas hoje falo sobre um caso mais gritante de lost media nacional, e, quiçá, internacional.

CONTEXTO

O ano de 1974 marcou um ponto de viragem na sociedade portuguesa e na programação da RTP. O fim do tabu dos países comunistas levou à RTP a sofrer uma radical mudança na linha programática e, para além de incluir pontos de vista opositores, também começou a incluir programas dos países "proibidos". No verão quente de 1975, a RTP emitia muitas séries polacas, para ter noção do cúmulo da abertura do mercado, e o 25 de Abril trouxe também o Vasco Granja que trazia muitas animações experimentais vindas dos países do Pacto de Varsóvia.

A programação infantil também sofreu uma mudança para passar a ser mais "europeia", apesar da RTP ter comprado séries aos franceses e britânicos antes do 25 de Abril (também, a RTP do fascismo era uma cliente fiel da ITC de Lew Grade, até o Roger Moore foi uma das estrelas britânicas a passar férias em Portugal, mas isso é outra história). Com a abertura ao bloco de leste, houve também uma abertura ideológica (apesar de intenções apolíticas) na programação infantil. Viam-se importações de grande volume da Polónia e da Hungria, e, em menor escala, da Checoslováquia, Alemanha Oriental e Jugoslávia, tanto no programa do Vasco Granja como também na faixa regular da programação infantil, quando começava a programação da noite, pelas 19 horas, mais tarde pelas 18:30. Ainda havia uma forte compra de títulos de países ocidentais, como era o caso da França, Alemanha Ocidental, Reino Unido e em menor escala Itália.

Mas desenganem-se que o desenho animado da qual vou falar era uma produção de leste, e sim uma produção ocidental. Há quem crie a tese de que o desenho animado em questão era francês ou italiano, e dada a monocultura da televisão portuguesa naqueles tempos, chegou a ser visto por centenas de milhares de telespectadores. Falo do Bichinho Gaspar.

BICHINHO QUEM?

É incrível que quando surgem memórias de desenhos animados de infância relativamente à época em que havia um monopólio altamente burocrático, grande parte das memórias acabam por diluir para os desenhos animados que tinham mais exposição graças a factores como o merchandising e a dobragem.

Porém, nem todas as memórias acabam por ser homogéneas. Há um lado negro por trás da retrospecção idílica dos anos 70 e 80. Há mais pessoas que se lembram de uma determinada série da qual muitos não viam porque não tinha merchandising, era legendado ou era chato, dependendo do ponto de vista do telespectador. O caso do Bichinho Gaspar é a fronteira entre estas duas realidades. É-me provável que, se tal desenho animado fora ao ar pelas 18:30 de sempre na altura (ainda incerta) em que foi ao ar esta obra, como estávamos na altura em que a televisão chegava a casa de bastantes pessoas, as audiências tenham sido nas centenas de milhar. Porém, existe outra teoria: o desenho animado teria sido usado como acerto de emissão, como iremos analisar nas próximas secções.

A HISTÓRIA DE GASPAR

Do que sabemos, com base na recordação de Pedro Cruxe Ribeiro (o que trabalha na TVI), a história era mais ou menos assim (contada ipsis verbis por Nuno Markl a 14 de Novembro de 2011):

Começava com uma grande desgraça que acontecia ao bicho da maçã. Um homem colhia a maçã onde vivia o bicho, dava-lhe uma dentada, e o bicho da maçã que dava pelo nome de Gaspar ficava sem abrigo. Seguia-se uma série de dilacerantes aventuras em que ele tentava tentar encontrar o seu lugar no mundo, sem o conseguir, até que finalmente a larva transformava-se em borboleta, desata a voar até ao sol, numa explosiva sequência de luz e cor, queima as asas, vem por aí abaixo, e acaba por descobrir não apenas uma nova maçã novinha em folha onde viver, mas também uma larva fémea com quem vive feliz para sempre. Era um desenho animado completamente passado dos carretos, e a dada altura, aparecia a carantonha de um tipo de barbas que não sei se era o autor do filme ou o narrador - acho que era o narrador - e tudo aquilo era uma das coias mais bizarras que eram nos dada a ver nos anos infantis."

A banda sonora, segundo ele, era Voodoo Child de Jimi Hendrix.

