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89: Canal de Notícias de Lisboa

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Uma das obrigações que a TV Cabo teve nos anos 90, com o seu crescimento e consolidação, era o potencial de emitir canais locais na plataforma. A TV Cabo tinha planos para dois canais, o "Canal Lisboa" e o "Canal Porto", e, por volta de 2000, planos para canais para Évora e Braga que nunca avançaram.

Infelizmente, quando alguém cria "televisões locais" em Portugal, o resultado é só um: acaba por ser visto em todo o país, em vez de ser visto por um grupo de pessoas confinado geograficamente a uma zona na televisão e talvez na internet para o resto. Agora que penso nisto, o hino da Amarante TV, cantado pelo mesmo "artista" da versão portuguesa de "Eu vou-te deletar-te e excluir do meu Orkuuuuuuuuuut, eu vou-te bloquear no MSN" também faria sentido se fosse "Ao ligar a televisão/A TV já está no ar". Juro que este tema ("Amarante, TV, Amarante, TV...") vai ficar na vossa cabeça por horas a fio.

Voltemos então aos temas sérios: nós sempre fomos um país de falta de televisões locais de jeito. Entre 1985 e 1987, a "televisão oficial de Lisboa" era a Televisão Regional de Loures, que era generalista. Havia uma falta de espectro para televisões regionais a sério como em Espanha, já que Portugal não tem comunidades autónomas. Logo, a única opção viável é criar canais para cabo. Poucas operadoras conseguiram ter sonhos concretizados, como a extinta STV Telecom com a Skycom TV (célebre por uma entrevista com a Maria Leal) ou o Canal 6 da já saudosa Pluricanal. Mas na TV Cabo, "canal local" é sinónimo de "canal nacional", uma vez que o canal é suposto ser visto em todos os head-ends da operadora. Foi assim com a Regiões TV (se bem que é exclusivo do cabo e que inicialmente não chegava aos head-ends todos), com o Porto Canal, com a NTV (o "Canal Porto" que estava nos contratos e que depois foi nacionalizado, agora é a RTP 3) e com o "Canal Lisboa". Melhor, com o Canal Notícias de Lisboa.

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Até há bem pouco tempo, o CNL era um dos canais menos documentados da televisão nacional. Muita gente acha que a SIC Notícias foi o primeiro canal de notícias português, quando na verdade o CNL teve tamanha proeza. Isto é basicamente o mesmo que no Brasil afirmarem que a Globo News era o primeiro canal de notícias deles quando na verdade haviam tentativas vãs desde 1991 - quando a TV Jovem Pan tentou ser um canal de notícias mas falhou (mesmo com apoios do Sílvio Santos) e o GNT da Globosat era um canal de notícias, até se aperceberem de uma coisa: "Espera aí, não acham que estamos a tornar o nosso canal de notícias num canal sem rumo? Temos de criar um novo".

Para um canal destes, a TV Cabo, que era o seu proprietário (e tinha ainda um contrato de exclusividade) investiu o equivalente a dez milhões de euros em 1998. O canal arrancou as suas emissões no dia 15 de Setembro de 1999 segundo esta página da TV Cabo.

Há menos de um ano foi desenterrado um vídeo com um quarto de hora de grafismos do CNL, sobretudo dos seus noticiários, por um espanhol. Isto porque na altura quem tinha a Via Digital (carinhosamente apelidada pelos adeptos do cardsharing como "Tia Vegetal") podia aceder ilegalmente às emissões dos canais portugueses do pacote satélite da TV Cabo, já que ambos os operadores emitiam no mesmo satélite Hispasat em regime de partilha. Dizem até que o grafismo é parecido com o da CNN+ da altura (e que tinha surgido uns meses antes) e que a previsão meteorológica "dá-me a sensação que fizeram os catalães". O próprio utilizador diz que o canal era "então quase experimental". Acho que, ao contrário da Europa Television, chegou a ter emissões regulares a sério, mesmo que isto implique estar ligado o dia inteiro a dar notícias em directo.

