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Saga - Os Dias da Ira


_zapping_
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Credo! Como é possível o 3º episódio estar melhor que o 2º?!!!!! xD Brincadeira...

Está mesmo fenomenal.

Concordo plenamente. Quando li o 3º episódio, gostei ainda mais da história. Foi quando me deu, realmente, vontade de continuar a ler.

Será que o rapaz consegue prever o que lhe vai acontecer? Aquele "sonho" no episódio 3 foi sinistro...

Gostei também do episódio 4. A continuação da história, mostrando a vida do "Miguel", sem os pais e numa mansão em que é suposto educar os jovens de igual modo e com uma determinada referência, está muito boa. E tu, magg, escreves muito, muito, muito bem.

Onde está mesmo a mãe e o pai do "Miguel"? Porque é que o filho não está com eles?

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Quarto episódio muito bem escrito, mais uma vez!

Já o tinha lido na quinta-feira, mas só tive tempo de comentar hoje!

Tenho uma dúvida: O início do 4º episódio, estas frases "(…)

Nos meses seguintes milhares de pessoas haviam também de rumar forçadas ao futuro de Edin.

Num desses dias de 2012, nascia em segredo numa cave da Base, Miguel Meireles de Almeida e Albuquerque, a visão privada do Governador.

(…)

A fúria daquele quarto rompeu-se no som do tiro desferido certeiro naquele peito. A massa inerte tombou, vazia. No chão um pequeno carreiro de sangue desenhava-se, desbravando aquele solo de madeira. Vermelho de ira contra o castanho da terra num sondar rematado da morte no corpo que acalmava eternamente.

(…)

Lúcia arrastou Miguel, debaixo de um corpo inerte, colocando-o no colo. O bebé chorava ainda, coberto de sangue. No chão jazia Clarisse. Perdida para sempre, vítima dos meandros daquele plano de insensatos. (…)"

dizem respeito a quê? À tua anterior obra?

Gostei imenso deste episódio! Está ainda melhor que o 3º! Gosto mesmo daquele "Miguel". É um rapaz cheio de força interior que sabe por si próprio distinguir o certo do errado e, no meio de todo aquele clima de frieza, ele consegue ter sentimentos. Porque este episódio foi isso mesmo: a prova de que o "Miguel" é diferente. A prova de que ele é "humano" e que quer viver uma vida construída por ele próprio, segundo os seus próprios ideais e a sua força interior.

Amei!

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Quando li o 3º episódio, gostei ainda mais da história. Foi quando me deu, realmente, vontade de continuar a ler.

Ainda bem, _zapping_ :biggrin_mini2: Fico mesmo contente :yahoo_mini:

Será que o rapaz consegue prever o que lhe vai acontecer? Aquele "sonho" no episódio 3 foi sinistro...

Acho que estás lá! :segredo: :headbang:

Onde está mesmo a mãe e o pai do "Miguel"? Porque é que o filho não está com eles?

O pai dele vai aparecer. A mãe não pode, porque está morta. Foi assassinada pelo Chanceler anterior e pelo pai do "Miguel", o queridissimo "Alexandre". :laugh_mini: O "Miguel" foi salvo pela "Lúcia", a que vocês conheceram como Chanceler no 1º episódio.

As crianças não estão com os pais, porque não é permitido criar nenhum tipo de vínculo afectivo. E porque são mandados para o Colégio para serem "treinados" de modo a serem figuras importantes do Império.

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Quarto episódio muito bem escrito, mais uma vez!

Gracías Ruben. :clapping_mini:

Tenho uma dúvida: O início do 4º episódio, estas frases "(…)

dizem respeito a quê? À tua anterior obra?

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Mais um óptimo episódio, que nos deu a conhecer o "Sasha".

Ainda é cedo para me pronunciar acerca da personalidade dele, mas, para já, deduzo que ele é uma pessoa forte, exterior e interiormente. Com ambições e propósitos para a sua vida.

A "Lera" parece-me ser uma personagem que ainda vai dar muito que falar... xP

No que conistirá o acordo entre "Colin" e "Sasha"? Presumo que seja algo que dará um certo estatuto ao jovem.

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Mais um óptimo episódio, que nos deu a conhecer o "Sasha".

Ainda é cedo para me pronunciar acerca da personalidade dele, mas, para já, deduzo que ele é uma pessoa forte, exterior e interiormente. Com ambições e propósitos para a sua vida.

Pois. O "Sasha" parece ser isso. Realmente. Mas será mesmo? Engraçado como desde a 1ª temporada ele consegue criar empatia com os leitores, quase como se ganhasse vida para lá daquilo que escrevo. :laugh_mini: Acho que tudo aquilo que ele faz parece escapar ao entendimento geral e ter sempre duplo sentido. (quem é capaz de enterrar um corpo, como ele fez - e eu voltei a colocar aqui - abrindo a vala, enterrando, sem qualquer tipo de sentimento, não e parece muito normal). :segredo: :chupeta

A "Lera" parece-me ser uma personagem que ainda vai dar muito que falar... xP

Pois. Estás correcto Ruben :biggrin_mini2: :clapping_mini:

Agora, achas que será no bom ou no mau sentido? :duvida: Eis a questão!

No que consitirá o acordo entre "Colin" e "Sasha"? Presumo que seja algo que dará um certo estatuto ao jovem.

Vais ficar a saber mais um bocadinho já a seguir :ola:

Mais uma vez, obrigada por comentares :headbang: Deixa-me muito contente esse feedback!

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Base de Edín

Dezembro 2020

O carro parou, colado a uma porta de madeira branca. Um braço saiu do interior e acenou pela janela, batendo, pausada e ritmicamente, cinco vezes. Quando acabou a última batida a porta abriu, prontamente. No interior, um pequeno relógio dava 23 badaladas. O homem alto e arqueado saiu do carro, entrando no antigo clube francês, agora entreposto comercial da Base de Edín, e retirou o sobretudo castanho, poisando-o no bengaleiro. Longe dos áureos tempos em que ali se jogavam as célebres partidas de bilhar e se discutiam politicas e vidas, agora o local assemelhava-se a um velho armazém poeirento, atolado de caixas de cartão usadas que se empilhavam até ao tecto e de pequenas estantes metálicas, cobertas por dossiers de folhas amareladas. No ar, pairava um denso cheiro a humidade e as paredes esbranquiçadas adquiriam uma tonalidade esverdeada, esfarelando no topo. A luz era conferida apenas por uma vela, colocada em cima de uma mesa de ferro que se encontrava no centro da sala. A chama tremeluzente deixou o homem distinguir o rosto mal iluminado de Viko que o via aproximar-se.

– 23 horas. Pontual!

– Sempre que posso. – Respondeu o homem, com um sorriso irónico no rosto, virando-se para ver melhor o líder dos Alquimistas da Alma. Deitou de relance um olhar ao armazém, examinando-o minuciosamente.

Proferidas as frases que encetavam as conversações, sentou-se na cadeira na outra extremidade da mesa. Viko, retirou do bolso uma folha dobrada em quatro que poisou em cima da mesa. Colin debruçou-se, esticando o braço, para apanha-la. Começou a lê-la, com ar interessado, poisando-a aberta em cima da mesa.

– Estão cada vez mais exigentes, vocês…

- Não vou estar com rodeios, Colin. Quero que mos devolvas! E nem se negocia sobre o assunto!

Colin obervava-o com ar interessado, soltando pequenas risadas.

- Estás muito interessado em defendê-los. Consegues pô-los à frente das necessidades do teu povo? Será que ainda não te libertaste do feitiço da concubina do antigo Chanceler? É que nenhum deles teve um bom fim.

Viko abriu ainda mais os olhos escuros, fincando toda a sua indignação em Colin. Agarrou-o pela gola da camisola de lã avermelhada, sentindo uma raiva imensa dominar-lhe a razão.

- Nem penses em falar dela! Tu não sabes de nada, não passas de uma ratazana submissa, sem carácter nem espinha dorsal! - Viko respirou fundo, recompondo-se.

Devolve-me os miúdos antes que dê cabo de ti! Vamos todos embora e nada corre mal…Precisamos de comida. Vá lá, Colin, consegues fazer melhor!

- Calma, Viko. Ainda te sentes culpado por tê-la deixado morrer? Não estás em posição de recalcitrar…o que me dão em troca? – Indagou o Governador.

– A continuidade da tua protecção para que não fiques sem pescoço.

Colin esboçou um ar cansado, levando instintivamente a mão à nuca.

– Pois é, meu amigo. Mas parece-me que esta crise não me deixa muitas mais alternativas do que acabar por oferecer o meu pescoço…

Colin fitava-lhe o rosto desinteressadamente, alheado, superficial.

- Francamente…sempre me interroguei como é que vocês fazem essas jornadas pelo tempo. Acho que é a única coisa que me faz prezar o vosso trabalho como Alquimistas. Admirável esse vosso esforço de espírito! Como é que vocês mexem esses milhares de partículas infímas que se agitam para se transformar em algo mais…isso ultrapassa-me!

Colin, de olhos vermelhos e escancarados, o parco cabelo desgrenhado e de pé, quase alucinado. Fez um gesto com o braço para o exterior. Diante de Viko estavam Sasha e Valéria, escoltados por dois guardas.

- Vamos fazer um jogo, Viko. Se és realmente um leitor de almas e de destinos, como apregoas, e se decides de forma tão omnisciente o destino do teu “povo”, tens aqui estas armas. Posso dizer-te que apenas uma não tem balas verdadeiras. Deixo-te escolher com qual delas queres atirar. Não é um mau negócio. Poderás, num mau cenário, salvar pelo menos um deles. Estou-te a deixar levar um deles para casa.

Viko olhou o rosto de Lera, tão forte e determinado como o da progenitora, Valentina, e sentiu um frio percorrer-lhe o corpo, estremecendo todas as suas fundações. Vislumbrou Sasha, de joelhos naquele chão frio e sujo, de rosto baixo e submisso.

Disparou. Sasha caia desamparado para o chão. Lera olhou-lhe para as roupas ensanguentadas e para o seu corpo macerado sentindo uma inexplicável sensação de dor invadir-lhe o ser. Aquela dor que lhe era tão caracteristica, impessoal e intransmissível, que nela vinha sempre tão ligada ao amor. O abandono da mãe, a única figura de relevo que tinha nos seus parcos anos de vida, a sua morte que a suspendeu num estranho sentimento de dor e de revolta que se lhe enterrara no ser, roubando-lhe para sempre a fé. Daniel, de volta entregue ao sentimento de perda que a cansava, de novo entregue a si, sempre e só a si. Correu para a frente dele, num impulso de o proteger. Mais um sonoro estalido que saía do cano da arma, o rosto de Viko que parecia também querer abandonar o corpo e cair ali. Arrastou-se pelo chão até Sasha, enquanto a dor se lhe cravava mais intensa em cada perímetro, cravada na pele, nas entranhas, nas vísceras, em cada osso. A dor que conhecia tão bem e de cor, que mesmo assim ainda estranhava.

- É sempre um prazer negociar contigo, Viko! – Sorriu-lhe Colin, trocista. - Acho que já percebeste que a vida é uma autêntica roleta russa. Ou se perde tudo, ou se ganha tudo.

Lera ouvia reverberações longínquas das vozes, vendo a figura turva de Viko ser levada pelos Guardas. Viu a porta do armazém fechar-se, ficando sozinha no interior, olhando o corpo inerte de Sasha caído ao seu lado, enquanto ia ficando cada vez mais zonza e fraca, a visão turva e baça, até as pálpebras se fecharem, inundadas por um enorme cansaço e a dor deixar de a percorrer.

Era como se tudo corresse espaçado, vagaroso, numa calma onde a energia a abandonava, inerte, sossegando-a. A porta abriu-se prontamente, rápida, forte, maquinal, viu o corpo esbelto da mulher ruiva aproximar-se dela. Ao ver aquele rosto tão belo, tão perfeito, queria poder falar, emitir um som que a pronunciasse mas as forças faltavam-lhe, cortando-lhe a voz. Apenas uma lágrima lhe rolou do rosto, diante da presença da mãe. Valentina Durnova vinha com um belo tailleur vermelho, Pegou na menina nos braços, retirando-a do local. Vinha acompanhada por um homem de cabelo castanho claro e barba rara.

A mulher, saiu friamente com Lera. – Vá lá Valéria, sê forte! Coragem!

Quando a mãe lhe poisou a cabeça de encontro o peito, como quando era menina pequena, uma serenidade avassaladora invadiu-lhe o ser. Valéria deu um último suspiro, sentindo-se amortecer.

Quando acordou, Lera estava deitada na estreita espreguiçadeira de rede, rodeada do pai e de Jiya, que a recebiam com um enorme sorriso, terno, suspirante, como quem pode, por fim, descansar.

- Que enorme pesadelo esse, minha querida. – Disse-lhe ele abraçando-a, depositando-lhe um leve beijo na testa.

Lera olhou o interior da velha casinha reconhecendo onde estava. A boca incomodava-a, seca e pastosa. Lançou os olhos para a entrada como se esperasse a chegada de alguém, levantando-se da rede, com um ar levemente desapontado. As mãos cobertas por um suor frio, tremiam e fez a pergunta, de olhar dorido e ansioso, como já quem já sabe a resposta.

- O Sasha? – Interrogou, vendo o ar engasgado de Jiya e os olhos do pai deixarem os dela para se ocuparem da janela, com vista para o exterior.

Foi Jiya quem cortou o silêncio, voltando-se para a rapariga, que buscava uma resposta.

- O Sasha foi levado pela Guarda. Não fomos a tempo de o apanhar…Não te lembras?

O olhar de Lera também deixou a porta, fixando-se em Jiya, avaliador.

- E onde está?

Os olhos de Jiya buscaram o chão como refúgio e Ilya falou, pausadamente, para não a alarmar.

- O Viko foi resgatá-lo. Ainda não voltou.

- Já faz três dias…- Acrescentou Jiya, tentando esconder a sua aflição.

*****

- Brilhante ideia, meu rapaz! Mas também foi um grande golpe de sorte. Como é que sabias que ele ia escolher aquela arma? – Indagou Colin a um Sasha que se endireitava na cama, encontrando uma posição para repousar melhor o corpo ferido.

