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Gabriel


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Episódio nº1

Gabriel acabou os estudos e começou a trabalhar. Até então sua vida seguia um curso natural. Ele passava pela transição entre o ambiente escolar e o ambiente de trabalho, agora com mais responsabilidades e uma rotina mais rígida. Para Gabriel, foi a partir dessas mudanças que começou a sentir certas dificuldades que antes não percebia.

Ele começa a ter dificuldade de se relacionar com as pessoas no trabalho. Em casa seu comportamento começa a mudar, conversa menos com os irmãos e os pais. Gabriel passa a se isolar e sentir-se solitário. Aumenta a distância em relação às pessoas, evita sair com os amigos, não conversa muito quando os familiares vão à sua casa.

Essa situação começa a se tornar cada vez mais problemática e stressante. Então, Gabriel decide parar de trabalhar e ficar em casa a estudar para o exame. A família percebe suas dificuldades, mas sempre encontra uma explicação para o que ele está a viver.

Acredita que se trata de um período de mudança, uma fase difícil mas que vai superar.

Gabriel passa a maior parte do tempo no quarto estudando. Perde o interesse até em ver os jogos de futebol da sua equipa de coração. Tal comportamento preocupa os pais de Gabriel, e eles esperam que, depois do exame, seu filho faça novas amizades e volte a ser a pessoa alegre e cheia de vida que sempre foi.

Infelizmente Gabriel não passa no exame. Esse facto é vivido por ele como uma grande derrota e contribui para aumentar seu isolamento e sofrimento interior, longe dos amigos e distante nas relações familiares. Gabriel não encontra com quem dividir a situação difícil que está vivendo.

Aos poucos Gabriel começa a ter noções diferentes das coisas e dos acontecimentos que o rodeiam. Começa a encontrar evidências de que as atitudes das pessoas se relacionam com ele. Nós naturalmente não damos importância para o que as pessoas falam entre si ou suas atitudes, isto só acontece quando as pessoas se dirigem a nós. No caso de Gabriel, ele passa a ficar desconfiado e começa a acreditar que cada acontecimento ao seu redor se relaciona com ele.

Junto com essa desconfiança, Gabriel também começa a perceber o ambiente de uma forma diferente. As pessoas, as cores das coisas e os lugares, assim como os sons que escuta são sentidos com uma intensidade maior. Gabriel passa a entrar em uma maneira de estar no mundo marcada por uma grande perplexidade, que ele não consegue explicar para as outras pessoas. Essas novas percepções o levam a isolar-se ainda mais e tornam sua experiência diante da vida ainda mais difícil.

Sua família percebe as dificuldades, todos se preocupam com ele, com a mudança do seu comportamento. Os pais tentam conversar com ele, saber o que está a acontecer, aconselham Gabriel a sair daquele isolamento, e que procure sair com os irmãos e amigos.

As pessoas da terra também percebem que Gabriel está diferente, mais desconfiado, não conversa como tempos atrás. Entretanto, as pessoas costumam não dar muita importância aos conhecidos, elas estão mais preocupadas com a própria vida.

Gabriel continua se isolando e vai se distanciando até dos familiares. Suas percepções estão muito diferentes e seus pensamentos são marcados por uma visão distorcida do que acontece a sua volta. É importante destacar que Gabriel não tem a noção do que lhe está acontecer.

Gabriel começa a atribuir significado para as percepções diferentes que está a viver e sentir que as coisas que acontecem e as atitudes das pessoas realmente se relacionam com ele. Esta é uma experiência muito difícil, e a forma de dar sentido para ela é através de pensamentos que a justifiquem. Seus pensamentos às vezes se confundem, e ele não consegue interpretar de forma correcta o que as pessoas lhe falam. Ao mesmo tempo, as percepções dos sentidos apresentam uma realidade completamente diferente, marcada por sensações também diferentes. Gabriel percebe os sons de maneira mais intensa, até que começa a ouvir vozes. Os odores e gostos dos alimentos não são mais os mesmos.

Seu comportamento muda: Gabriel passa a ter atitudes que fazem sentido para ele, mas que para os familiares são muito estranhas.

As mudanças que Gabriel vive causam estranheza nos familiares e isso leva a conflitos nos relacionamentos. Para os familiares é como se Gabriel estivesse fora da realidade, suas atitudes não fazem sentido em situações quotidianas. Esse período é marcado por um arrepio nas relações, pois as pessoas reagem ao comportamento de Gabriel de acordo com as atitudes estranhas.

Apenas quando a família não consegue mais lidar com Gabriel é que procura ajuda de um médico que recomenda o acompanhamento de um psiquiatra.

Gabriel começa a perceber os sons com mais intensidade, de maneira que os sons que antes ele naturalmente não dava atenção passam a ser notados e a chamar a sua atenção. Ele passa a perceber barulhos estranhos, como batidas na parede de seu quarto, o que o leva a pensar que são os vizinhos que querem incomodá-lo.

Esse processo vai se intensificando e promovendo mudanças em sua forma de pensar. Então ele começa a ouvir vozes. As vozes conversam entre si sobre o comportamento de Gabriel, algumas o elogiam e dizem o quanto ele é querido, outras o criticam e apontam seus defeitos mais íntimos. As vozes são muito reais para Gabriel, apesar de não ver quem está falando, ele se vê envolvido por essa vivência, que vai se tornando cada vez mais assustadora. Os médicos descrevem esse tipo de experiência como alucinações auditivas. O que os médicos nem sempre percebem é que essas vozes não são somente uma experiência auditiva, mas se dão num contexto complexo que mistura emoções e pensamentos juntamente com as percepções sensoriais. Ao mesmo tempo em que as alucinações auditivas vão adquirindo forma, Gabriel começa a perceber as coisas que vê com um fulgor maior. As cores, a percepção de contorno das coisas e os movimentos das pessoas aparecem para Gabriel como uma vivência de que o mundo mudou, se apresenta de outra forma muito mais intensa.

Essa percepção também leva Gabriel a mudar sua maneira de pensar.

Elementos visuais aos quais as pessoas normalmente não dão importância, para Gabriel ganham um sentido especial. Certas sombras em sua casa lhe aparecem como a presença de pessoas. Ao olhar para o céu azul vê pequenas formas transparentes que configuram imagens de rostos e lugares. Em seu quarto, quando olha para a lâmpada, vê pequenos bichinhos que ele interpreta como “formas inteligentes de vida”. Os médicos descrevem esse tipo de experiência como alucinações visuais.

Gabriel também passa a sentir de forma diferente os cheiros e o gosto dos alimentos, o que como veremos ganhará um significado muito difícil para ele. Os médicos descrevem esse tipo de experiência como alucinações olfactivas e gustativas.

Essas percepções são vividas por Gabriel de uma forma solitária, pois não consegue compartilhar com os familiares o que está acontecendo com ele. Os familiares percebem seu comportamento diferente e sentem que ele não está bem, mas não sabem como chegar perto e transpor a barreira que o próprio Gabriel levantou.

Ao mesmo tempo que Gabriel começa a perceber o mundo de outra maneira através das alucinações, ele também vai construindo explicações para essas vivências. Ele passa a ter pensamentos e certezas muito incomuns.

No começo as percepções diferentes dos sentidos são entendidas por Gabriel como uma habilidade especial, como capacidades “paranormais”, e tal entendimento é inicialmente sedutor. Entretanto, essas vivências passam de sedutoras a assustadoras, marcadas por ideias de perseguição.

