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Cuida Bem dos meus Olhos…


Guest Lud
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Estavamos os dois caminhar na praia. Sentia a brisa do mar a bater-me nos olhos. Abri-os dificilmente, mas de nada adiantou. Tive medo do que pudesse ver, mas já não era a primeira vez que os abria. Negro. Tudo o que via era completamente negro. Tentava imaginar como seria a areia, o sol, a água, mas só me vinha á cabeça o que faria se pudesse ver.

Passámos por um grupo de miúdas que gozaram com a Ana. "Não tens vergonha de namorar com esse deficiente?". Ela não ligou, apenas me acalmou com as suas doces palavras: "Tem calma. Não ligues. Eu estou aqui e nunca te irei deixar!". Percebi que o que ela tinha dito era sincero e vinha do coração. Desatei a chorar. Perguntou-me o que se passava e eu apenas lhe disse para me beijar. Os lábios dela eram como mel nos meus: quanto mais se comiam mais se queriam. Mas parei, não podia continuar sem lhe dizer o que sentia. Senti uma coisa estranha dentro de mim, era uma espécie de força para lhe contar…

Procurei os olhos dela com os meus dedos. Fechei-os e ela irrequieta perguntou-me o que iria fazer. "Agora que estamos cegos, sem nos vermos, tenho uma coisa para te contar. Sabes qual era o meu sonho se eu pudesse ver?" Ela respondeu-me que não. "Casar contigo!". A Ana sorriu e beijou-me, ainda com os olhos fechados. Aquele beijo era como uma espécie de "Eu também quero casar contigo. Quero estar ao teu lado nos bons e nos maus momentos. Acordar contigo todas as manhãs. Abraçar-te e cuidar dos nossos filhos. Eu quero envelhecer contigo.". Mas ela resumiu estes sentimentos em apenas uma só palavra: "Amo-te".

Fomos para minha casa e queixei-me que estava cansado. Ela compreendeu e deixou-me sozinho no meu quarto. Deitei-me na cama, aconchegado com os lençóis novos que a minha mãe me pusera na cama.

Abri os olhos e tive uma ilusão. Vi dois olhos brilhantes sobre os meus. Tive medo, confesso.

"Está acordado! Operação 100 por cento". Não percebi quem tinha dito esta frase. Não sei se era daqueles olhos brilhantes ou se tinha sido o meu pensamento. Voltei a ouvir a voz, que me chamou desta vez. Nesse momento tive a certeza que não era um sonho e nem uma ilusão. Era real. Estava curado. Eu via, via tudo, via as cores, os brilhos, até a careca do médico. Sorri e o primeiro pensamento que me veio á cabeça foi a Ana. Durante os dois anos de namoro nunca a vi, nem sequer o sorriso, o olhar, o cabelo, o seu corpo. Sentia-a, cheirava-a e ouvia-a simplesmente. Queria sair dali, mas os médicos que estavam na sala não me deixavam sequer levantar.

Quando saí do hospital mandei uma "sms" à Ana para ela ir ter comigo à praia. Não me respondeu. Achei estranho, mas não liguei. Passada uma hora liguei-lhe. Contei-lhe a boa nova e pela voz dela percebi que estava feliz por mim, mas algo me fez tremer. Não sei o que se passou, foi como uma espécie de aviso.

Vi a Ana a chegar à praia. Fui a correr (coisa que não fazia) para ele e reparei numa coisa que me deixou a pensar, mas a alegria era tanta que só pensava em mim. "Ana estou curada. Eu já consigo ver." E via, via o ar melancólico dela, o rosto sofrido, o cabelo murcho. Mas não quis saber, estava tão feliz que nem lhe liguei. Corri para o mar como uma criança, para sentir, ouvir e ver a água a bater nas rochas. Chamei-a e ela veio a correr. Vi-a cair bruscamente na areia. Senti um aperto no coração. Voltei para perto dela e olhei-a nos olhos pela primeira vez na minha vida. "Os teus olhos Ana, os teus olhos, onde estão? O que se passa? O que se passa, Ana?". Fiquei perplexo: a minha namorada era cega. "Agora que vês… casas comigo?". Engoli a questão a seco. Não sabia o que responder. Se dissesse que sim poderia lembrar-me de tudo o que sofri, mas se dissesse que não, não estaria a ser justo para o meu coração. Afinal de contas eu amava-a. Mas a vergonha de ter alguém que não vê ao nosso lado é tanta. "Desculpa-me Ana mas eu não posso casar contigo." Ela perguntou porquê. E eu respondi "Porque és cega!". Estas palavras fizeram-me recuar. Não acreditei no que tinha acabado de dizer. A visão transformou-me numa pessoa má. Estava mais ou menos a cinco metros de Ana quando ela disse, banhada em lágrimas, "Cuida bem dos meus olhos…".

Inspirado numa sms que recebi! ;)

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