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134: Cosmos-Maya


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Pois é.

O D'Artacão voltou (é assim que se escreve?). Pelos vistos o plano do filme já era antigo, do início dos anos 2010, mas aparentemente caiu devido a factores desconhecidos, ou o filme encontrava-se incompleto ou os fundos da Navarra que a BRB pretendia usar caíram.

O que é que o D'Artacão tem a ver com o tema desta crónica? Supostamente em 2018, esta enigmática empresa indiana decidiu recompor o plano do filme, porque será? Porque tinham computadores mais potentes? Porque não dava para financiar só com dinheiro europeu? Porque sim?

E porque é que tornou uma série em 90 minutos? Segundo uma recente entrevista de Claudio Biern Boyd ao jornal Heraldo da Navarra:

"As séries de 26 episódios já não são rentáveis. As crianças mudaram e os pais também. Hoje uma criança dialoga com 40 ecrãs e está completamente deslocada."

A escolha da Cosmos-Maya parece que teve reflexos na escolha anterior da Nippon Animation (e mais tarde da taiwanesa Wang Film, porque O Regresso de D'Artacão não pode ser animado no Japão por culpa do copyright). Algures nos anos 80, Claudio Biern Boyd disse que fazer o outsourcing à Ásia aceleraria o processo de animação, sendo que em Espanha as coisas durariam bem mais tempo. Já nos anos 90, quando a BRB tinha demasiadas ideias "fora da caixa", um pouco distantes do imaginário animal do início dos anos 80 (como aquela série marada sobre a história do futebol), a indústria em Espanha já tinha sido agilizada. Não sei exactamente onde é que se encaixa esta produtora indiana. O que sei é que será responsável pelo seu lançamento na Ásia.

Tudo isto para poder começar a falar da tal da Cosmos-Maya, finalmente :riso:

Apesar de ser a griffe em animadoras na Índia (2D e 3D), a empresa não tem artigo na Wikipédia inglesa, apesar de algumas das suas séries a terem. Diz ter sido fundada em 2013 mas a sua principal série, Motu Patlu, só estreou em 2012. Pelo que sei, o nome é uma junção de duas produtoras cuja fusão foi efectuada em 2013, e cujo início remonta a 1996.

Assim que entramos no site damos de caras com um ecrã de carregamento que tem uma selecção de personagens bastante colorida, uma mistura de personagens 2D e 3D, que depois leva-nos a uma lista de séries básicas - só uma das séries deu em Portugal, e vou dar a razão mais logo. Se descermos vemos algumas fotos do estúdio em si. Numa das fotos das salas de animação, dá para ver uma bandeira da Índia - algo que certamente reflecte o país sob a alçada do partido nacionalista BJP. Diz ter dupla nacionalidade (Índia e Singapura), sendo que a sede principal é em Bombaim e provavelmente escolheram Singapura como segunda sede para ter um local mais "estratégico" para criar séries que estejam um bocado deslocadas da realidade da Índia.

Em 2018, diz ter produzido mais de vinte mil minutos de animação (é isso aí, algumas das suas séries tem até mais episódios do que certas séries infantis dos EUA) em mais de mil episódios de meia hora. Numa entrevista ao The Hindu, dizem que o mercado da animação está estritamente reduzido às faixas mais infantis, o que faz com que a Índia infelizmente esteja a anos-luz de produzir uma série de animação decente para adultos. Agora querem explorar o mercado da realidade virtual, sendo que tal indústria na Índia está a ser analisada. Recentemente a empresa foi comprada por um fundo de investimento americano.

Em 2015 foi lançado o canal de YouTube WowKidz, o canal está bloqueado em partes do sul da Ásia (tirando o Paquistão) porque grande parte das suas receitas são para a televisão linear. Com estes canais, em diversas línguas, as suas séries principais chegam à diáspora. Infelizmente (ou felizmente), o alcance de muitas destas séries, sobretudo a principal (Motu Patlu) está, segundo a empresa, limitada para a cultura indiana e países onde a influência também chega, sendo que a dita foi também emitida em Singapura (em tâmil) e na Indonésia (em indonésio, of course) em canais terrestres, ao contrário da Índia onde passa no Nickelodeon que é um canal de cabo.

