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146: RTP Europa


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AVISO: Em 2022, não houve crónica "especial" (nível Daniel Oliveira de "especial") de Dia das Mentiras. A crónica que se segue pode ser considerada como a crónica do Dia das Mentiras deste ano, dado que partiu de um vídeo fake do canal Máquina do Tempo, e dada a chegada "do nada" da peta, só tive de construir a lore fictícia por trás da experiência depois da data :triste:

Seja como for, boa leitura e bom feriado (sei que é só para a semana mas precisava de fazer uma crónica menos séria).

Em 1974, antes da viabilidade da televisão por satélite, a RTP tentou lançar um projecto de co-operação com a ORTF, de modo a que as frequências do terceiro canal fossem utilizadas para os emigrantes portugueses residentes no país, com especial incidência em Paris. O projecto, denominado de RTP França, foi assinado em Junho de 1974, sendo que o terceiro canal iria dar uma faixa sem uso da tarde para as emissões em português, que esperavam a longo prazo com a emissão de programas gravados já emitidos em Portugal e de um Telejornal França.

Infelizmente, o projecto teve uma agravante: a ORTF estava em vias de desaparecer e a estrutura do outrora "inferno" (de tão repressiva que era) colapsou, criando novas empresas. A faixa vaga que era para ser usada pela RTP França passou a ser usada para emitir a programação da tarde da TF1 a cores na rede de emissores da FR3 (a TF1 passou a emitir a cores em 1976).

Outra decisão que pesou forte era o formato a ser utilizado. Até ao fim da década, houve a guerra entre o PAL e o SECAM, sendo que, como já sabes, devido a políticas partilhadas com a Alemanha Ocidental, o formato PAL acabou por ser escolhido. Assim sendo, o projecto da RTP França não pode ser avançado devido a potenciais custos de conversão entre os dois sistemas, caso contrário iriam impingir uma emissão PAL a preto e branco em televisores SECAM - algo que a esmagadora maioria dos receptores em França não iriam receber bem.

Porém, outra oportunidade veio com a massificação da televisão por satélite.

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No fim dos anos 80, a televisão dos estrangeiros era "terra de ninguém" para Portugal. As grandes potências europeias que já tinham pelo menos um canal de televisão nesta tecnologia que era o satélite "descobriu" o terreno português que nem Vasco da Gama a chegar a Goa cinco séculos antes. Os portugueses instalaram mais e mais parabólicas. Os dois canais da RTP (e com muita sorte algum canal local que ainda existia) deram lugar a canais como Super Channel, SKY One (no tempo do aviso de cima já não era SKY Channel), TV5, RAI (sobretudo a RAI Uno) e a RTL alemã. Esta invasão estrangeira, que já estava a englobar mais e mais pessoas, pôs muita gente a pensar numa possível "invasão estrangeira" do pequeno ecrã, onde se acreditava que os telespectadores iriam se assimilar com o que se falava nesses canais e, como se não bastasse, era um instrumento fundamental para desenvolver a Europa unida, antes do tratado de Maastricht que enriqueceu a CEE, passando a União Europeia.

Embora muita gente tinha trocado - e traído - a RTP pela SKY One, acreditando que "no futuro, iremos falar inglês, conduziremos à direita com carros importados do Reino Unido, tomaremos chá e iremos ler os jornais de Rupert Murdoch", a RTP tinha um plano ambicioso pela frente. Porém, este plano não iria englobar a Europa toda (num início) e sim um grupo restrito de pessoas.

No fim de 1989 começa-se a gestar um projecto secreto em simultâneo com a SKY de Rupert Murdoch. Devido à falta de canais no satélite Astra que tinha o pacote, optou-se por um projecto de emissão durante a madrugada, depois do fecho das emissões da SKY One, substituindo as páginas do serviço de teletexto.

Instrumental ao início da RTP Europa estavam as boas relações entre Carlos Cruz e Rupert Murdoch. Lição aprendida: graças a esta relação, a RTP conseguiu arranjar poupanças em 1991 para comprar a primeira temporada dos Simpsons para emitir a partir de Outubro daquele ano no Canal 1. Mais tarde, foi graças a ele e a relação com os produtores britânicos do caso Roswell, trouxe a célebre noite da autópsia do ET.

Mas regressemos a 1990. Com base na relação amigável (que nem jogo amigável da selecção portuguesa com algum país subdesenvolvido) entre os dois, a RTP assinou um contrato com a SKY para emitir uma emissão ainda em regime experimental da RTP Europa. A RTP enviava cópias de programas já emitidos em Portugal a Londres, onde a RTP tinha um escritório, e para financiar o projecto, optou-se por um sistema igual ao da SKY Movies (e que mais tarde foi replicado pela TV Asia): o canal emitia codificado, e em Fevereiro, deram-se as primeiras assinaturas a emigrantes portugueses e lusodescendentes na área de Londres.