A INTERNET E GASPAR

A monocultura criada em torno do mitológico Bichinho Gaspar levou a algumas recordações escassas - ainda que vagas - por parte de telespectadores que viram aquilo nos anos 80 (ou provavelmente finais de 70), e que nem a difusão do YouTube ajudou a propagar.

A 17 de Setembro de 2004, o blog Mouco publicou uma foto da série Bananaman, emitida pela RTP 2 em meados dos anos 80. Uma semana depois, dia 24, Del Giorgio escreve que, na sucessão de comentários que veio, esqueceram-se do "Gasparinho (aquela minhoca que vivia numa maçã vermelha)". Rapidamente houve um comentário anónimo que ajudou a dar mais detalhes:

"Ei,o Bichinho Gaspar...as coisas de que vocês se lembram!...Era um desenho-animado todo psicadélico. Antes da história começar, aparecia um gajo todo esgroviado que dizia:'esta é a história do bichinho Gaspar...'."

A 21 de Maio de 2009, o blogue Womenage a Trois publicou um vídeo que seria um genérico de um desenho animado que, aí sim, está na memória da monocultura da altura. Num dos comentários, surge o seguinte comentário:

"Só já falta o bichinho Gaspar - o bicho da fruta que morava numa maçã que foi comida por um fulano que passava e que anda de cidade de bichinhos em cidade de bichinhos mas que ng gosta dele até que se transforma em borboleta e aí sim tem muitos amigos mas, alas como acontece com as celebridades, são todos uns falsos e não se importam com o seu deeper e true self (em inglês tem mais impacto) até que ele se cansa de ser famoso e fabuloso e vai daí dá uma de Joaquin Phoenix misturados com Ícaro e voa até bem perto do sol e queima as asas, e com a brincadeira despenha-se por aí abaixo, sobrevive, encontra uma maçã nova e uma Gasparina pestanuda que se engraçou dele e depois os dois pimba na maçã nova e isto tudo num estilo de desenho ácido, ácido, ácido, LSD puro, com uma banda sonora a condizer com longos e frenéticos riffs de guitarra, absolutamente psicadélico... alguém mais se lembra do Bichinho Gaspar?"

À qual o utilizador Cenas Obscenas respondeu:

"Sim, eu lembro-me. Tinha os olhos tortos e tal. E da menina-lagarta também. E do sportinguíssimo Coelhinho Pit? "Pit pit pit, pit pit pit, vamos lá cantar" (era um horror, mas pronto)."

Aqui as memórias começam a distanciar aos poucos, dado que o coelhinho Pit passou a ser série só em 1989 (ou teria sido 1995? Quando vi pela primeira vez na RTP Memória em 2006, achava que dizia 1985 no canto. Mas ainda assim fala muito sobre o estado da animação em Portugal, uma obra dos anos 90 parecia vinda dos anos 80).

A 14 de Novembro de 2011, Nuno Markl falou sobre o Bichinho Gaspar na Caderneta de Cromos. Intuia que a animação era italiana, logo fez pesquisas pelo desenho: ao achar que era uma produção italiana, achava que o original era "Caspare", logo, segundo Nuno Markl, a lógica de ideias seria "Caspare larva mela" (Gaspar larva maçã).

MAROUF

Graças aos relatos do utilizador @Marouf no fórum em Janeiro de 2024, bem como anotações dos anuários da RTP que estão na posse do @Vascof2001, o nome não seria "Bichinho Gaspar" mas sim "Minhoca Gaspar" e o desenho animado dava pelo nome de "Gaspar e a Maçã Vermelha".

A partir daqui, o Vasco encontrou um registo do site francês Planète Jeunesse, que diz que faz parte de uma série que é também um caso de lost media por si só:

http://www.planete-jeunesse.com/fiche-2947-les-histoires-merveilleuses-du-signor-franco-cavani.html

Les Histoires Merveilleuses du Signor Franco Cavani (em tradução literal As Histórias Maravilhosas do Senhor Franco Cavani), título original Le Storie di Franco (As Histórias de Franco) não era uma série italiana, nem mesmo francesa, e sim suíça, dado que foi produzida para a TSI - a televisão suíça italiana - a mais pequena das três, mas que, nos anos 70, começava a produzir conteúdo infantil próprio para tentar visar a Suíça como um tudo, bem como a vizinha Itália.