O CNL não afirmava ser "concorrencial". O canal tinha arrendado estúdios na Duvídeo (a TV Cabo nem sequer tinha estúdios próprios ao contrário da ZAP actualmente) e tinha uma emissão diária em regime 17+7. Porquê 17+7? Eu explico mais tarde.

"A TV Cabo, principal accionista do Canal Lisboa (CNL), apresentou o projecto do primeiro canal de notícias português. Ontem, em Lisboa, os responsáveis do CNL desvendaram alguns detalhes do canal, que vai fazer parte do pacote-base para os assinantes do cabo e terá um orçamento anual de um milhão e duzentos mil contos. Com uma equipa de 120 pessoas, o CNL aposta em caras novas e num formato alternativo para captar as audiências sem assumir um discurso concorrencial com as televisões generalistas. Graça Bau, administrador da TV Cabo disse que as perspectivas publicitárias "são boas", mas não quis definir fasquias para as audiências a atingir. "O nosso objectivo é fazer com que as pessoas se habituem a ligar o televisor sintonizando o CNL".Nessa linha, o CNL tem preparada uma emissão especial para as eleições legislativas, mas não faz questão de ter em estúdio líderes partidários ou membros do Governo, optando por "dar a palavra a outras pessoas que, estando ligadas aos assuntos, não sejam forçosamente os protagonistas", explicou a directora de informação Maria João Baptista. Procurar uma visão alternativa das coisas é, de resto, o lema do canal durante as 17 horas diárias de emissão que prometem actualização constante da informação, embora a grelha preveja um conjunto de sete programas de diferentes perfis e naturezas a emitir todos os dias, um por dia, entre as 22 e as 23 horas. A Anabela Mota Ribeiro e ao programa com o seu nome, caberão as honras de estreia no próximo dia 15. Ferro Rodrigues, ministro da Solidariedade, é o convidado deste programa "intimista" feito a duas vozes, de pendor biográfico, pessoal e cúmplice. Às quintas-feiras, Maria João Guardão promete um Estado de Sítio, feito em jeito de roteiro cultural de Lisboa, que oferece o que é obrigatório e o que é alternativo na vida do lazer da capital. Às sexta-feitas a actriz Paula Guedes apresenta o (in)Directo. É um jantar tardio (o programa vai para o ar entre as 22 e as 23) com um convidado num restaurante da capital para falar de tudo. Fernando Tordo segura a batuta do espaço Clube Tordo que anima os serões de sábado no CNL. É um formato de conversa e música de quem apresenta e de quem é convidado. No domingo, é Ivone Ferreira, ex-RTP, quem conduz o Sem Filtro, reservado às minorias, os grupos, os agentes da mudança seja qual for a sua dimensão. Luísa Castel-Branco abre a semana com um "talk-show" intitulado Luísa que pretende reflectir sobre a actualidade de forma descomprometida e atenta. A terça é de José Couto Nogueira, cujo programa, Metrópolis, promete virar Lisboa do avesso na análise de elefantes brancos e de pequenas mazelas urbanas, de uma forma "não politizada e acessível". Abrindo às sete da manhã com notícias, trânsito, meteorologia, revista de imprensa e agenda do dia nas primeiras três horas e meia, o CNL passa o resto da manhã nas mãos de Fernanda Freitas, que entre as 9h30 e as 11h30 é o rosto da Central Urbana, um espaço de informação variada onde cabe a culinária, a entrevista, rubricas variadas, informações úteis e uma grande aposta na interactividade com o telespectador. A interactividade é também o vector de Curto Circuito, programa diário de Rui Unas e Rita Mendes feito à medida dos espectadores de 14 aos 24 anos. Clara Pinto Correia faz um apontamento diário de 10 minutos intitulado Morfina, que está "orientado para o imprevisivel". O actor Carlos César lerá todos os dias um poema. O CNL está, nesta primeira fase, limitado aos recursos disponíveis, não possuindo, por exemplo, nenhum carro de exteriores que lhe permita fazer directos. Além disso, toda a estrutura do projecto está condicionada pelo (in)sucesso eventual das negociações com o SIC, na perspectiva de uma parceria, que se arrastam há meses sem resultados aparentes."