- O Viko é um bom líder. Ou pensa que sim. Ele nunca iria escolher a arma que tinha as balas falsas. Sabia perfeitamente que escolhendo as verdadeiras seria a única hipótese de nos salvar. Sabia que vocês nunca nos deixariam sair com vida e que, mal o prendessem, nos matariam. Se nos atingisse, com os conhecimentos de Alquimia, seria maior a hipótese de nos salvarmos.

- E a rapariga?

- Com sorte, sobrevive. Eu quero acreditar que ela há-de sobreviver.

- …tão nova e já sofreu tanto. E se morrer? Não te aflige isso?

Sasha não respondeu. Desviou pela primeira vez o olhar de Colin, numa expressão difícil de decifrar.

Colin sorriu para o rapaz que recuperava dos ferimentos na sala branca da enfermaria da Base. Dirigiu-se ao cadeirão em frente à marquesa e atirou um embrulho que continha uma farda.

- Já me entregaste o Viko. Agora está aqui a minha parte do acordo.

Sasha pareceu estremecer, como se aquela roupa se pudesse despedaçar.

- Cuidado, Governador. Custou-me muito a ganhar isso! - Rezingou. Ao rosto dorido, assomou um esgar de contentamento.

- Espero que faças bom uso dela.

- Foi por isso que me dei ao trabalho de arriscar. – Respondeu o jovem, numa seriedade intensa, que perpassava o entendimento do Governador.

- Achas que ele não vai perceber que estás vivo?

Sasha olhou divertido para Colin, quase como se estivesse diante de uma criança que começa a vida, explicando-lhe, num raciocínio incomum.

- O tempo tem muitos sítios onde me esconder…é outro dom da alquimia da alma, conhecermos os recônditos dos dias, saber onde nos podemos encobrir.

Para Sasha, que conhecia os rodeios das horas como um percurso quotidiano, o tempo não se demorava em meandros, porque lhe conhecia os atalhos. Os dias passaram-lhe benignos, apenas mais uma forma de progredir e continuar.

E para Lera as horas eram apenas mais uma forma acutilante de lhe mostrar a tortura da ausência, assinalando-lhe a falta.

No burgo, durante muitos anos, a presença de Sasha seria apenas recordada nos passos de uma pequena rapariga pesarosa que arrastava o tempo numa memória demasiado desperta, como uma presença viva, parte de si. Nunca mais vira nem ouvira a voz da mãe, dissipada para sempre no que concebeu ser um delírio de criança. Mas se soubesse jurar, poderia dizer que fora ela quem a pegara ao colo, levando-a em braços pelos variados sinais do tempo que se indiciavam em si.

Se preferirem, leiam em http://www.tvuniverso.com/Saga/6o-episodio.html

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Tive a por a leitura em dia, continua muito bom magg. Já o disse e volto a dizer a tu escrita magg é um espectáculo!!

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Gracías, David. Fico contente que gostes. Espero que estes próximos episódios também sejam do teu agrado, uma vez que volta a "Lúcia", a Chanceler que te intrigou :biggrin_mini2:

Obrigada a quem segue a história. Aqui vai mais um episódio "fresquinho".

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Maio 2013

Raízes - Alexandre Meireles Almeida de Albuquerque tinha 15 anos quando matou pela primeira vez, em nome da Revolucíon. Ainda tremeu no primeiro golpe da catana (…) Olhou o sangue que jorrava (…) sorveu com prazer o odor a sangue quente. (…) sentiu que nunca mais conseguiria parar. (…) Foi um dos seus apelos do sangue que o cruzou com Spencer Johnson, o novo Governador-Geral. Em Abril de 94, assassinou barbaramente Johnson, a sua mulher e três filhos, Apenas duas escaparam…

Mudar - Maria Lúcia abdicou do seu rumo quando aos 13 anos se cruzou com Alexandre Albuquerque(…)

Os cinco filhos de Johnson, eram tidos naquele como seres invulgarmente estranhos, principalmente desde que o dom de Valentina se começou a manifestar (..) Alexandre não estranhara a coloração clara da sua pele em contraste com a tez morena e os cabelos cor de ébano da população local. Não os tratava com o desdém característico, nem olhava para eles como intrusos desconformes.(…) Sorriu sorrateira por Alexandre quando a UDP de Manuel Esquível conquistou o país. Agarrou-lhe as mãos secas e firmes quando entrou no carro que a levou ao exílio. E foram essas mesmas mãos que lhe secaram as lágrimas quando, em 94, lhe entraram pela casa matando-lhe a família (…)

Vinte anos depois (…) O seu ódio irrompeu. (…) Maria Lúcia Garza Johnson, não seria mais Meireles Almeida de Albuquerque. Voltaria a ter nas mãos o seu passado forte(...)

Prisão da Base de Edín

Janeiro 2021

Colin Young arrastava-se pelos corredores da prisão, os lábios secos e pastosos, sentindo um calafrio percorrer-lhe todo o corpo.

Demorava-se, sentindo a obrigatoriedade e urgência do dever que o chamava. Há anos que se aviltava por aquele corredor sombrio, que mesmo assim, não deixava de o incomodar. Carregava uma pequena chave magnética que passou na ranhura da última porta, que se abriu, obediente. No interior, Alexandre Albuquerque alucinava, balançando-se de um extremo ao outro da exígua divisão. Colin aproximou-se do companheiro, sentando-o. Alexandre continuava a balbuciar frases incoerentes, gesticulando, exaltado.

- “Matem aqueles ratos…ingleses traidores…O Spencer….matem-nos a todos…”

Colin injectou uma substância transparente em Alexandre que perdeu vitalidade, prostrando-se na cadeira, estático, de olhos arregalados. O cabelo grisalho contrastava com o tom escuro do forro da cadeira, e os olhos negros mostravam-se baços, ausentes e sem vigor. Colin sentou-se na beira da cama, ouvindo o colchão ranger.

Alexandre deu um salto impetuoso, erguendo-se da cadeira, voltando depois a cair.

- …Lúcia! - Gritou, arregalando uma última vez os olhos, parecendo serenar. A respiração abrandou, tornando-se mais compassada, fitando o local onde estava encerrado, tentando reconhecê-lo.

- Bem-vindo, companheiro. Ainda não tinha arranjado forma de te tirar daqui… – Saudou Colin, ajudando-o a levantar-se, mostrando uma certa inquietação.

- O que é que eu ainda estou aqui a fazer? Ainda tens o descaramento de me dar as boas vindas neste lugar? - Alexandre levou as mãos ao cabelo, para o arranjar, levantando-se da cadeira com dificuldade.

- Não gosto desse teu olhar, Colin. O que é que se passa?

- Primeiro vamos sair daqui. – Falou Colin, ajudando o amigo a apoiar-se.

- Leva-me para casa. Quero ver a Lúcia! – Ordenou Alexandre, vendo o olhar de Colin vaguear.

- Vamos pensar em sair primeiro, depois vemos o que fazer.

Os dois homens saíram da cela, percorrendo o corredor tão apressadamente quanto as forças de Alexandre permitiam.

O centro de Admissão permanecia vazio, sem que nenhum guarda marcasse presença para o vigiar.

Alexandre parou, olhando abismado o local. Os olhos bebiam, sequiosos, cada detalhe em busca de mudanças. Pequenas transformações ténues e banais que pudessem indicar o trânsito inexorável do tempo. Quase imperceptivelmente, a cabeça rodava sob o eixo do pescoço em busca de alguma raiz que pudesse relembrar. Aquele local não lhe trazia boas recordações, tinha sido ali, que começara o fim do seu império, mas também tinha sido ali que o seu plano estreara o seu curso.

Colin tremia e o medo que emanava começava a exacerbar Alexandre.

- Tu vieste aqui para me ajudar ou para molhares as calças? Será que só sei lidar com fracos?

Colin encolheu os ombros, aproximando-se mais de Alexandre que começava a recuperar as forças e, inesperadamente, contemplava o local com uma certa nostalgia.

- Foram uns belos tempos, estes. Deslumbrantes! – Falou, com um sorriso entre dentes.

Colin esboçou um semblante interrogativo, procurando entender a sua companhia.

- Vamos embora, Alexandre. Estamos a demorar…

Os dois saíram para o exterior da Base, onde esperava, estrategicamente, o carro de Colin.

- Sabes que isto te pode custar o pescoço? – Questionou Alexandre, fincando o olhar no companheiro, enquanto o carro arrancava.

- Já estou habituado a empenhar o meu pescoço… - Replicou irónico.

A viagem foi curta e Alexandre esforçava-se para reconhecer os caminhos da nova base. Os olhos vagueavam, ainda estranhos à luz do sol, gravando cada rua, cada estrada diferente das da era do seu comando.

- Conta-me, Colin. O que aconteceu durante este tempo? Como está o pequeno? Já começou a andar?

Colin voltou a sentir o peito palpitar, virando-se para Alexandre, titubeante.

- Há uma coisa que precisas de saber, Alexandre. Estiveste naquela cela durante sete anos, amigo.

Alexandre desviou o olhar da estrada, fixando Colin.

- Sete anos? É muito tempo…- Os olhos reviravam nas órbitas, e Colin reconheceu a expressão irada do companheiro, que cerrava os dentes, indignado. – Demoraste muito para cumprir o plano…o que é que aconteceu, Colin? O que é que ainda tens para me contar?

O carro parara no exterior de casa. Alexandre entrou, impetuoso, Colin abriu a porta da sua residência de Governador, deixando Alexandre entrar para ver uma casa pequena, mas ricamente mobilada e cómoda.

- Vives bem, meu avarento. A minha posição deu-te um certo estatuto! – Ironizou. - Vais ou não começar a contar-me o que se passa? – Indagou, impaciente, Alexandre.

A casa, adormecida no escuro, despertou na ténue luz acesa na sala. A mesa estava posta, com dois pratos, dois copos, os talheres elegantemente estendidos na mesa e a garrafa de vinho preferida de Alexandre repousava num balde de frappé.

- Conto-te tudo ao jantar. - Replicou o Governador de Edín, dando o lugar no topo da mesa a Alexandre, sentando-se do seu lado esquerdo.

Imediatamente, um empregado surgiu com a terrina da sopa, enquanto Colin abria o vinho, cuja rolha saiu, com um estalido seco.

- É um Sauvignon gris, temos que o deixar respirar. Aromático, com um gosto particular a lima e um toque picante. O último exemplar de 2006. Achei que fosses gostar de o abrir…para comemorar a tua fuga.

O rosto de Alexandre desobstruiu, enquanto lhe serviam a sopa, que sorveu, faminto.

- Há anos que não como ou bebo assim. Mesmo assim, que estupendos anos, estes que passei. Tornaram-me mais afiado! – Falou, enchendo o copo de vinho, que bebia em largos tragos, degustando daquele sabor requintado que há tantos anos lhe faltava.

Colin, engoliu em seco - Ao fim! – Falou pegando também no seu copo para brindar.

- Conta-me Colin, o que é que aconteceu nestes anos em que estive ausente?

Colin pigarreou, levando uma colher de comida à boca.

- Nada de especial…O César morreu, o Zeph morreu, nada de mais…

- E o nosso plano de ser Chanceler?

Os olhos de Colin baixaram de novo para a sopa, mexendo-a com a colher. Fazia pequenos carreiros que se deformavam no líquido, até levantar o rosto e falar.

- Parece-me um pouco complicado vires a ser Chanceler ou o Miguel vir-te a suceder…A Lúcia é o novo Chanceler.

Alexandre arregalou mais os olhos pretos, fincando toda a sua raiva em Colin. O braço lançou-se violento sobre a mesa, atirando os objectos para o chão. Colin levantou-se, assustado, enquanto Alexandre vociferava, frases ininteligíveis de fúria e de revolta.

Colin encostou-se ao aparador de laca branco, caindo de um estrondo no chão.

Os gritos cessaram repentinamente, Alexandre parecia engasgar. O seu rosto empalideceu e caiu desamparado no chão, entre espasmos e convulsões. À sua boca surgiu uma espuma branca e porosa, enquanto os olhos reviravam.

A luz da entrada da casa acendeu e a porta abriu-se.

A mulher entrou, a capa esverdeada esvoaçante, vendo os homens perder os sentidos. Lúcia passou por cima do corpo inerte de Colin e baixou-se ao nível de Alexandre. Sorriu ironicamente, agarrando a garrafa de vinho que se encontrava caída ao seu lado.

- Sauvignon gris…- O Alexandre passou-me a paixão pelos vinhos…este agrada-me particularmente…

Se preferirem leiam em http://www.tvuniverso.com/Saga/7o-episodio.html

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Colisão - 2011 (…) Lúcia encontrava-se inclinada do outro lado das grades de protecção prestes a lançar-se.

Desprezo-te, Alexandre. (…) O meu pai era Governador e "tu" o seu porto. Mataste-os (…) deixa-me morrer (…) tiraste-me tudo…agora também tu ficas sem nada (…)

RaízesMaio 2013 (…)Eu sou rei e senhor do teu destino. Mais ninguém! (…)não sais daqui, nem mesmo para morrer (…)Tens comigo uma dívida de sangue (…) Salvei-te a vida, a ti e à tua irmãzinha! (…)Devia ter acabado contigo como acabei com aqueles ratos dos ingleses (…) A mão de Alexandre encaminhou-se exaltada e violenta contra a face de Lúcia, incapaz de resistir. A mulher caiu no chão, desamparada (...)

O voo da Garça - Novembro 2013 (…) Alexandre deu uma breve risada seca, olhando para o rosto da mulher. – Tremes como uma criança! Vais precisar eternamente de mim, para te resolver os conflitos. (…)Se não fosse a tua irmã roubar a chave da minha cela eu já nem estaria aqui (…) Marius deixou cair o disfarce (…) - Eu sou o Enki. O ser alienígena que acaba de aterrar (…) Lúcia caiu no chão da Sala de Interrogatório. Os sentidos abandonavam-na (…)

Prisão da Base de Edín

Janeiro 2021

Lúcia sobressaltou-se, ao ver o corpo de Alexandre recuperar o fôlego e respirar com dificuldade. Estremeceu, desta vez ainda mais com mais força. Ao seu lado, a figura de Enki apareceu-lhe, fisicamente presente, com a mesma aparência de há sete anos atrás.