No entanto, a série, produzida originalmente em 1973 (o que explica o porquê do tema ser um do Jimi Hendrix), ainda é quase inteiramente perdida. A editora francesa ADAV lançou a série em VHS com o nome Les Histoires de Franco (ao calcar o título italiano) nos anos 90, mas não existem episódios no YouTube. Pesquisas no Google dão pouquíssimos resultados, nada me surpreende se depois apareceremos com este calhamaço de texto :riso:

AFINAL É FRANCÊS OU ITALIANO?

Nem um nem outro. Como já disse, a série (cujo título oficial em português não sei, a não ser o do Gaspar) era suíça, concretamente da Suíça italiana. Tem treze episódios e sabe-se que o primeiro canal a emitir fora da Suíça fora a Radio-Canada em 1975. Foi emitida na Suíça romanda em 1976 pela TSR antes mesmo de chegar à TF1 em 1977. Quando é que chegou a Portugal? E será que foi usado como acerto de emissão? Ninguém sabe.

É composta por treze episódios, sendo a do Gaspar o primeiro. O Vasco disse que aparece como "Cirello, Verme Tranquillo" (nome original do episódio em italiano), o que ajuda a corroborar esta teoria. No entanto, ele achava que eram filmes diferentes. Em Portugal, o narrador era o actor António Rama.

De acordo com o Planète Jeunesse:

Spoiler

As maravilhosas histórias do Sr. Franco Cavani nesta série são contos pequeninos voltados para crianças pequenas. Apresentam diversos animais e outros personagens em situações divertidas, extraordinárias e lúdicas, com uma poesia rica em ideias, formas e cores. Como livros infantis animados — o estilo das ilustrações lembra particularmente os desenhos humorísticos e arredondados de grandes nomes do gênero, como Quentin Blake ou Tony Ross —, são também pequenas fábulas que abordam com leveza certas situações e transmitem algumas lições morais simples. Entre elas, o direito de ser diferente, exemplificado por Alfredo, o hipopótamo que, desde o dia em que nasceu, sempre teve um apetite voraz, a ponto de se tornar maior do que todos os outros animais da floresta e até mesmo do que os de sua própria espécie. Além disso, por causa disso, o patriarca dos paquidermes pede que ele se retire por ser muito diferente deles... E noutra história, a de Camille, o crocodilo, também se aborda uma perspectiva sobre o comportamento humano através desse réptil que, ao recuperar sua liberdade por engano enquanto ocupava um espaço no zoológico, aproveita a oportunidade para passear pela cidade, mas é novamente vítima do mundo ao seu redor, com uma fábrica de bolsas a "confiscar" a sua pele...

Esta série foi criada e animada pelos designers gráficos suíço-italianos e ticineses (Ticino é a Suíça italiana) Franco Cavani (o Signor Franco do título) e Giovanni Zgraggen, para quem este foi um dos primeiros trabalhos nessa área. Ambos criariam várias outras séries em formato e caráter educativo semelhantes para a televisão suíça italiana, ainda sob a estrutura da GP Cartoons Film, sediada em Lugano, como Un violino per quattro stagioni e L'Abecedario , que, assim como as histórias de Signor Cavani, fizeram sucesso na década de 90. Uma edição francesa em VHS foi lançada pela Adav sob os títulos A,B,...Z: Música e Cores: Descobrindo a Música e as Cores e A,B,...Z: Números e Letras: Descobrindo o Alfabeto e os Números.

A versão francesa contou com a narração do actor e realizador Georges Wod; em 1981, assumiria a direcção do Théâtre de Carouge, na região de Genebra. Os telespectadores franceses podem tê-lo visto naquela época em algumas séries de televisão, como no papel do Marquês de Coulteray na série de fantasia La Poupée sanglante, de Robert Scipion e Marcel Cravenne, ao lado de Yolande Folliot, ou em algumas aparições muito breves em filmes, como, para permanecer no reino do bizarro, Litan, la cité des spectres verts (Litan, a Cidade dos Espectros Verdes). Realizado em 1981 por Jean-Pierre Mocky, que também estrelou o filme, e conta com Marie-Josée Nat e Nino Ferrer, que também compôs a música. Sua voz profunda e ressonante se harmonizou perfeitamente com o universo de Signor Cavani.