A sensação que Gabriel tinha de que o que as pessoas falavam e faziam tinha relação com ele torna-se uma certeza, de forma que tudo que acontece ao seu redor é entendido como parte de sua experiência. Assim, desde as conversas das pessoas na rua, a sua mãe limpando a casa, os programas de televisão, as músicas do rádio, tudo forma parte de um enredo no qual Gabriel se sente o centro dos eventos. Os médicos descrevem esse tipo de experiência como delírio de referência. As vozes que falam coisas agradáveis dizem para Gabriel que ele tem poderes especiais e tem a missão de mudar o mundo. Tudo o que ele sente e a certeza de que tudo ao seu redor acontece em função dele confirmam o que as vozes dizem. Esses são delírios de grandeza. Entretanto as vozes que dizem coisas desagradáveis para Gabriel dizem que mesmo com esses poderes ele não está fazendo nada e por sua culpa as coisas ruins acontecem no mundo, como os crimes e as guerras. Esse é o delírio de culpa. Gabriel passa a acreditar que está sendo filmado, que existe um complô entre o crime organizado e a polícia para persegui-lo, pois se ele usar seus poderes e resolver os problemas da humanidade eles perderão e serão atingidos.

Apesar de Gabriel não ver nenhuma câmara ou evidência física de que está sendo filmado, ele sente que isso está acontecendo, é uma certeza inquestionável. Nesse contexto, não há a quem pedir ajuda, pois até a polícia é suspeita. Quando ele começa a sentir cheiros e gostos diferentes nos alimentos, passa a acreditar que sua família quer envenená-lo para não ser atingida pela perseguição. Gabriel se sente acusado e ameaçado por todos os lados. Esses são os delírios persecutórios. Nessas condições, a família de Gabriel não sabe mais o que fazer e não consegue conversar com ele. Ele está completamente estranho, falando coisas que para eles não fazem sentido, passa a maior parte do tempo trancado no quarto, não fala mais com os amigos, mesmo quando eles telefonam. Os pais de Gabriel e seus irmãos sofrem por não conseguir ajudá-lo, mas no fundo mantêm a esperança de que esta crise de Gabriel irá passar.

As vivências de Gabriel resultam em uma relação muito diferente com o mundo, em que sua realidade interior se desorganiza e não corresponde à realidade externa, compartilhada pelas pessoas. As experiências das alucinações e dos delírios causam grande confusão nos pensamentos e percepções de Gabriel. Esse processo pode ser percebido na forma como Gabriel se comunica, como entende o que as pessoas falam e como conversa com elas. Os médicos descrevem esse tipo de experiência como desorganização ou desagregação do pensamento.

As vivências dos delírios e das alucinações normalmente são solitárias, difíceis de ser compartilhadas, além de serem assustadoras. As pessoas só conseguem perceber que a pessoa com esquizofrenia não está bem pela forma como ela se comunica e reage ao que lhe é dito. Gabriel está envolto em uma realidade muito diferente, portanto sua maneira de entender o que as pessoas dizem está afectada, há uma distorção na interpretação das informações. Assim, quando seus pais procuram conversar com ele, não entendem o motivo de seu silêncio e, quando ele responde, o que diz não faz sentido com o que está sendo conversado.

Seus irmãos não conseguem entender porque Gabriel está tão diferente, e quando conversam com o irmão, ele fala de coisas incompreensíveis. Isso se dá por ele saltar de um assunto para outro sem uma linha clara de raciocínio e também por falar de assuntos completamente desconhecidos ou muito estranhos. Quando Gabriel sai na rua e conversa com os conhecidos, eles logo percebem que ele não está bem e que está falando coisas absurdas. Rapidamente as pessoas passam a comentar que Gabriel está a ficar maluco, que é uma pena um rapaz tão jovem perder a razão dessa maneira.

Entretanto, Gabriel está vivendo percepções, pensamentos e sentimentos que só fazem sentido para ele e, da mesma forma que as pessoas não o entendem, ele também não entende o que as pessoas falam e fazem. As vivências de Gabriel são muito intensas e causam desconforto, medo e desorientação, e as pessoas não percebem o quanto isso é difícil para ele.

Os familiares não conseguem entender que a pessoa está vivendo uma experiência muito intensa e sofrida, esperam que ela aja de uma maneira que corresponda aos hábitos quotidianos, entretanto a pessoa não consegue, o que gera grande angústia.

Ao mesmo tempo em que Gabriel percebe o mundo a sua volta de forma diferente e seus pensamentos mudam, também a maneira como ele expressa suas emoções se modificam. Gabriel tem dificuldade em expressar o que sente e também em perceber como as pessoas expressam seus sentimentos. Os médicos descrevem esse tipo de experiência como embotamento afectivo. Quando as pessoas conversam com Gabriel percebem que, além de estar com uma maneira desorganizada de expressar suas ideias e seus pensamentos, também parece insensível ao mundo ao seu redor. Isso causa muitas dificuldades nos relacionamentos de Gabriel, principalmente com os irmãos e os pais. Eles sentem que Gabriel não reage, tanto às situações alegres como às situações tristes. É como se ele não tivesse sentimentos. A realidade interior de Gabriel é marcada por grande sofrimento, experiências emocionais muito intensas e impossíveis de serem expressas em palavras. Ele se sente perseguido, vigiado o tempo todo, tudo que acontece ao seu redor para ele está relacionado com o que pensa e percebe. As vozes constantemente comentam seu comportamento e suas atitudes. Gabriel vive uma realidade que é ameaçadora e na qual se vê mergulhado em situações que o desorientam constantemente. É a partir dessas vivências que Gabriel reage emocionalmente. Apesar de parecer para as pessoas que ele não está sentindo nada, na realidade, sua percepção está muito aguçada e pode perceber os detalhes das atitudes dos outros. Ele percebe quando as pessoas são irónicas, o evitam, ou esperam dele atitudes que ele não consegue corresponder.

A família de Gabriel percebe que ele vem atrofiando nos últimos meses, ele se isola no quarto a maior parte do tempo, não consegue mais conversar, muitas vezes fica falar sozinho, não tem disposição para as tarefas mais simples, descuida-se de sua aparência e da higiene pessoal.

Diante da situação em que se encontra, Gabriel não consegue realizar as tarefas mais simples como arrumar a própria cama ou ajudar sua mãe com as tarefas quotidianas da casa. Essa postura de Gabriel é entendida pelos pais e irmãos como preguiça. Gabriel sente-se sem energia, não tem motivação para realizar as coisas que naturalmente fazia antes. É preciso entender qual é o contexto que ele está vivendo e que sua falta de vontade não é simplesmente preguiça como as pessoas interpretam.

Sua família não compreende o que se passa no mundo interior de Gabriel, seus pais acham que cobrando-o para que ele faça as coisas que os outros irmãos fazem irá ajudá-lo a sair daquela inércia em que se encontra. Entretanto, essas exigências dos pais aumentam a angústia de Gabriel, pois ele não consegue corresponder ao que os pais esperam. Essa situação gera em Gabriel um sentimento de inferioridade em relação aos irmãos e que os pais não gostam dele da mesma forma que gostam de seus irmãos. Na comunidade, os amigos de Gabriel estão iniciando a vida profissional, trabalhando, estudando, namorando. E os pais de Gabriel não entendem o que acontece com seu filho, ficam se questionando “onde erraram” na sua criação. Os pais não sabem como ajudar o filho. A falta de vontade é vista como um problema de preguiça e gera angústia para ele e para os pais.

Hoje fica por aqui este episódio, que ainda não conteve falas, mas elas não vão demorar para surgir, o que você acha que Gabriel tem? Doença, Preguiça, Maluco ou é assim o feitio dele.

Deixem a sua opinião, peço desculpa se o texto se tornou maçador.

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Pobre coitado! Que terá ele? Eu aposto num problema psicológico, não sei. Só o autor da série é que poderá dizer e só temos que esperar pelos próximo capítulos para descobrir, para saber o que tem, afinal, "Gabriel".

As explixações médicas pelo meio do 1º capítulo dão qualidade ao episódio. Está bom, dá para transmitir o que se passa na vida de "Gabriel", sempre na expectativa de saber, ao certo, o que se passa com ele.

Espero pelo próximo capítulo.

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Episódio nº2

Um irmão de Gabriel estava na casa de um amigo e comentou as dificuldades que o irmão estava vivendo e como isso estava afectar toda a família. A mãe do amigo, que trabalha em um hospital como enfermeira, ouviu tudo o que ele relatou. Ela explicou que no hospital não se tratam somente doenças do corpo, que há uma especialidade chamada psiquiatria que trata de problemas como o que Gabriel estava vivendo e recomendou que o levassem para uma consulta.