Vamos agora ver um pouco de cada propriedade intelectual que a produtora tem.

ATCHOO!

 

Esta série é uma das primeiras co-produções da Cosmos-Maya com produtores europeus, sendo que a série teve apoios da Rai e animadoras italianas. Lembram-se do Martim Manhã? Pois esta série foi longe demais: em vez de acordar todos os dias com uma personalidade diferente, a personagem principal torna-se noutra espécie graças ao espirro e tem de espirrar outra vez para voltar ao normal. Em Portugal a série deu no Nickelodeon (devido a um acordo entre os italianos - mais do que a Cosmos-Maya - e a Nickelodeon na Europa) primeiro e mais tarde na RTP 2, para depois ter sido retirado ao fim de um ano.

Foi certamente o início de tantas co-produções que a produtora quer ter na Europa, e o recente filme do D'Artacão (com financiamento deles) é uma prova.

VIR: THE ROBOT BOY

Série que estreou no canal Hungama (da Disney) em 2013. O vídeo de cima é do canal Wow World que tem dobragens em inglês das principais séries, o que dá para entender melhor. Vir é uma série sobre um robô humanóide com emoções humanas (pensem no Doraemon), que diz ajudar os outros e talz. Os seus amigos incluem um burro de estimação, um génio (daqueles da literatura das 1001 Noites/Aladino) e dois humanos. O episódio de cima é uma continuação de uma luta entre o Vir e clones maléficos dele. Foram produzidos 145 episódios entre 2013 e 2016.

KISNA

Estreou no Discovery Kids. Como não tem artigo na Wikipédia inglesa não sei exactamente do que se trata, mas entendo que seja uma série em 2D, e tal como praticamente todas as séries animadas que passaram a ter uma certa quantia de episódios, era inevitável o filão de merchandising, sendo que no site da Wow Kidz há mochilas da série à venda.

EENA MEENA DEEKA

Estreou no Hungama em 2015 e durou até 2017, tal como Kisna. A série é meio peculiar, pois tem influências de desenhos animados com animais tipo Tom e Jerry ou a superstar francesa Oggy (que é 800x mais popular na Índia do que na Europa), mas com uma narração, em detrimento de ter zero diálogo. Portanto há narração apesar das bocas das personagens não mexerem correctamente, coisa que foi acelerada nos últimos anos. Até o Cartoon Network teve de adoptar esta abordagem!

Dá para entender na mesma sem som, e ainda bem.

O vídeo tem 126 milhões de visualizações à altura em que escrevo a crónica, e é pouco mais do que a população do Japão.

SHIVA

Como a série tem conteúdo da plataforma Voot (da Viacom18), não dá para ver o embed, o que implica que ver os episódios da série esteja limitado ao próprio YouTube. Ainda assim, os episódios ainda chegam a quantias de quase 100 milhões.

Shiva estreou no Nickelodeon indiano, mas já passou duas vezes para o canal Sonic Nickelodeon, que começou como um canal de acção mas como as crianças só querem o que é local, passou a ser mais um repositório de séries com animais que nem cabiam no canal principal, o templo sagrado do Motu Patlu.

Shiva é sobre uma criança com poderes sobrenaturais. Quando derrotam vilões, recebem recompensas do governo indiano. Sim, do próprio governo! Será este mais um sinal da influência do BJP?

A série estreou em 2015. Ainda estão a ser produzidos episódios. Há bem pouco tempo a série mudou-se para o Sonic Nickelodeon pela segunda vez. Os canais infantis na Índia são muito nacionalistas (e esquizofrénicos). Se achavam que o suposto "nacionalismo" que a TV portuguesa tem agora, espera até veres o que é que a Índia tem.

CHACHA BHATIJA

Série no ar na Hungama desde 2016. Dois episódios da versão em inglês do canal Wow World, porque sim. Basicamente é uma série do mesmo naipe de Motu Patlu, mas entre tio e sobrinho. Personagens inspiradas numa tira de BD. Erros de animação constantes, falhas na posição de certos objectos, etc. E se achavam que só isto era o suficiente, esperem até verem Motu Patlu.