Em Março de 1990, começou a RTP Europa, que emitia cerca de quatro horas por madrugada. Na fase de testes costumavam ser emitidos filmes portugueses (só chegaram pelo menos cinco, três com Vasco Santana e dois filmes portugueses dos anos 80), episódios da telenovela Passerelle, comédias (Eu Show Nico e O Cacilheiro do Amor) e programas diversos. Foi também emitida cobertura diferida dos actos de Sexta-Feira Santa de Braga, com a missa da tarde no Bom Jesus e a procissão do Ecce Homo (procissão tristemente apagada por causa dos centralismos que ditam a não emissão daquilo em canais nacionais, nem menos na Canção Nova).

Excertos da emissão de 28 de Maio de 1990 para ter uma ideia de como funcionava o canal:

Porém, os fãs do satélite no Reino Unido (e quiçá da Irlanda) começaram a notar que "o canal da SKY One é codificado depois da emissão encerrar, só não sei porquê". Isto porque a RTP e a SKY secretamente deram as três mil assinaturas, todas elas restringidas à área metropolitana de Londres, onde havia uma forte concentração de portugueses, e não anunciou o canal em público, dado que o canal estava em fase de testes.

Em Abril de 1990, chegou uma correspondência às revistas de satélite do Reino Unido, dizendo que a RTP tinha arrendado as horas da madrugada e queria lançar o canal "a longo prazo". Muita gente achava que o canal RTP Europa era um canal pornográfico, algo que era visto com um ar mais céptico por parte da legislação britânica.

Terminado o período de provas em Junho de 1990, avançaram-se as negociações para que o canal ganhasse transponder próprio, aumentando também o número de horas de emissão, e passando a emitir em horário nobre afim de ter uma programação mais diversificada, permitindo também a criação de programas de produção própria, e um noticiário para a diáspora. Contudo, havia uma série de divergências que condicionavam o futuro do projecto:

  • A RTP acreditava que iria emitir o canal para a Europa inteira, visando também uma comunidade mais ampla residente na zona francófona da Europa, o que justificava uma audiência que seria mais do que o triplo, também estava a decisão de estar nos pacotes de base do cabo;
  • A SKY queria limitar o projecto ao Reino Unido, que estava nos planos (culminados em 1993) de restringir os seus canais ao seu território e ao da República da Irlanda.

Esperava-se uma nova programação em Setembro, quando os dois canais da RTP anunciariam a sua grande mudança. Mas ainda no verão, as duas empresas visadas não chegaram a concordata e a RTP teve que acabar com o projecto, reposicionando o mesmo para um canal verdadeiramente internacional (com recurso a seis satélites em regime FTA).

Também, outro dos factores que condenou o projecto foi a TV Asia (vendido em 1995 à Zee Entertainment Enterprises). Como a diáspora indopaquistanesa era muito grande, os donos do canal acreditavam que a emissão regular do canal iria resultar nas frequências da RTP Europa. Ao contrário do projecto experimental, a TV Asia tinha mais recursos, apresentadores, e outro transponder para emitir a emissão da manhã. Também, a emissão começava com alguns minutos descodificados (para dar aquele cheirinho aos assinantes) e só depois é que codificava a emissão. A totalidade da grelha da RTP Europa, por sua vez, era codificada.

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Estes planos culminaram no dia 10 de Junho de 1992 quando, às 15 horas (hora de Lisboa), o verdadeiro quinto canal da RTP entrou no ar, a RTP Internacional, aproveitando algumas ideias rejeitadas. Entre as ideias, estavam a de um programa geral para a diáspora, que acabou sendo lançado como Rosa dos Ventos, o primeiro programa de produção própria do canal.

Quanto à RTP Europa, o canal foi um surto colectivo. Raras eram as vezes em que a RTP quis falar sobre o projecto, como se fosse uma televisão local clandestina dos anos 80 da qual o governo estragou todas as provas da sua existência e queimou as cassetes dos jogos de futebol. Nem sequer constava do livro dos 50 anos da RTP, dado que o canal era um assunto externo. Uma cassete foi digitalizada por volta de Fevereiro de 2023 pelo Afonso Gageiro. A memória colectiva acabou substituíndo o canal pela RTP Internacional, canal que resultou e resultou bem.

PS: Uma crónica de Dia das Mentiras no dia 18 de Abril, como disse no início? Achei a lore da RTP Europa interessantíssima e decidi inventar a fundo a história do canal. Infelizmente ninguém sabe se para o ano irei sacar algo do mesmo naipe, que seria planeado a 31 de Março, para depois entrar no bendito dia 1 de Abril em cheio e em grande. Aqui não tenho piadas internas suficientes, o mais próximo que meti foi a publicação do debate da autópsia do ET, por estar no mesmo canal e talz

Quiçá em breve falarei sobre uma dimensão paralela em que o primeiro canal privado português era a Portusat. Emitia da Holanda para fugir ao estrito monopólio da RTP🙃

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