- Já te cansaste de brincar aos vilões? – Questionou-a, num tom irónico e seco. - Conseguiste! – Bradou. - Finalmente assinaste a tua tão desejada sentença de morte. Parabéns! – Prosseguiu, sarcástico. Se não o socorremos já, perdes a única pessoa que ainda te pode ajudar.

Lúcia exibiu um ar surpreso. À memória veio-lhe os tempos em que tentava, em vão, uma forma de morrer, escapando à tortura dos dias em que Alexandre a desprezava, impingindo-lhe todos os graus de violência difíceis de atingir e, para ela, de esquecer. Dava-lhe prazer ver aquele homem contorcer-se no chão, com aquela respiração ofegante, como um peixe fora de água. Foi sacudida por Enki, que a trazia de volta ao seu mundo.

Lúcia caiu ao chão, sentindo-se zonza e fraca, vendo a figura aproximar-se, colocando-se ao seu lado.

- Lúcia? Estás-me a ouvir? É preciso tomar medidas já! A primeira delas é chamar o teu médico pessoal, ou ele apaga-se e tu… vais com ele!

Lúcia arrastava-se no chão, afastando-se bruscamente. – Não é possível, tu não estás de volta…não…o que é que estás aqui a fazer? - Averiguava em descrédito.

- Tu podes viver…e fazer viver…- respondia-lhe figura, baixando-se ao seu nível e afagando-lhe os cabelos vermelhos.

Os olhos de Lúcia voltaram a encher-se de lágrimas e o verde desmaiava, esgazeado, diante do rosto do homem que, anos antes, a fizera assumir o cargo de Chanceler, em troca do regresso da irmã morta. Fitou-lhe o rosto, dirigiu-se à porta e fez o habitual sinal de emergência à censora, que se prontificou a chamar o médico, que chegou, quase de imediato. Auscultou-o, vendo a pupila enorme encobrir-lhe a íris, tornando-lhe os olhos baços. A medo, o médico investigou o local, voltando-se para Lúcia, respeitosamente.

- Envenenamento? – Perguntou, retoricamente.

Lúcia acenou, afirmativamente, vendo o médico retirar um frasco de soro, que administrou em Alexandre.

- Vamos esperar que resulte. O prognóstico é muito reservado. – Informou, resumidamente.

Lúcia submergiu, num silêncio arrepiante. A figura mais importante do planeta sofria, de novo e enfim, só. Sentiu o coração despedaçar e o quanto lhe custava de novo andar. De volta a casa, no quarto, voltou a abrir as janelas, como antigamente. Esperava, de forma subconsciente, que pudesse cair a tarde e que estas se fechassem, para que a escuridão a tomasse e pudesse adormecer. Falou-lhe, num tom magoado.

- … Tu disseste-me que a ia ter de volta e eu fiz de tudo…até estar aqui…

Diante do rosto de Lúcia, assomava a irmã, Era uma menina de aproximadamente 9 anos, de boina escarlate, que lhe tapava as madeixas ruivas onduladas, e uma saia rodada que lhe caia delicadamente pelos joelhos. Os olhos de Lúcia cresciam abismados.

A voz de Enki saiu, dura, decidida.

- Resigna do teu cargo. – Ordenou ele. Aproximando-se da pequena menina. – Cumpri a minha palavra. Tal como te prometi.

- Quem é que me diz que isto não é uma invenção? – Indagou, empalidecendo, enquanto esmiuçava toda a dúvida que a consumia.

- Pedra de alma. Este é mais um dos ensinamentos da Alquímia. A divisão dos vários estágios da alma. Esta é a dela. Mas mesmo que seja um engenho meu, a minha finalidade é proteger-te. Quero que saias daqui. Não é seguro. Uma vez consegui salvar-te mas não te garanto que o consiga outra vez.

A menina aproximou-se dela, poisando-lhe docemente a mão no ombro, enquanto com a outra lhe afagava o cabelo, da mesma cor do seu, como se Lúcia fosse criança, tal como ela. A alma dela, pequena, tal como a vira, antes de partir para a Rússia. De certeza o último dia em que a pequena Valentina tivera ânimo de viver. Lúcia acreditou finalmente que era ele quem se encontrava ali.

– Fizeste tudo errado, foste longe demais, Lucy

Dirigiu-se à mesinha de cabeceira e levou a mão a um pequeno livro de capa vermelha que lá repousava. Uma fina folha de papel amarelada saiu, escrita com uma delicada caligrafia. “Impulsividade, Carácter volátil e agressivo, Pobreza geral das reacções afectivas, incapacidade de aprender por experiência, Extremamente perigoso, falta de auto critica…”

Lúcia releu aquelas palavras, sentindo a mesma repugnância e exaltação invadirem-lhe o ser, num asco profundo, visceral.

“Vyborg, 30 de Março de 2002

Meu caro Alexandre,

Escrevo a anunciar-te o nascimento do meu filho. Ao fim de anos de pesquisas, de avanços e recuos, consegui, enfim, dá-lo à luz. Já estou velho, meu amigo. Parecia-me já inatingível este meu plano. Devo confessar-te que me enchi de esperança quando vi as maravilhosas filhas do Spencer. A Valentina está comigo e encontra-se bem. Adoptei-a. Nunca pensei ter como minha uma delas. Espero que entendas estas palavras que te escrevo, e que atinjas finalmente que serão elas, os projectos do Spencer, o nosso único meio de redenção.

Até hoje, sempre vira todos os meus planos falhar. Por isso, neste dia, enquanto olho o meu filho, é com emoção que te escrevo.

Dei-lhe o teu nome. Não me esqueço de tudo o que fizeste por mim e tenho sempre em mente o grandioso caminho em que te baptizei e aquele que ainda tens a percorrer, com todo o teu brilhantismo e energia. Ainda és jovem, mas não te esqueças que caminhamos sempre sozinhos. Estamos infinitamente sós, neste vastíssimo universo que nos asfixia e detém. Por mais que tentes e procures, estaremos indefinidamente desamparados e será sempre no curso que nos resgatamos. (...) ”

As lágrimas caiam-lhe pelo rosto, as letras desfiguravam-se, indecifráveis e Lúcia poisou a carta, limpando o rosto. A menina ainda a esperava, de olhos castanhos infinitamente ternos, numa doçura infantil.

- Eu estou aqui para te proteger… Não posso ficar eternamente suspensa no tempo…

Quando voltou a levantar o olhar, a menina desaparecera e no quarto estavam apenas ela e Enki. O ser que lhe trazia tão más recordações.

- Já tinhas lido e relido esta carta milhares de vezes e ainda não tinhas concluído? A tua origem é também o teu fim. És uma experiência genética do teu pai. Tu és parte do que eu sou. Temos a mesma raiz…daí ter-te pedido para seres Chanceler. Era o cargo que te estava designado. As pessoas que te criaram eram as que querias ver morrer, é a ti própria que estás a combater. Se queres matar a todos, tens que começar a pensar em morrer!

A respiração de Lúcia acelerava descompassada e voltou a experimentar em si a velha sensação de dor, de alma retalhada nas entranhas.

- …ninguém mais precisa de morrer... tu não precisas de morrer assim…

Lúcia sentia, de novo, e o peito ardia tanto que voltou a pensar como seria ter morrido naquele telhado, muitos anos antes. Melhor seria, do que esta inexistência em que só usava perder. Alexandre prostrava-se ali, desprotegido, tão longe do assombro que lhe roubara a existência, que lhe matara a família e roubara a vida.

- Estava tão magoada. Tão desfeita. – Suspirava Lúcia, a tremer convulsivamente. – Fiz o que achei justo. No fundo, só acabei com aqueles que começaram este plano. Matei-os a todos, sim! E não me arrependo. O Zeph, aquele fuinha submisso e fraco. O Colin, um bajulador hediondo, agora servil ao chão. Também eles mataram e fizeram morrer… Tal como o Alexandre. O único que não consigo fazer morrer. Matava-o, se pudesse. Nem que isso significasse acabar com a minha vida. Tal como a Tina fez.

Enki encaminhou-se até ela, parando a escassos centímetros, baixando-se para a ajudar a levantar-se.

- Desculpa tudo o que te fiz, desculpa…o meu povo precisa tanto de ti como o teu. - Eu fiz tudo errado…- Confessou ele, deixando a máscara cair.

Sem pensar, Lúcia beijou Enki que retribuiu, mostrando todo o sentimento enclausurado nele. Tinha enganado, mentido, tudo pela vontade de vida que o prendia ao seu povo, tudo pela mesma necessidade de liberdade que prendia os humanos àquele ser. Nele, também uma pequena centelha humana se acendia, aquela que se apagava em Lúcia, com a revelação daquele ser.

- Renúncia ao teu Cargo. Senão por ti, pelo teu filho. Decerto que o que vais querer ver nascer…Basta disto tudo, Lúcia. Basta de sofreres.

Lúcia levou as mãos ao rosto, limpando as lágrimas que escorriam, secando-o, conferindo-lhe à pele um toque plástico e frio, duro e viscoso.

Eram elas que lhe davam um novo fulgor, ao mesmo tempo que lhe roubavam toda a esperança de um futuro. Tudo o que planeara lhe fugira do colo e a atormentava. E mais uma vez, ela que não tinha respeito nenhum pela sua, era a única que ainda tinha vida para insistir num depois e voltar a um novo rumo. Talvez amanhã…amanhã é um bom dia para recomeçar

Se preferirem leiam em http://www.tvuniverso.com/Saga/8o-episodio.html

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Nova Base de Edín

2021

Congresso anual interplanetário – Anfiteatro Adapu

Durante o trajecto até ao Auditório, onde decorreria o encontro anual dos cargos de maior destaque no planeta, sentada no banco traseiro do seu carro, a Chanceler revia mentalmente o discurso de lés a lés, procurando alguma lacuna. Não tinha sentimento de quem fora, sabia quem era de cor, tão bem como a dissertação preparada contra as possíveis renitências daquelas mentes. Enquanto o carro preto de vidros fumados percorria as estradas da base que governava, Lúcia abriu a janela sentindo o vento bater-lhe no rosto. Um arrepio percorreu-a de lés a lés e fechou os olhos, repassando toda a sua vida. Uma lágrima caiu-lhe, cálida, acalentadora. Voltou a abrir os olhos de jade, reluzentes da água que deles fluía, vendo ao longe o burgo da Base de Edín, tão árido e inculto. O que é que eu fiz? Onde é que vim parar? Que fiz, que fizeram de mim? nada, ninguém justifica…

Umas escassas crianças corriam pelo Burgo, acompanhadas pelas mães. Lembrou-se da sua. Do seu rosto pequeno e moreno, ornado pelos suaves e longos cabelos negros. Lembrou-se de Miguel, da oportunidade que lhe haviam tirado de ter uma família, uma mãe cujos cabelos pudesse acariciar. Percebeu, por fim, a arbitrariedade que os unia, num mesmo destino tão diferente, tão igual em si. Talvez fosse essa a razão que a fizera conceber um filho exactamente da mesma maneira que Alexandre concebera Miguel. Atingiu por fim o único fim que poderia esperar, o único por que sempre ansiara, inconscientemente, e que buscara todos os dias, desde a morte da sua família. As palavras de Enki voltavam à sua mente, inteiras e corrosivas, revolvendo-a. As pessoas que te criaram eram as que querias ver morrer, é a ti própria que estás a combater. Se queres matar a todos, tens que começar a pensar em morrer!

O carro parou. Segundos depois a sua porta abria-se, revelando a mão estendida de um guarda, que tomou a dela. Desceu do veículo determinada. Já no exterior, deitou os olhos ao descomunal edifício que aparecia à sua frente. Sorriu. Passou a mão pelo ventre ligeiramente saliente, com um imenso carinho. O seu filho ia ter uma mãe, uma oportunidade de poder recordar e orgulhar-se dela, tal como ela se orgulhava dos seus pais. Vais chamar-te Spencer, vais crescer na casa onde nasci, em liberdade e feliz, tudo aquilo que eu não pude ser…e vais orgulhar-te de mim.

Caminhou em passos largos até ao Anfiteatro. A sala era grande e espaçosa, demasiado extensa, mas sentia-se confortável nela. Da entrada, assemelhava-se a uma arena, revestida a madeira clara e envernizada, que conferia ao lugar um brilho elegante e cómodo.

Mal a sua presença se anunciou, as grandes janelas de vidro cobriram-se de pesadas cortinas aveludadas, de um azul-escuro, quase preto. Depois de uma breve pausa, para as saudações de protocolo, prosseguiu, rumo ao seu lugar. Passou pelo centro da sala arrastando a sua capa carmim que ondulava levemente, concedendo ao ar um agradável perfume floral. Por onde passava, deixava um rasto de silêncio reverente. Atingiu o estrado, decididamente e sentou-se no assento reservado ao seu cargo, procurando uma posição confortável. Maquinalmente, reuniu a pilha de documentos que se encontravam devidamente etiquetados e arrumados por ordem na ampla secretária de madeira de cedro.

À sua frente, doze figuras debatiam-se, por entre sussurros e murmúrios que chegavam aos seus ouvidos como pequenos clamores sibilantes. Do seu lado esquerdo, o sorriso do Observador fechou-se. Inclinou-se mais na cadeira, debruçando-se na secretária para agarrar o microfone.

- Caros e distintos membros do Senado, venho aqui humildemente, anunciar-vos a minha demissão. Peço que nenhum de vós abrande perante estes resultados. A nossa política é fruto de vários anos de luta, de avanços e recuos que nos reforçaram, tornando-nos grandiosos o suficiente para não recuar, mas falhou, confesso. Este é o curso, não o desfecho. Não chegamos até aqui para morrermos a contemplar a Terra Prometida. – Interrompeu, vendo os seus interlocutores emudecerem e virarem os rostos na sua direcção, cravados de indignação.

– Têm perfeito conhecimento de que pela primeira vez não vamos atingir o índice imposto das quotas. Ficámos muito aquém. Também os vossos dízimos terão que ser limitados. Juntos, temos que fazer sacrifícios para honrarmos os nossos compromissos com a parte em conta. Também os Governadores têm falhado nas suas tarefas, sendo que o último Colin Young, faleceu.

