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Tiago João

Um Buraco Negro

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Postado (editado)

Eu já não tenho opiniões. Os meus pareceres desapareceram, varreram-se por completo do meu cérebro. Agora só consigo ver um branco infinito na minha cabeça. Engraçado: antes tentava parar de pensar, tentava conseguir não pensar em alguma coisa, por momentos. Agora, parece que luto pelo contrário. Luto para manter um raciocínio. Luto para me lembrar de alguma coisa. Luto para ocupar o meu pensamento. Luto para pensar nalguma coisa. "Luto", quero eu dizer. Porque já nem lutar consigo - o vazio apoderou-se de tudo. O meu cérebro está vazio. Já nem consigo sentir. Já não sei o que é sentir. Aliás, quem sabe, talvez nunca tenha sequer sentido. Quando olho para trás não me lembro de sentir nada de positivo por ninguém, não sei o que é sentir amor, não sei o que é sentir paixão, não sei o que realmente vale uma amizade. Talvez a culpa seja das circunstâncias da vida, talvez. Antigamente sentia-me forte e orgulhoso por poder dizer que era "resistente" ao amor e não precisava da amizade. Mas isso acabou, a solidão dominou-me. Acho que me apercebi o quão impossível ou risível era viver assim quando olhei para outras pessoas que passavam o tempo a fazer o mesmo. Não faz sentido. E eu não consigo lidar com o que não faz sentido, aos olhos da minha lógica deturpada. Então para derrotar a solidão, instalei um vazio no meu sistema. Agora já mal sinto a solidão. Apenas a sinto por meros momentos, e são esses momentos em que me movo, como este, e consigo criar algo. Nos outros momentos, apenas ajo para os outros, ajo como se fosse um autor a escrever o rumo de um personagem, que, ironicamente, à muito perdeu o rumo, e o autor à muito que perdeu "a mão". Mão essa que soube escrever tão bem no início. Prodigiosamente, diga-se. Quando estou sozinho, tudo desaparece. Já não tenho de dar um rumo à minha personagem, ela adormece, consequentemente. Eu acordo, mas acordo morto. A personagem suga absolutamente tudo o que talvez ainda exista em mim. E apenas se criam mais vazios na minha alma. Ao início foram os raciocínios que travaram, depois as opiniões, que sem raciocínios não conseguem chegar a lado nenhum. Acabo por me ficar na premissa inicial de cada uma das perspetivas sem escolher aquela a que chamaria de "opinião". Quando adormeço, o meu personagem inventa uma opinião qualquer, apenas para não mostrar o quão deteriorado está o meu interior. Agora estou a entrar na fase em que já me perco. Dou por mim em locais da minha casa para onde queria ir, sem saber porquê. Abro gavetas, abro livros, abro sites, abro frigoríficos, abro armários, acendo luzes. Tudo para se abrir um vazio à minha frente no momento seguinte. Com cada vez mais frequência. Estarei a perder a consciência?

Antes ainda conseguia sentir pena, sabem? Pena de mim. Pena do próximo. Pena até de outros seres vivos. Às vezes até dos não vivos! [Lembro-me de quando imaginava como seria se um mosaico efetivamente sentisse. Tudo o que ele já teria vivido e presenciado ali guardado num pedaço de vidro. O que podia querer significar se ele se partisse? Seria uma questão de física ou além desta? Haveria alguma vida oculta efetivamente no mosaico?...] Perdi primeiro a pena de mim. Era a mais intensa. Era a que mais me fazia sentir. Nunca tive amor próprio nem pelo outro, bem, pelo menos não "amor". Mas sempre tive pena. Remorso. E perdi todo aquele remorso que tinha sobre mim. Era duro, mas fazia-me sentir vivo. Depois perdi pelo próximo, simplesmente. Talvez estivesse farto dos outros. Até que comecei a deixar de sentir pelos seres vivos. A natureza chegou a ser uma boa amiga e confidente, mas quando a esperança se perde, nada sobrevive. Queimei uma folha da primeira árvore que plantei à muito tempo atrás e enterrei-a sob pedra. O que sobrava de mim morreu nessa noite. Desde então só chorei por nada. Literalmente. Por não sentir nada. 

Nunca conheci os sentimentos, perdi a compaixão, agora perco as minhas habilidades mentais, devagar. Não consigo argumentar. As vozes do mundo sobrepuseram-se à minha voz, a minha palavra não tem valor. Já nem eu confio nela, com medo que seja falaciosa fruto da minha crescente irracionalidade. Quando falo com alguém não consigo articular premissas continuamente, não consigo acompanhar raciocínios, bloqueio... ... ... Como agora. O pensamento que aqui descrevo invade o meu pensamento, derruba todas as minhas defesas e atinge o meu logos. É angustiante não conseguir definir nada. Opinar sobre nada. Argumentar sobre nada. É angustiante deixar a minha personagem comandar o meu nada e torná-lo num nada cada vez maior. Quem sabe num buraco negro... Quem sabe num buraco negro, que até a minha personagem sugará... Quem sabe...

 

Autor: tjspy

Editado por Tiago João

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