A partir dessa conversa, o irmão de Gabriel contou para os pais o que havia ouvido. Os pais de Gabriel, no início, tiveram uma resistência em aceitar a proposta de levar o filho a um psiquiatra, pois a ideia que eles tinham da psiquiatria era muito negativa, em função das histórias que já ouviram sobre os hospitais psiquiátricos. Entretanto, vendo o sofrimento do filho e reconhecendo que já tinham tentado tudo o que podiam, e o problema só continuava agravando-se, decidiram levá-lo a um psiquiatra. Normalmente o psiquiatra deveria ser o primeiro profissional a quem recorrer em casos como o de Gabriel.

A consulta com o psiquiatra foi longa. Inicialmente, ele ouviu Gabriel sozinho e depois junto com seus pais. O psiquiatra explicou para Gabriel e para os pais que o problema era grave, mas existe um tratamento bastante eficaz. Procurou explicar que Gabriel tinha uma psicose, um transtorno que afecta o cérebro e dificulta as vivências da pessoa e que seria necessário tanto o tratamento com remédios como um acompanhamento com outros profissionais, como terapeuta ocupacional e psicólogo. Gabriel e seus pais saíram da consulta com uma série de dúvidas a respeito da doença.

A dificuldade em aceitar as explicações do médico e a busca de alternativas para lidar com a situação caracterizam este período de indecisão que em muitos casos se arrasta por anos.

No nosso caso, o início efectivo do tratamento do Gabriel atrasará em alguns meses em virtude das dúvidas e da confusão em que a família se encontra. Esse tipo de situação é muito comum, mas prejudica a evolução da doença e deve ser minimizado ao máximo.

Gabriel se nega a tomar os medicamentos receitados pelo psiquiatra. Ele acredita nas ideias que criou para explicar as percepções e os pensamentos diferentes que estão vivenciando. Ele acredita estar sendo filmado o tempo todo e que há uma conspiração contra ele.

As vozes que só ele escuta às vezes o elogiam e às vezes o criticam e dão ordens. Ele interpreta tudo o que acontece a seu redor como tendo alguma relação com sua vida. A percepção mais intensa dos sentidos dá um significado novo para fatos que são corriqueiros para seus familiares. Dentro desse contexto, Gabriel não consegue entender do que está a viver são sintomas de uma doença.

Seus pais não conseguem convencê-lo a tomar os medicamentos e não insistem, pois também têm dúvidas sobre a necessidade de remédios psiquiátricos. O desconhecimento e o medo são os principais factores que levam os pais de Gabriel a não seguirem as orientações do médico.

Os irmãos convivem com as dificuldades de Gabriel de outra maneira.

Renato, dois anos mais velho, não sabe mais como lidar com o irmão, não entende o que ele está passando e, para evitar discussões, passa a evitar Gabriel. Júlia, três anos mais nova, sempre conversou muito com Gabriel e passou a ser a pessoa em que ele mais confia nesse novo período, a única para quem ele consegue contar o que está vivendo e que o escuta e o leva a sério.

Os vizinhos e conhecidos do bairro passam a comentar que Gabriel ficou louco. Alguns se comovem com as dificuldades que a família está passando, outros não se envolvem, ou porque têm medo ou porque estão voltados para os próprios problemas e não se ligam no que acontece na comunidade.

Peço desculpa por este texto ser mais pequeno, mas talvez assim nao seja um grande esforço para as pessoas lerem e para nao tornar isto maçador...

Amanhã episódio nº3

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Gostei muito, para mim Gabriel está passando por uma grave depressão, um especie de esgotamento nervoso, em que tudo o que o rodeia conspira contra ele e a partir dai constroi o seu mundo, que só ele entende e não quer sair de lá, é um lugar bastante confortabel, onde não sofre.

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Episódio nº3

A religião, na nossa cultura, tem o importante papel de ajudar as pessoas a lidar com situações de sofrimento e desorientação. Ela oferece explicações que dão sentido para o desconhecido. Os pais de Gabriel irão procurar ajuda em algumas religiões como alternativa à explicação do médico, e dessa busca encontrarão uma orientação positiva.

Gabriel acredita que é o enviado de Deus para salvar o mundo. Tal certeza dificulta sua ida aos cultos religiosos, ele se nega a aceitar esse tipo de ajuda. Entretanto, essa crença de Gabriel é uma experiência religiosa profunda, trata-se de uma fé muito intensa, em que ele assume para si a responsabilidade pelos problemas do mundo.

Essa experiência será mais bem compreendida por Gabriel no futuro e será muito importante em sua recuperação.

Ao mesmo tempo, um casal de vizinhos ao saber das dificuldades de Gabriel, procura seus pais para oferecer ajuda. Em uma conversa longa, ouvem as dificuldades que a família de Gabriel está passando e falam da importância de procurar uma ajuda religiosa e manter a fé, que algum caminho Deus irá indicar.

Os pais de Gabriel buscam ajuda em várias religiões. As explicações são sempre parecidas: Gabriel está sendo vítima de um mal espiritual, do assédio de espíritos obsessões ou energias negativas. Eles passaram a rezar pelo filho e a frequentar os cultos de uma igreja. Mesmo assim, passados alguns meses, a situação vai ficando cada vez pior no convívio familiar. Infelizmente, no caso dos transtornos mentais, há ainda muita desinformação no meio religioso.

Foi no final de um culto que uma senhora, já idosa, perguntou aos pais de Gabriel o que os estava afligindo tanto. Surpresos com a pergunta, eles contaram o caso de Gabriel e as dificuldades que a família estava a passar.

A senhora ouviu tudo com muita atenção, fez algumas perguntas durante o relato e, por fim, depois de pensar um pouco, disse algumas coisas que iluminaram as buscas que eles vinham fazendo.

Ela disse que a fé é importante e a igreja é um lugar de luz, onde espíritos iluminados, ou, como muitos chamam, os santos, ajudam as pessoas a superar suas dificuldades. Entretanto, não podemos esquecer que vivemos em um mundo material e é nele que precisamos encontrar o caminho para que a ajuda divina aconteça. Continuou dizendo que no caso do Gabriel o caminho para essa ajuda também estaria em seguir o tratamento médico: “Deus deu aos homens a capacidade de aprender e a medicina existe para ajudar as pessoas”. E concluiu: “vocês devem pedir com fé para que o tratamento do seu filho seja bom e que Deus ilumine o médico para que ele encontre os melhores caminhos”.

Essa orientação deu uma nova esperança para os pais de Gabriel.

Os pais de Gabriel voltaram com ele ao Dr. Marcelo, o médico psiquiatra.

Assim como na primeira consulta, o psiquiatra conversou primeiro somente com Gabriel e depois com ele e com seus pais. Dr. Marcelo percebeu uma mudança na postura dos pais, que estavam mais abertos para o diálogo, relataram com detalhes as dificuldades que tinham com Gabriel e questionaram como o tratamento poderia ajudar seu filho.

Diante do interesse dos pais de Gabriel, Dr. Marcelo pôde explicar a gravidade da situação. Disse que o caso de Gabriel necessitava de uma acção imediata. Ele disse que poderia tentar o tratamento domiciliar caso os pais colaborassem e seguissem o tratamento à risca, mas se o caso piorasse seria necessário interná-lo para controlar.

Explicou que no caso de o Gabriel ficar internado teria um acompanhamento de uma equipa de profissionais de saúde durante as 24 horas do dia.

Dr. Marcelo explicou as dificuldades de iniciar o tratamento em casa, considerando a situação em que Gabriel se encontra no momento.

Seria preciso um acompanhamento bem próximo, observar como

Gabriel reagiria às medicações, o cuidado de não deixá-lo sair sozinho e cuidar para que ele tomasse as medicações nos horários prescritos.