Os membros do Senado abanavam a cabeça a contragosto. O Chanceler respirou fundo, retomando o fôlego, voltando a aproximar-se do microfone.

– São tempos áridos, mas permanecendo unidos, cresceremos juntos! Renuncio do meu Cargo de Chanceler, em nome do bem geral. “A emenda de alguma pessoa, a expiação de todos e a salvação da Terra…”

A confissão foi interrompida por um estrondo vindo precisamente acima das suas cabeças. Todos se levantaram instintivamente para o tecto. Objectos que caíam no chão e passos que calcavam os estilhaços apoderaram-se da atenção dos presentes, fazendo-os voltarem-se na direcção da porta.

- Não é em cima, é aqui, meus senhores!

Uma mulher de pele cor de canela invadia a reunião, perante o olhar confuso dos congressistas que a observavam, transtornados.

- Não tenho muita vocação para irrupções aparatosas, prefiro as portas de entrada. - Largou um esgar escarnecedor, abrindo mais os belos olhos negros.

- Perdoem a interrupção tão… “abrupta”. Detesto ser indelicada. Contudo, a rudeza parece ser o único idioma que alcançam, está visto. – Falou, devagar, aproximando-se ligeira da secretária do chanceler.

Lúcia fitava-a, serena. – Vamos lá, Jiya. Estou aberta a negociações. Vamos conversar e tudo se resolverá.

Jiya manteve-se calada por breves segundos, tentando manter a linguagem cuidada que a caracterizava.

- Conversar? Enquanto os senhores insistem em “conferenciar” em locais faustosos, nós continuamos a morrer com fome. Como é que vamos resolver esta… “conjuntura”, prezados membros do Senado? Terão vossas excelências algo a “explicar”?

- Jiya, tenho a certeza que podemos chegar a um consenso. – Continuou a Chanceler, olhando fixamente a mulher. Jiya engoliu em seco e respirou fundo, direccionou a arma para Lúcia e rodou a patilha, carregando-a no máximo, fechou os olhos e disparou com convicção. Uma trovoada de clarões magnéticos atingiu o local, como uma dança de raios azuis, iniciada nas suas mãos, desmaiando no corpo da figura sentada superior no estrado, mesclados nas suas vestes. Um intenso clarão azulado iluminou toda a divisão e o impacto da detonação projectou Lúcia, que tombou da cadeira, rolando do estrado. Sentiu os estilhaços dos vidros da janela cravarem-se na carne numa dor contundente fincada nela. A astenia generalizava-se pelo corpo que se crispava em violentas contracções.

Os Guardas disparararam. Contudo o corpo de Jiya continuava de pé. Numa serenidade atenta.

- Mantenham a calma, senhores…estão em segurança. - Falou.

- Que vida é que prezam afinal? O corpo do vosso chefe está ali caído e só se preocupam em pôr-me a mão. No meu recanto, dá-se valor à vida, talvez por ser o bem de que mais carecemos. Já perdi a conta ao número de vidas que marcharam para o fim…um sublime corredor de espera, este em que nos encerram! Aguardo os nossos mantimentos! - Anunciou, como se o sofrimento não a atingisse, sem o mínimo vestígio de emoção, de volta ao seu sorriso trocista, sentindo o braço de um Guarda tomar o seu, para a levar.

- Antes de me ausentar, uma pequena advertência: da próxima vez, escolham um local mais seguro onde tomar chá…

A capa de um vermelho carregado de Lúcia confundia-se com uma rodilha, deformada de encontro o solo, coberta por uma massa de sangue que parecia ser o seu filho.

Se preferirem, leiam em http://www.tvuniverso.com/Saga/9o-episodio.html

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Para lá de ti

Sem Volta- 2011 (...) No olhar de Sasha uma mulher apressada, uma criança cambaleante pela mão e uma porta de café aberta em urgência (...) Fica com a criancinha. É tua! És o único a quem a posso entregar Ilya. Se nem tu a queres fica ciente que ainda hoje terei que matar com as minhas próprias mãos a tua filha (…) Espero que faças com ela melhor do que o que eu fiz.

(...)

Eu estive em casa dela…foi-se embora sem volta, sabes?

- Nunca mais, nuca mais repitas o nome dela na minha presença, entendes? Proíbo-te! Ela matou os teus pais(...)

(...)

A dor penetrava em cada centímetro do corpo ofegante da criança, mas Sasha não falava. Em si a raiva calou-o e instalou-se rancorosa no seu coração infantil. Não falaria. Nunca mais. Por muito que o corpo lhe gritasse de indignação e o sangue lhe escorresse dos braços a tentá-lo, aquilo que os seus olhos viram valeria sempre a pena. Guardaria para sempre na memória o dia em que ainda pequeno entrara furtivo na casa de Valentyna Dornova. O que os olhos de Sasha viram, palavra alguma poderia abranger.

Conquista– Nataliya levantou o rosto (...) Os homens dispararam sobre ela (...) O sangue espirrou para a face e roupa de Lera que fugiu, em pânico (...) Nataliya caiu no chão, a gemer, arqueando de dor. (...) A miúda fugiu para a mata. É impossível encontrá-la com esta escuridão. – Disse um dos Guardas (...)

Acorda! Não disseste que não podíamos adormecer até ser uma hora? (...) Nataliya permanecia imóvel no chão (...)A menina puxou pelo braço da mulher que caiu, pesado na sua perna. Uma voz, doce e conhecida, ecoou-lhe na cabeça, como se a ouvisse por toda a estação.

Levanta-te Valéria. Vais ser uma menina crescida e aprender a lutar (...) Mamushka? (...) Está tudo bem, não vai acontecer nada, não chores, meu amor

Burgo da Base de Abzu

Março de 2025

- Rápido, Valéria. Mais depressa. Despacha-te!

A porta de café que se abria num jacto. Uma vitrina de bolos no balcão. Os seus olhos de criança que viam a pessoa mais amada virar-lhe costas e afastar-se. Uns gritos aflitos reverberados até à exaustão no vazio de um cais. Abandonada. Só

Uma estação de comboios deserta e a ânsia de uma criança tendo como companhia um corpo inanimado. O frio do chão

Daniel, o rosto encovado e flácido, os olhos dois buracos negros que a chamavam, impiedosos…

Sangue. Estava coberta de sangue. Curiosamente, não tinha dores. De uma só investida levantou-se do chão, atirou a arma que lhe ardia na mão e correu para a porta. As mãos mostravam-se pegajosas e frias. O corpo tinha um cheiro adocicado e intenso a sangue. A sala era pequena e mesmo assim, parecia um longo caminho até à porta. Aquela era a sua maior prova e percebia agora como era possível lutar-se para viver.

Saltava os corpos caídos pelo chão, tentando alcançar a saída, como uma prova de obstáculos e as lágrimas galgavam-lhe ao rosto, misturando-se com os resquícios de pólvora, sangue e suor, cheias de raiva, cheias de dor. Sozinha, mais uma vez.

Por entre as ruínas, anúncio de destruição que abalava tanto a divisão, como a sua alma, começava a revelar-se a essência do seu ser. Sobreviver, porque o seu nome era de força e de guerra, acima de tudo. Por ela, só por ela. Sempre só ela. Só…

Não queria. Mas o físico lutava por viver e trepava corpos e janelas em busca da vida que lhe fugia borda fora. Na obscuridade do silêncio que se abatia, o sorriso…o olhar glacial que a demolia…e quis morrer.

*****

- Lera, Lera. Tiveste um pesadelo…

A voz suave de barítono, que tão bem conhecia, acordou a rapariga, que abriu os olhos castanhos aveludados, num susto, deparando-se com o azul dos de Sasha que a fixavam, sem expressão. Ele estava de volta, ali, quatro anos depois do funesto dia em que desaparecera, para lá da névoa, para lá dos tiros, deixando-a presa a si. Estava de novo na sua presença, de novo com aquele sorriso que guardava só para ela.

– Olá… – Cumprimentou, enquanto lhe retirava carinhosamente uma mexa de cabelos colados à testa, limpando-lhe o suor que lhe escorria do rosto.

Lera sorriu, como se o esperasse há muito. Só ele tinha aquela capacidade de a entender e acalmar. Admirava-lhe a serenidade e a postura recta e harmoniosa, umas vezes reprimido, outras vezes inflexível, detentor de uma paciência e segurança interior inabaláveis. Abraçou-o, tomando-lhe o pescoço, sentindo-se perder no seu embalo. Parecia serenar, bebendo da sua calma. Lera levantou a cabeça, fitando aquele rosto de pele clara e seca. Estava tão mudado. Sumido e vincado já de rugas que lhe contavam a história de vida.

Não sabia dizer se era belo, mas emanava um mistério e brilho intensos, difíceis de descrever. Talvez fosse essa a razão do fascínio que Sasha exercia sobre ela. Sempre permanecera ao seu lado, de braço estendido. Desde o dia em que chegara ao abrigo, zelara pelo seu conforto e bem-estar.

As lágrimas pularam-lhe dos olhos, molhando-lhe o rosto e Sasha puxou-a gentilmente para o seu colo, abraçando-a. Deitou-lhe a cabeça no seu peito, tentando acalma-la.

Os olhos enchiam-se de lágrimas e Sasha reparou como crescera. Tinha deixado crescer os cabelos ruivos, mais lisos e macios, que lhe tocavam agora os ombros.

- Esperei tanto. Todos os dias ia até ao portão da Base e esperava que voltasses. Por mais que me dissessem que estavas morto, sempre soube que não! Mas nunca te via chegar. Então, achei que tinha que começar a entender melhor a morte… Delicadamente, Sasha levantou-lhe o rosto com a mão, de forma a poder ver-lhe os olhos cor de terra iguais aos da mãe, nela infinitamente mais doces, cheios de fé, ainda mal contaminados pela vida.

- Magoei-te tanto, não foi? Acredita que me custou mais a mim, saber se vivias ou não…

Os olhos de Lera agora mareados, deitavam para o exterior toda a água que contera com a sua ausência.

- Nunca mais me deixes. Nunca mais …As coisas por aqui são tão difíceis sem ti…é horrível Sasha, horrível! …e o Viko continua sem aceitar aquele maldito acordo. - Rogava ela, enquanto o apertava mais. - Amo-te tanto, Sasha… eu, que nem sei o que é o amor…és o único que ainda me prende ao mundo.

- Amas-me? – Questionou, perante o olhar petrificado da rapariga.

Sem esperar pela resposta, beijou-a levemente, sentindo o gosto da saliva dos seus lábios misturar-se à dele.

Lera afastou-se, sem conseguir falar, sentia um calor invadir-lhe todo o corpo, pontuados por uns calafrios intermitentes.

- Por onde andaste, todo este tempo?

- Eu tive que ir embora…que sair daqui. - Falou Sasha, num tom que Lera não soube definir se era de dor ou de anseio.

Lera virou-lhe o rosto. Sasha podia sentir o desapontamento, o gelo que se apoderava dela e lhe estilhaçava o coração, no silêncio arrogante que ela usava como refúgio. Voltou a juntar-se a ela, pegando-lhe na mão delicada. A rapariga voltou a lançar-lhe um olhar aflito, cheio de insegurança e de receio, abraçando-o com força.

- … Não te posso perder. Já perdi a minha mãe e o Daniel. Se não te tenho, também não existo…

- Nunca me vais perder… - Sasha poisou-lhe um beijo na testa, acariciando-lhe os cabelos vermelhos, enquanto descia, novamente de encontro a sua boca. Sasha puxou-a mais para si, sentindo-a indefesa, aninhada nele, sentindo-lhe o calor. Sasha despiu-a lentamente, Lera tremia, deixando-se levar por aquela sensação lânguida e terna, que a consumia. Sasha beijou-a mais profundamente e Lera pareceu esquecer-se de tempo, de local e de quem era, levada emoções que só eles compreendiam.

Quando acordou, já não estava nos braços dele, a manhã começava a despontar. Lera buscava-o, ansiosa. Sasha sentiu-lhe a respiração mais veloz e agitada. Dirigiu-lhe a voz, levantou suave e lânguida.

- Ainda não me fui embora. Mas, ouve-me, Lera, tenho que sair antes que me encontrem. Porque tenho coisas a fazer, e preciso da tua ajuda.

Saiu silencioso da camarata. Lera seguiu-o, pé ante pé, gritando entre sussurros que não a deixasse, uns calafrios percorrendo-a, enquanto a visão se nublava sem ver os passos a dar. Sasha abraçou a rapariga para a manter quente. O frio ainda se fazia sentir, intenso.

Levou a mão a um pequeno saco a tiracolo que continha todos os seus pertences de uma vida, retirando uma pequena agenda de capa mole e esverdeada que apertava na mão.

Lera seguia-o, com o olhar, vendo-a retirar uma pequena fotografia, onde ela aparecia pequena, ao colo do pai, rodeada pela mãe.

- Tinha isto já há algum tempo para te dar, foi a última coisa que tirei, antes dela desaparecer.

- O meu pai…com ela. Nem sabia que ainda havia disto. – Falou, passando as mãos pelo papel. – Eu vi a minha mãe, no dia em que tu… quando estávamos naquele armazém. Foi ela que me tirou de lá, antes de eu desmaiar. Vinha com um homem, alto…de barba…

Sasha fixou-a, esboçando um ar preocupado, engoliu em seco, como sorvesse algo que queria guardar em si, antes de falar:

- Deve ter sido quando estavas a recuperar. Tu és diferente das outras pessoas, o nosso organismo tem outras formas de recuperação. Há uma coisa que precisas de saber…o Ilya não é teu pai, nem ela é tua mãe…

O rosto de Lera toldou-se, empalidecendo. Levantou o olhar para Sasha, que lhe podia palpar a angústia, a dúvida.

- Foste mais um projecto do meu pai, tal como a Valentina, tal como eu. Tu também nasceste assim…és uma cópia dela.

Lera lembrar-se-ia daquele dia como o primeiro em que começara a morrer, sentindo-se perder em meandros que não entendia, resvalando por um precipício de um jogo que não dominava.