Quanto ao título da série, cujo título original é Les Histoires de Franco / Le Storie di Franco, utilizado para sua distribuição em VHS pela ADAV, varia dependendo dos programas ou fontes que a anunciaram: "Les Histoires merveilleuses du signor Franco Cavani" em algumas fontes canadenses, "Les Aventures merveilleuses du signor Franco Cavani" também em algumas fontes canadenses, "Les Aventures merveilleuses du signor Cavani" em algumas fontes para TSR, "Les Histoires merveilleuses de Franco Cavani" no INA, e até mesmo em programas da Télé Poche com "Les Histoires merveilleuses du señor Franco Cavani", o "signor" italiano sendo (erroneamente) escrito "señor" em espanhol.

TRANSCRIAÇÃO, A QUANTO OBRIGAS!

O nome "Gaspar" é uma aportuguesação, ainda para mais um caso de transcriação. Acontecia sobretudo com desenhos animados mais "esquecidos" durante décadas na RTP, e refiro-me aos desenhos animados dobrados, e para quem não aguenta mais a SIC, às novelas da Turquia (onde supostamente uma Neslihan seria uma Neslihan em todo o mundo).

Mas como é que chegamos de Cirello a Gaspar? Porque é que não optaram por um nome mais parecido ao original, como Cirilo? Ninguém sabe e ninguém quer saber.

E O EPISÓDIO DO BICHINHO GASPAR?

A RTP costumava deitar fora enlatados ao longo dos anos, até dobragens inteiras. O Marouf diz que existem cinco episódios da série, mas não há nada do Bichinho (ou da Minhoca) Gaspar.

Como já disse, não existem episódios completos da série no YouTube, alguns episódios em italiano chegaram a ser projectados em festivais de cinema, mas nada veio ao público.

À data deste vídeo, não existem imagens de como era o episódio do Bichinho Gaspar.

  • Gosto 2
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O António Rama dizia "o bichinho Gaspar" ao narrar, daí ficou popularmente conhecido por este nome, mas o oficial deve ser mesmo "Gaspar e a Maça Vermelha". O genérico nada tem a ver com o Hendrix ou com outro músico ou banda, tem um som de guitarra psicadélico e deve ter sido feito para a série. A 1ª vez que passou na RTP deve ter sido em 1980, inserido nos programas infantis e passava muitas vezes, aliás dever ter sido o único episódio da série do Franco Cavani a passar na RTP. O "Bichinho Gaspar" vivia num lindo pomar e numa deliciosa maça vermelha. Certo dia um rapaz olhou para a maça, arrancou-a e comeu-a, engolindo o bichinho Gaspar. Este tentava sair do corpo do rapaz, até que encontrou uma saída pelos ouvidos. Ao saltar reparou que tinha asas e começou a voar até que estas derreteram devido ao sol. Depois cai desamparado noutro pomar e encontra uma larvazinha que morava também numa linda maça vermelha, apaixonaram-se e ficaram juntos. Tirando os genéricos de cada episódio, a história durava entre 10/11 min.

Postado
há 3 horas, ATVTQsV disse:

Lost media é um termo universal. Chama-se lost media a todo e qualquer material audiovisual e escrito que se considera perdido por completo ou parcialmente perdido (o que implica que parte da obra em questão está arquivada, mas o resto desapareceu graças a um incêndio, uma falha de dados, falência ou negligência dos detentores da obra).

Ainda falarei (se tiver coragem) da série juvenil Riscos, que está num bloqueio apesar de estar inteiramente nos arquivos da RTP, mas hoje falo sobre um caso mais gritante de lost media nacional, e, quiçá, internacional.

CONTEXTO

O ano de 1974 marcou um ponto de viragem na sociedade portuguesa e na programação da RTP. O fim do tabu dos países comunistas levou à RTP a sofrer uma radical mudança na linha programática e, para além de incluir pontos de vista opositores, também começou a incluir programas dos países "proibidos". No verão quente de 1975, a RTP emitia muitas séries polacas, para ter noção do cúmulo da abertura do mercado, e o 25 de Abril trouxe também o Vasco Granja que trazia muitas animações experimentais vindas dos países do Pacto de Varsóvia.