Além disto, explicou que as medicações poderiam ter alguns efeitos adversos, explicou os principais, alertando que se eles ocorressem seria necessário levar Gabriel imediatamente para o hospital.

Os pais concordam em cuidar do filho em casa. O pai de Gabriel, o Senhor Paulo, diante das explicações do Dr. Marcelo, decide tirar férias do trabalho para acompanhar o filho. Dona Márcia, sua mãe, escuta tudo com muita atenção. Esse é um momento difícil para os pais de Gabriel, em que eles se dão conta que o filho tem uma doença grave.

Por outro lado, gera um alívio, pois eles saem da fase de dúvidas e passam a enfrentar o problema.

Dr. Marcelo chama Gabriel, e junto aos pais explica que é importante ele tomar as medicações, pois elas irão ajudar a diminuir seu sofrimento. Diante do médico e dos pais, Gabriel concorda em tomar os remédios e voltar para a consulta na semana seguinte.

Tanto Gabriel como seus pais escutam o médico dizer que ele tem uma doença e que os remédios vão ajudá-lo a se recuperar. Eles concordam em seguir o tratamento e colaborar com as orientações do médico, mas querem saber: que doença é essa?

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Episódio nº4

Dr. Marcelo explicou, com base nos relatos dos pais e no de Gabriel, que as coisas estranhas que o Gabriel vem sentindo nos últimos meses são sintomas de um caso psicótico agudo. O facto de ele ouvir vozes, boas ou más, que ninguém mais escuta, é um sintoma chamado alucinação. A sua crença de que está sendo filmado o tempo todo e de que há uma conspiração contra ele é outro sintoma chamado delírio persecutório. Assim como a atribuição de um significado novo para factos vulgares, como na vez em que o vizinho colocou uma toalha amarela na janela para secar e ele achou que o vizinho estivesse querendo dizer que ele era gay. Achou que ele estava a fazer de propósito para provocá-lo e espalhar que ele era gay para todo o bairro.

A impressão de que tudo o que acontece a seu redor tem alguma relação com sua vida é outro sintoma delirante chamado auto-referência.

Gabriel não se convence da explicação do médico e contesta dizendo que um amigo dele também ouviu vozes e não está tomando remédio. Dr. Marcelo pergunta para ele em que situação o amigo ouviu vozes, e ele responde que foi numa vez que ele usou uma droga ilícita. Dr. Marcelo explica então que algumas drogas desencadeiam alucinações, mas esse sintoma melhora quando acaba o efeito da droga. No caso do Gabriel, os sintomas vêm ocorrendo por pelo menos três meses na maior parte do dia, sem que nenhuma droga esteja sendo utilizada. Além disso, os sintomas têm atrapalhado bastante a vida de Gabriel, impedindo-o de fazer as coisas do dia-a-dia, tais como encontrar a turma de amigos, namorar, estudar ou trabalhar.

Está a ficar mais isolado a cada dia que passa.

Os pais de Gabriel ouviram falar de um conhecido que tinha uma filha com problemas parecidos e tinha o diagnóstico de esquizofrenia.

Eles perguntam para o Dr. Marcelo se o caso do Gabriel é de esquizofrenia.

O Dr. Marcelo explica que os sintomas são parecidos com aqueles que ocorrem na esquizofrenia, mas no caso do Gabriel esse diagnóstico ainda não pode ser feito, pois é necessário que os sintomas durem pelo menos seis meses para que o diagnóstico de esquizofrenia seja confirmado. Dr. Marcelo diz que nesse momento o Gabriel tem um quadro chamado de um caso psicótico agudo e a confirmação do diagnóstico ocorrerá com o acompanhamento ao longo do tempo.

Gabriel não fica muito convencido com a conversa, pois para ele as suas vivências são absolutamente reais e não sintomas como diz o médico.

Os pais de Gabriel entenderam que aqueles comportamentos estranhos não eram loucura, mas, sim, sintomas de uma doença que tem tratamento.

Isto os ajudou bastante a entender a importância do tratamento.

Voltando da consulta, o pai de Gabriel abre os remédios que o psiquiatra forneceu e os leva até o quarto do filho. Entretanto, para sua surpresa, Gabriel se recusa a tomar as medicações. Seu Paulo se irrita, pois acha que o filho deve o obedecer e fazer o que todos haviam concordado ser o melhor. Mesmo depois de uma acalorada discussão, Gabriel continua a não querer tomar os remédios. Com o tempo ambos aprenderão que nessas situações não adianta “bater de frente” com a pessoa que tem a doença. O melhor caminho é procurar entender a causa da recusa.

A mãe de Gabriel não sabe o que fazer ao ver a discussão de Seu Paulo com o filho. Ela conversa com o marido dizendo que mais tarde ela falará com o Gabriel. Depois de algumas horas ela vai conversar com o filho em seu quarto, dizendo que ela e o pai estão preocupados com ele. Pede para ele tomar os remédios e ele se nega definitivamente. Já fragilizada pela consulta e pela discussão de Gabriel com o pai, Dona Márcia começa a chorar diante do filho e seu marido precisa levá-la para a sala e consolá-la.

Os pais de Gabriel estão repetindo um padrão de comportamento do qual não se dão conta. É a melhor forma que aprenderam a lidar com os filhos. Nessas situações, é comum que os relacionamentos sejam emocionalmente intensos. Apesar de os pais de Gabriel estarem buscando o melhor para o filho, sabe-se que discussões muito intensas não ajudam a pessoa com esquizofrenia. O caminho mais promissor é o do entendimento da vivência da pessoa e da negociação.

A irmã mais nova de Gabriel, Júlia, chegou da escola e ficou sabendo pelos pais o que estava acontecendo. Foi conversar com o irmão e perguntou o que estava se passando com ele. Gabriel, que conseguia contar para a irmã as suas experiências, falou que o médico é bem-intencionado, mas as vozes disseram para ele que os remédios foram substituídos por veneno.

Por esse motivo ele não iria tomar os remédios. Quando Júlia entendeu porque Gabriel não queria tomar o remédio, ela pôde negociar com ele.

Júlia percebeu na caixa de um dos remédios um número de telefone de atendimento ao cliente. Ao lado de Gabriel, ligou para o laboratório, disse que desconfiava que o remédio pudesse estar adulterado. A pessoa que a atendeu pediu informações que estavam na embalagem e no papel do remédio, depois de um tempo de espera confirmou que ele não era adulterado. Assim fizeram com os outros dois remédios. Júlia procurou mostrar para Gabriel que não era a primeira vez que as vozes o enganavam e que os remédios eram para ajudar e não para prejudicar.

Só então Gabriel concordou em tomá-los.

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fico contente com os elogios que fazem a minha historia, nao sei quando irei revelar, se calhar vou fazer como nas novelas, so digo no ultimo episodio???nao mas eu vou ser amigo, vou ter que dizer qual e a doença, para saberem os efeitos que vai ter, já não falta muito.

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Episódio nº5

Após o início do tratamento, as pessoas, principalmente os familiares, esperam que os resultados apareçam rapidamente. Para que os tratamentos apresentem resultados, o processo se dá em uma escala de semanas a meses, é preciso manter a esperança realista e a paciência. Entretanto, as melhoras podem ser percebidas já no intervalo de alguns dias, como veremos no tratamento de Gabriel.

O início do tratamento foi acompanhado de perto por Dr. Marcelo.

Gabriel sente os sintomas diminuírem. As vozes aparecem com menor frequência e diminuem a sensação de estar sendo filmado e perseguido.

Consegue organizar melhor os pensamentos e a compreender melhor as conversas com os irmãos e os pais. Ainda persiste certo medo, que Gabriel não consegue entender de onde vem, e ainda não consegue se organizar direito com as tarefas do quotidiano.

Os pais de Gabriel o acompanham às consultas com Dr. Marcelo.