Raquel Loureiro apresentava o Central Urbana, programa que a catapultou à fama televisiva depois de ter sido estreado sem grande honra num programa da TV2, Outras Margens, em 1995. Era um programa da manhã, para preencher as horas entre o noticiário da manhã (Manhãs CNL) e o do almoço, com primazia para as entrevistas, saúde, culinária, etc. Basicamente o mesmo que um programa da manhã fora da RTP 1, SIC e TVI - de repente estou-me a lembrar do Matinais da Angelus TV ou do Manhãs na TV (nome mais baratucho de sempre) da Kuriakos TV, o único canal português que parece ter sido vindo de uma dimensão paralela. Pois este tipo de programa da manhã não contém barracos como na SIC ou na TVI nem crónica criminal.

Economias - aka Bloomberg Euronotícias - foi um programa que trouxe outro salto à fama - desta vez de Cátia Arnaut, na sua primeira experiência televisiva à data, com comentários dos directores dos bancos (haviam mais na altura). Era uma parceria com a Bloomberg, e se isto continuasse até teríamos uma Bloomberg portuguesa, até que em 2009 as versões europeias teriam o seu fim devido à crise.

Nem tudo era sério no CNL. O CNL deu-nos o seu único sobrevivente, o Curto Circuito, que esteve no ar durante toda a vida do canal. Com o fecho foi transferido para o canal de programação da TV Cabo como medida temporária até arrancarem com as emissões da SIC Radical. O programa ainda existe, vai fazer vinte anos no outono, mas piorou ultimamente. Piorou a um ponto que o Diogo Batáguas exige o seu fim.

Espero que o programa acabe se a SIC acabar com o canal ou coisa parecida (o próprio passou a uma posição mais alta na MEO). No seu auge, a NTV chegou a ter o XPTO, mais tarde Zona N.

Em horário nobre davam programas diversos (referidos em cima). Para fechar a noite, às 23:50, era emitido o programa Morfina. "O programa Morfina passou todas as noites no fecho da emissão directa do CNL, de Outubro de 1999 a Junho de 2000. Chamou-se assim em homenagem ao deus grego dos sonhos - Morfeu, porque a ideia básica era contar uma história às pessoas antes de elas irem dormir. No programa todas as histórias eram contadas por Clara Pinto Correia, e a ouvi-la estava sempre Quim Leitão, ambos enquadrados num ambiente em que a luz e os adereços assumiam duplas leituras. No fim do programa surgia a canção Morfina (o último texto publicado no livro)." O programa deu até direito a um livro e ainda uma cassete com todos os "episódios" do programa. Achavam que o Vivir Viver estava sozinho com o seu livro adaptado do programa Combatentes do Ultramar e que é uma relíquia das grandes? Uma maneira "requintada" de "encerrar" as emissões, já que o CNL não tinha meios para emitir 24/7. As restantes sete horas (entre a meia-noite e as 7) eram ocupadas por uma espécie de apresentação em PowerPoint avançadíssima com o tema do CNL a tocar em loop, no mesmo software usado para gerar o canal de programação.

O CNL entrou em polémicas devido à sua posição - era o canal 1, onde era a RTP 1. Isto puxou os generalistas para passarem às posições 2 a 5, o GNT do 5 para o 13, o Canal Brasil do 13 para o 21, a TVE para longe e o Sat 1 para bem mais longe. Isto no head-end de Lisboa, já que para nós o "canal 18" era no 26. Salvo erro houve solução e os generalistas voltaram a ter o seu lugar de volta.

O canal tinha incertezas iniciais, sobretudo por causa de uma potencial ameaça por parte da SIC de comprar uma parte do seu capital. E eventualmente avançaram, o CNL teve "tão pouco tempo para justificar a sua existência" (só para parafrasear a Europa TV, já que não existem registos da troca entre CNL e SIC Notícias) e a 8 de Janeiro de 2001, uma fatia minúscula do bolo de "canais avançadíssimos e com potencial da TV Cabo" deixou de existir.

Entretanto, depois de uma luta comprida com os proprietários, a resposta portuense estava por chegar, depois do fecho do CNL. Quem será?

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