A programação infantil também sofreu uma mudança para passar a ser mais "europeia", apesar da RTP ter comprado séries aos franceses e britânicos antes do 25 de Abril (também, a RTP do fascismo era uma cliente fiel da ITC de Lew Grade, até o Roger Moore foi uma das estrelas britânicas a passar férias em Portugal, mas isso é outra história). Com a abertura ao bloco de leste, houve também uma abertura ideológica (apesar de intenções apolíticas) na programação infantil. Viam-se importações de grande volume da Polónia e da Hungria, e, em menor escala, da Checoslováquia, Alemanha Oriental e Jugoslávia, tanto no programa do Vasco Granja como também na faixa regular da programação infantil, quando começava a programação da noite, pelas 19 horas, mais tarde pelas 18:30. Ainda havia uma forte compra de títulos de países ocidentais, como era o caso da França, Alemanha Ocidental, Reino Unido e em menor escala Itália.

Mas desenganem-se que o desenho animado da qual vou falar era uma produção de leste, e sim uma produção ocidental. Há quem crie a tese de que o desenho animado em questão era francês ou italiano, e dada a monocultura da televisão portuguesa naqueles tempos, chegou a ser visto por centenas de milhares de telespectadores. Falo do Bichinho Gaspar.

BICHINHO QUEM?

É incrível que quando surgem memórias de desenhos animados de infância relativamente à época em que havia um monopólio altamente burocrático, grande parte das memórias acabam por diluir para os desenhos animados que tinham mais exposição graças a factores como o merchandising e a dobragem.

Porém, nem todas as memórias acabam por ser homogéneas. Há um lado negro por trás da retrospecção idílica dos anos 70 e 80. Há mais pessoas que se lembram de uma determinada série da qual muitos não viam porque não tinha merchandising, era legendado ou era chato, dependendo do ponto de vista do telespectador. O caso do Bichinho Gaspar é a fronteira entre estas duas realidades. É-me provável que, se tal desenho animado fora ao ar pelas 18:30 de sempre na altura (ainda incerta) em que foi ao ar esta obra, como estávamos na altura em que a televisão chegava a casa de bastantes pessoas, as audiências tenham sido nas centenas de milhar. Porém, existe outra teoria: o desenho animado teria sido usado como acerto de emissão, como iremos analisar nas próximas secções.

A HISTÓRIA DE GASPAR

Do que sabemos, com base na recordação de Pedro Cruxe Ribeiro (o que trabalha na TVI), a história era mais ou menos assim (contada ipsis verbis por Nuno Markl a 14 de Novembro de 2011):

Começava com uma grande desgraça que acontecia ao bicho da maçã. Um homem colhia a maçã onde vivia o bicho, dava-lhe uma dentada, e o bicho da maçã que dava pelo nome de Gaspar ficava sem abrigo. Seguia-se uma série de dilacerantes aventuras em que ele tentava tentar encontrar o seu lugar no mundo, sem o conseguir, até que finalmente a larva transformava-se em borboleta, desata a voar até ao sol, numa explosiva sequência de luz e cor, queima as asas, vem por aí abaixo, e acaba por descobrir não apenas uma nova maçã novinha em folha onde viver, mas também uma larva fémea com quem vive feliz para sempre. Era um desenho animado completamente passado dos carretos, e a dada altura, aparecia a carantonha de um tipo de barbas que não sei se era o autor do filme ou o narrador - acho que era o narrador - e tudo aquilo era uma das coias mais bizarras que eram nos dada a ver nos anos infantis."

A banda sonora, segundo ele, era Voodoo Child de Jimi Hendrix.

A INTERNET E GASPAR

A monocultura criada em torno do mitológico Bichinho Gaspar levou a algumas recordações escassas - ainda que vagas - por parte de telespectadores que viram aquilo nos anos 80 (ou provavelmente finais de 70), e que nem a difusão do YouTube ajudou a propagar.

A 17 de Setembro de 2004, o blog Mouco publicou uma foto da série Bananaman, emitida pela RTP 2 em meados dos anos 80. Uma semana depois, dia 24, Del Giorgio escreve que, na sucessão de comentários que veio, esqueceram-se do "Gasparinho (aquela minhoca que vivia numa maçã vermelha)". Rapidamente houve um comentário anónimo que ajudou a dar mais detalhes:

"Ei,o Bichinho Gaspar...as coisas de que vocês se lembram!...Era um desenho-animado todo psicadélico. Antes da história começar, aparecia um gajo todo esgroviado que dizia:'esta é a história do bichinho Gaspar...'."

