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DSF. Três letras que, para quem viveu os anos 90, não sabe o que perdeu. Algum ancião ainda lembra desta combinação de letras com uma espécie de nostalgia (pelas provas desportivas) com vergonha alheia (pela programação da noite onde entravam os anúncios às mulheres daquelas linhas telefónicas).

Nos loucos anos 90, os canais alemães FTA estavam em alta para quem tinha parabólica, sendo os favoritos dos portugueses a RTL e a DSF, tanto que acabaram nas ofertas das operadoras de cabo.

Mas por trás deste maravilhoso canal, está uma crise que acompanha o canal desde o início e que nunca foi resolvido, e, ao que parece, nunca será.

Para entender a história do canal, não vamos já para 1993, uma vez que o canal substituiu dois canais em menos de dez anos, logo, vamos para a Alemanha de 1984.

A 1 de Janeiro daquele ano, surge o Projecto Piloto de Cabo, juntamente com as primeiras televisões privadas do país, vieram também os primeiros canais temáticos. Um deles era o musicbox, que não tinha nada a ver com o canal britânico. Em 1987, Silvio Berlusconi compra o canal e na viragem de 10 para 11 de Janeiro de 1988, o canal fechou as suas portas para dar lugar à Tele 5.

O novo canal tinha uma programação generalista, mas por "feitiçaria" da concessão herdada do antigo canal, ainda era obrigado a emitir telediscos, que o antigo canal emitia, na grelha. Não é exclusivo à Alemanha: quando a M6 entrou no ar no ano anterior, o canal tinha a obrigação de passar telediscos como parte de uma obrigação de manter algo da extinta TV6, o que mais tarde deu azo a vários canais temáticos no cabo.

O canal tentou criar uma grelha à base de enlatados - sobretudo desenhos animados - e formatos próprios, sejam eles adaptações alemãs ou formatos criados do zero.

Na prática, a Tele 5 foi o primeiro canal do Berlusconi a ser emitido fora da rede terrestre, sendo emitido via satélite e cabo, mas tinha também expectativas de lançar o canal na rede terrestre, o que na Alemanha depende dos estados. Em 1992, o polémico Leo Kirch (aquele cuja ganância levou ao fim do império em 2002) compra o canal. A intenção, aparentemente, era de desfazê-lo para assim lançar o canal DSF. Mas não sem polémica: quem trabalhava na Tele 5 temia perder os seus trabalhos e formatos.

Ainda assim, na passagem de ano, a Tele 5 fechou e deu lugar à DSF.

"A emissão da TELE 5 acaba à meia-noite.
A partir de 1 de Janeiro de 1993, a DEUTSCHE SPORTFERNSEHEN será emitida neste canal
Desejamos a todos um feliz e próspero ano novo."

O novo canal começou com um spot ambicioso ambientado num estádio de futebol, à qual se seguiu uma apresentação da programação. No fim do spot do estádio, o "fantasma" do antigo canal apareceu, o DOG da Tele 5 apareceu a boiar por um segundo por baixo do ecrã.

Mas nem tudo era desporto no primeiro ano: o canal ainda emitia alguns resquícios do antigo Tele 5 (vês? Temiam pelo fim dos trabalhos mas herdaram alguns programas!), bem como alguns filmes, desde que tinham algo a ver com desporto. No entanto, a administração do canal quis reduzir o tempo de emissão destes programas na primavera-verão daquele ano, cientes de que tais programas não cabiam num canal desportivo. No entanto, o único remanescente acabaria por ser o Normal, programa para pessoas com deficiência, herdado da Tele 5, e que permaneceu no ar mesmo depois da degeneração da Sport1 (e parece que soltei um spolier). Emitiam também o programa da bolsa de Frankfurt, que em 1994 passou para a NTV.

Em Agosto de 1993, a DSF mudou a sua imagem e, por conseguinte, o seu símbolo, um dos mais icónicos da televisão europeia dos anos 90. Com a retirada aos poucos dos programas que não eram desportivos (salvo o programa para os que sofrem de deficiências), a DSF tentou encontrar terreno na emissão de provas desportivas, mas tinha que enfrentar as licenças dadas aos grandes canais públicos e privados.

Assim, a DSF encontrou o seu nicho: ténis, danças de salão, wrestling, basquetebol e o seu ponto forte: fóruns, principalmente relacionados com os desportos mais relevantes para os alemães, e que a DSF não conseguia obter facilmente os direitos. O primeiro sucesso - ou seja - a primeira vez que a DSF conseguiu ultrapassar a marca de um milhão de telespectadores, foi quando Boris Becker venceu o torneio da ATP em Doha pela primeira vez, logo no início do canal. Comparam também a segunda divisão da Bundesliga, que, segundo alguém que trabalhava no canal, ainda era tida como "vergonhosa". Aos poucos também tentou negociar eventos de algum calibre, mas não conseguia chegar às metas que queria.

Mas se falarmos em pontos fortes, a DSF, canal que sempre tinha pontos fracos para tentar construir o canal, acabaria por ganhar um segundo de maneira inusitada: a emissão de anúncios a linhas eróticas, o que fez com que boa parte do que os portugueses sabem de alemão sejam números. A partir de certa altura da noite, o canal, que precisava de uma fonte de rendimento, aceitou cair na tentação e passar anúncios a tais linhas que, de certa forma, pareciam prostituição.