GURU AUR BHOLE

https://www.youtube.com/watch?v=KinJsxbBsZw

O embed não funciona, mais uma vez por causa da ganância das grandes televisões do país. No caso a Sony YAY!, canal infantil da Sony na Índia. Excerto de alguns minutos, dado que os episódios estão legalmente disponíveis na plataforma Sony LIV na região. A premissa é estranha: Guru é um cantor. As suas canções (pensem no Gigante) põem o Bhole mais forte. Uma das personagens é interpretada por Amit Kumar, filho de Kishore Kumar - dado que uma das personagens foi inspirada no cantor.

SELFIE WITH BAJRANGI

Mais uma série 2D, por sua vez mais uma série cujos direitos não estão com a Wow Kidz. Surgiu em 2017. Uns anos antes, em 2013, todo o mundo começou a usar a palavra selfie, como se fosse uma praga. A vida de Ankush muda quando aparece Bajrangi, uma criatura derivada do Hanuman, que só é vista por Ankush. Como li a descrição da série na diagonal na Wikipédia inglesa (e ainda com alguns erros), entendo que Ankush é humilhado na escola porque os outros não conseguem ver o Bajrangi. Todos os episódios acabam com uma selfie entre as duas personagens.

A série dá no Disney Channel indiano (que tem sido tudo menos Disney) desde 2017, e até 2020 dava na Amazon Prime por streaming. No ano passado mudou-se para a Disney+ Hotstar.

TIK TAK TAIL

Não. Não tem nada a ver com a portuguesa Tic Tac Tales. As personagens são, respectivamente, um coelho, um tigre e a sua cauda que tem vida própria. É mais uma série que tem uma fórmula tipo Tom e Jerry clássico. Estreou no Pogo (canal secundário do Cartoon Network na Índia) em 2017 e em 2019 mudou-se para o CN. Como no vídeo de cima, a canadiana WildBrain disponibilizou alguns episódios para o estrangeiro ver.

INSPECTOR CHINGUM

Antes de chegarmos a Motu Patlu, uma personagem da série ganhou vida própria em 2018, primeiro na Prime Video e depois na TV linear nos canais da Disney. Foram produzidos 52 episódios. Pouco para uma cisão da série mais importante da produtora.

GUDDU THE GREAT

O Disney Channel ficou com os direitos de outro spin-off, Guddu the Great, onde o leão do circo da série Motu Patlu também ganhou vida própria. A Wow Kidz só tem promos para o Disney Channel indiano, acho que por uma questão de direitos, contudo não sei quem é que tem os direitos de streaming.

BAPU

Mais um sinal do crescente nacionalismo da televisão indiana, a começar nas criancinhas. No ano passado o Disney Channel indiano estreou uma série que tem um avatar animado de Mahatma Gandhi, já que estreou em alusão aos 150 anos do seu nascimento. O Disney Channel tem os direitos em TV linear, porém a ZEE5 tem direitos em streaming. Ao menos a empresa acredita que uma série destas é mais educativa, sobre quais as coisas certas a fazer, quando a principal série da Cosmos-Maya faz o exacto oposto.

DABANGG

A 31 de Maio deste ano, o Cartoon Network estreou uma adaptação animada de um filme de Bollywood (e um que já deu na RTP 1). Aquando da sua estreia descobri que a série usa extensivamente o alfabeto devanagari em detrimento do inglês ou hindi romanizado. O canal fez também uma campanha para agradecer aos polícias indianos, e aquilo tudo era devoção ao BJP pelo talo.

A Cosmos-Maya diz ter produzido algumas outras séries em co-produção com a Europa, com empresas como a Studio 100. Se alguém do fórum ir ver a adaptação do D'Artacão que está por vir, pare e pense: se virem as versões 3D das personagens, pensem primeiro na obra-prima desta produtora:

MOTU PATLU

Em 2017, depois de um amigo meu da região ter dito que o Nickelodeon indiano iria se tornar num meme, dada a fraca organização do canal, esta promo apareceu do nada e bombou até nas gringa:

Na altura em que este exemplar de vergonha alheia foi ao ar na Índia, Motu Patlu já dominava três terços da programação do canal, em detrimento de séries do homólogo americano, o que faz com que o Nickelodeon na Índia seja único a nível de parvoíce. O império televisivo da Cosmos-Maya começou aqui em 2012.