A 21 de Maio de 2009, o blogue Womenage a Trois publicou um vídeo que seria um genérico de um desenho animado que, aí sim, está na memória da monocultura da altura. Num dos comentários, surge o seguinte comentário:

"Só já falta o bichinho Gaspar - o bicho da fruta que morava numa maçã que foi comida por um fulano que passava e que anda de cidade de bichinhos em cidade de bichinhos mas que ng gosta dele até que se transforma em borboleta e aí sim tem muitos amigos mas, alas como acontece com as celebridades, são todos uns falsos e não se importam com o seu deeper e true self (em inglês tem mais impacto) até que ele se cansa de ser famoso e fabuloso e vai daí dá uma de Joaquin Phoenix misturados com Ícaro e voa até bem perto do sol e queima as asas, e com a brincadeira despenha-se por aí abaixo, sobrevive, encontra uma maçã nova e uma Gasparina pestanuda que se engraçou dele e depois os dois pimba na maçã nova e isto tudo num estilo de desenho ácido, ácido, ácido, LSD puro, com uma banda sonora a condizer com longos e frenéticos riffs de guitarra, absolutamente psicadélico... alguém mais se lembra do Bichinho Gaspar?"

À qual o utilizador Cenas Obscenas respondeu:

"Sim, eu lembro-me. Tinha os olhos tortos e tal. E da menina-lagarta também. E do sportinguíssimo Coelhinho Pit? "Pit pit pit, pit pit pit, vamos lá cantar" (era um horror, mas pronto)."

Aqui as memórias começam a distanciar aos poucos, dado que o coelhinho Pit passou a ser série só em 1989 (ou teria sido 1995? Quando vi pela primeira vez na RTP Memória em 2006, achava que dizia 1985 no canto. Mas ainda assim fala muito sobre o estado da animação em Portugal, uma obra dos anos 90 parecia vinda dos anos 80).

A 14 de Novembro de 2011, Nuno Markl falou sobre o Bichinho Gaspar na Caderneta de Cromos. Intuia que a animação era italiana, logo fez pesquisas pelo desenho: ao achar que era uma produção italiana, achava que o original era "Caspare", logo, segundo Nuno Markl, a lógica de ideias seria "Caspare larva mela" (Gaspar larva maçã).

MAROUF

Graças aos relatos do utilizador @Marouf no fórum em Janeiro de 2024, bem como anotações dos anuários da RTP que estão na posse do @Vascof2001, o nome não seria "Bichinho Gaspar" mas sim "Minhoca Gaspar" e o desenho animado dava pelo nome de "Gaspar e a Maçã Vermelha".

A partir daqui, o Vasco encontrou um registo do site francês Planète Jeunesse, que diz que faz parte de uma série que é também um caso de lost media por si só:

http://www.planete-jeunesse.com/fiche-2947-les-histoires-merveilleuses-du-signor-franco-cavani.html

Les Histoires Merveilleuses du Signor Franco Cavani (em tradução literal As Histórias Maravilhosas do Senhor Franco Cavani), título original Le Storie di Franco (As Histórias de Franco) não era uma série italiana, nem mesmo francesa, e sim suíça, dado que foi produzida para a TSI - a televisão suíça italiana - a mais pequena das três, mas que, nos anos 70, começava a produzir conteúdo infantil próprio para tentar visar a Suíça como um tudo, bem como a vizinha Itália.

No entanto, a série, produzida originalmente em 1973 (o que explica o porquê do tema ser um do Jimi Hendrix), ainda é quase inteiramente perdida. A editora francesa ADAV lançou a série em VHS com o nome Les Histoires de Franco (ao calcar o título italiano) nos anos 90, mas não existem episódios no YouTube. Pesquisas no Google dão pouquíssimos resultados, nada me surpreende se depois apareceremos com este calhamaço de texto :riso:

AFINAL É FRANCÊS OU ITALIANO?