- Eles estão a usar-nos, sempre nos usaram. Descobri-o no dia em que segui a Valentina até vossa casa, no dia em que ela te entregou ao Ilya. Vi-o com os meus próprios olhos, acredita, senti exactamente o que tu estás a sentir, vivi toda a dor que um rapazinho de oito anos pode sentir, no seu entendimento do que é mágoa. Por isso é que quis deixar aquelas nódoas todas, vivendo verdadeiramente, longe dos que nos queriam controlar. Por isso me sujeitei a todas as humilhações que vivi, a toda a miséria onde estamos mergulhados. – Sasha agarrava docemente com as duas mãos o rosto miúdo da jovem mulher, depositando-lhe levemente, um beijo nos lábios.

Os olhos de Lera encheram-se de lágrimas pesadas, que lhe toldavam a visão, tornando-lhe o rosto seco e pastoso.

- És a única pessoa em quem posso confiar Sasha, o único incapaz de me ocultar ou mentir. O meu mundo faz cada vez menos sentido sem ti. Se tenho que começar a ver além de mim, é isso que farei. Diz-me o que fazer.

- O Viko. Foi preso naquele dia, mas conseguiu escapar. Quero que o atraias até à Base. Usa a Jiya, faz com que ele a vá buscar.

– Por isso, meu amor, confia. Um dia tudo isto acaba…ouve o que te digo! Eles querem matar-nos a todos. Aos “projectos” que eles próprios conceberam! Há coisas que estão para lá de ti, porque ainda não as entendes e porque não tens o espírito, mas ajuda-me Agora escolhe, Lera, a nossa vida ou a deles?

Se preferirem, leiam em http://www.tvuniverso.com/Saga/para-la-de-ti-o-10o-episodio-de-saga.html

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ERRATA: Erradamente, a semana passada publiquei o 11º episódio em vez do 10º. Desde já peço desculpas pelos transtornos adjacentes. Esta semana publico oo verdadeiro 10º, seguido novamente do da semana passada, o 11º, para manter a ordem. Obrigada pela compreensão e votos de boas leituras.

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Edifício da Prisão

Fevereiro de 2021

O enorme edifício da prisão, coberto de vidro com estrutura de aço, afigurava-se longínquo, no fundo da rua. Maria Lúcia Garza Johnson entrava na prisão, os passos ecoavam pelos corredores de mármore branco. Escoltada pela sua guarda privada, a Chanceler caminhou ligeira até à pequena cela que se afigurava no fundo do corredor. Jiya semicerrou os olhos, desviando o rosto da luz que entrava na cela exígua. Estava amarrada, nua, aninhada sob uns bocados de cartão, numa cela onde mal conseguia estender o corpo, por onde entravam apenas uns escassos raios de sol abrasadores, provenientes do terreiro central.

A custo, Jiya abriu os olhos inchados. Lúcia inclinou um pouco o corpo, estendendo a mão para ajudar a mulher a levantar-se, o que esta recusou.

– Não sei o que te deu para pensar que eras capaz de me matar. A mim…- Aproximou-se mais dela enquanto todo o rosto se mostrava alterado e enlouquecido, distorcido com a dor. – Agredeço-te a ideia. Mas foi um erro, um enorme erro…porque nem eu sei como acabar comigo. Em vez, acabaste com o meu último sonho, o meu filho. O pior que podes fazer é devolver o sangue a quem já tem a vida manchada por ele…

O calor apertava e, os lábios estriados de Jiya queimavam-lhe, abrasadores. Os seus olhos pesados começavam a fechar. Sentia as dores tomarem-lhe todo o corpo e começava a mostrar dificuldades em respirar.

Assim como falou, Lúcia parou a conversa, virando costas à mulher que ficava amarrada na cela. A mão tremia e os movimentos ficavam cada vez mais lentos. A visão nublava-se, sentia-se cada vez mais zonza e fraca e apercebeu-se da gravidade do seu estado. De imediato, fruto de anos de experiência, levou a mão ao corpo, palpando os ferimentos, procurando uma posição para a dor abrandar. Lembrou-se do cheiro da sua terra. Das mulheres tribais que usavam altos colares no pescoço, dos frondosos embondeiros que estendiam os seus braços ao céu da tarde e as cascatas de água transparente onde o arco-íris vinha repousar.

Uma jovem mulher, de cabelos ruivos brilhantes e olhos castanhos aveludados, surgiu na cela, acompanhada por Enki.

- Olá. Bom dia. Gostava mais da tua alma. É muito mais bonita, a menina da boina. – Falou Jiya, tentando, com esforço, levantar a cabeça, mal contendo o seu peso. Jiya deitou-a sobre os joelhos. A figura alta e esguia interrompeu-lhe os pensamentos, trazendo-a de volta à terra.

- Está um belo dia, efectivamente. Eu pedi que confiassem em mim. – Falou Valentina Durnova, com um sorriso remoto da sua imagem fria e maquinal dos seus tempo de Observadora.

- Retirem-na da cela e tratem-na, está muito desidratada. – Ordenou, perante o olhar atónito dos guardas, baixando-se ao nível da mulher, que lhe sorriu débilmente.

*****

Lúcia entrou na sala acompanhada pela sua guarda pessoal, abrindo as cortinas de um branco singelo para deixar o sol entrar. A divisão foi tenuemente iluminada pelos raios de sol reflectidos na madeira do chão.

Esforçou-se por manter um sorriso. À sua frente Alexandre encarava-a, em pleno uso de todas as suas faculdades.

- Que recuperação espantosa, “excelência”…Estás melhor…minha querida? – Questionou-a, cinicamente.

Caminhava em pequenos passos até ela. As mãos cobriram-se de um suor frio e a garganta apertava-se num nó profundo e carregado. Estremeceu ao sentir as mãos dele tocarem frouxamente as suas.

- Tu não sabes mesmo morrer… – Declarou, abismada com a presença daquele homem na divisão.

Alexandre retribuiu a afirmação com um leve esgar sorridente, acenando afirmativamente.

- Não fui feito para isso… Nem tu…- Acrescentou, vendo Lúcia levantar-se em sobressalto.

- Não quero mais nada de ti, seu monstro. Só que me digas…Quem sou eu?

- O teu pai e o Durnov eram uns visionários que perceberam o futuro. Leram o que ia suceder. A invasão, a ocupação, foi tudo previsto por eles, muitos anos antes. Eu era pupilo deles, e revoltei-me contra o plano de colonizar a terra. O Durnov foi o único que se manteve mais reservado. Percebemos os riscos que o Spencer estava a correr. Ultrapassou todos os limites. Juntos, achámos por bem acabar com os seres que ele tinha criado, como vocês, antes que o teu pai continuasse os seus intentos sem objecções.

Mas havia algo que eu não estava a prever: tu. O plano era matar-vos a todos. Mas apaixonei-me. E não fui capaz de te matar.

O Durnov achou por bem ficar com as duas amostras do Spencer. Eu pedi para ficar contigo. A Valentina ficou com ele pouco depois. Mas isso tu já sabes…

Enki entrou, cabisbaixo e sombrio, a barba rara a despontar levemente na face, o cabelo castanho claro e brilhante, agarrado por dois guardas.

- Ainda bem que estamos cá todos. Posso, por fim, cumprir o meu plano. – Falou Alexandre, vendo o rosto de Lúcia empalidecer.

- Dá-me o cargo de Chanceler! – Anunciou Alexandre. - Eu bem te disse que ias precisar sempre de mim, para te resolver os conflitos…e que ias ser a minha redenção…- ironizou, rindo alarvemente. – Cá estou eu, minha querida, para te libertar desta tua dor…

Lúcia olhava-o, abismada, incapaz de emitir um som. Pegou na folha branca que continha apenas algumas palavras. Poisou o papel na secretária de pinho.

- Toma. Está assinada. Já ia abdicar de qualquer forma.

- Muito bem. Está feito. – Pronunciou Alexandre, retirando do bolso uma seringa com uma substância alaranjada. Alexandre injectou em segundos a matéria da seringa.

Enki agitou-se, contorcendo-se em dores e do seu corpo começou a sair um líquido transparente, com a consistência de sangue. Lúcia correu para ele, caindo de joelhos no chão, sentindo de novo a vida ser-lhe tomada pela morte. Enki sorria, mesmo assim, vendo as lágrimas voltarem aos olhos da mulher que sempre amara e continuaria a amar, mesmo sem querer. Se pudesse, dir-lhe-ia o quanto lhe estava grato por ter aprendido a chorar. Por ter sentido no rosto o calor das lágrimas e por pode agora sentir o sabor das dela. Se pudesse, dir-lhe-ia o quanto aprendera com ela, a riqueza do ser humano e o seu valor, na sua multiplicidade de portes e emoções. Contudo, a voz traia-o, mais uma vez, saindo já ténue e fraca, muito diferente das suas pretensões.

- … Somos feitos da mesma raiz. Voltamo-nos a encontrar… “Da existência somos fonte e fim…”

Alexandre riu de novo, sentando-se na cadeira do topo da mesa oval.

- Que espectáculo maravilhoso: carga dramática intensa.

Lúcia manteve-se prostrada no chão, perto do corpo de Enki. Dois guardas aproximaram-se dela para a levantar.

- Vamos lá Lúcia, ele não significava assim tanto para ti! E estes são os meus guardas agora, já não acatam as tuas ordens.

- O que fazemos com ela, excelência? – Perguntou um homem de porte atlético e olhar glacial.

- …Levem-na para o exílio.

Sasha Durnov pegou na mulher cujos cabelos ruivos lhe lembravam a estimada Valentina, e caminhou, certeiro, o seu rumo. Instintivamente, Lúcia voltou o rosto para o interior da sala.

- …não tinha mais nada a perder! Ao saíres, fecha a porta.

Saiu. Para trás, ficava a chanceler, cujos passos gravara no caminho, impressos na história. Um inicio de uma nova história, uma outra história, para ela histórias demais a conceber. A alma definhava-lhe de novo, corroendo-a.

A mulher, bela e misteriosa, entrou na sala. A voz saiu-lhe forte, voltando a adquirir o seu tom grave e formal, lembrando a mesma figura de há muitos anos atrás.

- Um dia, ainda me vais explicar como é que a Alquimia vos faz separar o corpo da alma. Magnifica invenção, a vossa. – Cumprimentou Alexandre.

Valentina fitou Alexandre num perfeito nojo, deixando cair a máscara.

- Não sei se me custa mais trair o Enki e a minha irmã ou ver-te com esse olhar de vitória, Albuquerque.

Valentina mantinha a mesma postura grave que a caracterizava. Alexandre olhava-a, enlevado, de sorriso pleno e realizado de quem cumpre um sonho.

- E tu não fazes a menor falta viva…ou morta. – Anúnciou, jucoso, vendo-lhe a mesma expressão, pesada e séria, no rosto. – Já não tens muito mais com que te inquietares. Isto está quase a acabar, não é? – Alexandre respirava fundo, sentindo-se momentaneamente poderoso, realizado. – Foi a mesma coisa que eu disse à Valéría, antes de a matar. “não te preocupes, está quase a acabar…”. Já te disse que de todos a tua mãe foi a mais difícil de matar? Bem, voltando ao nosso assunto, estamos mesmo no fim. A tua capacidade de renúncia é a única que te admiro. Faltam quatro, para o fim. Vocês as três e o filho do Durnov, certo?

Valentina respirou fundo, resistindo à tentação de responder à provocação prévia de Alexandre.

- …não Albuquerque. Se fizermos bem as contas…somos cinco. Nós os quatro…e o seu filho.

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Burgo da Base de Abzu

Março de 2025

- Rápido, Valéria. Mais depressa. Despacha-te!

A porta de café que se abria num jacto. Uma vitrina de bolos no balcão. Os seus olhos de criança que viam a pessoa mais amada virar-lhe costas e afastar-se. Uns gritos aflitos reverberados até à exaustão no vazio de um cais. Abandonada. Só

Uma estação de comboios deserta e a ânsia de uma criança tendo como companhia um corpo inanimado. O frio do chão

Daniel, o rosto encovado e flácido, os olhos dois buracos negros que a chamavam, impiedosos…

Sangue. Estava coberta de sangue. Curiosamente, não tinha dores. De uma só investida levantou-se do chão, atirou a arma que lhe ardia na mão e correu para a porta. As mãos mostravam-se pegajosas e frias. O corpo tinha um cheiro adocicado e intenso a sangue. A sala era pequena e mesmo assim, parecia um longo caminho até à porta. Aquela era a sua maior prova e percebia agora como era possível lutar-se para viver.

Saltava os corpos caídos pelo chão, tentando alcançar a saída, como uma prova de obstáculos e as lágrimas galgavam-lhe ao rosto, misturando-se com os resquícios de pólvora, sangue e suor, cheias de raiva, cheias de dor. Sozinha, mais uma vez.

Por entre as ruínas, anúncio de destruição que abalava tanto a divisão, como a sua alma, começava a revelar-se a essência do seu ser. Sobreviver, porque o seu nome era de força e de guerra, acima de tudo. Por ela, só por ela. Sempre só ela. Só…

Não queria. Mas o físico lutava por viver e trepava corpos e janelas em busca da vida que lhe fugia borda fora. Na obscuridade do silêncio que se abatia, o sorriso…o olhar glacial que a demolia…e quis morrer.

*****

- Lera, Lera. Tiveste um pesadelo…

A voz suave de barítono, que tão bem conhecia, acordou a rapariga, que abriu os olhos castanhos aveludados, num susto, deparando-se com o azul dos de Sasha que a fixavam, sem expressão. Ele estava de volta, ali, quatro anos depois do funesto dia em que desaparecera, para lá da névoa, para lá dos tiros, deixando-a presa a si. Estava de novo na sua presença, de novo com aquele sorriso que guardava só para ela.

– Olá… – Cumprimentou, enquanto lhe retirava carinhosamente uma mexa de cabelos colados à testa, limpando-lhe o suor que lhe escorria do rosto.

Lera sorriu, como se o esperasse há muito. Só ele tinha aquela capacidade de a entender e acalmar. Admirava-lhe a serenidade e a postura recta e harmoniosa, umas vezes reprimido, outras vezes inflexível, detentor de uma paciência e segurança interior inabaláveis. Abraçou-o, tomando-lhe o pescoço, sentindo-se perder no seu embalo. Parecia serenar, bebendo da sua calma. Lera levantou a cabeça, fitando aquele rosto de pele clara e seca. Estava tão mudado. Sumido e vincado já de rugas que lhe contavam a história de vida.