Rudi Brückner disse à equipa da DSF em 1994 de que "a televisão custa dinheiro", e é verdade. Uwe Mantel respondia: "mas nem tanto". Toda uma equipa tinha que tentar arranjar artimanhas para manter o canal com algum lucro, como os fóruns ao domingo. Ultrapassada a vergonha inicial, as emissões da segunda liga alemã alavancaram as audiências, mas não sem adeptos a insultarem o canal. Em Fevereiro de 1997, Mantel falou com Dieter Hoeneß, técnico do Hertha de Berlim, obviamente da segunda liga, num teleférico. Queria que um jogo da equipa contra o 1. FC Kaiserslautern fosse ao ar num sábado à noite, o que ia contra o contrato estabelecido, mas foi aceite, e em Abril, o jogo foi ao ar no canal, ainda com o Estádio Olímpico de Berlim com lotação esgotada (75 mil espectadores), o que na televisão, traduzia-se a uma audiência de 2.5 milhões de telespectadores.

Com a vinda da falhada oferta digital da DF1 (operadora falhada que teve mais reviravoltas em dois anos de vida porque a plataforma era do Kirch), nascem novos canais: o DSF Golf, óbvio, o DSF Action, dedicado à luta livre, e o DSF Plus, canal que emitia uma grande variedade de desportos que não cabiam no canal principal. Sendo estes canais pagos, não tinham as mesmas preocupações do que o canal de acesso livre. Ou será que não? Com o fim da DF1 e a ascensão da Premiere, os canais desapareceram e a DSF voltou a ser canal único. Ainda assim, continuava com os problemas crónicos, depois do auge das audiências, o canal tinha de enfrentar problemas, dado que nunca chegou a ser o canal sério que quis ser quando nasceu.

Já dizia Uwe Mantel: "O desporte na Alemanha, resumidamente, limita-se à Bundesliga, à Liga dos Campeões, a uma pequena parte da Liga Europa, à Fórmula 1, aos Jogos Olímpicos e aos Mundiais de Futebol". A DSF tinha pouco daqueles grandes eventos, limitando-se a migalhas, porque as carteiras das grandes televisões (ARD, ZDF, RTL, SAT.1, Premiere/SKY) eram mais ricas do que a DSF, que parecia um Davide contra, pelo menos, um Golias de cinco cabeças.

No início dos anos 2000, o canal saiu definitivamente da oferta da TV Cabo, entretanto o canal continuava a afundar nas operadoras independentes. Uma vez, estava a fazer zapping na casa de alguém com Bragatel em 2007, e no DSF (que agora era escrito como D:SF), por volta das 14 horas, apanhei um call-TV. Sim, o desespero financeiro do canal dos desportos mais pequenos foi tal que, como se não bastassem os anúncios às linhas eróticas, tinham de recorrer a programas tipo call-TV! E do que me lembro, era num estúdio virtual com uma imagem de uma praia com palmeiras.

É bom recordar que o canal foi fundado por Leo Kirch e que queria controlar o mercado dos direitos desportivos na Alemanha, bem como os direitos dos Mundiais de 2002 e 2006, e atingiu píncaros de parvoíce quando veio a DF1. Quando a DF1 entrou em colapso, e mais tarde, em 2002, quando o seu grupo faliu, era o fim da arrogância.

O desespero em 2010 levou a uma mudança de nome para Sport1, numa tentativa vã de recuperar a confiança dos anunciantes e da audiência. Também achavam que a marca DSF estava intimamente associada ao erotismo, logo, causava uma vergonha comparada com quem trabalhava no Vivir Viver.

A marca Sport1 já existia como página web associada ao canal e a Constantin (dona da produtora do mesmo nome) unificou tudo sob a mesma marca. Para fugir à sombra do erotismo, o canal teve que puxar tais programas das 23 (22 no nosso fuso) para a uma da manhã (meia-noite), bem como a tentativa de comprar mais provas desportivas. Mas tal não resultou: em 2012, o canal já passava flimes (que não eram relacionados com desporto) e alguns reality shows para tentar pagar as contas, o que enfureceu ainda mais a audiência, e perguntavam como é que a Eurosport aguentava tão bem sem ter de diversificar a sua grelha, enquanto que a Sport1 afundava ainda mais na sua promessa.

Quando foi feita a mudança para Sport1, o canal já não estava nas nossas operadoras, menos na NOS da Madeira, onde os canais exclusivos para lá (boa parte deles alemães) desapareceram recentemente.

Em 2024, o canal foi comprado pela Acun Medya de Acun Ilicali, e as suas medidas eram a retirada total do erotismo e a entrada de formatos de competição, como o Masterchef (a partir de Fevereiro de 2025) e o Exatlon, este último vendido pela Acun. Ambos os formatos não tiveram boas audiências. No entanto, o canal continua a emitir anúncios a linhas eróticas de madrugada, como se não houvesse nada. Ainda em 2024, houve uma faixa de filmes à sexta, tudo filmes da Constantin.

Numa altura em que os direitos de provas desportivas continuam a aumentar os preços, a Sport1 parece ter um futuro incerto. No entanto, desenganem-se que os problemas são exclusivos de canais furrecas como este: as plataformas pagas chegam a ter problemas nos seus serviços de streaming, como a falta de imagem, falta de som ou, como tem sido na DAZN da Alemanha, falta de 4K. Normal, até dizem que qualquer um com uma boa câmara com 4K faz algo melhor do que uma operadora paga.

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