Nem um nem outro. Como já disse, a série (cujo título oficial em português não sei, a não ser o do Gaspar) era suíça, concretamente da Suíça italiana. Tem treze episódios e sabe-se que o primeiro canal a emitir fora da Suíça fora a Radio-Canada em 1975. Foi emitida na Suíça romanda em 1976 pela TSR antes mesmo de chegar à TF1 em 1977. Quando é que chegou a Portugal? E será que foi usado como acerto de emissão? Ninguém sabe.

É composta por treze episódios, sendo a do Gaspar o primeiro. O Vasco disse que aparece como "Cirello, Verme Tranquillo" (nome original do episódio em italiano), o que ajuda a corroborar esta teoria. No entanto, ele achava que eram filmes diferentes. Em Portugal, o narrador era o actor António Rama.

De acordo com o Planète Jeunesse:

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As maravilhosas histórias do Sr. Franco Cavani nesta série são contos pequeninos voltados para crianças pequenas. Apresentam diversos animais e outros personagens em situações divertidas, extraordinárias e lúdicas, com uma poesia rica em ideias, formas e cores. Como livros infantis animados — o estilo das ilustrações lembra particularmente os desenhos humorísticos e arredondados de grandes nomes do gênero, como Quentin Blake ou Tony Ross —, são também pequenas fábulas que abordam com leveza certas situações e transmitem algumas lições morais simples. Entre elas, o direito de ser diferente, exemplificado por Alfredo, o hipopótamo que, desde o dia em que nasceu, sempre teve um apetite voraz, a ponto de se tornar maior do que todos os outros animais da floresta e até mesmo do que os de sua própria espécie. Além disso, por causa disso, o patriarca dos paquidermes pede que ele se retire por ser muito diferente deles... E noutra história, a de Camille, o crocodilo, também se aborda uma perspectiva sobre o comportamento humano através desse réptil que, ao recuperar sua liberdade por engano enquanto ocupava um espaço no zoológico, aproveita a oportunidade para passear pela cidade, mas é novamente vítima do mundo ao seu redor, com uma fábrica de bolsas a "confiscar" a sua pele...

Esta série foi criada e animada pelos designers gráficos suíço-italianos e ticineses (Ticino é a Suíça italiana) Franco Cavani (o Signor Franco do título) e Giovanni Zgraggen, para quem este foi um dos primeiros trabalhos nessa área. Ambos criariam várias outras séries em formato e caráter educativo semelhantes para a televisão suíça italiana, ainda sob a estrutura da GP Cartoons Film, sediada em Lugano, como Un violino per quattro stagioni e L'Abecedario , que, assim como as histórias de Signor Cavani, fizeram sucesso na década de 90. Uma edição francesa em VHS foi lançada pela Adav sob os títulos A,B,...Z: Música e Cores: Descobrindo a Música e as Cores e A,B,...Z: Números e Letras: Descobrindo o Alfabeto e os Números.

A versão francesa contou com a narração do actor e realizador Georges Wod; em 1981, assumiria a direcção do Théâtre de Carouge, na região de Genebra. Os telespectadores franceses podem tê-lo visto naquela época em algumas séries de televisão, como no papel do Marquês de Coulteray na série de fantasia La Poupée sanglante, de Robert Scipion e Marcel Cravenne, ao lado de Yolande Folliot, ou em algumas aparições muito breves em filmes, como, para permanecer no reino do bizarro, Litan, la cité des spectres verts (Litan, a Cidade dos Espectros Verdes). Realizado em 1981 por Jean-Pierre Mocky, que também estrelou o filme, e conta com Marie-Josée Nat e Nino Ferrer, que também compôs a música. Sua voz profunda e ressonante se harmonizou perfeitamente com o universo de Signor Cavani.

Quanto ao título da série, cujo título original é Les Histoires de Franco / Le Storie di Franco, utilizado para sua distribuição em VHS pela ADAV, varia dependendo dos programas ou fontes que a anunciaram: "Les Histoires merveilleuses du signor Franco Cavani" em algumas fontes canadenses, "Les Aventures merveilleuses du signor Franco Cavani" também em algumas fontes canadenses, "Les Aventures merveilleuses du signor Cavani" em algumas fontes para TSR, "Les Histoires merveilleuses de Franco Cavani" no INA, e até mesmo em programas da Télé Poche com "Les Histoires merveilleuses du señor Franco Cavani", o "signor" italiano sendo (erroneamente) escrito "señor" em espanhol.