Não sabia dizer se era belo, mas emanava um mistério e brilho intensos, difíceis de descrever. Talvez fosse essa a razão do fascínio que Sasha exercia sobre ela. Sempre permanecera ao seu lado, de braço estendido. Desde o dia em que chegara ao abrigo, zelara pelo seu conforto e bem-estar.

As lágrimas pularam-lhe dos olhos, molhando-lhe o rosto e Sasha puxou-a gentilmente para o seu colo, abraçando-a. Deitou-lhe a cabeça no seu peito, tentando acalma-la.

Os olhos enchiam-se de lágrimas e Sasha reparou como crescera. Tinha deixado crescer os cabelos ruivos, mais lisos e macios, que lhe tocavam agora os ombros.

- Esperei tanto. Todos os dias ia até ao portão da Base e esperava que voltasses. Por mais que me dissessem que estavas morto, sempre soube que não! Mas nunca te via chegar. Então, achei que tinha que começar a entender melhor a morte… Delicadamente, Sasha levantou-lhe o rosto com a mão, de forma a poder ver-lhe os olhos cor de terra iguais aos da mãe, nela infinitamente mais doces, cheios de fé, ainda mal contaminados pela vida.

- Magoei-te tanto, não foi? Acredita que me custou mais a mim, saber se vivias ou não…

Os olhos de Lera agora mareados, deitavam para o exterior toda a água que contera com a sua ausência.

- Nunca mais me deixes. Nunca mais …As coisas por aqui são tão difíceis sem ti…é horrível Sasha, horrível! …e o Viko continua sem aceitar aquele maldito acordo. - Rogava ela, enquanto o apertava mais. - Amo-te tanto, Sasha… eu, que nem sei o que é o amor…és o único que ainda me prende ao mundo.

- Amas-me? – Questionou, perante o olhar petrificado da rapariga.

Sem esperar pela resposta, beijou-a levemente, sentindo o gosto da saliva dos seus lábios misturar-se à dele.

Lera afastou-se, sem conseguir falar, sentia um calor invadir-lhe todo o corpo, pontuados por uns calafrios intermitentes.

- Por onde andaste, todo este tempo?

- Eu tive que ir embora…que sair daqui. - Falou Sasha, num tom que Lera não soube definir se era de dor ou de anseio.

Lera virou-lhe o rosto. Sasha podia sentir o desapontamento, o gelo que se apoderava dela e lhe estilhaçava o coração, no silêncio arrogante que ela usava como refúgio. Voltou a juntar-se a ela, pegando-lhe na mão delicada. A rapariga voltou a lançar-lhe um olhar aflito, cheio de insegurança e de receio, abraçando-o com força.

- … Não te posso perder. Já perdi a minha mãe e o Daniel. Se não te tenho, também não existo…

- Nunca me vais perder… - Sasha poisou-lhe um beijo na testa, acariciando-lhe os cabelos vermelhos, enquanto descia, novamente de encontro a sua boca. Sasha puxou-a mais para si, sentindo-a indefesa, aninhada nele, sentindo-lhe o calor. Sasha despiu-a lentamente, Lera tremia, deixando-se levar por aquela sensação lânguida e terna, que a consumia. Sasha beijou-a mais profundamente e Lera pareceu esquecer-se de tempo, de local e de quem era, levada emoções que só eles compreendiam.

Quando acordou, já não estava nos braços dele, a manhã começava a despontar. Lera buscava-o, ansiosa. Sasha sentiu-lhe a respiração mais veloz e agitada. Dirigiu-lhe a voz, levantou suave e lânguida.

- Ainda não me fui embora. Mas, ouve-me, Lera, tenho que sair antes que me encontrem. Porque tenho coisas a fazer, e preciso da tua ajuda.

Saiu silencioso da camarata. Lera seguiu-o, pé ante pé, gritando entre sussurros que não a deixasse, uns calafrios percorrendo-a, enquanto a visão se nublava sem ver os passos a dar. Sasha abraçou a rapariga para a manter quente. O frio ainda se fazia sentir, intenso.

Levou a mão a um pequeno saco a tiracolo que continha todos os seus pertences de uma vida, retirando uma pequena agenda de capa mole e esverdeada que apertava na mão.

Lera seguia-o, com o olhar, vendo-a retirar uma pequena fotografia, onde ela aparecia pequena, ao colo do pai, rodeada pela mãe.

- Tinha isto já há algum tempo para te dar, foi a última coisa que tirei, antes dela desaparecer.

- O meu pai…com ela. Nem sabia que ainda havia disto. – Falou, passando as mãos pelo papel. – Eu vi a minha mãe, no dia em que tu… quando estávamos naquele armazém. Foi ela que me tirou de lá, antes de eu desmaiar. Vinha com um homem, alto…de barba…

Sasha fixou-a, esboçando um ar preocupado, engoliu em seco, como sorvesse algo que queria guardar em si, antes de falar:

- Deve ter sido quando estavas a recuperar. Tu és diferente das outras pessoas, o nosso organismo tem outras formas de recuperação. Há uma coisa que precisas de saber…o Ilya não é teu pai, nem ela é tua mãe…

O rosto de Lera toldou-se, empalidecendo. Levantou o olhar para Sasha, que lhe podia palpar a angústia, a dúvida.

- Foste mais um projecto do meu pai, tal como a Valentina, tal como eu. Tu também nasceste assim…és uma cópia dela.

Lera lembrar-se-ia daquele dia como o primeiro em que começara a morrer, sentindo-se perder em meandros que não entendia, resvalando por um precipício de um jogo que não dominava.

- Eles estão a usar-nos, sempre nos usaram. Descobri-o no dia em que segui a Valentina até vossa casa, no dia em que ela te entregou ao Ilya. Vi-o com os meus próprios olhos, acredita, senti exactamente o que tu estás a sentir, vivi toda a dor que um rapazinho de oito anos pode sentir, no seu entendimento do que é mágoa. Por isso é que quis deixar aquelas nódoas todas, vivendo verdadeiramente, longe dos que nos queriam controlar. Por isso me sujeitei a todas as humilhações que vivi, a toda a miséria onde estamos mergulhados. – Sasha agarrava docemente com as duas mãos o rosto miúdo da jovem mulher, depositando-lhe levemente, um beijo nos lábios.

Os olhos de Lera encheram-se de lágrimas pesadas, que lhe toldavam a visão, tornando-lhe o rosto seco e pastoso.

- És a única pessoa em quem posso confiar Sasha, o único incapaz de me ocultar ou mentir. O meu mundo faz cada vez menos sentido sem ti. Se tenho que começar a ver além de mim, é isso que farei. Diz-me o que fazer.

- O Viko. Foi preso naquele dia, mas conseguiu escapar. Quero que o atraias até à Base. Usa a Jiya, faz com que ele a vá buscar.

– Por isso, meu amor, confia. Um dia tudo isto acaba…ouve o que te digo! Eles querem matar-nos a todos. Aos “projectos” que eles próprios conceberam! Há coisas que estão para lá de ti, porque ainda não as entendes e porque não tens o espírito, mas ajuda-me Agora escolhe, Lera, a nossa vida ou a deles?

Se preferirem, leiam o episódio em http://www.tvuniverso.com/Saga/11o-episodio.html

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2029

Passou o tempo. Miguel admirou-se quando verificou o quanto se superava diariamente. Aquelas ordens de que tivera tanto medo inicialmente tinham-se transformado em rotina e nada mais do que isso. Passava os tempos livres a olhar a altura excessiva dos muros e nem sequer queria saber se existia algo mais para lá deles.

Olhava-se ao espelho, vendo um outro alguém que não reconhecia. À sua frente estava um homem já com alguns pêlos no peito e axilas, alto, barba clara e rara, despontando desordenadamente. As mãos estavam agora grandes e delineadas, perdendo os refegos de criança. Que faço comigo? – Questionava-se, esquecendo-se do que fazia ali.

Desejou que não houvesse espelhos, para ser capaz de se reconhecer, a si, e aos outros, na autêntica identificação do ser.

Espreitou-se de novo, cauteloso, vendo de novo a imagem que lhe acenava do outro lado do espelho. Ele. Aquele que teria que transportar sempre consigo, sem saber se era capaz de o amar e compreender.

Ansioso, saiu dos lavabos do Colégio, dirigindo-se ao corredor onde uma fila de formatura de pequenos rapazes de cerca de oito anos o esperava, inquieta.

Era agora chefe de camarata, responsável por organizar e receber os novos alunos, zelando pela Ordem e Disciplina do local.

Fez a chamada pelos números e viu o rosto dos meninos baixar até ao peito, para se certificar do seu. Lembrou-se do seu primeiro dia e um sentimento estranho invadiu-o, repentinamente.

Seria o seu último mês naquele local. Sairia em breves semanas e o mundo inteiro estaria aberto para o conhecer. Um misto de medo e impaciência assomou-lhe e sentiu o estômago revolver-se violentamente, enquanto caminhava pelos sombrios corredores do Colégio com os meninos seleccionados para o teste. Parou, batendo solenemente à porta, que se abriu imediatamente. Os pequenos olhavam-no com um ar triste e circunspecto.

Na secretária o homem careca deu as suas indicações aos meninos e Miguel preparava-se para escoltá-los quando a voz soou, uma vez mais.

- Espera um minuto, 22, preciso de falar contigo.

Miguel mandou os pequenos saírem e fechou a porta. Cogitava as razões da chamada, esperando que não fosse para adiar a sua saída no local.

- Estás prestes a sair, meu jovem. Mas quero que saibas que ainda temos algo a tratar. – Referiu, analisando o olhar parado de Miguel, que não deixava descortinar nenhum tipo de emoção. – O teu último teste. Se o passares, deixamos-te sair mais cedo…

Miguel mantinha-se estático, bloqueando o sentimento de alegria e estranheza que o invadiu. Mascarou um sorriso, preparando-se para continuar a prestar atenção.

- Depois da entrega dos rapazes ao monitor, dirige-te ao átrio de entrada. Esperam-te lá.

Miguel saiu, mal contendo a euforia e encaminhou os rapazes até ao monitor. O entusiasmo cessou por momentos quando os viu entrar no barco e pensou no número de vidas preciosas que ia perder e como aquele barco regressaria praticamente vazio.

A mesma sensação revolta no estômago voltou a invadi-lo. Caminhou de novo pelos corredores, desta vez em direcção oposta, dirigindo-se ao pequeno átrio. Lá, um rapaz de estatura pequena e encorpada, de cabeça redonda e grande e olhos acastanhados esperava-o. Era um dos seus colegas, que decerto tinha sido chamado ao local, tal como ele.

De todos os seus colegas iniciais, Miguel sabia apenas restarem um número reduzido de sobreviventes às provas.

Miguel analisou o rapaz de número 17 bordado no bolso da farda. Sabia estar prestes a iniciar mais uma das provas de sobrevivência a que o Colégio instigava. Mais rapazes se juntaram ao grupo. Miguel não distinguiu os rostos, agora tão modificados.

O mesmo homem careca que costumava estar no escritório a receber os novos alunos apareceu, com umas folhas na mão.

- Aqui é tudo muito tradicional. Nada de chips e figuras ou luzes…quero que se orientem com o papel. – Falou, passando-lhes as folhas que continham algumas indicações. – Quis ser eu a encarregar-me pessoalmente de vos trazer estas provas. Daqui saem os superiores, os que realmente foram feitos para servir a Aliança e o Império.

Miguel relia as folhas pela terceira vez, tentando antever o que o esperava. Permaneceu assim alguns segundos, só a olhar, esboçou um gesto indefinido de tristeza. Uma atitude preocupada. Muito apreensiva.

O homem saiu, deixando Miguel entregue aos seus pensamentos. Desta vez não faltava comida. – Pensou para si, enquanto descarregava os enormes contentores de comida para sacos de transporte. - Não há barcos, nem rios, nem mato… - Continuava, enquanto via os outros colegas pegarem nos seus haveres e sair, seguindo o mapa.

Miguel também caminhou ligeiro pelos caminhos que o mapa indicava, por entre mato e arvoredo, até que se viu diante de um imenso burgo onde crianças e mulheres se empilhavam em estado de subnutrição e maus tratos, levantando os olhos com dificuldade para o ver passar. O rapaz tentou abstrair-se da situação, relendo novamente o mapa para ver se não tinha errado nas indicações. Um colega apareceu, vendo Miguel parado no local.

- Despacha-te. – Não viste que temos tempo a cumprir? – Questionou, enquanto continuava o seu caminho.

Uma violenta explosão toldou-lhes a visão e Miguel pôde apenas distinguir por entre as poeiras que se levantavam o corpo do companheiro que caía. Atirou-se instintivamente para o chão, rastejando até alcançá-lo. Felizmente, estava só ligeiramente ferido e levantava-se devagar, vendo o alastrar do fogo. Miguel levantou-se limpando-se da poeira que se lhe colava na roupa e viu o rapaz a acenar. Os olhos dele vagueavam entre o fogo, as crianças que corriam descontroladas e o companheiro que lhe fazia sinal para que continuasse caminho. Os ecos estridentes do choro de bebés e crianças e os gritos aflitos das mulheres toldavam-lhe o raciocínio e impediam-no de avançar. Quando olhou mais uma vez, o outro rapaz já não se encontrava no local. Os gritos aumentavam bem como os gemidos de dor. Sentiu uma melancolia revolver-se numa multiplicidade de pensamentos fugazes. Não foi capaz de abandonar o local e deixar aquelas vidas naquela desolação. Eram vidas preciosas que lhe escapavam diante dos seus olhos, num sofrimento pasmoso, difícil de conceber.

Miguel esqueceu o mapa aproximando-se das crianças que se encontravam no local, levando-as até um telhado alto onde as chamas demorariam a chegar. Pulava com a máxima destreza que possuía, retirando dos escombros e das chamas o máximo número de pessoas que conseguiu. Num dos barracos, encontrava-se uma mãe com um bebé recém-nascido que apertava contra o colo. Miguel cobriu o corpo com uns cartões e entrou no local, apercebendo-se de que a mulher estava presa a uma coluna. Puxou com toda a força que possuía, mas continuava imóvel. Deitou de relance um olhar ao telhado vendo as crianças tremer assustadas.