Gabriel fala muito pouco nas consultas. Os pais dizem que ele está a melhorar, mas está mais quieto e diferente, mais apagado, como se estivesse em outro mundo. Dr. Marcelo explica que isto se deve, em parte, à doença e, em parte, aos medicamentos, que é necessário acompanhar Gabriel e acertar aos poucos as doses dos medicamentos a partir da melhora dos sintomas. Ele indica para Gabriel o tratamento de terapia ocupacional, explica qual é a proposta desse tratamento e por que Gabriel se beneficiará com ele.

Gabriel e sua mãe foram, então, à primeira consulta com a terapeuta ocupacional, a Fátima. Ela os recebeu em uma sala cheia de quadros, objectos de argila, peças de mosaico, entre outros objectos, alguns prontos, outros não. Ela explicou para os dois que o objectivo principal do tratamento será ajudar Gabriel a organizar seu quotidiano e exercitar projectos com começo, meio e fim. Explicou que cada peça naquela sala era parte do projecto de alguma pessoa.

Ela disse que vinha conversado com Dr. Marcelo e uma primeira actividade será

Gabriel ir sozinho para a terapia ocupacional.

Gabriel passou a ir às consultas com Fátima uma vez por semana.

Toda quarta-feira Gabriel levanta cedo, toma banho e se arruma para essas consultas. Eles vão conversando sobre como é o dia-a-dia de Gabriel e como é possível melhorá-lo. Durante as sessões eles começam trabalhando com técnicas de pintura.

Com o andamento do tratamento com o Dr. Marcelo e com a Fátima,

Gabriel começa a sair do isolamento em que se encontrava. Ele volta a assistir televisão com a família à noite. Ajuda a mãe lavando o quintal e em outras pequenas actividades domésticas. Gabriel ainda tem dificuldade para conversar com os vizinhos. Às vezes ouve vozes e, dependendo da situação, ainda acha que o que as pessoas falam é sobre ele. Mas a intensidade dessas percepções diminuiu muito se comparada com o início do tratamento.

As pessoas dão muitos significados para a palavra loucura; geralmente, associam-na a uma mudança no jeito de ser, a uma perda permanente da razão e da autonomia, e que pode levar a uma perda do controle das próprias acções. Muita gente acha que a loucura não tem cura e que como consequência as pessoas que enlouquecem devem ser interna das definitivamente, pois não são confiáveis e podem se tornar perigosas.

A família de Gabriel não sabe o que pensar. Eles sabem que os vizinhos dizem que seu filho ficou louco e isso causa grande desconforto.

Os pais de Gabriel procuram Dr. Marcelo, angustiados com esta questão: Afinal de contas o Gabriel ficou louco? Ele escuta o que os pais têm ouvido dos vizinhos e percebe o quanto isso é difícil para eles.

Dr. Marcelo explica que “loucura” é uma palavra que as pessoas usam há séculos para explicar o que elas desconhecem; chamam de loucas as pessoas que têm um comportamento que não é igual ao de todo mundo. Explica que Gabriel não ficou “louco”, ele tem uma doença que tem tratamento. Essa doença causa grande desorientação, mas com os tratamentos, é possível controlar os sintomas, e com o tempo, é possível

Gabriel entender o que se passa com ele e lidar com a doença.

Os pais de Gabriel falam da dificuldade, principalmente do irmão mais velho, de conviver com Gabriel. Dr. Marcelo percebe que a doença de Gabriel está angustiando a família inteira e que explicar os mecanismos da doença, neste momento, não vai ajudá-los muito. Ele diz que no hospital existe um grupo de acolhimento para as famílias, que seria bom que todos os membros da família pudessem participar dele, pois isso poderá ajudar todos a lidar com o que está acontecendo.

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Episódio nº6

A primeira sessão nesse grupo foi marcante para todos, pois puderam falar de suas experiências e ouvir as experiências de outros familiares de portadores de esquizofrenia. Os pais falaram como era difícil lidar com o problema do fi lho. Júlia acha que seu irmão apenas é diferente e que cada um tem o direito de ser como quiser. Renato ficou calado, até Gabriel falar. Gabriel contou que vive com muito medo, ouve vozes e sente que está sendo perseguido, que as pessoas sempre estão falando dele, mas agora está bem melhor, antes ele nem conseguia sair do quarto. Júlia falou que gosta do irmão do jeito que ele é, e espera que o tratamento o ajude a sofrer menos. Os pais também dizem o mesmo.

Renato pode então se abrir, diz que gosta do irmão, mas tem medo de falar o que pensa, pois já percebeu que só piora as coisas, então evita problemas, entretanto vai mudar e parar de evitar o irmão.

A terapeuta pôde mostrar, a partir dessas falas, que Gabriel tem seus problemas, mas cada um tem suas questões a serem entendidas e mais bem elaboradas. E que aquele era um espaço para estimular a todos a falar abertamente dos problemas e ampliar o diálogo para convivência familiar do dia-a-dia. Com isso cada um pôde ouvir melhor as questões dos outros e ficou mais fácil lidar com as dificuldades.

Muitas pessoas desistem do tratamento quando melhoram um pouco ou se negam a tomar as medicações. Por outro lado nem sempre é possível seguir os tratamentos chamados psicossociais, como a terapia ocupacional e a psicoterapia.

Vejamos como esse processo se dá na vida de Gabriel.

Gabriel tem uma melhora progressiva com o tratamento. Aos poucos, durante os últimos meses, as vozes foram se tornando menos frequentes, até que desapareceram. Gabriel já não se sente tão perseguido e os pensamentos de que ele era o ”centro das coisas” que acontecem a seu redor vão perdendo a força. Entretanto, Gabriel vai se dando conta de que não tem mais a mesma velocidade de raciocínio, tem mais dificuldade que os irmãos nas coisas que fazem juntos, tem dificuldade para conversar com as pessoas e manter o assunto.

Isto o deixa um tanto desgostoso com a vida.

Nas consultas com Dr. Marcelo, em que vai acompanhado de seus pais, Gabriel reclama dessas dificuldades. Dr. Marcelo diz para Gabriel ter paciência e não desistir. Pede para que, aos poucos, ele volte a fazer as actividades em que tem mais dificuldade, pois com o tempo ele deve melhorar. Esse pode ser um processo longo e desgastante, mas é fundamental não desanimar para poder explorar todo o seu potencial. Diz: “Gabriel, todos nós temos limitações, mas precisamos aprender a lidar com elas e, na medida do possível, ir superando”.

Os pais de Gabriel sempre perguntam qual o diagnóstico do filho.

Dr. Marcelo avaliou cuidadosamente o caso de Gabriel até ter segurança para fechar o diagnóstico.

No próximo episódio vão ficar a saber qual é a doença, mas não se preocupem porque não é o último episódio, já não dá mais para continuar a história sem saber o que era...

Por isso não perca o próximo episódio...
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Como amanhã é domingo, é dia de descanso, vou estar de folga, e não vou

postar nenhum post sobre a história de Gabriel regressando apenas na segunda

feira com o episódio nº8 , você deve estar a pensar e o episódio nº7, o

numero 7 ja vou postar, por isso para todos os membros deste forum, deixo aqui o

episodio nº7 espero que gostem...

Bom fim de semana a todos os

membros.

Episódio nº7

Em uma longa consulta, mostrou que o diagnóstico da doença que Gabriel apresenta é esquizofrenia.

Nessa consulta, Dr. Marcelo tomou o cuidado de esclarecer todas as dúvidas de Gabriel e de seus pais. A primeira reacção deles é de decepção, pois eles acham que a esquizofrenia é um diagnóstico muito ruim.

Lembram-se da filha de um conhecido que tem esquizofrenia e tem um comprometimento grave. Dr. Marcelo esclarece que a esquizofrenia se manifesta em cada pessoa de uma forma diferente, não dá para comparar as pessoas. Existem alguns casos que evoluem sem grandes comprometimentos no funcionamento da pessoa. Disse que Gabriel está tendo uma boa evolução até o momento e que deve seguir os tratamentos para manter o que já conquistou e melhorar ainda mais.