TRANSCRIAÇÃO, A QUANTO OBRIGAS!

O nome "Gaspar" é uma aportuguesação, ainda para mais um caso de transcriação. Acontecia sobretudo com desenhos animados mais "esquecidos" durante décadas na RTP, e refiro-me aos desenhos animados dobrados, e para quem não aguenta mais a SIC, às novelas da Turquia (onde supostamente uma Neslihan seria uma Neslihan em todo o mundo).

Mas como é que chegamos de Cirello a Gaspar? Porque é que não optaram por um nome mais parecido ao original, como Cirilo? Ninguém sabe e ninguém quer saber.

E O EPISÓDIO DO BICHINHO GASPAR?

A RTP costumava deitar fora enlatados ao longo dos anos, até dobragens inteiras. O Marouf diz que existem cinco episódios da série, mas não há nada do Bichinho (ou da Minhoca) Gaspar.

Como já disse, não existem episódios completos da série no YouTube, alguns episódios em italiano chegaram a ser projectados em festivais de cinema, mas nada veio ao público.

À data deste vídeo, não existem imagens de como era o episódio do Bichinho Gaspar.

@ATVTQsV, não era o mundo de Todd, a crónica 153 da "Tua História de Subestação?, hoje faz 20 anos que a dobragem portuguesa da série (e a série própria) estreou em Portugal no Zig Zag na RTP2 (2:), à 17 de julho de 2006, às 07:35 da manhã.

Enquanto ao Bichinho Gaspar, eu nunca vi a série, nem os meus pais não lembram isso.

Postado
há 17 minutos, logofan2011 disse:

@ATVTQsV, não era o mundo de Todd, a crónica 153 da "Tua História de Subestação?, hoje faz 20 anos que a dobragem portuguesa da série (e a série própria) estreou em Portugal no Zig Zag na RTP2 (2:), à 17 de julho de 2006, às 07:35 da manhã.

Enquanto ao Bichinho Gaspar, eu nunca vi a série, nem os meus pais não lembram isso.

Não falarei sobre a série da qual estás obcecado na THdS

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On 17/07/2026 at 15:40, Marouf disse:

O António Rama dizia "o bichinho Gaspar" ao narrar, daí ficou popularmente conhecido por este nome, mas o oficial deve ser mesmo "Gaspar e a Maça Vermelha". O genérico nada tem a ver com o Hendrix ou com outro músico ou banda, tem um som de guitarra psicadélico e deve ter sido feito para a série. A 1ª vez que passou na RTP deve ter sido em 1980, inserido nos programas infantis e passava muitas vezes, aliás dever ter sido o único episódio da série do Franco Cavani a passar na RTP. O "Bichinho Gaspar" vivia num lindo pomar e numa deliciosa maça vermelha. Certo dia um rapaz olhou para a maça, arrancou-a e comeu-a, engolindo o bichinho Gaspar. Este tentava sair do corpo do rapaz, até que encontrou uma saída pelos ouvidos. Ao saltar reparou que tinha asas e começou a voar até que estas derreteram devido ao sol. Depois cai desamparado noutro pomar e encontra uma larvazinha que morava também numa linda maça vermelha, apaixonaram-se e ficaram juntos. Tirando os genéricos de cada episódio, a história durava entre 10/11 min.

Seja como for, não entendo como é que a RTP só comprou o primeiro. Vi que um dos episódios foi exibido num festival na Suíça há uns anos (relativamente às produções da TSI). Infelizmente não constava o Bichinho Gaspar, logo até a banda sonora original também está perdida. Certamente os treze episódios estão nas profundezas de algum dos detentores, e deram a permissão ao tal festival

https://castellinaria.ch/LA-SUISSE-ITALIENNE-ANIMEE/FR-3c1b5001

O vídeo não carrega e não é da série pelo que vi

Encontrei uma foto de outro episódio

https://archive2.fantoche.ch/en/film/le-storie-di-franco-il-giullare-e-il-gigante

Esqueci de referir que a TSI tinha começado a emitir a cores em 1968 (antes da RAI) e as cores garridas eram um factor para a RTP comprar só o primeiro episódio

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