Os seus companheiros passavam por ele disparados sem sequer o notar. Só então Miguel voltou a si e apercebeu-se de que não estava a seguir o convencionado. Aquele não era o local onde devia estar.

Fez um silêncio significativo, escutando a sua respiração, misturada na sua voz interior difusa nos murmúrios díspares que ia juntando aqui e ali.

Levantou-se de rompante do barraco destruído onde a mulher ainda gemia, juntamente com o filho. Encaminhou-se ao telhado e puxou a escada, vendo os berros das crianças aumentarem. Caminhou para longe do local, deixando para longe trevas e chamas, contendo o grito que devia dar. Queria voltar para trás, ir ter com aquelas pessoas e explicar-lhes o que sentia. Que por mais brutal que pudesse ser e parecer, algumas vidas sempre valiam mais do que nenhuma. À medida que se afastava do local e o silêncio aumentava, crescia também a ausência em si.

O vazio foi cortado pelo som das hélices de um helicóptero que se aproximava de forma inesperada do rapaz.

- Não era este o ponto combinado. Não sabes ler o mapa? – Questionou-o o homem, vendo o rosto pálido de Miguel

- Sei, mas deparei-me com território hostil e tive que voltar para trás.

- Quem te disse que não podias continuar? Não tinhas indicações algumas que te fizessem supor isso…

- Era território acidentado e o outro era distante. Tive que escolher a melhor maneira de lutar pela vida.

- E as crianças? – Questionou, sem deixar de fixar Miguel, analisando todos os seus gestos.

- Não pretendo justificar-me. Apenas digo que lhes dei uma oportunidade de sobreviverem. Pelo menos, as mais fortes.

O homem careca parecia desarmar, finalmente rendido aos argumentos do rapaz.

Naquela noite Miguel teve a sua primeira insónia e, a partir de então, tornaram-se uma constante, feitas de momentos de lucidez e sobriedade, marcadas pontualmente por preocupação e angústia. Lembrava-se das crianças, que ainda descansam e dormem. A ele, apenas o tempo o preocupava e a noite embalava-o, dolente. Exacta, certa. Tão preciosa quanto precisa.

No dia seguinte saía pelo portão do lugar que o albergara durante 10 anos. O coração apertou-se quando viu os imponentes portões de setas arrogantes fecharem, estacionou por uns momentos no mesmo local onde anos antes o deixaram, subconscientemente à espera que o fossem buscar. Ali, no mutismo sombrio que se erguia nas horas de espera, via-se. Com a seriedade e verdade do que era. Morava em si algo que se comovia com o simples viver. Que se sensibilizava com aquele céu muito azul, como o tom dos seus olhos.

Pertencia-se por inteiro, numa existência intransmissível. Podiam mandar nele e dar-lhe todas as ordens do mundo, mas nunca o controlariam.

Se preferirem, leiam o episódio em http://www.tvuniverso.com/Saga/12o-episodio.html

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Base de Edín

2029

Olhou o relógio que marcava o tempo. Era invulgarmente cedo. Levantou-se. Lavou o rosto. Nem sabia porque necessitava dormir. Convencionara-se. E obedecia, sem concordar. Pequenos sons de nada escutavam-se. Adorava o silêncio dos momentos em que fazia por pensar. Vivia constantemente inquieto. Perturbadoramente exigente. Lógico, ilógico? Não sabia. Abriu a porta do quarto, preparando-se para descer e tomar o pequeno-almoço, levando todo o tempo, o tempo que lhe restava no mundo.

Olhou ao seu redor, a casa que adoptara, como Chanceler, parecia-lhe vazia e oca. Na sala a mesa estava posta, ricamente guarnecida e Alexandre sentou-se, sozinho, saboreando daqueles instantes de prazer.

- Bom-dia, senhor. Recebi notícias de que há visitas para si. Parece que o rapaz anda a cirandar pela Base…

Os olhos de Alexandre encheram-se de cor e de brilho, tornando-se intensamente mais negros e densos. Sentia-se criança novamente e ao seu corpo cansado, voltavam esperançosamente as forças, como um bálsamo.

Levantou-se num ímpeto e correu para a porta, retirando do velho bengaleiro o seu casaco e o chapéu de coco, seguido da bengala que abanava, para a frente e para trás.

O carro esperava-o. O mesmo que sempre desejara ocupar e que tão más lembranças lhe trazia. Rolaram pelas estradas da nova Base, até atingirem o exterior, onde um rapaz esperava nas cancelas.

O carro parou, mesmo ao lado da figura alta e clara do jovem e Alexandre abriu a janela de vidros fumados para o ver melhor. Fitou-lhe o rosto, tão igual ao seu, ornado por dois olhos grandes e redondos, como os seus, de um intenso azul celeste. Fitou-lhe as mãos grandes, de dedos finos e elegantes, reconhecendo-os como seus. Viu as vestes do Colégio, e o número 22 bordado no peito, as quinas de chefe de camarata, e pela primeira vez em muitos anos, voltou a desejar chorar. Se o soubesse, se aos olhos ainda assomassem essas pequenas partículas de limpeza de alma, nele inexistente.

A voz saiu-lhe rouca e trémula, numa imensa comoção.

- Olá, meu rapaz. Eu sou o teu pai. Entra! – Escutou o homem dizer, fazendo-o impelir-se para o carro.

Miguel olhou-o e uma estranha sensação de vazio voltou a invadir-lhe o ser. Lembrava-se daquela figura demente, de há muitos anos antes, que bradava e gesticulava ininteligivelmente.

Enterrou-se em si, pensando como aquele homem diante dos seus olhos era dispensável e infinitamente nulo para a sua existência. O silêncio sepulcral da viagem em que o transportavam fazia-o ouvir a sua própria pulsação. Queria poder responder também: “eu sou o teu filho”, mas o vazio existencial que havia nele, na soma de tudo aquilo que era, não deixava a frase sair. Quase como se a sua boca não consentisse abrir-se para dizer a burla que, naqueles instantes preciosos de partilha, Miguel pensara dizer. Endireitava-se no assento do carro, recordando a última vez que andara num, muitos anos antes, exactamente no percurso inverso. Regressava ao local que agora teria que chamar de casa, se é que a alguma pertencera ou tivera.

Alexandre falava, como sempre ousara falar, autoritário e formal.

- Diz-me, meu rapaz, deves ter muito que contar, como são as coisas no Colégio? Deves ter sido um aluno brilhante, posso ver pelo teu porte…

Miguel levantou o olhar a Alexandre, que reconheceu aquela expressão incrédula, a mesma que Clarisse lhe fazia, a última que fizera, antes de morrer. As regras, as exigências, o silêncio, a espera, o amor familiar inexistente, o choro compulsivo, a falta de compreensão, a falta de diálogo, a solidão. Tudo assomava à memória do jovem como um clarão vivo e preciso, ardendo-lhe no peito.

- Aquilo não é um Colégio, é um matadouro. – Falou, vendo o olhar de Alexandre revirar.

- Meu jovem, tens muito que aprender com o teu velho pai. Um dia vais ser dono de tudo isto. – Respondeu, Alexandre um tanto desapontado.

O carro rolava de novo para os Paços do Chanceler, demorando-se nas cancelas, para entrar. Ao vislumbrar ao longe a cidade da Base, o rapaz não evitou lembrar-se dos tempos em que corria pelos escombros da Antiga Sauzesco, revendo o seu passado em cada rua que o carro percorria.

As cancelas não abriam, obrigando o carro a parar. Alexandre saiu alegremente, vendo o rosto de Sasha que se aproximava, pesado, lentamente.

- O que se passa? Abram-me lá isso! Tenho aqui o meu filho, vamos celebrar!

Sasha arregalou mais os olhos gélidos, abrindo-lhe a porta do carro.

- Não me parece, Alexandre. Está na hora de sair. – Anunciou perante o olhar incrédulo do homem.

- O que se passa, o que é que tu queres?

- Isto é um Golpe contra a Aliança e vamos depor o Chanceler…siga-me, sem gesticular.

Sasha aproximou-se mais, mantendo a calma, com um sorriso falso no rosto, apertou-lhe o braço com força levando Alexandre a gemer de dor.

- …é bom que não me espicace muito, Alexandre, sou um tanto ou quanto…temperamental. – Acrescentou, enquanto lhe voltava a apertar o braço no mesmo local, agora dorido.

Alexandre contorceu-se, queixando-se, uma vez mais.

- Porque se tentar passar-me a perna, é assim que se vai ver: como um cão, a ganir de dor.

Alexandre encaminhou-se com Sasha até ao interior da habitação.

- O que se passa, o que é que tu queres? – Questionou novamente, incrédulo.

- É a terceira vez que me faz essa pergunta, Alexandre. Acho que já lhe respondi. Vamos destitui-lo. Não se pode admirar. Afinal, foi assim que sobreviveu ao longo de toda a sua vida.

Alexandre deu uma risada seca, olhando o jovem homem que se encontrava à sua frente, mal contendo o ar zombeteiro quando fitou os guardas que o vigiavam.

- Ainda bem que se ri, facilita-nos em muito a nossa tarefa. – Falou Sasha, dando ordens aos colegas que amarrassem Miguel, que não se debatia. Os olhos do filho, em vez de perderem cor, mantinham a faísca de força, permanecendo calmos e alerta. Miguel procurava em dúvida, uma razão para aquele acontecimento. Violência, sangue. Percebera enfim, haver outro tipo de força que doía e magoava ainda mais do que as infligidas no Colégio, ou nas horas de abandono. Aquilo que homem faz contra homem, tanto no trabalho de uma vida, como num momento de uma vingança fugaz.

Alexandre levou as mãos ao cabelo num gesto nervoso, dele tão característico.

- Não, meu rapaz, és tu quem vai rematar a minha.

Sasha olhou-o, admirado. - Chegou a tua hora, Alexandre. Depois de tudo o que fizeste, vais ter o que mereces. – Anunciou, disparando todo um cartucho em Alexandre, que caiu redondo no chão. Sasha ria, um riso tão frio quanto o de Alexandre, que ainda ria também, imóvel no chão, num claro gesto provocatório e desconcertante, como fora toda a sua vida. Da boca escorria-lhe um rio de sangue, que lhe tingiu o rosto, manchado com a sua assinatura de vida, que agora lhe fugia do interior, escapando-lhe, enfim, saindo da prisão eterna em que sempre o encarcerara com toda a sua sede, com toda a sua ânsia incontrolada de o beber. Deixava-lhe o corpo, sondado de morte pela mesma seiva infame que ousara ceifar e o cobria agora, certeiro, calculista, eficaz. Com a mesma violência assertiva, a vida deixava-o, ali, repousando no mesmo chão cujos passos árduos e duros sempre cunhou.

Se preferirem, leiam o episódio em http://www.tvuniverso.com/Saga/13o-episodio.html

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- Rápido, Valéria. Mais depressa. Despacha-te!

A vitrina de bolos no balcão. Abandonada. Só. A estação de comboios deserta e o frio do chão

Sangue. O corpo tinha um cheiro intenso a sangue. Saltava os corpos caídos pelo chão. Lágrimas galgavam-lhe ao rosto, misturando-se com os resquícios de pólvora, sangue e suor, cheias de raiva, cheias de dor. Sozinha, mais uma vez. Sempre só ela. Só…

…o olhar glacial…e...a morte

A rapariga pulava as cercas dos telhados, atingindo o ponto combinado. Do peito pendia-lhe um quartzo róseo, em forma de gota, translúcido, quase como uma lágrima. Viko esperava-a, juntamente com outros membros do Concelho. Lera sentou-se no beiral, ouvindo a voz de Viko que animava as hostes.

- Vamos entrar por aqui. Tomamos o controlo mal ponhamos pé em solo firme. A Lera vai para a sala onde eles estão e nós seguimos para encontrar a Jiya. – Dizia, enquanto pegava nuns garrafões que continham uma mistura explosiva. Todos os presentes pegavam nos seus garrafões e Lera viu o pai sair em primeiro lugar. Queria ir ter com ele, dar-lhe o beijo que tantas vezes reprimira em si, nos recônditos do seu âmago. Queria ir dizer-lhe o quanto temia morrer, porque toda a sua vida, vivera às escuras, sem medo da noite. Temia só aquela, em particular. Aquela que sabia não ser capaz de resistir. Calou a voz que falava dentro dela e seguiu, pelo telhado abaixo, até encontrar Sasha.

Viko chegava com Jiya nos braços, juntamente com os outros alquimistas.

- Está feito! – Falou, aproximando-se de Sasha, que despia a farda de Guarda, vendo o corpo de Alexandre estendido no chão.

- Não, não está! – Anunciou Sasha, atirando uma arma a Lera, que tremeu, ao recebe-la. – Obrigado por os atraíres até aqui! – Falou, beijando-a levemente. - Mata-os. Boa sorte, meu amor. – Ordenou, perante o olhar atónito dos presentes.

- O que se passa aqui, Lera? Nós confiamos em ti…

- O que é que vos deu? Aqui ninguém derrama mais sangue, ouviste? Nós não precisamos de derramar mais sangue. – Viko tentava trazê-los de volta aos seus sentidos, sem grandes efeitos. - Baixa essa arma e resolve as coisas como um Homem. – Bradou.

– Eles não precisam de morrer…- Pedia Lera. – Já conseguimos o que queríamos, já destruíste o Governo da Aliança, vamos sair daqui.

- Ninguém sai daqui! – Gritou Sasha, apontando as armas, pronto a disparar.

Lera entrepunha-se, colocando-se à frente de Sasha, não o deixando disparar.

- Sai-me da frente, Lera, aviso-te! És muito importante. Mas não és tudo para mim! Sai da frente ou garanto que te mato!

Miguel tinha conseguido desamarrar-se, num ímpeto incontido que faria lembrar o do pai, saltou para cima de um dos guardas, desarmando-o. Também os restantes alquimistas se defrontavam com os Guardas. Batia-lhes com tanta força que os guardas caíram inconscientes e quando deu por isso, também Miguel tinha acabado por matar. A primeira vez que sorveu o gosto da morte e em que aprendeu que esta vinha sempre aos pares, de formas distintas e sempre incoerentes. Primeiro aquele que sabia ser seu pai caia desamparado no chão de uma sala fria. Um homem tão forte e violento, apanhado de surpresa e por um acaso, sem ter sequer oportunidade de se defender. Talvez tivesse baixado a guarda com a sua chegada. Isso nunca poderia saber.