Dr. Marcelo mostra para Gabriel e seus pais que o diagnóstico não é uma sentença decretada por um juiz. Explica que serve apenas para melhorar o entendimento das coisas que Gabriel está vivendo e melhorar o tratamento. Diz: “A esquizofrenia não define o que você é,

Gabriel, entenda apenas como uma doença que você precisa cuidar; você é muito mais do que a doença que você tem”.

Gabriel e seus pais questionam Dr. Marcelo se a esquizofrenia tem cura. Essa é uma questão importantíssima e é necessário entender mais de perto o que ela envolve. Dr. Marcelo sabe que esse é um momento muito importante do tratamento, pois a forma como Gabriel e seus pais entendem essa questão determina a forma como eles se relacionarão com a esquizofrenia e o tratamento.

Dr. Marcelo explica que a medicina conhece a cura para poucas doenças, mas ela propõe tratamento para muitas doenças de maneira que as pessoas possam viver melhor e com qualidade. No caso da esquizofrenia, há uma parte dos portadores (13%) que apresenta somente um episódio psicótico e retorna a seu funcionamento habitual após o episódio. Para os demais portadores, a medicina ainda não conhece uma cura, mas há tratamentos eficazes que ajudam as pessoas a viver com qualidade, pois previnem recaídas.

Gabriel questiona Dr. Marcelo se ele irá voltar ao normal. Dr. Marcelo responde que não se trata de normal ou anormal, a esquizofrenia é uma doença que muda o caminho de vida, a questão é se é possível viver bem e ser feliz. É possível viver muito bem, desde que a pessoa que tem esquizofrenia aprenda a viver nesse novo caminho. Gabriel pede para ele explicar melhor.

Dr. Marcelo responde com exemplos: “Gabriel, com a Fátima você aprendeu a pintar muito bem e a fazer belas peças em argila e mosaico, além de organizar seu dia-a-dia onde você é produtivo. Você ajuda sua mãe em casa, ajuda seu pai quando ele traz trabalho do escritório para casa”.

Gabriel questiona: “Mas minha irmã estuda, meu irmão trabalha e eu não consigo mais entrar na faculdade nem trabalhar, é isto que eu quero dizer com normal”.

Dr. Marcelo responde: “Gabriel, todos nós temos limitações, isto não quer dizer que não somos normais. A maioria de meus amigos médicos foi reprovada pelo menos duas vezes no vestibular até entrar no curso de medicina. O importante é você se cuidar, dando um passo de cada vez. Não está escrito em nenhum livro de medicina que você não pode trabalhar nem estudar, você não precisa desistir de suas aspirações porque recebeu um diagnóstico de esquizofrenia”.

Gabriel, então, reclama que não tem mais amigos como antes porque as pessoas o acham esquisito. Então Dr. Marcelo lembra Gabriel das vezes em que foi ao cinema com sua irmã e as amigas dela, lembra também das vezes em que se divertiu com o irmão ao ver a sua equipa jogar no estádio. Disse que não importa a opinião dos outros, o importante é Gabriel conviver bem com os amigos que ele pode fazer e que o aceitam como ele é, pois é assim para todas as pessoas.

Ao chegar em casa, Gabriel convida a irmã para dar uma volta no parque. Ele conta para ela toda a conversa com Dr. Marcelo.

Júlia escuta com atenção. Depois ela fala que talvez o problema não seja a esquizofrenia, porque se ele se tratar, a doença fica controlada.

O problema, diz Júlia, é Gabriel encontrar coisas para ser feliz e não se comparar com as outras pessoas.

A partir dessas conversas, Gabriel abre as portas de seu mundo interior para lidar com o fato de ter recebido o diagnóstico da esquizofrenia.

Nota:

Através da história de Gabriel, como se dá um processo de tratamento que começa com um episódio psicótico agudo até chegar a um diagnóstico de esquizofrenia. Conhecemos algumas das inúmeras dificuldades que as pessoas, tanto familiares como a pessoa que tem esquizofrenia, enfrentam. Inicialmente, uma grande dificuldade é entender a necessidade do tratamento, em seguida, a dificuldade é conseguir os tratamentos e, depois, a maior dificuldade está em aceitar os tratamentos propostos. Procuramos mostrar com o exemplo de Gabriel que esse processo é possível, pois se baseia em casos reais que conhecemos.

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Já desconfiava deste diagnostico.

Na verdade o que Júlia diz é verdade, muitas pessoas não lidam bem com as diferenças e afastam-se, fazem mal, nem todos somos iguais e temos de saber conviver com todos. E como diz o Dr. Marcelo o que importa é não desistir, se os amigos anteriores desapareceram, muito por culpa de Gabriel que os afastou, nada melhor como fazer novos.

Espero que Gabriel no final seja feliz.

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Episódio

nº8

A experiência de passar por um episódio psicótico agudo da esquizofrenia deixa marcas profundas na pessoa, é preciso muito esforço para se reintegrar socialmente passado o período de crise. Existe o medo de não ser aceito, a dificuldade de voltar a compartilhar as coisas mais simples do dia-a-dia como sorrir, estar tranquilo, fazer coisas que dão prazer, compartilhar o que se vive com os amigos. Quando se pensa em recuperação, normalmente olha-se para capacidade de readquirir habilidades sofisticadas, que permitem à pessoa participar do mundo competitivo em que vivemos. Isso pode acontecer ou não, entretanto pensando no que é importante para a qualidade de vida, é fundamental sentir-se bem e saber compartilhar a vida com as pessoas.

Vejamos como Gabriel vive esse processo.

Depois de alguns meses de tratamento, Gabriel decide voltar a estudar para o exame. Agora aconselhado pelo Dr. Marcelo e pela terapeuta ocupacional, Fátima, a não se isolar e a refazer um círculo de amigos, ele se inscreve em um curso pré-exames. Esse é um grande passo – vencer o medo e voltar a conviver com as pessoas.

O curso pré-exame é um lugar muito movimentado, com muitos alunos em grandes salas de aula. No começo, Gabriel se sente inibido, como se fosse menos capaz que os outros alunos. Entretanto, logo conhece Luís, um jovem extrovertido que conversa com todas as pessoas, e a amizade se dá naturalmente. Junto a Luís, Gabriel encontra vários outros rapazes e garotas e descobre que não é o único tímido da turma. Ele se sente feliz com a nova rotina e por ser aceito em seu novo círculo de amizades.

Porém, com o decorrer das aulas, Gabriel percebe que não tem mais a mesma agilidade de raciocínio e a mesma memória que tinha antes de adoecer. Sempre fica depois da aula no plantão de dúvidas, pois não consegue entender muitos dos conteúdos dados em classe.

Quando chega a casa, fica a estudar mais algumas horas todos os dias. O curso realiza periodicamente provas que simulam o exame vestibular, e Gabriel, apesar do esforço, não consegue ir tão bem quanto seus amigos. Isso o deixa frustrado, pois ele tem se dedicado muito aos estudos.

Em uma consulta com Dr. Marcelo, desabafa: "parece que depois da esquizofrenia eu fiquei mais burro, eu me esforço, mas acho que nunca mais vou ser o mesmo". Dr. Marcelo percebe a angústia e a frustração de Gabriel e procura ajudá-lo nessa questão: "Gabriel, você está em um curso muito puxado e se compara com quem vai bem nas provas, mas deixa de olhar para o grande número de pessoas que foram pior do que você. A esquizofrenia pode provocar algumas dificuldades de memória e raciocínio, mas tudo na vida se consegue com muito trabalho, você está no caminho certo. Procure não se comparar com seus amigos, cada um é de um jeito. O importante é você continuar em sua jornada, Gabriel".

A esquizofrenia é uma doença crónica, isto é, precisa de tratamento por tempo indeterminado. Um erro muito comum das pessoas que têm doenças com essas características é acharem que estão curadas quando os sintomas desaparecem e em função desse julgamento interrompem o tratamento, o que comummente leva ao reaparecimento da doença. No caso da esquizofrenia, infelizmente a volta dos sintomas, também chamada recaída, causa para a maioria das pessoas mais perda sem seu funcionamento em relação a vida. Gabriel comete esse erro, e é importante saber quais são seus motivos para entendermos o que se passa e evitar que isso aconteça mais vezes.