Na altura em que a promo virou meme, o mundo passou a saber quem eram estas duas personagens, tanto que até um dos YouTubers mais conceituados, o PewDiePie, fez um vídeo sobre alguns dos jogos online da série (feitos às pressas), até a própria empresa tacar um copyright e tirou o video. (O mesmo fez um vídeo que incluiu este excerto de uma novela da Zee TV que tinha um abuso nos efeitos especiais)

As personagens nasceram há cerca de cinquenta anos como personagens de BD da revista Lotpot. Motu é gordo, faz tudo o que é errado e tem uma obsessão por chamuças. Patlu é o oposto e quer prevenir as acções de Motu. As personagens principais são todas adultas, sendo que neste grupo inclui-se também um cientista (Dr. Jhatka), uma pessoa que diz ter experiência em vários campos "há 20 anos" e o Inspector Chingum, que eu já mencionei anteriormente porque teve série própria.

Centenas de episódios foram produzidos, a um ritmo alucinante, comparável com a produção de séries como o Doraemon. Porém, ao contrário do Doraemon, pelos vistos, a produção de Motu Patlu é comparável com a actividade de uma fábrica de têxteis do Bangladesh. Os animadores trabalham incansavelmente e às vezes a animação em certos episódios deve ter falhas. Lembro-me de no fim de 2017 (quando a série ainda era meme) ter visto um episódio onde aparecia um smartphone, à qual tiveram de usar uma foto aleatória de uma interface Android que acharam numa pesquisa na internet.

Os títulos dos episódios são todos eles em inglês mas os episódios são em hindi, contudo a Wow World tem uma versão em inglês:

Contudo, alguns dos episódios em hindi tem legendas em inglês, espanhol e francês, pessimamente traduzidas:

Só para ter uma ideia do quão potente é esta série: gera uma audiência gigantesca na Índia e alguns dos seus países vizinhos; a série também foi vendida individualmente para canais terrestres no Nepal, Bangladesh, Sri Lanka, Singapura e Indonésia; contudo a série é grande desconhecida do mercado europeu, porque, ao contrário do que se espera com empresas com grandes ambições, a propriedade intelectual mais relevante desta empresa tem um significado cultural mais deslocado do Ocidente, estando limitado à cultura e diáspora do sul da Ásia, e por aí fora. Inúmeros telefilmes foram produzidos, houve um filme para cinemas (King of Kings), aqui foi lançado na Netflix mas sem tradução, dois spin-offs já mencionados e muito merchandising. Roupas, livros, brinquedos, etc. e tal. Recentemente as personagens visitaram a Europa numa série de episódios, todavia a série segundo a empresa não tem potencial para passar na Europa em si.

A empresa, apesar do seu impacto na Índia, continua a ser uma empresa "terciária" na Europa, e as animações que anda a fazer com empresas europeias são uma espécie de prova para que o modus operandi da empresa seja o mais deslocado da matriz possível. Só agora é que descobri que este novo filme, com a qual abri a crónica, afinal foi animado em Espanha, por uma pessoa que já trabalhou na série para televisão dos Invizimals, segundo um vídeo da produtora do Claudio. Não tarda nada, ainda vamos dar Os Lusíadas ao Cláudio, pedir aos mesmos estúdios que realize uma versão com as mesmas técnicas em filme onde as personagens principais são gnus, ou uma versão canídea do Eurico o Presbítero, que duraria cerca de seis horas total. Já seria quatro vezes um telefilme aleatório do Motu Patlu e ainda sobrava tempo para um episódio.

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ÚLTIMA HORA

https://www.animationxpress.com/animation/cosmos-maya-acquires-all-the-comic-characters-from-lotpot-comics/

Ontem a produtora comprou TODAS as personagens das BDs do Lot Pot, o que supostamente implica a criação de novas séries destas personagens para o mercado indiano. Eles ainda dizem que Motu Patlu era a ponta do iceberg.

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