Depois os Guardas, que ele matara com as suas próprias mãos, num impulso irracional e absoluto, próprio do querer viver.

Sasha mantinha a mesma postura impávida que o caracterizava, carregando a arma, agora sozinho, vendo os corpos dos guardas caídos, quando Viko se jogou a ele. O rapaz sorriu, disparando, vendo os olhos do líder dilatarem, embaciados.

Sasha seguia-a, com o olhar em cólera, regando o local com o conteúdo dos bidões, indiferenciadamente.

- É uma pena, podíamos ter sido felizes, lado-a-lado! – O olhar glacial de Sasha dilacerava-a, mais do que o medo de uma eventual morte.

A explosão soou, Lera sentiu a dor cravar-se aguda e funda do corpo, sentindo uma languidez imensa, enquanto o fulgor parecia abandona-la. Na semi-obscuridade da divisão, tacteou o corpo de Viko caído no chão, sem sentidos, vendo a mão vir-lhe cheia de sangue. Rastejou mais um pouco, ouvindo ao longe os gemidos de Jiya, aproximando-se dela. Jiya, a sua querida Jiya caída no chão, ferida com as marcas da tortura da prisão e com os golpes daquela armadilha que, inconscientemente, provocara. Mesmo sem saber, era ela a culpada pela destruição e morte do conselho, de quem lhe dera a mão e a criara. As lágrimas galgavam-lhe ao rosto, misturando-se com os resquícios de pólvora, sangue e suor, cheias de raiva, cheias de dor.

Usada, como um peão miserável que se arreiga naquelas malhas decessas. Aquela era apenas mais uma forma de morte, de solidão e de abandono a que fora sujeitada toda a vida, desde o cais de Vyborg, até àquela hora. Lera não chorava, as lágrimas secaram-lhe nos olhos, o oxigénio faltava-lhe e fazia um grande esforço para respirar, mesmo sem querer, sobrevivia, mais por instinto, do que por vontade. Manteve-se ali, imóvel, pondo o rosto de encontro o de Jiya, sentindo o leve calor que esta emanava.

Foi desperta pelo rapaz que se atirara também para o chão num ímpeto, vendo um pequeno pingente, uma opala azul irisada, pender-lhe do peito. Os olhos castanhos da jovem mulher ficaram presos no azul dos de Miguel que a olhavam também, mudos, cândidos, numa serenidade diferente e incompatível com aquele lugar. Jiya deu sinais de si, ouvindo-a tossir, roucamente…

- Vai-te embora. Sai daqui! – Falava-lhe numa voz fraca! Desaparece, antes que eu ganhe forças e te mate com as minhas próprias mãos…

Lera procurava aflita um local por onde sair. Saltava os corpos caídos pelo chão, tentando alcançar a saída, como uma prova de obstáculos. Miguel cavava, o pai, afastou-se dela, indignado.

- Desculpa, Pai, eu não sabia, eu juro…não sabia o que ele ia fazer…

Ilya mantinha-se fechado num silêncio magoado, dorido, como o sofrimento dela. Os olhos fumegavam e Lera sentiu-se sumir, desaparecendo também ela por entre os destroços que se levantavam.

- Por aqui, gritou o rapaz, mostrando um respirador do tecto da pequena sala. Está aberto…

Todos saíram pelo respirador e Lera viu, ao longe o corpo de Viko ser levado dali. A noite começava a cair, toldando o céu de negro azulado, profundo e sem estrelas. Ao fundo ainda se ouvia o barulho de rebentamentos. Sasha andaria por lá, algures, demasiado ocupado para lhe dar a mão, e isso doía-lhe. Ilya saia por último, amparando Jiya, que andava zonza e fraca, muito lentamente.

- Pai…desculpa-me. – Rogou, vendo o rosto indiferente do homem, por onde apenas escorriam umas singelas lágrimas de agonia.

- Perdi a mulher, perdi o meu filho e, a partir de hoje, não tenho nem nunca tive filha…não te dês ao trabalho de nos seguir…- Continuou o caminho, afastando-se com Jiya.

Lera não continuou, sentou-se no beiral do telhado e esperou, ou que a morte a atingisse, certeira, ou lentamente, não importava, desde que o tempo parasse para ela, como numa fotografia antiga. Porquê? Porquê? Porquê o Mundo? Porquê a Vida? Porquê nascer? Porquê o fim de tudo?

Tinha começado a chover, no chão enlameado a pedra de alma de Miguel distinguia-se, refulgente, tão azul como o tom dos olhos do seu jovem salvador. Sasha. A dor voltava inteira e corrosiva. Tão forte e inimitável que lhe custava respirar. Porquê a Vida? Porquê nascer? Abandonada, só. Apenas mais um plano insensato, sem direito a alma, sem direito a ânimo, sem alento, sem…

A voz tão conhecida, falou-lhe calmamente, enquanto o corpo se aproximava dela, numa imensa quietação.

- Antes de concluíres o que vais fazer, quero que te perguntes, quantas pessoas como tu seriam precisas para fazer tempo?

Questionou-lhe a mãe, chegando-se mais a ela, sentando-se no beiral poisando as mãos elegantes no joelho.

- Tu estás morta…morta… - Isto é mais uma alucinação…

- Não, não sou. Sou apenas mais uma das formas que o tempo sabe assumir…

- O que queres que faça? – Questionou Lera, em toda a sua mágoa.

- Que te levantes e que comeces a lutar!

Levantou-se e acercou-se mais do beiral. Olhou os pequenos pontos vivos que se desenhavam abaixo dos seus pés. Nada mexia, e no sideral vão do seu peito só entendia o coração pulsar, inclinou-se mais para a frente, dando impulso para saltar…

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Ao dar por mim, estava de novo no momento da explosão. Na companhia dos corpos dos meus entes queridos e do meu. Nada resistia, a não ser o momento. E aqui começa, ou acaba, a minha história. Sei que, ali, deitada naquele chão, coberta de destroços, podia adivinhar uma ténue pulsação. Não a minha, que cessava, mas a da Terra, feliz e em liberdade. Se me aproximasse, podia ouvi-la respirar.

Olhei-a. Diante de mim estava a minha mãe. Não pequena, como a vira, ainda menina, de boina vermelha na cabeça, anunciando-me o seu óbito, ou preservando vidas no patamar da morte, mas mulher, fisicamente presente, a mesma que me largara com um desconhecido, saindo friamente pela porta de um café. O seu rosto não tinha alterado nada, pelo menos na memória ilusória e aparente, que a minha mente de três anos fazia dela. Tudo me surgia vivo e nítido, como uma revelação.

- Agora já conheces a tua história. Contei-te tudo, para poderes entender a razão que hoje te trás aqui e poderes continuar, livremente, por ti! – Falou-me ternamente a sua voz. – Só conhecendo a origem é que poderás entender o fim.

Os meus olhos voltaram a si e responderam-lhe, cáusticos e incisivos, num mutismo agitado, que já não davam valor a nenhum tipo de vida.

Desinteressadamente, quase como se adivinhasse a resposta, levantou as mãos para o nada, balançando-as ao ar, por cima dos pequenos pontos vivos que se desenhavam abaixo, sob o raiar de um novo dia.

- Antes de te alçares deste beiral e te atirares para o vazio que te espera lá em baixo, quero que te perguntes: quantas pessoas achas que já passaram por aqui?

Voltei-me. A minha mente buscava desesperadamente algum sentido que a frase pudesse conter. Levantei a face macerada tentando deslindar-lhe o rosto, tão igual ao meu. Revi-me e a mesma dúvida existencial, plena de vergonha, absurda em culpa, tomou-me mais uma vez. Será que vivo por ela, ou é ela que ainda vive, por ser em mim?

- Tempo, Valéria. A única coisa que pedimos é que sacrifiques o teu tempo. Quantos é que achas que já se viram nalgum telhado, prontos a apostar o tempo?

A mulher levantou-se e pude finalmente perceber Valentina Durnova sem o seu ar frio e maquinal.

Levantei-me, o meu primeiro impulso foi abraça-la, recuperando um pouco do amor, das palavras perdidas de um sentimento que nunca vivi. Contudo, as lágrimas que expelia, amargas de dor, cortavam-me a garganta e as palavras entalavam-se estéreis, obrigando-me a parar. Deixei-me cair pesadamente para o chão e enquanto sentia a chuva encharcar cada poro do meu corpo, fechei os olhos, sentindo a vida afundar.

Ela aproximou-se, tomando-me nos seus braços, enquanto eu permanecia dura e inflexível, incapaz de me aproximar. Sentia-lhe o calor do corpo, a pele clara e rosada, de encontro à minha, a manga do vestido cinzento, tão molhada quanto eu. Não era alucinação, não era fantasma, nem sequer uma idealização minha. Estava viva e existia, pelo menos ali e naquele lugar. Lembrei-me das frases de Jiya e de Viko, aquando dos ensinamentos de alquimia.

A matéria é uma dança frenética de energias em constante mutação num mundo não apenas confinado aos nossos sentidos.

Todo o ser humano é um ser pulsante em diferentes frequências. Todos os corpos, factos e circunstâncias, não passam de agitações contínuas de energia

A voz aflita, tão emocionada quanto confusa, alcançava-me, disseminada nas explosões.

- Desculpa! Perdoa-me ter-te abandonado, ter deixado tudo. Mas foi a única maneira que achei de te salvar! Menti, mas foram os meandros da mentira em que me enterrei que vos fizeram viver.

Comecei por fim a entender a razão que me levava ao cimo do telhado e a história que acabara irremediavelmente por levar-me àquele fim. A minha mãe apertava-me mais contra ela, numa dor ressentida e manifesta. Levantou-me os olhos de terra, fulgurantes, num pranto visceral e contido, tão próprio dela.

- …e perdoa-me o que te estou a pedir…

Não reagia, enquanto o cérebro processava tudo a uma velocidade que não conseguia digerir. Os principais criadores da raça “superior” mortos, a sua família, ela.

- O Durnov, o meu avô Spencer, o Alexandre, O Viko, tu…falto eu! …não é diferente do que fizeste. Se morrermos todos, pode ser que deixem os outros sobreviver. “A emenda, a expiação e a salvação…”

Levantei-me do chão, sentindo todos os meus membros tremer. Gelava, ao som daquela chuva, avistava ao longe os clarões das explosões. Sasha. Apesar da dor, ainda o amava. Tanto. Apesar de toda a dor. Apesar…

Os clarões chegavam-me, submergiam-me, enterravam-me. Se o pudesse ao menos arrancar de mim, ali, àquela chuva de começo de manhã, naquele dia fatídico do meu sonho, onde me apercebia afinal das mil e uma maneiras que a existência tem de mirrar e deixar de ser. Aproximei-me de novo do beiral enquanto a minha mãe se levantava comigo, dando-me a mão. Como naquela tarde, em que também morri, puxando-me apressada até ao café. Não consegui evitar uma ligeira sensação de protecção, sentindo-me mais confortável sentindo a força que emanava daquela mão. Apertei-a com mais força. Aquela mão. A primeira que segurara, a primeira que me recebera, aquela que sempre fora o meu porto, onde recorria subconscientemente, recordando-me daquele sorriso e daqueles olhos, os mais belos, os primeiros que vi, os primeiros que me viram ao nascer, os meus. Inclinei-me, preparando-me para saltar. Sentia o coração pulsar-me na garganta. Dali a poucas horas também ele deixaria de viver. Contudo, que assinatura teria eu deixado nos caminhos por onde passei? Sempre de fugida, sempre furtiva, sempre brusca demais, sempre com medo…sempre…

A Terra continuaria a mexer, imperceptivelmente, num novo dia. Do seu centro, continuaria a cuspir fogo, inalterável, constante. Alheia à minha presença ou a qualquer outra existência que habitasse as suas entranhas, perduraria…

Parei. Sentia-me zonza e a mente rodopiava em turbilhão. Lembrei-me da morte de Daniel, da mão pálida e fria de encontro o meu peito e da minha vontade de viver, que crescera, incompreensivelmente. Que energia era aquela que me fizera levantar da estação de Kristiansaand e gritar? Que força fora aquela que me fizera levantar dos destroços da sala que jazia por baixo dos meus pés e daquele telhado e respirar? E que luz seria a que via nos clarões e naquela mão que não me cansava de apertar? Que gravidade impelia ainda as lágrimas que me exorcizavam, impedindo-me de saltar?

Aquele rapaz, de alma tão inocente como os seus olhos, que se lançara aos guardas num esforço de viver.

Afastei-me do beiral. Larguei-lhe a mão, gritando entre sussurros.

- Não! Amanhã, o coração até pode não bater. Mas hoje, ainda tenho coisas a fazer.

Sobreviver, acima da ira do meu peito magoado, acima de toda a destruição. Porque o meu nome era de força e acima do passado que me concebera, morava o amor que sempre me haviam confiado e que sempre me ofereceram, no cenário mais extremo dos limites da vida humana.

Eles ousaram acreditar que os Homens são mais que simples Homens, mais forte que a vitória, só a glória que esta encerra…

Ia voltar. Recuperar o cargo de Viko, que era meu, e lutar. Haveria outras formas de vencer, lançando-me para a vida e não à morte. Desci do telhado vendo ao longe a figura da minha mãe desaparecer. Pelo menos desta vez sabia como e porquê. Haveríamos de nos voltar a encontrar. Quando a Terra não tivesse fronteiras. E enquanto caminhava, podia afirmar que ela sorria, apoiando o caminho que me tinha proposto percorrer.

De toda a existência eu sou a fonte e o fim.

Germe; crescimento; declínio.

Vida e Lei

FIM

(Continua?)

Se preferirem, leiam o episódio em http://www.tvuniverso.com/Saga/14-e-15o-episodios.html

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magg, acabei por não acompanhar a história na sua totalidade. Li até meio, mas por falta de tempo comecei a deixar os episódios para trás. :\ Desculpa. Mas pelo que acompanhei, é uma boa história e tu escreves muitíssimo bem. Estás de parabéns.

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