Gabriel conseguiu uma boa recuperação, mas ainda não está consciente de que a esquizofrenia, como qualquer doença, causa limitações.

Nós vivemos em uma sociedade que valoriza e estimula a competição e a aquisição individual; essa postura pode se tornar uma armadilha e dificultar muito nossa vida. Gabriel vive se comparando com seus amigos e acha que está curado, afinal não se sente mais perseguido, não ouve mais vozes, voltou a estudar, tem amigos. Ele acha que o que ele passou foi uma fase ruim, já superada. Associa suas dificuldades com os estudos aos efeitos dos remédios que toma e acredita que se parar de usar os remédios sua inteligência vai melhorar. Por isso, Gabriel pára de tomar os remédios e não volta às consultas com Dr. Marcelo nem às sessões de terapia ocupacional com a Fátima.

Passados dois meses dessa decisão, a vida de Gabriel começa a mudar novamente, vejamos como isso acontece: Gabriel sempre gostou de literatura e vinha escrevendo há algum tempo poemas e pequenos textos.

Escrever é uma habilidade que o faz se sentir igual a seus amigos e até melhor do que eles. Entretanto, com o passar do tempo, sem o tratamento, essa actividade começa a dominar a atenção de Gabriel, ele começa a achar que seus textos são muito importantes e que podem mudar a maneira como as novas gerações verão o mundo. Esse já é um sinal que anuncia a volta dos sintomas delirantes. As vozes voltam também e algumas dizem que ele é um grande escritor, outras dizem que ele é medíocre por não publicar o que escreve. Dominado por essas vivências delirantes e alucinatórias, Gabriel não mostra seus escritos para os amigos com medo que chegue às mãos de grandes escritores, que alguém roube suas ideias. Sente-se cada vez mais sozinho.

Uma característica comum da esquizofrenia é que a pessoa não percebe quando está entrando em uma nova crise. Gabriel começa a comportar-se de maneira muito diferente, e seus familiares percebem a mudança, mas não sabem o que fazer. Seus amigos e amigas também percebem as mudanças e não entendem por que Gabriel tem certas atitudes estranhas.

Até Júlia, a irmã que sempre conversou muito com Gabriel, não consegue se aproximar dele, pois como ele não tem consciência de que o que está vivendo é uma crise de esquizofrenia, não se abre com ninguém.

A segunda crise de Gabriel é muito mais grave que a primeira. Infelizmente este é um resultado comum em consequência à interrupção do tratamento e dos cuidados para manter a doença sob controlo.

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Eu logo vi que o "Gabriel" tinha um problema psicológico. Agora está desvendado, é esquizofrenia.

Mas depois de ele já estar bom (mais ou menos!), porque tem que ficar pior?! Porque teve que deixar de tomar a medicação?!

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Episódio nº9

Quando se tem uma recaída da esquizofrenia, a pessoa precisa de cuidado

mais intensivo. Os familiares também se desorientam, porque o convívio quotidiano e os fortes laços afetivos os levam a reviver todas as dificuldades já enfrentadas com seu familiar doente, intensificando um sentimento de não saber como agir diante da situação actual. Em momentos como esses, a ajuda de uma equipe de saúde mental é muito importante para que o sofrimento de todos os envolvidos possa ser acolhido e a pessoa em crise seja tratada apropriadamente. Vejamos como esse processo se dá na família de Gabriel. Gabriel não se dá conta de que está passando por uma recaída.

Mesmo já tendo vivido uma experiência anterior, as vivências atuais têm para ele uma realidade inquestionável. Os argumentos dos pais e irmãos não o convencem de que o que ele está vivendo são sintomas da doença. Ele se recusa a ir ao médico e também não consegue explicar para a família tudo o que está vivenciando. Esse processo gera muita desorientação para todos.

Senhor Paulo e Dona Márcia, os pais de Gabriel, procuram Dr. Marcelo e contam que o comportamento do filho está muito diferente, o convívio muito difícil e que ele se recusa a voltar a se tratar. O médico explica que Gabriel está vivendo uma recaída da esquizofrenia e afirma que é preciso uma intervenção o mais rápido possível. Sugere que levem Gabriel as urgências do hospital naquele mesmo dia e o procurem para que ele volte a atender Gabriel.

Ao chegarem em casa, os pais de Gabriel o chamam para uma conversa.

Tendo aprendido que o melhor caminho para lidar com o filho é através do diálogo e não da imposição, contam ao filho que conversaram com Dr. Marcelo sobre suas preocupações e que o médico pediu para lhe dizer que gostaria de encontrar com Gabriel.

No principio Gabriel recusava, pois diz que não está doente. Os pais afirmam que se ele de facto não estiver doente, Dr. Marcelo que sempre o tratou com consideração, apenas irá aconselhá-lo. Gabriel reluta, mas acaba aceitando, pois no fundo sabe que precisa de ajuda. A consulta com Dr. Marcelo foi longa, ele conversou pacientemente com Gabriel, que levou seus textos e falou das coisas que estava vivendo. Dr. Marcelo chamou os pais de Gabriel e explicou que ele estava com a idéia fixa de que só seria reconhecido por seus textos depois

que morresse, e que havia um risco importante de suicídio. Por esse

motivo o procedimento necessário para conter a crise de Gabriel seria

uma internação.

Dr. Marcelo explicou para Gabriel o que é uma recaída da esquizofrenia,

porque ela acontece com a parada dos remédios e a importância de

cuidar para que a crise se resolva. Explicou que a internação é necessária

para dar um cuidado melhor o dia todo e evitar outros riscos. A internação

duraria somente o período necessário para conter a crise que ele está

vivendo. Gabriel só se convenceu a ficar no hospital depois que sua mãe

garantiu que ela e sua irmã Júlia iriam visitá-lo frequentemente.

A internação psiquiátrica é uma medida de cuidado com as pessoas

com transtornos mentais para controlar momentos de crise. Ela não é uma punição ou um ato de desrespeito aos direitos da pessoa. Pelo contrário, tem a finalidade de proteger a pessoa e oferecer tratamento e atenção profissional em tempo integral. A internação hospitalar é um processo difícil em qualquer área da medicina: na psiquiatria ela é acompanhada pelo sofrimento tanto da pessoa como dos familiares, sofrimento este que faz parte da crise nos transtornos mentais. A

internação é recomendada quando a pessoa oferece riscos a si ou às

outras pessoas, ou ainda quando por mais dedicada que a família seja ela não consiga oferecer o cuidado que a pessoa em crise precisa naquele

momento. Deve durar somente o tempo necessário para conter a crise mais intensa e, assim que a pessoa atingir certa estabilidade, ela deve voltar para casa para continuar o tratamento ambulatorial, isto é, no consultório, indo às consultas periódicas com médico.

Depois da consulta, Gabriel foi encaminhado para a enfermaria psiquiátrica

do hospital, que consistia em um espaço de convivência com mesas e uma televisão, um posto de enfermagem e quartos com acomodações para três pessoas. Gabriel foi recebido por Luiz, o enfermeiro, uma pessoa amável e atenciosa, que o encaminhou para seu quarto e explicou que seus familiares trariam suas roupas e pertences ainda naquele dia.

O tratamento na internação consiste em manter um ambiente de respeito e boa convivência entre os internos, além de garantir que as medicações sejam tomadas nos horários corretos. O pessoal da enfermagem oferece cuidado integral a cada interno através de conversas, atendimento às necessidades de cada um e mantendo um ambiente tranquilo. Uma vez por dia, os médicos vêm para conversar com seus pacientes, fazer as prescrições dos medicamentos e conversar com alguns enfermeiros.

Também diariamente há grupos de actividades ou de conversas em que os participantes falam sobre os problemas que estão enfrentando e trocam impressões sobre os tratamentos.

No início, Gabriel achava que a internação fazia parte de uma conspiração

para que suas idéias e seus textos não fossem publicados.

Entretanto com o passar dos primeiros dias, conversando com outros internos, foi dando-se conta de que cada um deles, à sua maneira, tinha problemas, alguns também se sentiam perseguidos, outros mais deprimidos, outros mais agitados e confusos.

Sua mãe e sua irmã o visitavam todos os dias, e seu pai e seu irmão duas ou três vezes por semana, o que contribuiu muito para que ele se sentisse querido e fosse melhorando com o passar dos dias.

Com o efeito dos medicamentos os sintomas foram diminuindo, Gabriel foi dando-se conta de que as coisas que ele acreditava poderiam não estar acontecendo. Durante a internação, Gabriel fez amizade com outros dois portadores de esquizofrenia, Carlos e Francisca, que apesar de apresentarem sintomas parecidos com os dele, têm formas de apresentação da doença bastante diferentes.

A convivência com esses dois novos amigos o ajudou em seu entendimento da situação que estava vivendo, que descreveremos a seguir.

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Episódio nº10

Uma das grandes dificuldades para as pessoas com esquizofrenia acompanharem os tratamentos e conseguirem estabelecer um caminho de melhora é não terem consciência de que o que elas estão vivenciando é afectado pela doença. Tal dificuldade é também chamada de falta de insight ou falta de noção de doença. A esquizofrenia não caracteriza a pessoa, pois a pessoa é muito maior do que a doença. No entanto, na medida em que a doença não é tratada, a vida da pessoa é dominada pelos sintomas,e os outros aspectos da vida (social, profi ssional, lazer etc.) ficam bastante comprometidos. Durante a internação, Gabriel conheceu Francisca, que acha que não está doente; vejamos como é essa situação para Francisca.

Francisca passa por sua quarta internação em menos de dois anos. Ela sempre encontra explicações para os sintomas que está vivenciando, os delírios e as alucinações. Mesmo sendo uma jovem bonita, tem pouco cuidado com aparência e higiene, vive isolada, não tem amigos nem namorado.

Parou de estudar e tem difi culdades no convívio com os pais e irmãos.

Após as internações anteriores, ela passou um período tomando os medicamentos,mas depois se recusou a seguir os tratamentos. Por mais que a família tenha insistido, ela se negou a continuar o tratamento, e isso gerou problemas no relacionamento cotidiano. Esse processo foi tornando os sintomas cada vez mais intensos, e Francisca vem piorando a cada crise.

A esquizofrenia se apresenta para cada pessoa de uma maneira singular.

No caso de pessoas como Francisca, os sintomas parecem vivências tão reais que fica difícil entender que o que ela está vivendo está ligado à doença.

Ela sofre muito, acha que está sendo perseguida e filmada, que as pessoas a ridicularizam, e seu comportamento desestruturado dificulta seus relacionamentos, alimentando um círculo vicioso de sofrimento e isolamento social.

Como tratar a pessoa que não aceita que está doente? Os profissionais de saúde têm tentado construir com Francisca esse entendimento de que os tratamentos possibilitarão a ela redesenhar seu caminho de vida, mas todas as tentativas não foram bem-sucedidas até agora. Nessa internação, a equipa tomou a decisão de utilizar a medicação de depósito.

Que tipo de medicação é essa?

Esse tipo de remédio é chamado de antipsicótico de ação prolongada.

Ele é aplicado por injeção intramuscular e tem efeito durante uma a quatro semanas, pode ser aplicado nas consultas médicas e elimina a necessidade de tomar os comprimidos todos os dias. Nos casos como o de Francisca, a internação tem a finalidade de controlar a crise com medicação oral, em comprimidos, e depois do quadro estabilizado, introduzir a medicação de depósito. Essas medicações são bastante úteis, pois facilitam a adesão ao tratamento e reduzem as recaídas.

É preciso lembrar que o tratamento medicamentoso é fundamental; as pessoas que não conseguem aderir às medicações antipsicóticas via oral devem ser tratadas com medicações de depósito (de ação prolongada).

No entanto, as medicações sozinhas não dão conta dos problemas como os vividos por Francisca. Diante da dificuldade de adesão ao tratamento na esquizofrenia também são muito importantes: um plano terapêutico que contemple a orientação aos familiares, a terapia ocupacional e a psicoterapia. Os resultados podem ser positivos, mas é necessário um investimento continuado no convívio e no tratamento, e as respostas só podem ser percebidas em médio prazo.

Por mais difícil que seja no início, é preciso estabelecer canais de diálogo com a pessoa com esquizofrenia e entender seus motivos.

Nesses casos se diz que a pessoa tem esquizofrenia refratária. Essa é uma situação que merece atenção especial, pois as várias opções de tratamento psiquiátrico precisam ser tentadas e avaliadas até que se configure um quadro de esquizofrenia refratária e se definam intervenções específicas. Essa é a situação do outro amigo que Gabriel conhece durante a internação, o Carlos.

Carlos tem um comportamento mais desorganizado, frequentemente fala sozinho, às vezes respondendo às vozes que escuta, às vezes pensando em voz alta. Acredita que todos sabem o que ele pensa, e isso o atormenta e dificulta seu convívio com as pessoas. Veste-se de maneira incomum, normalmente com roupas sobrepostas.

A história de Carlos é marcada por dificuldades e sofrimento. Desde o aparecimento da esquizofrenia, ele teve um percurso de isolamento e de vivência intensa dos sintomas. Apesar de Carlos tomar as medicações nas doses adequadas, os sintomas não têm grande melhora.

Seus familiares, principalmente sua mãe, dedicam-se muito a seu cuidado, mesmo assim, Carlos vive alheio à realidade à sua volta.

Ele passou por tratamento com remédios diferentes e com variações de dosagens, entretanto a melhora desde o aparecimento da esquizofrenia foi muito pequena. Em casos como o de Carlos, no qual se caracteriza a esquizofrenia refratária, o tratamento recomendado é o uso de um medicamento chamado clozapina.

Por que não se utiliza desde o início a clozapina? Primeiro, porque na maioria dos casos há uma resposta satisfatória com outros remédios. Segundo, porque a clozapina é um medicamento que pode causar um problema no sangue chamado agranulocitose.Em função disso, as pessoas que tomam esse medicamento têm de fazer exame de sangue periodicamente para controle. É importante saber que com os controles adequados a clozapina é uma medicação segura e eficaz para o tratamento da esquizofrenia refratária.

Carlos está internado para controlar uma crise e também para o monitoramento do início do tratamento com a clozapina. Durante o período em que Gabriel conviveu com ele na internação, já houve melhora significativa de Carlos. Diminuíram as vozes, raramente ele fala sozinho e a sensação de que as pessoas sabem o que ele está pensando só aparece de vez em quando. Isso permite a Carlos voltar a se relacionar com as pessoas.

As pessoas com esquizofrenia que tiveram pelo menos dois tratamentos com antipsicóticos em doses adequadas e por um período adequado (4 a 6 semanas) sem grande resposta são consideradas refratárias ao tratamento e devem receber um tratamento com clozapina.

No caso da esquizofrenia refratária também são importantes o acompanhamento com a terapia ocupacional e a psicologia, bem como a orientação familiar. Devemos sempre ter em mente que o cuidado e a aceitação da pessoa com esquizofrenia pode promover, ao longo do tempo uma vida com qualidade.

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Esta história é uma boa lição para todo o mundo.

Pensamos sempre que os nossos problemas pessoais e não só são enormes e esquecemo-nos que outros tê problemas muito maiores, somos um pouco egoistas e depois não aceitamos bem os problemas dos outros, é complicado dar o braço a torcer e nem sempre uma boa cara é sinal de coisa boa, mal os outros sabem o que vai por ali.

Estou a gostar imenso desta história, és um bom escritor e empregas convincentemente certos e determinados termos medicos.

Muito bom mesmo.

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